terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cesar Camargo Mariano e a generosidade do velho

Cesar Camargo Mariano e a generosidade do velho

Em 1986, quando se divulgou que Cesar Camargo Mariano daria um show no São Carlos Clube, a molecada que tinha alguma aspiração musical ficou ansiosa. O repertório poderia ser apreciado por quem, independentemente de preferências de estilo, tivesse apreço pela boa música. Assim, pouco importava se não houvesse a movimentação típica das apresentações do rock nacional, então em efervescência.

O show tão cobiçado seria, ao menos para mim, inacessível. Primeiramente, porque havia um incômodo de natureza interior: o preço do ingresso era elevado. Trezentos cruzeiros era uma quantia acima daquilo que eu me permitia pedir ao meu pai. Em segundo lugar, havia um problema de ordem prática: eu estava em período de “segregação” por ter matado aulas na sexta-feira da semana anterior ao show. Com o perdão do exagero, por quatro finais de semana minha liberdade estaria “cerceada”. Meu pai não era afeito a esse tipo de reprimenda, mas a infração foi comunicada a ele pela própria diretoria da escola, o que moralmente o impedia de adotar com o filho outro procedimento que não aquele. Pois é. A data do show do Cesar Camargo coincidia com o período da tal segregação que me foi imposta. Fazer o quê? Em situações como essa, aproveita-se o que é possível, não é?

Foi com esse raciocínio que formulei a ideia de que o show seria preterível desde que eu acompanhasse o ensaio, a chamada “passada de som”. Como morava perto – literalmente em frente – da sede do clube, aproveitei para dar um pulo lá no salão de bailes. Esse era, aliás, um hábito que tinha sempre que alguma banda se apresentava por ali. Passava tardes ouvindo e vendo os músicos se prepararem. Ao lado do palco, vi Cesar Camargo brincar com as teclas do piano. Como todo músico virtuoso, seus dedos flutuavam sobre o instrumento. Mas não havia nenhum desatino de notas velozes. Ele imprimia leveza e precisão em acordes contidos.

Quando o ensaio acabou, saí dali e me encontrei com uma turma que esboçava uma maneira de burlar a entrada no show. Entrariam no clube por uma cerca furada do campo de futebol e, de modo furtivo, passariam pelas quadras que ficavam atrás do salão. A entrada estaria, então, liberada: sem catracas e sem apresentação de ingressos. Moleza! Para mim, contudo, ainda que o plano fosse eficaz, de nada adiantaria.


No final da tarde daquela sexta-feira, cheguei em casa e comentei, sem nenhuma intenção subjacente, o plano que seria seguido à noite pelos meus amigos e conhecidos. Meu pai ouviu atento o relato e, depois, perguntou-me o valor do ingresso. Curioso, esperei por algum comentário depreciativo ou algum tipo de achincalhe relativo à adoção daquele indecoroso estratagema. O velho, generoso como sempre, me tirou do castigo e me deu o dinheiro para a compra do ingresso. A sua compreensão e o seu apoio, acreditem, foram muito melhores que o show.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pontepretano: o bravo da recalcitrância

Pontepretano: o bravo da recalcitrância

Sou corintiano. Nunca pensei em mudar de time e, em matéria de futebol, jamais tive qualquer inclinação que não fosse o amor pelo Timão. Desde menino o esquadrão do Parque São Jorge avassalou meu coração. Lembro-me do dia em que o Corinthians rompeu longo jejum em vitórias contra a Ponte Preta, naquela final histórica do Campeonato Paulista, em 1977. Não prestava atenção ao embate, mas brincava pela sala na qual todos o assistiam. Em 1982, sobreveio a consciência da Democracia Corintiana e a paixão pelo Dr. Sócrates. Naquela época, talvez eu torcesse mais pelo Doutor do que pelo Corinthians. Depois, vieram as grandes fases, o rebaixamento, a conquista da sonhada libertadores e do campeonato mundial. Enfim, meu coração é corintiano. Eu não me engano.

Se falo isso é porque depois que vim para Campinas, por inúmeras vezes, me perguntaram: “Em Campinas você torce pra quem: Ponte Preta ou Guarani? A resposta é óbvia: para o Corinthians. Sim, para o Corinthians, em qualquer lugar do mundo. Não tem essa de que o fulano torce para um time numa cidade, para outro em uma outra cidade, e por aí vai. Quem torce, torce para seu time. E pronto.

Isso não impede, contudo, que exista alguma simpatia por outro time que não “aquele do coração”. Eu, por exemplo, tenho apreço pela Ponte Preta. Quando disputam o mesmo campeonato, Timão e Ponte, torço pela vitória do meu time. Todavia, encerradas as possibilidades de conquistar o título, fico na torcida para que o time campineiro logre, pela primeira vez, algum resultado digno de representatividade (um título de primeira divisão ou internacional).

