quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Não prometo

Não prometo fazer uma série de coisas em 2009!

Não prometo que vou parar de fumar, porque já parei há três anos. Se conseguir continuar a vida assim, tanto melhor. Se fumar é bom demais, deixar de fazê-lo é melhor ainda! Acreditem....

Não prometo que não vou comer carne vermelha, porque não faço isso há muito tempo. Isso nada tem a ver com religião ou com a tentativa de ter uma vida saudável. Simplesmente não gosto de carne vermelha. Nunca gostei!

Não prometo que vou fazer regime. Hoje, com excessivos 75 quilos, sou um gordo feliz que se recusa a deixar de consumir refrigerantes e chocolate. Mesmo depois de ter sido aceito, ainda que timidamente, ao clube dos obesos, continuo sem me preocupar com a quantidade de calorias que tem um determinado alimento ou bebida. Assim, não prometo que vou olhar com atenção os níveis de calorias impressos nas embalagens que habitam o nosso mundo.

Não prometo que vou adorar fazer ginástica. Recuso-me a acreditar que, de uma hora para outra, irromperá em mim uma enorme vontade de fazer exercícios físicos. Que eu precise deles, não se discute. Tampouco se discute que eu os odeie, porque sou avesso a qualquer forma de esforço físico que não resulte em prazer. Aquela droga natural a que chamam de Endorfina, e que é liberada com alguns minutos de movimentação intensa, é algo que jamais logrei experimentar. Não me venham com aquele papo de que ela entra na corrente sangüínea e nos oferece uma sensação de bem-estar. Bem-estar é, aliás, algo totalmente diferente disso. Seja como for, tentarei movimentar-me com mais assiduidade.

Não prometo esquecer que o Corinthians esteve na segunda divisão durante todo o ano de 2008. Não prometo deixar de admitir que o gorducho Ronaldinho poderá trazer novos ares para a Fiel Torcida e para o espírito do próprio Timão. O menino já superou limites muito maiores do que reerguer um time com fracassos momentâneos.

Não prometo que vou deixar de me irritar com as sandices do Molusco Barbudo, porque, acreditem, ele demonstrou ter uma capacidade ímpar de me incomodar com seus comentários estúpidos. Não prometo, por conseguinte, que continuarei acreditando que o partido dele ainda prima pela ética, pela construção de valores democráticos e, sobretudo, pela lisura no trato da coisa pública.

Não prometo que vou esquecer que um dia discuti, esbravejei e briguei por uma idéia de política que se revelou uma falácia e mostrou que seus autores eram tão parecidos ou iguais aos canalhas que eu, do lado de cá, reputava uns verdadeiros imbecis. Não prometo que deixarei de me irritar com discursos que não têm o menor significado prático e que são, na maioria das vezes, produto de retórica ordinária.

Não prometo que vou continuar defendendo a necessidade do voto obrigatório como instrumento (ainda que autoritário!) de educação para cidadania. Não prometo isso porque realmente as escolhas políticas estão cada vez mais difíceis de serem tomadas e, ao contrário do que sempre professei, tenho visto políticos sem vocação, sem vontade de transformar a sociedade e sem aptidão para promover o bem comum.

Não prometo que passarei a acreditar na justiça e na capacidade do Judiciário albergar as demandas dos desvalidos e daqueles que nem sequer sabem o que é cidadania. Não prometo, também, que ficarei conformado com as arbitrariedades que cotidianamente se cometem no Brasil apenas porque já se sacramentou que a justiça é morosa, de difícil acesso e funciona de modo seletivo.

Não prometo que serei paciente com os dogmas religiosos que concorrem para tornar a humanidade atrasada. Não prometo que aceitarei discursos em desfavor da saúde e das possibilidades de cura dos males que são combatidos há séculos por gente que dedica a vida a isso, de corpo e alma.

Não prometo que manifestarei tolerância com aqueles que fazem guerras apenas por estarem envolvidos com crenças que, tirante algum valor cultural, são inúteis e perniciosas, já que pretendem legitimar as mortes de inocentes como se fossem realmente necessárias.

Não prometo que deixarei de acreditar na força do diálogo, da manifestação das idéias e do debate franco, sincero e aberto.

Não prometo que deixarei de amar as pessoas que convivem comigo e que sempre são capazes de me mostrar que vale a pena acreditar na bondade humana.

Não prometo nada disso!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Na verdade, o caralho

Língua Brasileira 4: Na verdade, o caralho

A frase-título desse post não é minha e tampouco a pronuncio. Embora possa soar mal-educada e até mesmo grosseira, é necessária! Explico...

O uso do "na verdade" tornou-se tão banal e rotineiro que perdeu seu sentido. São vários os incautos que iniciam frases com "na verdade".

Não parece razoável que a expressão deva contradizer alguma coisa sujeita à dúvida? É óbvio que ela pressupõe alguma condição ou frase prévia. Tal como as conjunções adversativas "contudo", "entretanto", "não obstante", "todavia", o "na verdade" deveria se opor a alguma idéia. Deveria, ao menos, servir para exprimir alguma ressalva. Não é o que acontece...

Um amigo me confessou que tem uma fantasia: diante de um "na verdade" despropositado, gostaria de dizer um "Na verdade, o caralho!". Não seria necessário explicar a presença do caralho. Havendo bom senso, disse-me, as vítimas do protesto logo entenderiam o que o caralho faz numa frase como essa.

Sugeri que, em vez do "caralho", usasse um "caramba". Ele, mestre em piadas sem nenhuma graça, me saiu com essa:

- Caramba, o caralho!

Nessas horas fico pensando o que fazem da nossa língua....

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Gerundismo insuperável

Língua Brasileira 3: Gerundismo insuperável

Que o tal gerundismo seja uma praga horrível – e já contestada até mesmo por quem não tem lá muitas noções sobre a língua portuguesa – não se discute. Infelizmente, somos vítimas constantes desse vício hediondo.

Minha lava-louça pifou. Liguei para a assistência técnica e expliquei a situação. A funcionária disparou:

- O senhor tem que estar trazendo a máquina aqui.

Respondi, comicamente:

- Minha senhora, seu eu for ficar levando a máquina aí, nunca vou chegar.

Ela bateu o telefone na minha cara.

No dia seguinte, recebi um telefonema. Não, não era da assistência da lava-louça.

- Eu gostaria de estar passando ao senhor as nossas ofertas, para estar dando a oportunidade do senhor estar vindo aqui na loja, para estar olhando.....

Já um pouco irritado, perguntei logo qual era o produto em questão.

- Alarmes!

Encerrei o papo. O que faria com um alarme? Moro em apartamento.

Já ouvi, também, várias inovações. O gerúndio parece ser mesmo bastante flexibilizado pela turma do "ando", do "endo e do "indo". É possível enfiá-lo em qualquer trecho, frase ou título.

Recentemente, contudo, ouvi algo inédito. Fantástico! De uma criatividade ímpar. O sujeito deveria ganhar algum prêmio pela insuperável invenção. Não era um gerúndio comum. Não se tratava de um "endo" simples. Era algo cujo conteúdo, de tão sofisticado, fugia à minha capacidade de imaginação. Sim, porque todos nós seríamos capazes de interpretar a frase. O problema reside justamente na imaginação, ou seja, na idealização da situação narrada pelo rapaz sapiente. Só mesmo um gênio seria capaz de construir aquela frase....

Pois o gênio era balconista de uma farmácia. Ao ser indagado sobre a disponibilidade de um remédio para venda, respondeu:

- Eu não vou estar tendo!

Convenhamos: essa foi insuperável!

domingo, 21 de dezembro de 2008

O poeta e o maestro

Língua Brasileira 2: O poeta e o maestro

Escrevo muito pouco sobre o Chico aqui justamente para não cansar os leitores do meu blog. Todos sabem a admiração que tenho por ele e a importância de sua obra na minha formação cultural. Fica, portanto, muito chato reiterar incessantemente os elogios ao poeta.

Então, na trilha sintética que pretendo imprimir à essa coluna, limito-me a reproduzir as palavras do Maestro Soberano sobre seu parceiro:

"O que eu acho mais extraordinário aqui no meu amigo e parceiro Chico Buarque é que ele fala português. É um negócio extraordinário. Quando ele faz uma letra.... assim.... eu.... fico.... incrível, eu fico louco, eu fico louco. Não só pra mim, pro Francis, pro Edu Lobo e tudo. Claro que eu tenho ciúmes, mas aprecio, né? Aprecio bastante, né? O português, essa esquecida linguagem...."


Fonte:

BUARQUE, Chico. Anos dourados. DVD. Direção: Roberto de Oliveira. Emi Music. 84 minutos. 2005.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Bacharelei-me, de novo

Ontem colei grau de novo e tornei-me, também, bacharel em Direito.

Antes da colação pensei em desabafar aqui, falar umas besteiras sobre a vida acadêmica, vociferar.... Queria gritar contra as formalidades inúteis dos acadêmicos de Direito. Onde já se viu vestir beca num calor desses? Pra que tanto discurso, tanto blá-blá-blá? Não estava disposto a participar da festa. Mas....

Fui para lá convencido de que a colação de grau era realmente importante para meus colegas. Se para mim pouco importava, para a maioria dos formandos aquele era um momento mágico. Embora com algum fastio, à medida que o tempo avançava percebi que estava envolvido pelo clima de festividade.

Os discursos – que há pouco chamei de blá-blá-blá – foram sintéticos e alguns chegaram mesmo a chamar minha atenção. Assinalaram valores nos quais realmente acredito.

Agora, festa acabada, vieram-me à cabeça as palavras de Brás Cubas quando conseguiu seu diploma. Tirante algumas poucas idéias, identifico-me com parcela significativa de seu discurso. Ei-lo:

"A Universidade esperava-me com suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades – principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumutuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei-o as margens do Mondego e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver – de prolongar a Universidade pela vida adiante...." (ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: LP&M, 1997, p. 57)

Em tempo, o nome do capítulo do livro é "Bacharelo-me". Daí o título deste post.

Abraços a todos!

sábado, 13 de dezembro de 2008

AI-5: Chico, Carvana e Passarinho

Hoje faz 40 anos que o AI-5 foi decretado. Os jornais estão falando no assunto com frequência. Ontem mesmo, Cony publicou na Folha uma belíssima crônica sobre o episódio. Não deixem de ler....

De minha parte, como ainda não existia, tudo que sei são informações de leitura, histórias e lendas. Conheço duas frases emblemáticas sobre a implantação do ato institucional. As duas traduzem as posições políticas daquele momento.

Diz a lenda que Jarbas Passarinho participou da reunião que culminou na edição do AI-5. Nessa ocasião teria dito:

- Às favas com os escrúpulos de consciência.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, Hugo Carvana estava na casa do Chico Buarque. Quando os dois viram na TV o ministro da Justiça anunciar o AI-5, Carvana disparou:

- Estamos fodidos.


Fontes das frases:

http://www.unb.br/unb/historia/entrevistas.php (Entrevista com Jarbas Passarinho)

BUARQUE, Chico. Letra e música. São Paulo: Companhia das letras, 1989, p. 82.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Língua Brasileira

Como já escrevi vários posts que versam sobre a língua portuguesa, é possível que dê a impressão de que reivindico um posto que não é meu e que jamais – jamais mesmo! – desejei: o de comentador sobre a Língua Portuguesa.

O professor Pasquale, tão conhecido da população brasileira, tem grandes méritos ao difundir algumas dicas e regras do nosso idioma. Não tenho dúvida de que exerça aquilo que Gramsci qualificou como "sentimento nacional-popular", ou seja, "a consciência de uma missão dos intelectuais para com o povo". Em outros termos, o professor Pasquale cumpre a função de difundir e vulgarizar (atente-se para o real significado do termo) a língua portuguesa. Para um país como o nosso, ainda com milhares de analfabetos, essa é uma iniciativa realmente nobre.

Feitos os esclarecimentos necessários, manifesto minha intenção de criar mais uma coluna de sucesso no blog. Trata-se da coluna "Língua Brasileira".