A simpatia pelo time da Macaca não se deve apenas ao fato de ele ter, tal como o Timão, o alvinegro como traço emblemático. Deve-se, também, ao fato de haver uma grande identificação com a massa. A Ponte é um time popular, de torcida sofrida, empenhada e insistente. Mesmo após 113 anos de luta – mais de um século, vejam só! – sem nenhum título na divisão de elite, a Macaca continua esperançosa, ávida pela conquista de um campeonato.

Acho que o pontepretano é um bravo da recalcitrância. Sua insistência, sua tenacidade e senso de esperança são admiráveis. Já por isso mereceria a reverência incontestável das torcidas adversárias.

O triste malogro da conquista da taça Sul-Americana não desmerece em nada o brilho característico da Macaca. O título tão esperado ainda está por vir. Torçamos!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Estamos juntos?

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
(Gilberto Gil - Metáfora)

Não se duvide que o poder da metáfora seja infinito e possa ser utilizado até mesmo pelos menos sofisticados em matéria literária. As crianças, com sua imensa capacidade de dedução, são capazes de nos surpreender com o sentido figurado de muitas expressões. Não sabem o significado delas, mas a usam com toda propriedade. Os boçais costumam se apoderar do sentido análogo. Traçam paralelismos, fazem comparações, utilizam exemplos à farta. Felizmente, a metáfora é democrática e se presta a propósitos de toda sorte e grandeza.

Exemplo disso é o que ocorreu recentemente. Ao saber da expedição dos mandados de prisão de José Dirceu e José Genuíno, o ex-presidente do Brasil, Sr. Luiz Inácio, telefonou para os dois e disse: “Estamos juntos”. Com o perdão da repetição: ao saber que seus colegas de partido estavam na iminência de ser presos, Lula se dirigiu a eles para dizer que “estavam juntos”.

Como, juntos? Juntos, onde, cara pálida?

Os dois Josés iriam – como foram! – para o xilindró e Luiz Inácio continuaria – continua! – fruindo de sua liberdade. Teria ele perdido a noção espacial? Ou seria detentor do dom da ubiquidade?

Só a metáfora poderia justificar uma frase de tão mau gosto! Mesmo com tanta licença poética, a expressão do ex-presidente soa oportunista. Aliás, sob esse aspecto, ele tem jogado um bolão (justo ele que aprecia tanto as analogias com o futebol)! 

Estamos juntos? Peroba nele!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Se o Genuíno pode...

Se o Genuíno pode...

Acendi um cigarro, olhei para o lado e disse:

- Mazeu, acende um cigarro aí. Se o Genuíno pode, nós também podemos.

Na verdade, ninguém podia. No anfiteatro, existiam placas com a indicação de “proibido fumar”. Todavia, o primeiro a acender o cigarro foi o deputado petista, que estava lá para falar sobre sua trajetória de vida e sobre a política brasileira.

Logo que demos o primeiro trago, vimos o diretor da faculdade (se não me engano, o nome dele era Telmo) falar alguma coisa ao pé do ouvido do então parlamentar. Depois, balançou a cabeça em direção a nós, como a indicar que agíamos daquele modo motivados pela iniciativa do deputado.

Ato contínuo, Genuíno apagou seu cigarro. E nós, os nossos. Se ele podia, nós também podíamos.

Isso aconteceu em 1991 ou 1992, no auditório da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. A história é curta, mas verídica. 


sábado, 2 de novembro de 2013

Seleção de todos os tempos

Seleção de todos os tempos

Recentemente, para comemorar o dia do futebol, meu amigo Carlos Henrique Gileno propôs uma brincadeira interessante: montar a seleção de todos os tempos. A única exigência negativa é que não se escale jogadores que não se viu jogar.

De acordo com a proposta feita, pensei na minha seleção. Nascido em 1972, não tive a oportunidade de ver Pelé, Garrincha, Canhoteiro, Pagão, Luisinho, Cláudio, Carbone e Baltazar jogarem. Por outro lado, assisti, pela televisão, Sócrates, Zico, Falcão e a genial seleção de 1982. Também acompanhei o triunfo do Timão no final dos anos noventa e início de 2000. Assisti aos dois mais belos gols de todos os tempos (em matéria de futebol, exagerar nunca é demais!).

Chega de blablablá. Vamos à minha seleção.

Goleiros:
Titular: Rinat Dasayev (Rússia, 1982)
Reserva: Dino Zoff (Itália, 1982)

Zagueiros:
Carlos Gamarra (Paraguai)
Aldair (Brasil)

Lateral esquerdo: Éder (Brasil)
Lateral direito: Edílson (Brasil)

Meio de campo: Marcelinho Carioca (Brasil); Sócrates (Brasil)
Maradona (Argentina); Zico (Brasil)

Atacantes: Ronaldo Fenômeno (Brasil), Romário (Brasil).

Ok, ok! Já estou ouvindo as críticas de que a minha seleção é praticamente brasileira. Mais que isso: corintiana. Fazer o quê? É pra quem pode!