Poderia parecer um contra-senso que, na iminência de vigorar o acordo ortográfico entre países lusófonos, alguém se dispusesse a recusar a existência de uma língua portuguesa. Não se trata disso, em absoluto.

Para justificar a expressão "Língua Brasileira" bastaria reconhecer que, há tempos, o Brasil logrou romper com a dependência intelectual de Portugal. Em clássico ensaio, o mestre Antonio Candido notou que, com o advento do modernismo brasileiro, o diálogo com Portugal não "ia além da conversa de salão". Portugal deixou de constituir-se de referência lingüística para os brasileiros. Assim, no início do novecentos já não nos preocupávamos mais com injunções intelectuais da metrópole. Hoje, naturalmente, o assunto parece superado. Todavia, volvamos atenção ao que dizia Mário de Andrade.

Em seus fantásticos escritos do Diário Nacional, o líder modernista não se furtou a falar sobre o rompimento entre a língua brasileira e a língua de Portugal. Na crônica "Fala brasileira I", datada de 25/05/1929, asseverou:

"É por isso principalmente que possuímos língua brasileira. Tenhamos a coragem de acabar com sentimentalismos pelo menos inúteis. Nós estamos hoje, nacionalmente falando, por completo divorciados de Portugal. A língua que os dois países falam, prá grande maioria dos homens e das nações evoca o Brasil. Porque o Brasil importa atualmente mais que Portugal. (...) Coincidir ou não com a língua portuguesa e os termos vindo dela: não nos importa socialmente nada". (ANDRADE, Mário de. Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo: Duas Cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976, p. 112).

Creio que a citação de Mário, embora possa ressoar um tanto anacrônica e ter ares de resistência cultural hoje descabida, é mais do que suficiente para justificar o título da coluna Língua Brasileira!

Aproveito a deixa, para citar mais uma preciosidade do Mário sobre o embate entre Brasil e Portugal. Em carta a Manuel Bandeira, disse o poeta paulistano:

"Foi uma ignomínia a substituição do na estação por à estação só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós diz assim. (...) Não estou pitorescando o meu estilo nem muito menos colecionando exemplos de estupidez. O povo não é estúpido quando diz 'vou na escola', 'me deixe', 'carneirada', 'manfiar', 'besta ruana', 'farra', 'vagão', 'futebol'. É antes inteligentíssimo nessa aparente ignorância porque sofrendo as influências da terra, do clima das ligações e contatos com outras raças, das necessidades do momento e da adaptação, e da pronúncia, do caráter da psicologia racial modifica aos poucos uma língua que já não lhe serve de expressão porque não expressa ou sofre essas influências e a transforma afinal numa outra língua que se adapta a essas influências". (ANDRADE, Mário de. Apud FERNANDES, Lygia (org.) - Setenta e uma Cartas de Mário de Andrade, Rio de Janeiro, Livraria São José, s.d., págs. 71, 72 e 73).

Alguém ainda tem dúvidas de que a língua deve ser um fenômeno vivo, fluido, mutável e útil?

Bom final de semana!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A morte do Maestro Soberano

08 de Dezembro de 1994.

Havia chegado em Campinas naquele ano e ainda não sabia exatamente que aqui o aniversário da cidade (14/07) é comemorado no dia da Padroeira, ou seja, em 08 de Dezembro. Achei um feriado estranho, meio indefinido. Grande parte do comércio central estava em pleno funcionamento. Eram poucos os estabelecimentos fechados.

Precisávamos de dinheiro – cash – para comprar passagens. Iríamos para as casas de nossos pais no mesmo dia. Estávamos no Pão de Queijo Mineiro, da Glicério, quando tive impressão de ter ouvido, pelo rádio, uma notícia absurda. Uma estupidez inacreditável: Tom Jobim havia morrido em Nova Iorque. Tudo foi dito rapidamente, sem explicações. Vinheta e nova música. Não dava tempo de questionar.

- Você ouviu isso?

- O quê?

Uma rádio com programa humorístico, aventei a possibilidade. Ninguém seria tão irresponsável. Então, ele não morreu. Deve ter acontecido outra coisa. Havia pouco dera entrevista ao "Roda Viva", animadíssimo, esbanjando saúde, com a ironia de sempre. O CD "Antonio Brasileiro" estava saindo do forno....

Não era possível.

Deveríamos buscar notícias. Em 1994 ainda não existia internet, ao menos no Brasil. Dependíamos de jornais e rádios. Se Tom tivesse morrido, poderíamos ver algo na TV, em algum plantão jornalístico. Alguma outra rádio poderia, também, matar nossa curiosidade. Os jornais só se manifestariam no dia seguinte.

Sacamos dinheiro, pegamos as malas e fomos para a rodoviária. Será que o Tom morreu?, dava medo perguntar. Ninguém falava sobre o assunto. Um sujeito como o Tom, quando morre, devia ensejar comentários em todos os cantos, todos os volumes, todos os tons. Não ouvíamos ninguém falar sobre ele. Buscávamos informações em conversas alheias. Pensei em perguntar para alguém, mas a indagação certamente não seria entendida.

- Você ouviu alguma coisa sobre o Tom?

- Que Tom?

- Que Tom? O Tom Jobim, oras!

Chegamos na terrinha. Nenhuma notícia. Liga o rádio! Nada. Liga a TV! Nada. Devia mesmo ter sido algum engano, uma brincadeira de mau gosto. Se o Tom tivesse morrido, teríamos como saber. Já havia passado mais de duas horas. Notícias ruins correm rapidamente e todo mundo, todo mundo mesmo, fica sabendo.

Minha mãe conversava ao telefone tranquilamente com minha irmã.

- Pergunta pra ela se o Tom morreu!

- Que isso, menino, tá louco?

- Pergunta!

Silêncio.

- Ah... em Nova Iorque?

Era a confirmação.

Naquele momento, numa fração de segundos, lembrei-me da primeira vez em que prestei atenção a uma letra do Tom. Era 1981. O gravador mono cassete, no qual eu ouvia reiteradamente a fita do LP "Vida", do Chico, servia também para gravações canhestras. A abertura de "Brilhante", novela da Globo, era feita com "Luiza", recentemente composta mas ainda não registrada em LP. Gravei a música em som ambiente e lá fui para o escritório do meu pai ouvir em aparelho mais confiável.

Tom Jobim havia morrido Não podia acreditar. Ainda havia tempo para ele. E para nós, é claro. Fiquei acabado, indignado. Além das músicas, ecoavam-me na cabeça suas frases de conteúdo simples, sempre ditas com ênfase e empolgação.

À noite passei a procurar por ele em algum canto do céu, o charuto na boca, o riso largo, a dedicação ao piano, o humor inabalável, a leveza espontânea.

Embora imortais, algumas pessoas deviam ser proibidas de morrer. Tom era uma delas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sartre, ainda

Cenas da Literatura IV: Sartre, ainda

A idade da razão continua sendo um dos meus livros favoritos. Além do parágrafo já citado aqui no blog, assinalo as reflexões de Mathieu sobre o destino e a função dos intelectuais na sociedade moderna.

"Escritores de domingo! Pequeno-burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu.
- Refere-se a mim? – indagou rindo...".

(SARTRE, Jean-Paul. A idade da razão. Trad. Sérgio Milliet. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 89).

Ainda há escritores de domingo!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os mitos sobrevivem

Não é uma cena da literatura como alguns posts anteriores. Mesmo assim, acho que merece atenção. É uma cena de novela. De uma das novelas mais geniais da história da TV brasileira: "Roque Santeiro". Lembro-me que fora exibida em 1985, mas não sabia precisamente a data. Procurando informações no Wikipedia, descobri que teve 209 capítulos e veiculou entre 24/06/1985 e 22/02/1986.

Vamos à cena.

Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) resolveu contar para toda a cidade quem era Roque Santeiro (José Wilker). Isso significava desmascarar o gigante mito que alimentava de todas as formas a pequena Asa Branca. Roque havia voltado do exterior e se encontrava na província. Seu pai, Beato Salu (Nelson Dantas), estava em coma, internado.

Padre Albano começou a tocar os sinos da igreja a fim de chamar a atenção da população para fazer a grande revelação. No mesmo instante, Beato Salu acordou. Enquanto Albano badalava os sinos, a população corria para ver o que estava acontecendo. O insano profeta, mais vivo do que nunca, entrava em cena, seguido pelo séquito das carolas católicas. Sua recuperação, diziam, era um milagre de Roque Santeiro. Os planos de Albano ruíram miseravelmente.

Segundo edição da Veja de 02/10/1985, no mesmo capítulo, Padre Hipólito (Paulo Gracindo) teria dito: "O mito é mais forte que a verdade".

E, tal como na realidade, o mito sobreviveu.

domingo, 16 de novembro de 2008

Tumitinha, atédezechega e circuncissfláutico

Mário Prata publicou no Estadão, em 23/01/1995, uma crônica chamada "O amor do Tumitinha era pouco e se acabou". Naturalmente, a frase versa sobre a interpretação muito pessoal que uma amiga dele fazia da famosa "Ciranda, cirandinha". Ela imaginava que Tumitinha era um japonês pequeno, cujo nome real era Tumita. Sempre que ouvia a música, ficava pesarosa, pois notava que o amor do Tumitinha havia se acabado.

Lembrei-me recentemente dessa crônica porque ouvi a expressão "até dizer chega" e me dei conta de que ela me era, na infância, uma só palavra: "atédezechega". "Atédezechega" constituía-se, para mim, de algo contrário à sua idéia primacial, ou seja, um limite. "Tomar coca-cola atédezechega", por exemplo, não era tomar coca até que não mais se agüentasse fazê-lo. Era tomá-la indefinidamente, para sempre, sem nenhum óbice. Fazer algo atédezechega era uma maravilhosa porque, tratando-se de algo prazeiroso, dava-me a legitimidade para extravagâncias de toda sorte. Somente mais tarde, atento à cadência da fala brasileira, dei-me conta de que o antigo atédezechega era pontual e preciso: "até dizer chega". Em suma, até não se agüentar mais.

"Sonso" foi outra palavra que me causou alguma confusão. Sempre a ouvia no feminino: "A fulana é uma sonsa mesmo!". Entendia que sonsa, naqueles casos, era a menina bocó, bobona, desatenta e um tanto burrinha. Alguém relativamente tranqüilo, sem a urgência característica da puberdade, poderia perfeitamente ser considerado sonso.

Havia, também, uma espécie de sinônimo de sonso que resultava na mesma confusão: "songamonga". Aí o exagero era patente! A songamonga era uma idiota completa! Muito tempo depois é que percebi o real sentido dessas palavras. O Aurélio me disse que sonso é "dissimulado, manhoso, astuto, velhaco, solerte, sonsinho". Então, tratava-se de idéia diametralmente oposta àquela que eu tinha? Isso mesmo! Songamonga, para minha surpresa, é a "pessoa sonsa, dissimulada". Dá no mesmo. Não foi curto o período em que empreguei esses termos de modo indevido.

Depois que comecei a me interessar pela obra do Mário de Andrade, e resolvi estudá-la, ficava intrigado com alguns termos que ele usava e cujo significado não encontrava em nenhum dicionário. Nesses casos, o melhor era deduzir o teor pelo sentido da frase, que é o que todos nós fazemos na ausência de dicionários ou outras fontes de pesquisa. Mário inventava nomes, verbos e palavras. Já falei aqui, por algumas vezes, que sua linguagem era um tanto peculiar. Há, entretanto, termos que, embora deduzíveis, revelam-se absolutamente feios. É o caso de "passadistização" e "circuncissfláutico". Esta última é invencível! "Fico meio circuncissfláutico com esses bairrismos, palavra", diria sobre os regionalismos de seu tempo.

Que o modernismo tivesse legitimidade para inventar, romper com padrões, é algo que não se discute. Foi justamente por isso que existiu e fez o que fez! Mas, daí a inventar o incompreensível, pode soar desagradável e, sobretudo, inútil. Se a palavra inventada não se converte em instrumento útil de comunicação, de entendimento, não tem valor. Mário, contudo, devia saber disso e, mesmo assim, inventava. E como inventava!

Boa semana a todos!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Gargalos

Não conheço família destituída de tiques, manias e neuroses. Há gosto para todo tipo.... Apenas a intensidade das neuras é que varia. Em família, é sabido, todo mundo se revela um pouco louco. Essa loucura parece ser absolutamente normal até que alguém perceba.

Em casa, acostumamo-nos a examinar o gargalo das antigas garrafas de refrigerante. Eram de vidro e muitas vezes quebravam ao abrir. Se caísse um caco no fundo da garrafa e alguém consumisse....

Ouvíamos histórias tenebrosas. Uma amiga da escola garantiu-me que um tio dela foi parar no hospital com um cacão de vidro no estômago. O coitado precisou submeter-se a uma cirurgia de emergência. Hemorragia para todo lado, quase morreu! A criançada ficava em volta para saber como aquilo aconteceu....

Nos idos anos 80, numa noite de verão, fazia muito calor. Na geladeira, uma única garrafa de coca-cola. Resolvemos abri-la. O gargalo estava quebrado. Justamente na borda interior! E agora?

Teríamos de comprar outra! Àquela hora, contudo, o supermercado já havia fechado. Cidade do interior, naquela época, ainda não tinha a facilidade das "24 horas", tudo fechava cedo. Uma alternativa interessante residia em procurar por um boteco e comprar o refrigerante. Cadê vontade? Ninguém se habilitou....

Ficamos num impasse horroroso... E o calor parecia aumentar com vontade da coca. Toma, não toma. Toma, não toma. Por via das dúvidas, minha mãe falou, é melhor não tomar. Resolveu-se que deveríamos coar a bendita coca-cola. Não me recordo como a tarefa foi empreendida, mas sei que meu pai armou uma engenhoca bacana.

Cada um tomou seu copo – já sem gás algum! (arghhhh) – e se deu por satisfeito. Ninguém viu caco no coador. O exagero da conduta era grande, mas, no fundo, ninguém desejava arriscar.

Anos depois, já casado, resolvi sair com ela para jantar. Pedimos coca-cola e o garçom abriu a garrafa na nossa frente. O gargalo estava quebrado, não havia dúvida. Solicitei a troca da garrafa. Logo depois, ele apareceu com outra. Repetiu o gesto: abriu o refrigerante na nossa presença e esperou para ver se estava tudo bem. Surpresa!!! A segunda garrafa também estava quebrada. Não tive dúvidas: pedi que trocasse novamente o refrigerante.

Após mais um tempinho, voltou. Pôs a garrafa na mesa e abriu. Quando olhei para o gargalo, tive aquela sensação inequívoca de déjà vu. O corte era exatamente o mesmo! O garçom, cara amarrada, olhou-me com reprovação. Tentou argumentar que o problema "era de fábrica". Silenciei e, com calma, pedi uma lata de coca-cola. Problema resolvido!

Veio a lata! Ele olhou para mim e, sarcástico, disse:

- Essa não tem como quebrar!

Sorri, aquiescendo. Estava satisfeito que as garrafas de coca-cola seriam inutilizadas pelo restaurante.

Antes de ir embora, vimos o garçom servindo uma mesa com duas garrafas de coca. Elas estavam a caminho da mesa já abertas.

Como a dúvida é cruel....

sábado, 1 de novembro de 2008

Jabuti 2008

Foi ontem a entrega dos prêmios da 50ª edição do Jabuti. A TV Cultura transmitiu a cerimônia da Sala São Paulo pela internet. A iniciativa merece os mais altos elogios. Quem sabe na próxima edição teremos a transmissão para a TV?

Como disse no post passado, lamentavelmente ando sem tempo para a literatura. Não li, portanto, nenhum dos livros finalistas. Acompanhei as indicações e bati os olhos em alguns trechos do Antônio, de Beatriz Bracher, terceira colocada na categoria Romance.

O primeiro lugar ficou com Filho Eterno, do Cristovão Tezza, livro, aliás, premiado no Portugal/Brasil Telecom e em outros tantos concursos. Parecia haver vozes uníssonas de que Tezza levaria também o prêmio de "Livro do ano de ficção" do Jabuti. Não levou!

Quando Cunha Jr anunciou que Loyola Brandão era o premiado com O menino que vendia palavras, a platéia manifestou largo contentamento. Loyola subiu ao palco para os agradecimentos.

Disse que levou um susto, porque supunha, a exemplo de todos, que o Filho Eterno ficaria com o prêmio. Iniciou, então, um pequeno discurso.

Falou que tem o prazer de, após seus setenta e poucos anos, conviver ainda com as duas professoras que o iniciaram na leitura. Elas estão vivas, lá em Araraquara. Contou que, recentemente, numa homenagem feita a ele, uma delas indagou à outra:

- Quantos livros o menino já escreveu?

- 31!

- Ihhhh.... Acho que não vou conseguir ler tudo. Minha vista já não está boa!

O prêmio foi dedicado a elas, é claro!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Questões paralelas

"Por causa de umas questões paralelas", como diria o poeta, ando sumido da blogosfera. Não é que tenham "cassado meu boletim", mas estou metido com a burocracia da vida acadêmica. Aliás, burocracia na vida acadêmica seria pleonasmo se não fosse tão estúpida. Justamente por se tratar de ambiente no qual as pessoas (supostamente, ao menos supostamente) tenham bom senso, a coisa fica ainda mais desagradável. Há, contudo, algumas boas almas que se salvam, é claro! Eu é que não tenho salvação!

Para que não se pense que estou irascível, digo que nesses quase dois meses sem escrever nada no blog ocorreu-me de aparecer por aqui para contar umas piadas, umas besteiras que andam povoando minha imaginação. Cadê tempo? A correria não deixa. E, o que é pior, até a literatura ficou para escanteio!

Outro dia mesmo, sem querer, entrei na Livraria Cultura e quase não saí de lá. Quando me dei conta, estava lendo uns contos, totalmente absorto, meio quieto, esquecido da vida. Lembrei-me que agora não posso, não! É hora de sofrer com a "angústia das pequenas coisas ridículas".

Por falar em sofrer, na noite de um domingo passado, deparei-me com um espetáculo digno de nota para o final de outro domingo: era o famigerado e esperado encontro do Mano Caetano com o Roberto Carlos, para comemorar os 50 anos da Bossa Nova. De Bossa Nova havia apenas as músicas e o neto do Maestro que, aliás, interpretou de modo belíssimo "Águas de Março".

O resto?

Até hoje tenho medo de sonhar com o Roberto Carlos cantando "Insensatez" em espanhol.

Juro para vocês que eu não estava bêbado.

Boa semana!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O acordo ortográfico

Pouco antes de completar dois meses sem escrever um post, resolvi aparecer. Mas não para escrever. Coloco abaixo a crônica do Cony de hoje, na Folha. Ela versa sobre o acordo ortográfico entre os países lusófonos. Estou inteiramente de acordo com seu conteúdo. Ei-la:

Um acordo bestial - Carlos Heitor Cony

NO MEU entender, discutir o acordo ortográfico assinado há dias pelo presidente da República parece que não levará a nada. Pode prevalecer por um algum tempo, como as nossas Constituições anteriores, mas de tempos em tempos, além de modificá-las, fazemos uma nova.
Em primeiríssimo lugar, pergunto se há realmente necessidade cultural e prática para estabelecer regras ortográficas a serem usadas pelos países de língua lusófona.
Em geral, cita-se o respeito que devemos ter pela matriz, que é o português. Mas daí a dúvida: que português e que ortografia devem ser respeitadas agora e no futuro? O português e a ortografia de Camões ou Frei Luiz de Souza? Ou de Pero Vaz Caminha que escreveu a certidão de nascimento de um país recém-descoberto? Para não ir muito longe, como adotar a ortografia de nossos clássicos, de José de Anchieta ou de Machado de Assis?
Como aquela "dona" da ópera de Verdi, a linguagem "è mobile", e a ortografia também. Agora mesmo, quando se procura unificar a maneira de escrever palavras, está surgindo uma nova ortografia, até certo ponto radical, usada inicialmente pelos internautas, mas que está vazando para textos literários e do uso cotidiano. "Bj" e "tb", para citar os mais freqüentes, substituem "beijo" e "também".
Uma simplificação? Ou uma agressão à norma dita erudita? Temos o caso de simplificação mais radical na expressão "Vossa Excelência", que foi reduzida para "vosmicê" e terminou na forma simpática e não contestada de "você". Bem verdade que a própria redução foi reduzida e há tempos que usamos o simples "v" para a mesmíssima coisa.
São respeitáveis os argumentos a favor do acordo. Houve outros, no passado, que foram desacordados pelo uso e abuso. No espaço de minha geração, enfrentei várias ortografias, inclusive aquela que aboliu o "w", o "y" e o "k". Houve jornais que passaram a escrever Cubisticheque, quem menos gostou da idéia foi o próprio Kubistchek. "Brincadeira tem hora", disse-me ele.
Eu próprio fiquei chateado quando até uma enciclopédia grafou o meu nome sem o "y". No meu caso, não se tratava de uma pinimba, como em Gilberto Freyre, mas do nome de meus antepassados.
Os adeptos daquela ortografia diziam que o camarada tinha o direito de escrever o próprio nome como bem entendesse, mas os outros não. Esqueceram o fundamental: o nome é, digamos, a marca industrial, a "trademark" de um indivíduo. Em termos de norma culta, a marca do carro Simca devia ser Sinca. E a Telefonica devia ser Telefônica, para estar de acordo com a acentuação das palavras proparoxítonas.
Considerar o acordo como um instrumento poderoso para a unificação cultural e espiritual dos povos lusófonos é apenas uma boa intenção. Esta unificação deve existir sem necessidade de obrigarem os portugueses a escrever "facto" e "fato" com sentidos diferentes. Pensando bem, e analisando historicamente as palavras, há mais sentido em Portugal quando ali escrevem "súbdito" em vez de "súdito". O prefixo "sub" inclui a idéia de submissão e não de "sumissão".
Autores brasileiros reclamam quando seus livros são traduzidos para o português de Portugal. Por acaso, tenho dois livros ali publicados: um foi traduzido literalmente, trem virou comboio e diretor virou director. Honestamente, não me senti insultado. Na versão francesa do mesmo romance, "pacote" virou "paquet". E daí?
O outro, mais recente, foi transcrito tal como o escrevi, mas com abundantes notas ao pé de página. "Dar sopa" foi explicado como "proporcionar" e "torcer" como "desejar". Nos dois casos, o da tradução e o da nota ao pé de página, não foi prejudicada a essência -se é que meus livros têm alguma essência.
Insisto no respeito e na admiração aos abnegados amantes da língua, aqui e em Portugal, que gastaram anos de pesquisa e trabalho na tentativa de unificar a ortografia a ser usada oficialmente no Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Alvíssaras para o nosso idioma, que segundo Fernando Pessoa, deve ser a nossa pátria. Foi um enorme esforço que os portugueses poderiam classificar de "bestial".

domingo, 17 de agosto de 2008

Buenos Aires

Em julho de 1998, época de Copa do Mundo, fomos parar em Buenos Aires. Chegamos lá no dia em que o Brasil jogava contra o Chile. Almoçando na Galleria Pacífico, na Florida, notamos que os argentinos torciam para a seleção do Zagallo. Portanto, embora em terras estrangeiras, o clima era bastante amistoso e havia alguma deferência quando algum portenho percebia que éramos brasileiros.

- Ronaldinho? – perguntavam com o sorriso na cara.

- Sim, Ronaldinho! – respondíamos. Aquele que não ganharia a malfadada final contra a França.

Abstraímos o clima da Copa para aproveitar a cidade. Conhecemos as construções históricas e um pouco daquela nação que, embora bem próxima, parece-nos tão distante.

O clima começou a ficar pesado quando soubemos que a Argentina enfrentaria a Inglaterra. Seria um jogo histórico! Não era possível: reviveriam os tempos da Guerra das Malvinas? A velha rivalidade voltaria depois de tanto tempo? O confronto seria violento? Seria seguro passear naquele dia pelas ruas de Buenos Aires?

Para evitar problemas, o combinado era o seguinte: almoçaríamos na Ricolleta, passearíamos um pouco e, na hora do jogo, voltaríamos para o hotel.

Almoço terminado, passamos pelo Museu Nacional de Belas Artes. Em frente à embaixada brasileira, demo-nos conta de que o jogo já havia começado. Salvo equívoco, nos primeiros minutos, a Argentina marcou um gol. E agora? Melhor seria tomar um café e, depois, voltar para o hotel.

Entramos no Café Cristopher, localizado logo no início da Nove de Julho, quase no limite com a Ricolleta. Enquanto acompanhavam o jogo, os argentinos não moviam um músculo sequer. A tensão era enorme. Todos ali olhavam para as televisões afixadas nos cantos do salão.

Pênalti! Pênalti para a Inglaterra!

- Se marcarem o gol, a coisa vai ficar feia! – pensei rapidamente.

Desavisado, parei em frente a uma TV para ver a cobrança da penalidade. Não percebi que estava obstruindo a visão de algum torcedor fanático. Para piorar, desejosa de logo se sentar, ela me cutucava enquanto o jogador inglês se preparava para chutar a bola. Sem se dar conta da gravidade da situação, me dizia sussurrando:

- Vai, vai, no canto, no canto....

Pensei que fosse apanhar, sobretudo depois que o gol foi marcado. E, justamente, no canto!

É só.... Por ora é só....

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O reencontro de Brás Cubas e Marcela

Cenas da Literatura III: O reencontro de Brás Cubas e Marcela

São fantásticos os desatinos cometidos por Brás Cubas por causa de Marcela. Mais fantástico ainda é o reencontro com ela, anos depois da paixão juvenil. Marcela, já velha, decadente, por trás do balcão sugere que o tempo é mesmo implacável. Seguem abaixo dois trechos: aquele que inicia a narrativa sobre a personagem do romance e o momento do reencontro. Vale a pena ler.

"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis, nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil".

"Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce destruía-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-lo-eis, pósteros? Essa mulher era Marcela".

(ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 1997, p. 48 e 80-81 respectivamente).

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O gênio e o borra-botas

John Lennon e Tom Jobim morreram no dia 08/12. O primeiro em 1980 e o segundo, em 1994. Um dia, disse isso a um amigo. E ainda completei, exagerando:

- A diferença é que um era gênio e o outro, um borra-botas.

Para me provocar, ele perguntou:

- Quem era o gênio?

Quase bati no meu amigo!

Que ninguém ouse me escrever para fazer a mesma pergunta!

É só.... Por ora é só....

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O bar, a Constituição e o "pertubado"

Antes mesmo de alugar o apartamento, tinha ciência de que ali perto, bem perto, havia um bar. Ótimo! A idéia era atrativa. O tal bar tinha música ao vivo. MPB com violão e algo mais. Fantástico!

O problema era que, embora ainda notívago e boêmio, cansei-me. As atividades do bar não davam trégua. Se quisesse aproveitá-lo não conseguiria trabalhar. Não era possível: de terça a sábado havia música alta, palmas e muita baderna ao final da noite. As situações eram as de sempre: bêbados jurando amor eterno ao amigo que "é gente boa", que "é legal pra caramba".

Após longas e sucessivas noites de som alto, paciência exaurida, liguei para a polícia. Expliquei a situação e pedi informações sobre o procedimento correto para resolver o problema. Do outro lado da linha, o Soldado Edson (assim se apresentou) me disse que só poderia tomar alguma providência caso eu fosse juntamente com a viatura da polícia até o bar. A reclamação deveria ter um autor claro, manifesto. Como era eu o incomodado, deveria encarar o dono do boteco e dizer que o barulho me aporrinhava.

Para qualquer indivíduo de bom senso, aquelas instruções soariam absurdas, por várias razões. A primeira delas é que, estando frio, muito frio, não seria conveniente que o incomodado saísse de casa para fazer a tal reclamação. Caberia à polícia resolver o problema, sem mais delongas. Bastava, portanto, que uma viatura se certificasse de que o alto volume do som era um fato.

A outra razão, a mais óbvia, é que, apresentando-se ao dono do bar, o incomodado poderia correr algum risco de perseguição futura. Não seria ideal que o reclamante se mostrasse. A polícia, ciente da existência de retaliações em casos como aquele, deveria desconfiar disso e tomar alguma providência.

O sono já havia passado e eu ainda insistia com o tal soldado para que alguma providência fosse tomada sem que eu precisasse sair de casa. Já havia chegado aos meus ouvidos que o dono do boteco era violento e que jamais reagiu bem às reclamações feitas. Sugeri que a viatura da polícia apenas passasse em frente ao bar. Talvez isso fosse suficiente para intimidar os donos do estabelecimento e fazê-los abaixar o volume do som.

Sem acordo! Categórico, o soldado Edson me disse:

- Não posso fazer nada. O "pertubado" tem que aparecer. Se o "pertubado" não aparecer no bar, não podemos fazer nada. O "pertubado" precisa mostrar que está sendo "pertubado".

Já sem esperanças, resmunguei um pouco.... O soldado me saiu com essa:

- Veja o senhor que antes dessa Constituição (1988), isso não acontecia. A gente chegava nos bares, prendia os instrumentos, era violão prum lado, bateria pro outro... A gente descia o sarrafo e ninguém falava nada. Agora, essa tal Constituição não deixa mais a gente fazer isso e os músicos estão cada vez mais abusados. É o tal (sic) dos direitos humanos. E o senhor quer dormir e os direitos humanos não deixa (sic).

Só consegui dormir depois de algum tempo, confiante na Constituição, "pertubado" e descrente do bom senso alheio.

É só.... Por ora é só....

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ceticismo?

Já que falei do Cony, confesso minha grande admiração por suas crônicas, publicadas na Folha. Não li, ainda, nenhum dos seus romances. Fiquei curioso com a reedição de sua estréia: O ventre.

Entrei numa livraria, peguei o livro e comecei a lê-lo. De pronto, uma frase me chamou a atenção. Ei-la:

"Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito".

É só.... Por ora é só....

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A resposta que Cony não me deu

Em julho de 2003 o Rio tinha cara de um pretenso inverno. Fomos jantar no Leblon. Ao fundo do restaurante, avistamos Cony e uma moça, provavelmente sua mulher. Ele não jantou, apenas balançou as pernas com evidente sinal de impaciência. Estava, por certo, ansioso. Ela também não jantou. Ficaram algum tempo conversando baixo, discretamente. De repente, ela se levantou. Serviu-se de um doce e voltou para a mesa.

Naquela época, as reflexões do doutorado ainda ecoavam na minha cabeça. É provável que já estivesse pensando em rever a tese para submetê-la à apreciação de alguma editora. Ela seria, afinal, publicada um ano depois, pela Annablume. Embora o texto tratasse de intelectuais antigos (Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Paulo Duarte e outros) a temática era atualíssima e suscitava uma questão interessante: qual é a função social dos intelectuais em uma determinada conjuntura histórica?

Ter visto Cony ali, disposto, reservado, aguçou-me a curiosidade. Um homem que presenciou os grandes momentos da história do século XX, que resistiu a sucessivas prisões arbitrárias da ditadura militar, que conviveu com os escritores mais importantes do país, que trafegou pela crônica, pelo romance, pelo jornalismo... Enfim, um homem como ele certamente poderia responder aquela questão.

Num rompante, pensei em abordá-lo. Invadiria a intimidade daquela mesa de canto, quase isolada. Imaginei que, impaciente, balançaria as pernas com mais avidez, talvez reclamasse do meu jeito intrometido. Indagaria qual era a legitimidade da minha interpelação. Diria que aquilo era pergunta para o "Liberdade de expressão", da CBN.

Supus que, em poucos instantes, pudesse desenhar sua trajetória para explicar a função do intelectual na sociedade brasileira. Mas isso também seria impossível em tão pouco tempo... Reparei bem no movimento de suas pernas e amedrontei-me com elas. Temi uma reprimenda. Acovardei-me.

Surpreso, percebi que Miúcha estava ao nosso lado (o encontro merece outro post, naturalmente). Conversamos com ela. Falamos do Chico, que terminava de escrever um livro em Paris. Não sabíamos, ainda, que era Budapeste. Nem ela sabia.

Jantamos, tomamos um café e fomos embora, sem a resposta do Cony.

domingo, 6 de julho de 2008

A racionalidade do capital, o Cheiro do Ralo e a Loja da Esquina

Nunca é demais reiterar que esse blog não é dado a reflexões acadêmicas, ainda que alguns posts possam assim sugerir. Repito também que não se pode levá-lo a sério... Se quisesse fazer algo rigoroso, não publicaria aqui e procuraria por veículo idôneo para manifestar algumas inquietações. É, aliás, o que faço quando alguma questão me azucrina o pensamento.

Por falar em azucrinar – termo feio e vetusto –, aporrinha-me amiúde a cara de estupefação de certas pessoas diante da racionalidade capitalista. É incrível como ainda hoje há gente que teima em se surpreender com algo tão banal e de facílimo entendimento...

Não será preciso muito esforço para compreender que em matéria de negócios e dinheiro, "cessa a boa vontade", como diria o velho Marx. Ou, por outra, negócios são algo "em cujo peito não bate nenhum coração".

A racionalidade e a impessoalidade do capital foram reiteradamente explicadas por Marx em suas obras. Já no Manifesto Comunista, escrito com Engels, ambos tiveram o cuidado de mostrar sucintamente a história da evolução do capitalismo. Descrevendo o papel revolucionário da burguesia, evidenciaram por que o feudalismo fora substituído por um modo de produção destituído do caráter pessoal e idílico das relações humanas.

Veja-se um trecho do Manifesto:

"[A burguesia] ... não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível 'pagamento em dinheiro'. Afogou nas águas gélidas do cálculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavaleiresco, do sentimento pequeno-burguês. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e durante conquistadas colocou unicamente a liberdade de comércio sem escrúpulos. (...) A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então consideradas dignas de veneração e respeito. Transformou em seus trabalhadores assalariados o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência. (...) A burguesia rasgou o véu de comovente sentimentalismo que envolvia as relações familiares e as reduziu a meras relações monetárias". (MARX, Karl. & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. Marco Aurélio Nogueira e Leandro Konder. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 68-69).

Em suma, em face das estruturas capitalistas, nada mais poderia ser visto sob a ótica do "sentimentalismo" e do "entusiasmo cavaleiresco". Em vez disso, tudo se cifraria a "meras relações monetárias". Nada mais.

Também em sua obra máxima, O capital, Marx deixara tudo isso muito claro. No capítulo intitulado "A jornada de trabalho", com sua habitual ironia, cria o desabafo de um operário que, diante do capitalista, deseja uma jornada de trabalho justa. Observe-se:

"Eu, exijo, portanto, uma jornada de trabalho de duração normal e a exijo sem apelo a teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a boa vontade. Poderás ser um cidadão modelar, talvez sejas membro da sociedade protetora dos animais, podes até estar em odor de santidade, mas a coisa que representas diante de mim é algo em cujo peito não bate nenhum coração". (MARX, Karl. O Capital. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Coleção Os economistas. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 180-181, Vol. I.)

Conforme se vê, a cáustica sagacidade do velho Marx fere a ingenuidade daqueles que acreditam na existência do patrão bonzinho ou do patrão mau. Isso não existe! Não há patrão bom e tampouco patrão malvado.

Há, apenas, patrão.

Em relações de trabalho, nas quais o objetivo é tão-somente o lucro, não pode haver quem seja bonzinho ou mau. Não cabem juízos de valor! Existe apenas, reitere-se, a meta do lucro, que é racionalmente calculado. Ou será que alguém acha que a cesta-básica dada pelo patrão é uma generosidade? E o plano de saúde?

Tudo isso deve ser entendido de um ponto de vista isento. Os negócios que medeiam as relações entre patrão e empregado são impessoais. No momento em que a força de trabalho não mais interessar à lógica de reprodução do capital, a relação de trabalho deve ser extinta, sem prejuízo das eventuais relações pessoais.

Basta que vejamos a situação de modo impessoal. Pronto: resolvido estaria o dilema. Para não estender demais a história, vamos a dois exemplos interessantes.

No filme "O cheiro do ralo", o personagem de Selton Mello é um comprador (negociador) que quinquilharias. Por trás de sua mesa, conversa com pessoas para avaliar os objetos que desejam vender. Os interessados em comercializar as tais quinquilharias não entendem que o valor pessoal delas não tem a menor relevância para os objetivos daquele que irá comercializá-las. Dizem que um tal objeto é de estimação, porque passado de geração em geração. Asseveram que uma tal coisa vale muito porque fora daquele parente que logrou êxito em alguma empreitada heróica. E por aí vai.... O que essas pessoas não entendem é que, do outro lado da mesa, o único interesse existente é o valor de troca daquelas mercadorias.

O filme é lapidar porque mostra a crueza das negociações e evidencia a impessoalidade de uma relação de necessidade entre dois indivíduos. Enquanto um precisa vender (a despeito de não querer, por questões pessoais), outro quer comprar para comercializar (apenas por um motivo racional e impessoal).

Também em "Mensagem para você", filme com Meg Ryan – a sempre namoradinha da América – e Tom Hanks, há uma passagem curta e interessantíssima a respeito do assunto aqui sob foco. Lembremos rapidamente da trama: Joe Fox (Tom Hanks) é o empresário de uma rede de mega stores (Livrarias Fox) e abre uma filial perto de uma tradicional livraria da cidade. A tal livraria é de Kathleen Kelly (Meg Ryan) e lhe foi herdada pela mãe que, fique claro, construiu sua clientela com base no atendimento personalizado, vendendo livros infantis quase artesanais e oferecendo atividades educativas às crianças. Ali se concentram anos e mais anos de uma história pessoal, regada a sentimentalismos e laços de amizade para com os fregueses.

A Livraria Fox irrompe portanto como a grande ameaça à "Loja da esquina" (não nos esqueçamos que o filme original é de Lubitsch e leva o mesmo nome). Foi ela, aliás, a razão da falência do tradicional negócio de Kathleen. Entre ela e Joe – que terminarão a trama juntos, num rompante caso de amor – cria-se uma evidente disputa. Disputa impessoal, bem entendido. E talvez a tradução mais aguda dessa disputa resida numa simples frase.

Enquanto Joe faz esteira na academia, acompanhado por seu assessor, assiste ao depoimento de Kathleen na TV sobre a possível falência de sua livraria. O assessor lhe diz que ela é realmente bonita, insinuando que a concorrência é, por isso, injusta. Joe, de modo frio e racional, apenas diz:

- Ah, não é nada pessoal...

É a racionalidade da concorrência, dos negócios capitalistas. Nada além disso. Tanto assim que talvez já apaixonado pela dona da Loja da Esquina, o grande empresário Fox não se curva. O poder do capital não pode sucumbir a uma paixão.

É óbvio que os dois filmes e a temática aqui exposta merecem análise mais acurada e poderiam, sem dúvida, render algum estudo. Como não é esse o meu propósito, deixo essas idéias jogadas, quiçá mal colocadas, sem compromisso...

É para isso, afinal, que serve esse blog....

Boa semana a todos!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

João Gilberto e a besta da Camila

A reportagem da Folha (24/06) sobre o show de João Gilberto, no último domingo, no Carnegie Hall, deu mostras de que o gênio continua em plena forma: inovando, criando, arrasando. Também deu para notar que João continua reclamando:

"Desculpe falar uma coisa, tem um ventinho aqui na minha cabeça, me faz um pouco afônico";

"Please, esse ventinho";

"Olha o meu ventinho outra vez, please" (cantalorando).

Quando leio algo sobre sua personalidade excêntrica e mal-humorada, tenciono desconfiar. Assisti a um show dele que, por si só, seria capaz de desmentir, por completo, essa fama antiga.

24 de maio de 1996. João Gilberto faria o segundo show no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Eu havia comprado meu ingresso com antecedência. Ganhei até camiseta, com foto e tudo. A expectativa do show era enorme. O que João diria do Centro de Convivência? Reclamaria da acústica? Do som? Do microfone? Não importa. Valeria a pena estar ali, ouvindo-o tocar.

Teatro lotado. Pouco atraso. Imaginei que fosse entrar no palco depois de uma hora. Começou a tocar, a cara meio amarrada. Deu boa noite após a execução da primeira música. Aos poucos, ninguém entendeu, foi se soltando. Passou a fazer comentários entre uma música e outra. Chegou até a contar piada. Ninguém entendeu a razão daquele bom humor. Não se tratava de João Gilberto, aquele que reclama de tudo e vive emburrado? Sim, João Gilberto. Então, tudo aquilo que diziam a seu respeito era invenção da mídia brasileira? Não podia ser... João Gilberto, bem humorado, contando piada?

Bebel entrou no palco. Cantaram uma música juntos. Não me recordo qual era. Depois, João iniciou "Bahia com H". No meio da música estancou. Olhares inviesados. O que aconteceu? Era certo que viriam reclamações. Suspense... Ele parou para falar da letra da música, apenas isso! Dedilhou alguns acordes e recitou os versos da canção. Pediu para que a platéia prestasse atenção na descrição da Bahia.

- É uma graça! É mesmo um cartão postal, como diz a letra – falou animadíssimo enquanto ainda dedilhava alguns acordes.

Para surpresa de todos, João sorria. Bebel também. Tudo era festa. O violão soou novamente. Cantaram juntos. Bebel, àquela altura, já estava séria.

Seria possível? João Gilberto estava ali, interagindo plenamente com a platéia. Reclamações? Poucas, pouquíssimas. Vez por outra batia no microfone com o indicador, falava alguma coisa para um tal de Castor e continuava a tocar. E tocava maravilhosamente, afinadíssimo. Continuava perfeito. Aquele show merecia gravação, para impressão de CD e tudo o mais. Quem sabe um vídeo, justamente para registrar o bom humor do gênio?

Pois o show terminou. Saí rapidamente para fumar e, de esguelha, ouvi uma conversa entre dois rapazes. Não falavam sobre a felicidade do João e tampouco das reclamações feitas. Falavam da Camila, possivelmente uma amiga. Um deles estava inconformado porque a menina havia assistido ao show no dia anterior e dissera que o João cantava muito mal. O outro rapaz vociferou que a tal Camila era uma besta. Quando percebi, os dois olhavam em minha direção, eu a balançar negativamente a cabeça enquanto dava um longo trago no cigarro. De repente, sem nenhuma intimidade, não me contive e disparei:

- A Camila é mesmo uma besta!



sábado, 21 de junho de 2008

Aliandro e a carne rosada da lagosta

Cenas da Literatura II: Aliandro e a carne rosada da lagosta

Mais uma da série "Cenas da literatura". Pois é... Desta vez, vamos de Chico. Não se trata, entretanto, de uma cena, mas da descrição de um personagem. O parágrafo é belíssimo. E ainda tem mané que acha que o Chico devia apenas fazer música! Quanta ignorância! Arre!!!

Quem leu Benjamim deve se lembrar de Aliandro Sgaratti, "o companheiro xifópago do cidadão". Chico descreve sua origem e condição social nos seguintes termos:

" Aliandro anda com os bolsos apinhados de contas, búzios, figas e seu tato custou a discernir as chaves do carro. Sai dirigindo em ziguezague, acompanhando o furgão de seus assessores pelo retrovisor, e um rosário de ossos balança na alça do espelho. Mas nenhum objeto lhe é mais caro do que a pequena opala oval, no centro do medalhão de ouro que leva aconchegado ao peito. Herança da mãe, que se fez incrustar a pedra no umbigo durante a gestação de Aliandro, tendo fé em que daria à luz um filho branco. O pai de Aliandro, preto igual à mãe porém agnóstico, já não gostou de ver o bebê dormindo no berçário, a pele leitosa. E quando os olhos do garoto firmaram sua cor azul-celeste, sumiu no mundo. Burlando as leis da genética desde o nascedouro, Aliandro habilitou-se a desafiar o que mais o destino lhe reservasse. Ele convenceu-se de que, se acatasse as estatísticas, moraria até hoje nas palafitas, estaria tuberculoso, seria semi-analfabeto, ou quem sabe trabalharia na construção civil, freqüentaria o culto, pagaria o dízimo, ou quem sabe lavaria cloacas, teria sete filhos de mãe alcoólatra, e em todo caso jamais conheceria a carne rosada da lagosta, sua consistência de mulher jovem. Se valesse a justiça dos homens, ele sabe que não estaria hoje ao volante de um carro hidramático, que pode pilotar manipulando amuletos. (...) Se Aliandro fosse homem de aguardar a sua vez, nunca se faria lembrar por uma secretária de voz grave que, depois de despachar um infeliz pelo telefone, levanta-se para cumprimentá-lo com os braços cheios de pulseiras, e o introduz nos estúdios de G. Gâmbolo".

(BUARQUE, Chico. Benjamim. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 34-35).




segunda-feira, 16 de junho de 2008

Mathieu e o vaso de três mil anos

Cenas da Literatura I: Mathieu e o vaso de três mil anos

Depois de ter falado sobre a cena na qual se encontram Fabiano e o Soldado Amarelo, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, lembrei-me de citar algumas cenas da literatura que jamais poderão cair no esquecimento. Hoje, inicia-se, nesse blog, a série Cenas da Literatura. Não sei se ela terá vida longa, mas vamos lá...

A primeira cena da série foi descrita em um único parágrafo. Trata-se do episódio em que Mathieu Delarue, protagonista de A Idade da Razão, de Sartre, quebra um vaso de 3.000 anos. Isso mesmo: um vaso de três mil anos (agora por extenso). Não vou comentá-la agora. Apenas confesso que, pelas razões de Mathieu, é provável que todos nós um dia tenhamos desejado quebrar um vaso desses...

O tal parágrafo é um pouco extenso. Dou-me ao trabalho de reproduzí-lo na esperança de que alguém realmente o leia. Ei-lo:

"Tinha sete anos. Estava em Pithiviers, na casa de tio Jules, o dentista, sozinho na sala de espera, e brincava de não se deixar existir. Era preciso não tentar não se engolir, como quando a gente conserva sobre a língua um líquido demasiado frio, evitando o pequeno movimento da deglutição que o faria escorrer para a garganta. Conseguira esvaziar completamente a cabeça. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Era um dia de tolices. Vegetava num calor provinciano que cheirava a mosca e eis que tinha pegado uma e lhe arrancara as asas. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo, fora buscar a caixa na cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. Tudo isso com grande displicência: era uma pífia comédia de vagabundo e ele não conseguia interessar-se por si próprio, sabia muito bem que a mosca não acenderia. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês, verde e cinza, com alças como garras de papagaio. O tio lhe dissera que o vaso tinha três mil anos. Mathieu aproximara-se do vaso com as mãos para trás e contemplara-o com inquietude. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido, diante de um vaso impassível de três mil anos. Voltara-lhe as costas e pusera-se a brincar de vesgo e a fungar na frente do espelho sem chegar a distrair-se. E, de repente, ele retornara à mesa, erguera o vaso, que era pesadíssimo, e o jogara no chão. Isso lhe acontecera sem mais aquela e logo depois ele se sentia leve, diáfano. Olhava os cacos de porcelana, maravilhado. Algo acabara de ocorrer com aquele vaso de três mil anos entre os quinquagenários, na luminosidade do verão, algo totalmente irreverente, que se assemelhava a uma manhã. Pensara: 'Eu fiz isso', e se sentiu orgulhoso, livre, sem peias; sem família, sem origem, um pequeno broto obstinado que rompera a crosta terrestre".

(SARTRE, Jean-Paul. A idade da razão: os caminhos da liberdade 1. Trad. Sérgio Milliet. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 58-59).

Em tempo: para quem não leu, sugiro a leitura do post "Vidas secas, Fabiano e o soldado amarelo", datado de 13.11.2007.

É só... Por ora é só...



sábado, 7 de junho de 2008

Bossa Nova?

Ontem a Folha noticiou que Caetano Veloso e Roberto Carlos subirão ao palco juntos para homenagearem o Maestro Tom Jobim. O show, naturalmente, faz parte das comemorações dos 50 anos da Bossa Nova.

O que Roberto Carlos tem a ver com a Bossa Nova? Nada. Absolutamente nada. Até mesmo a matéria diz que é surpreendente que tenha aceitado o convite "porque ele rompeu com a bossa nova de seu início de carreira após ter sido criticado à época".

Chamar Roberto Carlos para as comemorações da Bossa Nova é o mesmo que convidar Chitãozinho e Xororó para comemorarem a Tropicália. Ou então, convidar Roberto Campos para homenagear as manifestações de Maio de 68. Quem sabe Xuxa na abertura da próxima edição da Flip?

São combinações descabidas... Um despautério!

O fato de Roberto Carlos - cuja obra não conheço - não ter vínculos pretéritos com a Bossa Nova não significa que não possa participar de suas comemorações, em absoluto. É que não consigo imaginá-lo cantando qualquer composição do movimento... Soa estranho, desencontrado...

E não venham me falar que isso é birra minha!

O problema é estético!

Por que não chamaram o Chico, parceiro e amigo íntimo do Maestro? Por que não chamaram o Edu? Por que não chamaram a velha guarda da Bossa Nova?

Cadê o Carlinhos Lyra?

Onde se enfiou João Gilberto?

Arre! Acho que estou azedo!

Por ora é só...


quarta-feira, 4 de junho de 2008

O melhor conto

Como estamos em época de os "10 mais", "as 100 melhores crônicas", "os 100 melhores contos" e etc, resolvi fazer uma única indicação: o melhor conto.

Pois bem, o melhor conto, já escrito até hoje, seja lá quais forem os critérios de apreciação, seja lá qual for o nível de exigência do leitor, é "O peru de Natal", de Mário de Andrade.

O embate entre o narrador-personagem e o vulto de seu pai, já morto, é de uma beleza e comicidade ímpares.

Fica o convite para sua leitura. Creio que em qualquer lugar da rede haja uma cópia legal disponível.

É só... Por ora é só...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Adorando Fernanda Young


Andei sumido. É a falta de tempo. Voltei, embora ainda falte o tempo...

O título desse post só poderia resultar no gerúndio... É que, para os desavisados, o título do programa da Fernanda é "Irritando Fernanda Young" (IFY). Até aí, tudo bem. Mas, por que o infame trocadilho? Nem eu sei... Adoro a Fernanda! Isso basta...

Já havia iniciado um post sobre sua sinceridade espontânea quando despertou-me interesse pela leitura de seu último romance: Tudo que você não soube (Rio de Janeiro: Ediouro, 2007). É óbvio que não vou fazer nenhuma resenha do livro. Tampouco vou contar a história, adiantando tal ou qual detalhe do livro.

Pelo título da obra é possível perceber que se trata de uma confissão ou de algumas memórias. A narradora tem um pai moribundo e, por razões que aqui não convém falar, escreve um amargo relato para ele. Pretende terminá-lo antes que o velho morra.

O livro é repleto de referências aos anos oitenta; várias delas bastante conhecidas; outras, nem tanto. Fernanda retira do baú, sempre oscilando entre o ínicio e o fim daquela década, preciosidades curiosas.

Uma delas é Atração Fatal, filme de Adrian Lyne, com Glenn Close e Michael Douglas. É belíssima a digressão feita sobre a personalidade dos personagens... Em um dado momento da narrativa surge aquela imagem que não sai da cabeça daqueles que assistiram ao filme: o coelho branquinho que está na panela com água fervente, os olhos abertos, cozinhando por inteiro. Pois é pautada nessa situação que a narradora cunha a expressão “coelho-na-panela”. Diz ela: "Uma mulher está coelho-na-panela quando ela fica tão ensandecida com uma situação, que passa a ver razão nas piores crueldades" (p. 40).

Fiquei a pensar que a expressão pudesse ser difundida no universo feminino para denotar situações semelhantes àquelas resultantes da TPM. Seria uma variante da TPM em sua forma social. Se a TPM resulta de fatores naturais, a "mulher coelho-na-panela" resultaria dos intrincados labirintos do relacionamento humano. Em suma, não defluiria de causas orgânicas. Não se imagine como seria a "mulher coelho-na-panela" acometida pela TPM...

Voltemos à expressão... O que a deprecia é a serenidade exigida para colocar o tal coelho na panela em circunstâncias de aflição e ira. Talvez por isso ela soe inviável. Todavia, pensemos.

Como poderia a mulher colocar o bicho na panela? Deveria matá-lo, por suposto. O coitado não poderia ser cozido vivo. Isso seria muita sacanagem (que o digam os defensores dos animais!). Pois bem. Então, seria preciso matá-lo. Mas, como fazê-lo? Não importa. Na hora da raiva, a mulher faria isso, sem hesitar. O segundo passo consistiria em arrumar uma panela na qual coubesse o coelho. Haveria que se procurar por uma. E se ela inexistisse? Se houvesse apenas uma canequinha para ferver a água do café? Suponhamos, para prosseguir com a brincadeira, que a mulher encontrasse a panela. Pacientemente, deveria abrir a torneira e esperar que o recipiente ficasse cheio. Colocaria o coitado na panela, ligaria o fogo e pronto: teríamos um coelho na panela.

Falando assim, tudo parece fácil. Imagine-se, entretanto, uma mulher desperada equacionar todos os dados dessa tarefa e executá-la de modo eficaz. Coisas que só acontecem no cinema...

A expressão derivada de uma trama ficcional não precisa de justificativa. O problema seria a falta de praticidade para pronunciá-la. "Mulher coelho-na-panela" é muito extensa... Não se afigura interessante, sobretudo se comparada à TPM, sigla vagabunda de três letras, curta e fácil de pronunciar...

Esqueçamos a expressão, a mulher, o coelho e a panela.

Outras referências daquela década são mencionadas quando a narradora das memórias refere-se ao SBT. Antes de enumerar alguns programas da emissora, diz ela: "agora, que o SBT fodeu com a minha vida, ah, isso fodeu". (p. 55). Sugere que deveria receber "indenização por perdas e danos" e que essa indenização deveria ser duplicada "por ter visto um filme chamado O Homem Cobra". (p. 55).

Embora não fosse minimamente afeito à emissora (e ainda não sou!), cheguei a assistir ao filme, confesso. Eu era moleque e naquela época não havia internet, TV a cabo e outras modernidades mais. As opções de entretenimento eram exíguas. Daí porque, muitas vezes, tínhamos de assistir ao que se nos apresentava... A vida era muito tacanha!

O Homem Cobra é um inequívoco trash dos anos oitenta. A história é patética... Até onde minha memória alcança, trata-se da trajetória de um sujeito que aceita submeter-se, sabe-se lá por qual razão, a alguns experimentos do pai de sua namorada. E tome picada de cobra no banho! Os tais experimentos não dão certo e o rapaz acaba tendo o organismo todo alterado. Parece desenvolver o couro característico das cobras e outras feições do animal. Pouco a pouco, vai apodrecendo, virando um bicho esquisito. Perde os membros inferiores e superiores. Fica verde. Nessas circunstâncias, o que poderia restar a um homem/animal como ele? Virar objeto de exposição em um circo de aberrações da comunidade local.

Numa noite qualquer, a namorada, que havia tempos não se encontrava com ele, entra no tal circo e passa perto da banheira em que o coitado se encontra. A seguir temos a seguinte sequência: ela olha para ele, ele emite alguns grunhidos como a insinuar sua identidade pretérita, ela berra, balança a cabeça, descabela-se, chora e sai correndo. Os incautos telespectadores ficam sem saber se a moça o teria reconhecido ou se apenas ficou aparovada com a aparência daquela criatura. Não sei como o sujeito termina... Nem o filme. Não cheguei a sonhar com ele, mas espero não vê-lo nunca mais...

Se comecei a falar da Fernanda e logo passei ao livro é porque há alguma razão. Embora se diga que geralmente o autor se esconde por trás de seus personagens, gerando um cômodo álibi, acredito que há um pouco de Fernanda Young na narradora daquelas memórias. Há momentos em que o leitor pode supor uma identificação entre a autora e a personagem da trama. A consonância entre as opiniões da Fernanda expressas no programa e verificadas na trama do livro talvez corrobore minha impressão. Quem quiser conferir, deve assistir ao programa e ler o livro. Valerá a pena.

Para terminar, explico a sinceridade espontânea aludida no início desse post. Fernanda Young é a única personalidade midiática capaz de afirmar diante das câmeras que desejaria chamar alguém de vaca no trânsito (entrevista com Caio Blat), é a única capaz de reputar punheteiros os moleques que andam em bando e xingam meninas gordas (entrevista com Cláudia Gimenez), é a única capaz de confessar, em tom de pilhéria, o pavor de vento encanado, herança da criação de seus avós (não lembro quem era o entrevistado). É espontaneamente sincera porque capaz de declarar que a voz de Paulo Miklos é a melhor dentre todas as demais dos Titãs; porque capaz de declarar, sem nenhuma histeria, que invejou Paula Toller quando a moça cantou com o Chico...

A Fernandinha – ela que me perdoe a inconveniente intimidade – é inteligente, bem humorada e simpática. Com ou sem TPM, coelho-na-panela, homem cobra e o escambau, é a salvação dos domingos.



terça-feira, 6 de maio de 2008

O segredo de Mário de Andrade: memórias de um assassino

O segredo de Mário de Andrade: memórias de um assassino - Roberto Barbato Jr



Conto originalmente publicado no Portal Cronópios (http://www.cronopios.com.br), em 03/05/2008.

Observação: os personagens verídicos constantes desse conto, embora inseridos em seu contexto histórico, são tratados de forma ficcional numa mistura de fantasia e realidade. Esse é, portanto, um conto de ficção.

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Mário de Andrade morreu de infarte do miocárdio, no dia 25 de fevereiro de 1945, madrugada de domingo. Luis Saia, seu amigo, presenciou sua morte. Depois de algum tempo, houve rumores de que Mário lhe teria confidenciado um grande segredo. Muito se especulou a respeito. Alguns achavam que se tratava de uma brincadeira do Saia, outros acreditavam que era verdade.

***

Muito prazer! Meu nome é Octávio Leal. Eu matei Mário de Andrade. Como sofrera o pobre coitado!

Por trás do nosso grande escritor, estava eu, sempre a incentivá-lo, a fazê-lo crer que suas obras valiam a pena! Apoiava-o incondicionalmente, até o dia em que logrei sua indiferença. Resolvi, então, me vingar. Realizei minha obra prima: arruinei sua vida e depois, sutilmente, assassinei-o.
A história, sempre ingrata, impediu a revelação do meu nome. Ninguém nunca soube de mim. Boicotaram-me, deixaram-me mudo. Jamais uma linha de minha autoria foi conhecida. Resta agora a esperança de que essas memórias caiam nas mãos de algum incauto editor.

Conheci Mário no dia 25 de fevereiro de 1922. Dez dias antes, estive no Municipal, entre a multidão que o vaiou, enquanto lia versos na escadaria. As vaias eram intermináveis, ensurdecedoras. Olhei tudo com perplexidade. Aturdido, resolvi que o conheceria. Encontrei-me casualmente com ele no centro da cidade. Apresentei-me manifestando satisfação com o que lera por ocasião da Semana. Inicialmente, zombou de mim, fez pilhéria: imaginou que estava a fazer troças. Esclareci que falava sério. Caminhamos até a Praça da República em cujas imediações ele fraternalmente me convidou a tomar um lanche no Carlino. Ali conversamos por algumas horas. Elogiei os versos de Paulicéia Desvairada, publicado havia pouco. Disse-lhe que tinha pretensões literárias, mas supunha não levar jeito algum para a coisa. Ouvi seus conselhos com atenção. Ao final da conversa, deu-me seu endereço e convidou-me a aparecer a qualquer hora.

Temi ser inoportuno. Entretanto, na semana seguinte bati em sua porta, na Lopes Chaves. Levei alguns contos ainda esboçados. Queria sua opinião. Pegou-os de minha mão antes mesmo que eu entrasse em sua casa. Subimos as escadas que davam acesso ao seu escritório particular e lá, entre tantos papéis espalhados em sua escrivaninha, sentou-se para lê-los. Aqueles foram minutos longos, duraram mais que a eternidade. A figura de Mário, imponente, dava-me a impressão de que estava diante de um gigante. Suas palavras talvez mudassem minha vida. Sim, porque eu estava disposto a abandonar os negócios de minha família. Já havia tido inúmeras discussões com papai sobre minha incapacidade de administrar as cifras oriundas do ramo cafeeiro. Após ter me formado em engenharia, tive convicção de que queria estrear no mundo literário. Se fosse preciso, sairia de casa.

Ele lia e relia alguns trechos em voz alta. Ressaltava o que lhe parecia interessante. Tomei minha decisão naquele momento. Haveria de me tornar escritor. Hesitei em falar que já tinha começado a redação de um romance. À época, falava-se muito em poesia. Somente mais tarde é que os modernistas se arriscariam no terreno da prosa. Mário, é claro, estava à frente disso tudo. Rascunhava crônicas, contos, poesias e talvez já planejasse algum livro sobre folclore, outra de suas paixões.

Passei a freqüentar sua casa para preservar a amizade ainda incipiente. Sempre era muito bem recebido. Vez por outra apresentava-me o que estava escrevendo. Como a esperar por uma opinião favorável, perguntava meu parecer. Aquilo me deixava lisonjeado! Sem se importar com a intromissão, também deixava-me vasculhar sua papelada. Desfrutar da intimidade de Mário era o que de melhor podia acontecer a um homem como eu.

Tudo isso aconteceu até que um grande infortúnio se colocou entre nós. Falo de Paulo Duarte, um dos grandes amigos de Mário. Creio ter sido por volta de 1925 que se conheceram. Tornaram-se íntimos e, por razões que até hoje não compreendo, sempre que se encontravam em minha presença, faziam questão de me ignorar. Sentia-me realmente desprezado. Sabia que Paulo não tinha afeição alguma por mim. Desde o dia em que fomos apresentados, soube que não poderia haver qualquer sentimento de amizade entre nós. O fato de ser filho de um perrepista militante talvez tenha contribuído para essa animosidade. Mesmo assim, convidava-me a participar das reuniões em seu apartamento, na Avenida São João, onde recebia amigos íntimos.

Ah! As reuniões... Paulo bancava todo o estoque de vinho. Falávamos de tudo: literatura, artes, política e até de mulheres. Foi durante uma dessas reuniões que dei a idéia de fundar um instituto de cultura em São Paulo. Já havia pensado nele como uma espécie de embaixada paulistana da cultura, um órgão que pudesse concretizar algumas das idéias que discutíamos calorosamente naquelas noites. Embora a Semana ainda fosse muito falada, achava que era necessário investir em alguma coisa prática. Algo que fizesse dos modernistas não uns loucos, uns desvairados, mas gente de ação.

Como se fosse hoje, recordo-me do olhar de Paulo quando sugeri, quase gritando, em seu próprio apartamento:

– Precisamos de um instituto de cultura.

A bagunça começou com as palmas do Couto de Barros e terminou quando todos principiaram a pensar em elaborar os projetos do tal instituto. Choviam idéias! Quem não as têm nessas horas? Dado o pontapé inicial, todos foram pródigos em elaborar planos e lançar alternativas. No dia seguinte, contudo, ninguém lembrou-se de que eu estava lá.

Em poucos anos, o Prefeito Fábio Prado decidira dar vazão à minha idéia: fundara o Departamento de Cultura e de Recreação. Era 1935! Acometeu-me um estado de grande euforia, alimentei ilusões de que algum dia alguém fosse se recordar do instante feliz em que soltei aquela frase.

Muita coisa aconteceu antes do Departamento de Cultura. Voltemos no tempo para que se tenha uma noção do quanto estreitei amizade com Mário.

Apoiava-o em todos os seus projetos. Tal foi o que ocorrera quando tivera um plano maluco: queria ir ao norte, conhecer a região e colher material etnográfico. Lembro-me com nitidez do dia em que me convidou a participar da iniciativa. Faria a viagem para colher partituras, acompanhar danças dramáticas e outras manifestações culturais perdidas pelo interior do Brasil. Dissera-me que iriam d. Olívia Guedes Penteado e suas sobrinhas. Na realidade, o plano da viagem foi dela e Mário só aceitou porque também iam o Paulo Prado e o Afonso de Taunay. Quando eles manifestaram suas impossibilidades de partir é que ela veio me procurar, dizendo se tratar de assunto sério. Eu estava realizado! A pretexto de ter mais um homem na excursão, recorreu a mim. Asseverou que Mário era por demais teimoso e que a viagem ofereceria riscos. Tentou me responsabilizar pela segurança dele.

– O senhor vai, sim. Assunto encerrado! – exclamara categórica.

Fiz-me de rogado, alegando que não gostava de mato, rio, pernilongo. Ela, então, apelou:

– Você é uma das poucas pessoas a quem Mário dá ouvidos.

Aquilo não era verdade. D. Olívia sabia, no entanto, como me conquistar. Uns poucos elogios baratos eram suficientes para que eu cedesse. E, de fato, teria mesmo ido se não tivesse apanhado uma terrível gripe.

– Não agüentarei chegar sequer ao Rio – disse a Mário, mostrando-me enfraquecido.

Prometera que voltaria com uma coleção de partituras e faria questão de executá-las pessoalmente para mim. Durante o período em que estivera por lá, só mandara notícias à família. Eu aguardava ansiosamente por sua chegada, pois sabia que logo se trancaria em seu escritório para sistematizar o material colhido. Quando o regresso se aproximava, d. Maria Luísa, sua mãe, informou-me a data da chegada. Ele fazia questão de minha presença em sua casa. Não se esquecera de mim. Era bom demais saber aquilo.

O novíssimo material esperava o momento de ser utilizado. Mário dissera-me que precisava de tempo, de dedicação. Queria investir em um texto cuja idéia ainda não tinha. Permitiu-me ler as anotações que fizera ao longo da viagem.

Dia após dia, durante duas semanas, examinei tudo. Ao terminar, sugeri que escrevesse um romance. Sim, um romance! Por que não? Aquelas lendas, costumes e tradições dariam um pano de fundo extraordinário para a composição. E haveria de criar também um personagem marcante. Uma espécie de herói, um herói brasileiro...

Confesso que nem mesmo eu estava certo de que aquilo poderia render um livro. Julgava que ele quisesse transformar sua viagem etnográfica em um estudo sobre a cultura nacional. Ainda assim, deixei que comprasse a sugestão. Reiteradamente, colocava a necessidade de elaboração de alguma ficção.

Meses depois, avisara-me que tiraria férias na chácara de seu tio Pio Lourenço, em Araraquara, interior do Estado. Não nos vimos durante longo período. Fiquei a pensar que as tais férias estavam por demais extensas. Encontrei-o no Franciscano, tomando um chope. Mostrou-me alguns papéis datilografados. Eram os originais de Macunaíma. Bati os olhos no primeiro parágrafo. Lambi os beiços, implorando para que consentisse sua leitura integral. Mário recusou, queria que todos lessem quando viesse a lume. Macunaíma era justamente o livro que eu havia idealizado e lhe sugerido. De uma certa maneira, aquilo também era obra minha.

Acometeu-me, então, uma grande decepção. Flagrei-me totalmente ressentido ao me deparar com a primeira edição do livro numa livraria do centro da cidade. Ao abrir o exemplar não pude deixar de procurar pela dedicatória. Mal pude terminar sua leitura:

"A Paulo Prado, a José de Alencar, pai-de-vivos que brilha no vasto campo do céu".

Mário havia me preterido. Meu nome deveria constar daquela dedicatória! Era eu o único homem capaz de merecê-la.

Meses depois, no apartamento do Paulo, insinuei ao próprio Mário o quanto fora interessante minha sugestão. Paulo ouvira a conversa de esguelha e ambos caíram na risada. Enrubescido, partilhei da gargalhada, tendo um choro sentido por dentro. A exemplo de Macunaíma, jurei vingança.

Sim, jurei vingança! Estava decidido: sua sobrevida começaria naquele dia. Para tanto, deveria cuidar para que nossa amizade não desbotasse.

Minha rotina não mudara, exceto pela expectativa de surgir o momento de arruiná-lo. A cada dia levantava-me da cama imaginando a existência de um possível ponto fraco de Mário. Ele devia ter um! Passaram-se alguns anos, vieram as revoluções, fundou-se a Constituinte. Vivíamos um momento de intensa turbulência. Sempre alheio às questões políticas, o poeta continuava o mesmo: às vezes viajava, mas a maior parte do tempo vivia recluso em sua casa, estudando ou escrevendo. Continuei a visitá-lo, fingindo que nada acontecera.

Em maio de 1935, recebi recado de que ele queria ter comigo. Quando cheguei em sua casa, abriu a porta com olhar circunspecto. Terminara de ler os originais do meu romance, entregues em ocasião passada. Se aprovasse meu texto, qualquer editora iria publicá-lo. Seria minha estréia no mundo das letras. Suas observações insinuavam, entretanto, que não havia salvação: minha prosa era pobre e minha linguagem, precária. Não foi preciso que falasse muito, percebi que não haveria futuro para meu livro. Restava-me ir embora, pensar em outro projeto. Repentinamente, Paulo Duarte aparecera.

Aquela manhã entraria para o álbum de minhas memórias mais ríspidas. Paulo procurara Mário para lhe convidar a ser diretor do Departamento de Cultura que o Prefeito Fábio Prado resolvera criar. Não era um sonho, era a mais pura realidade! Fiquei pasmo ouvindo a conversa dos dois. Ao convite, Mário respondeu recusando. Eu ali mudo, quieto, imaginando que alguém pudesse olhar para a cadeira em que me sentara. Quem sabe não seria convidado também? Aceitaria qualquer cargo! Era uma oportunidade única de projeção intelectual. Além disso, a idéia do tal departamento era minha. Num dado momento, Paulo caminhou em direção a mesa de Mário, colocou as mãos em meu manuscrito, leu o título e soltou uma enorme gargalhada. Estava ridicularizando meu trabalho. Mário, ironicamente, meneou a cabeça, como a insinuar a pobreza do texto. Nunca me senti tão revoltado. Se pudesse, arrebentaria os dois! Só me acalmei quando d. Maria Luísa entrou no cômodo, a pedido de Paulo. Ambos convenceram Mário a aceitar o convite. Mais uma vez, o maior intelectual daquela época seria promovido às custas das minhas idéias geniais.

Ele apostou todas as suas fichas no Departamento de Cultura. Ouvindo-o falar a respeito, qualquer um teria a impressão de que se tratava da grande obra de sua vida. Junto dele estavam Sérgio Milliet, Rubens Borba de Morais, Nicanor Miranda e, é claro, Paulo Duarte. Numa São Paulo que crescia freneticamente, eles revolucionaram a cultura paulistana. Concertos gratuitos, Bibliotecas Ambulantes, estudos sobre folclore, Parques Infantis, criação de uma Discoteca Pública... Estava em curso um projeto de democratização cultural jamais visto no Brasil. Tudo isso e muito mais teria dado certo, não fosse minha interferência e algumas contingências da história.
Não poupei esforços para arruinar o Departamento. Foi complicado derrubar aquele pessoal: Mário, Sérgio, Borba e Paulo eram já homens influentes, gozavam de prestígio junto a Fábio Prado e a Armando de Salles Oliveira, governador de São Paulo. Por isso, tive de usar justamente uma arma repudiada pelo próprio Mário: a política. As contendas entre os perrepistas e os democráticos ainda eram visíveis. Mesmo após a união das agremiações em torno da Frente Única o clima de animosidade perdurara. Encontrei aí minha estratégia de vingança. A militância política de meu pai e o contato que desde a infância eu tinha com os líderes do PRP me proporcionariam a munição eficaz para a morte de Mário. Lembrei-me de um redator da Gazeta e do Correio Paulistano, ambos jornais da oposição. Era amigo de minha família e nos devia alguns favores. Não foi preciso muito esforço para convencê-lo a publicar uma série de artigos caluniosos sobre o Departamento. Aquilo tocaria profundamente a vaidade intelectual de Mário.
No início de 1936 publiquei na Gazeta um texto que teria ampla repercussão. Atacava frontalmente a iniciativa das Bibliotecas Populares. Por razões óbvias não o assinei. Sabia que agrediria o Borba, a quem tanto gostava, mas Mário seria o maior atingido, já que respondia por tudo. No dia da publicação, como se nada tivesse ocorrido, passei por sua casa. Quando cheguei, vi-o tremendo de raiva. Ele sussurrava trechos do artigo, batia no jornal e exclamava coisas impensáveis. Mostrava para mim aquilo que saíra de minha própria pena. Eu conhecia o teor daquele texto como ninguém, palavra por palavra. Procurei acalmá-lo, demonstrei-me condoído. Por dentro, regozijava-me. Minha vingança estava apenas começando.

Artigos não bastavam, queria mais. Em outubro daquele ano, procurei por Sílvio Margarido, vereador da oposição. Em meio a nossa conversa, mencionou seu descontentamento para com o Departamento. Disse-me que os gastos com as brincadeiras daqueles "futuristas", como se costumava dizer para irritar Mário, eram enormes. Dei-lhe a idéia de contestar, em sessão na Câmara Municipal, as atividades em andamento. O sucesso da provocação foi enorme. Tanto assim que a resposta de Vicente Azevedo, vereador ligado aos democráticos, ocupou duas sessões para narrar os avanços da instituição paulistana e rebater os disparates ditos por Margarido.

Se nas conjuras eu agia com discrição, em público incentivava tudo o que dizia respeito ao Departamento. Deviam achar que eu era um grande entusiasta daquela maluquice toda.
O esboroar-se de tudo aquilo não se fez esperar. Foi com imensa felicidade que saudei o advento do Estado Novo. Ele seria um balde de água fria para os modernistas. Na noite de 10 de novembro abri uma garrafa de vinho que papai guardava para ocasiões especiais.
As coisas começaram a mudar, enfim. Mário manifestava muita insegurança, pois seu grupo era vítima de patrulhas constantes. Diante do novo regime, sabia que seu posto estava ameaçado. Pior que isso, receava que seu projeto mais importante ruísse: tratava-se da Missão de Pesquisas Folclóricas. Mário e Oneyda Alvarenga, então diretora da Discoteca Pública Municipal, já estavam planejando uma viagem ao norte e ao nordeste com o intuito de colher material etnográfico. Temeroso que não pudesse pessoalmente participar da coleta, Mário logo arrumou quatro homens para a Missão. O primeiro que se dispôs a trabalhar foi Luis Saia, um jovem arquiteto inteligentíssimo e já familiarizado com a metodologia etnográfica. Depois, conseguiu reunir o maestro Martin Braunwiser, Benedicto Pacheco e Antônio Ladeira. A Missão partiu no início de 1938. E foi neste ano que Fábio Prado foi exonerado da Prefeitura. Armando também saiu da governadoria do Estado.

Esperei para saber quem seria o novo prefeito da capital. Surpreso, tomei conhecimento de que era Francisco Prestes Maia, um antigo amigo e colega na Politécnica. Chiquinho, como eu o chamava, poderia conseguir algum tipo de embargo ao Departamento. Nem precisei fazer muitos esforços. Assim que assumiu a prefeitura, mostrou-se avesso às atividades em curso. De pronto irritou-se com as Bibliotecas Ambulantes que o Borba havia implementado na cidade. Aos poucos foi ficando ainda mais insatisfeito. Em uma de nossas conversas, toquei no assunto da Missão de Pesquisas Folclóricas que já se encontrava no norte do Brasil. Tinha plena consciência da importância dela para Mário. Chiquinho convenceu-se de que aquilo não passava de uma brincadeira de folclorista amador e mandou que os trabalhos de pesquisa fossem abandonados. Os cofres públicos não gastariam mais um níquel com aquela aventura. Os missionários teriam de regressar a São Paulo, abandonando o roteiro de viagem. Mário devia estar em estado de perplexidade e agonia. No entanto, com sua sagacidade, deu um jeito para que seu projeto não naufragasse. Telegrafou a Luis Saia e o instruiu para que adentrasse o sertão, alegando posteriormente que não recebera a ordem de regresso do prefeito. Dessa maneira, poderia cumprir o trajeto estabelecido e terminar a coleta do material etnográfico. Mário era mesmo muito esperto...

Só não foi esperto o suficiente para se manter no cargo de diretor. Friamente, articulei com Chiquinho sua exoneração. Em 10 de março, exatos quatro meses após a irrupção do Estado Novo, tivera de deixar o posto no qual tudo apostara. A demissão lhe custaria muito caro! O primeiro passo concreto de minha vingança havia sido dado. Restava apenas o momento oportuno para completá-la.

Não mais vi Mário durante alguns meses. No final de junho, totalmente deprimido, mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, lecionaria na Universidade do Distrito Federal e, posteriormente, seria contratado para trabalhar no Instituto Nacional do Livro, órgão ligado ao ministro Gustavo Capanema. Sabia que Francisco Pati, seu sucessor no Departamento, não daria continuidade a seus projetos culturais. A frustração lhe seria ainda mais severa por conta disso. Encarreguei-me de lhe enviar relatórios pormenorizados sobre o que acontecia na instituição. Ele me respondia com tom confesso de desalento. Era um Mário diferente, sôfrego, apático... Todos os seus amigos tinham a mesma impressão que eu: ele estava se acabando.

Anos depois, numa noite de verão, em fevereiro de 1941, encontrei-o passeando pelo centro da cidade. Abraçamo-nos e pude ver, contrariado, que ele estava feliz novamente. O que teria acontecido? Voltara para São Paulo? Sim, resolvera regressar à Paulicéia. Contara-me sobre suas relações com os intelectuais cariocas e o ministro Capanema, relatara-me as aventuras da elaboração do projeto da Enciclopédia Brasileira. Enfim, desabafara sobre sua estada no Rio. Agora estava de volta, queria ser feliz novamente. Ser feliz enquanto eu permitisse, bem entendido. Seu destino ainda estava em minhas mãos.

Àquela altura dos acontecimentos já não queria mais importuná-lo. Desejava apenas impingir-lhe o golpe fatal. Decidi que o deixaria viver mais alguns anos, o suficiente para concluir alguns projetos pessoais. Recordo-me que em 1942, planejava, junto a Martins, a publicação de suas obras completas. Eu deveria permitir que isso acontecesse. Também nesse ano, resolveu lavar a roupa suja dos modernistas. Voltou ao Rio para proferir uma palestra que se tornaria célebre: "O Movimento Modernista".

No início de 1945, ouvi rumores de que sua saúde andava debilitada. Seu coração já estava fraco e ele fumava excessivamente. Tinha certeza de que fortes emoções poderiam lhe causar algum dano irreversível. Não havia dúvidas de que uma grande revelação lhe seria letal. Depois de ter ido tão longe, julgava que um simples recuo seria prova de minha incompetência. Precisava prosseguir. Em alguma coisa eu tinha de lograr sucesso.

Na noite de 24 de fevereiro daquele ano fui visitá-lo. Trancafiados em seu escritório, conversamos durante horas. D. Maria Luísa nos serviu mate gelado com torradas. Ficamos sentados um longo tempo... Principiei a narrativa daquela que seria minha única obra.

– Lembra-se de quando você publicou Macunaíma, Mário?

– Claro! – dissera efusivamente.

– Lembra-se de que fui eu quem sugeriu a elaboração do livro, assim que você voltou de viagem?

– Como esquecer? Macunaíma surgiu daí... Foi idéia sua.

– Mas, você nunca admitiu isso.

– Tavinho... não ficava bem... O que diriam?

– Nem ao Paulo você disse – falei ressentido.

– Ora, o Paulo...

Continuei:

– Você não imagina o meu estado quando abri Macunaíma pela primeira vez e vi a dedicatória...

Mário percebeu o castigo que me impingira. Tentou se explicar:

– Você não entendeu o sentido da dedicatória. É que...

Cortei-o. Estancou, ficou rijo, duro, com o peito vazio. Percebera que por trás das perguntas havia alguma cobrança.

– Recorda-se das reuniões no apartamento do Paulo?

Estatelou os olhos. Levantou-se da cadeira e tornou a se sentar.

– Sim... Era uma época formidável...

– Lembra-se da noite em que eu sugeri a criação de um instituto de cultura para São Paulo? Puxe pela memória, Mário. Você há de se lembrar...

– Recordo-me vagamente. Foi você mesmo? – perguntou incrédulo.

– Aquela cena nunca saiu da minha cabeça. Tomávamos um delicioso Montrachet e eu divagava. Você indagou sobre o que eu pensava. Houve um enorme silêncio. Todos se voltaram para mim, como a esperar pela resposta. Depois que falei, Paulo fez uma cara de espanto, zombando da minha sugestão. Só assentiu quando o barulho das palmas sufocou sua ironia. Como todo hipócrita, pôs-se a bater palmas também. O Departamento de Cultura surgiu naquele instante.

– Agora me recordo...

– Mas, no dia seguinte, ninguém se lembrou disso. Veio o Departamento e meu nome continuou esquecido.

– Todos queriam cargos...

Mário entendia o que estava se passando. Houve um momento em que ficou pálido e me pediu um copo de água com açúcar.

Continuei, sem atender ao seu pedido:

– Observe os fatos, Mário! A dedicatória de Macunaíma: tudo começou aí. Naquele dia jurei vingança, como seu querido personagem. Quanta ironia: Macunaíma contra Mário! Eu estava disposto a esquecer o episódio se não houvesse a história do Departamento. Contei com a ajuda de Chiquinho, meu velho amigo. Conhece-o? Não foi difícil seduzi-lo a acabar com seus sonhos. O que você espera de um prefeito fascinado por grandes avenidas? Um sujeito como ele não poderia voltar a atenção para aquelas molecagens que você apelidava de cultura. Eu sabia, no entanto, a importância que elas tinham para você.

Empalidecera novamente. Deixei que ele mesmo pegasse o copo e se servisse.

– Lembra-se da tal Missão Folclórica? O que aconteceu?

– O Maia mandou acabar com ela. Ordenou para que todos os integrantes voltassem para São Paulo.

– Isso mesmo, Mário. De quem foi a idéia?

Ele levou a mão ao peito, insinuando fortes dores.

– Você não fez isso, Tavinho...

– Fiz mais que isso... Por que o Departamento despertaria tanta raiva da imprensa paulistana? Você há de recordar que os artigos não eram assinados. Pois lá estava eu. Quanta diversão! Imaginava que aqueles textos lhe causavam incômodo.

– Quase me mataram de raiva...

– E o discurso do Margarido, lembra-se disso? Ele e eu também éramos amigos. Quantas vezes você nos viu juntos? Nunca desconfiou de nada?

Mário estava com as mãos trêmulas. Seus lábios estavam brancos e sua face, lívida. Calei-me por alguns segundos. Não fui capaz de olhá-lo de frente. Numa seqüência rápida de imagens turvas recordei tudo o que aconteceu desde que o encontrei no centro da cidade. Atentei para uma grande coincidência: já passava da meia-noite. Era, portanto, dia 25 de fevereiro. Havia exatos vinte e três anos eu o conhecera...

Ouvimos passos na escada: era Luis Saia que estava chegando, tarde da noite. Reagimos bem, disfarçando o mal-estar. Demos um breve sorriso quando o avistamos. Apressei-me na despedida:

– Fiquem à vontade. Eu já estava de saída.

Na manhã daquele dia, tomei conhecimento da morte de Mário. Haveria apenas um segredo a guardar...


Roberto Barbato Jr é autor de Missionários de uma utopia nacional-popular: os intelectuais e o Departamento de Cultura de São Paulo (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2004) e de Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico (Campinas: Millennium Editora, 2006). Eventualmente e sem nenhum compromisso, escreve em seu blog Lápis Impreciso: http://lapisimpreciso.blogspot.com E-mail: rbarbatojr@yahoo.com.br