Quem quiser, que monte a sua seleção.

sábado, 28 de setembro de 2013

O Direito Penal em Amor à Vida

O Direito Penal em Amor à Vida

Em algum momento da nossa história, os autores da teledramaturgia devem ter feito um pacto: mostrar, em suas tramas, situações jurídicas que nenhuma relação têm com a realidade. Em suas novelas colocariam determinadas cenas incompatíveis com o mundo empírico. Quem assistisse às suas narrativas, ficaria com uma visão distorcida do direito brasileiro. Sem correr o risco do exagero, seria uma espécie de desserviço ofertado aos telespectadores. Tudo isso teria sido confabulado em uma furtiva reunião da qual participariam os mais famosos escritores globais.

Naturalmente, a cena acima descrita é fictícia. Por certo, nenhum autor faria, conscientemente, das relações jurídicas e processuais um palco de escárnio ou de outra forma de entretenimento. Se as situações da trama televisiva não são compatíveis com a realidade do direito pátrio, isso em nada desmerece o produto novelesco. Até onde se saiba, não há, por parte de seus autores, nenhuma obrigação de expor institutos jurídicos num veículo tão prosaico de diversão. Não seria razoável deles exigir algum tipo de pedagogia ou didatismo jurídico. Novela, afinal, não se presta a isso. 

Abusar da criatividade e desdenhar da realidade jurídica para escrever capítulos que vão ao ar diariamente tem sido uma rotina dos autores globais. Salvo equívoco, poucos deles, em raríssimas novelas, preocuparam-se em afiná-las com as regras do ordenamento jurídico brasileiro. O que se vê, à saciedade, é justamente o contrário.

Para que não se alongue excessivamente sobre o assunto – material não faltaria para ilustrar o que se alega –, siga-se com apenas um exemplo.

“Amor à vida”, novela das nove atualmente no ar, tem trazido a lume, ao menos na seara penal, uma grande “inventividade”. Quando verificou que Atílio (Luis Melo), já casado com Vega, havia assinado um acordo de união estável com Márcia (Elizabeth Savalla), a advogada de sua esposa, Sílvia (Carol Castro), disse que iria “entrar com uma denúncia pelo crime de bigamia”. Contudo, a titularidade da ação penal do crime de bigamia é do Ministério Público, pois se trata de ação penal pública incondicionada. Com efeito, a nobre advogada não poderia, jamais, “entrar com uma denúncia pelo crime de bigamia”.

Depois de alguns capítulos, a situação mudou. Se, até então, a ilustre causídica pensava em denúncia, com o tempo passou a cogitar da possibilidade de ajuizar uma Queixa-Crime. Isso mesmo! Antes a nobre advogada entendia que poderia cumprir o papel do Ministério Público ao ofertar denúncia; posteriormente, ela mesma poderia ajuizar uma ação penal privada por um crime que é de ação penal pública incondicionada.

Tem mais. Márcia também se interessou por ver Atílio processado. Contratou um advogado – à época recentemente aprovado no exame da OAB – para representá-la. Ele, tal como sua colega, não hesitou em tomar uma providência: “entrar com uma Queixa-Crime”. Ao se consultar com seu patrono, Márcia decidiu: “Entra, meu filho, entra com o que você quiser”.

Não sei como (realmente não me lembro dos meandros dos capítulos), sobreveio a acusação pelo crime de falsidade ideológica. Atílio deveria responder criminalmente por ter falsificado os documentos que lhe permitiram casar-se com Márcia, utilizando o nome de Alfredo Gentil.

O processo culminou numa pândega audiência na qual compareceram diante da Juíza as duas “vítimas” (mulheres de Atílio) e seus advogados, o suposto criminoso (Atílio, é claro) e o representante do Ministério Público. Ao término da inverossímil instrução criminal, o réu foi condenado – pasmem! – a 5 anos de reclusão, a serem cumpridos em regime fechado. Criminalistas e juristas de todo o país devem ter se divertido à exaustão (ou se revoltado): nunca viram pena e regime tão pesados por dois crimes pouco gravosos: bigamia e falsidade ideológica.

A trama avançou no tempo, bebês nasceram, a rotina dos personagens se alterou, casamentos se desfizeram... Onde estava Atílio? Permaneceu segregado, preso como um criminoso de alta periculosidade. 

Enfim, na divertida novela de Carrasco, o Direito Penal brasileiro é revirado. A ele se somam tantas outras discussões que permeiam o Direito de Família, Direito das Sucessões... A ficção se constrói sem nenhum arrimo legal, sem nenhum preceito constitutivo do repertório jurídico.

Diante disso, caberia a indagação: as novelas devem socorrer-se da realidade para tornar-se críveis, passíveis de alguma plausibilidade no contexto da narrativa? Adotar um ponto de vista positivo a esse respeito certamente significaria despir o folhetim televisivo de sua essência ficcional. Novela é entretenimento. Diverte-se quem quer.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mistério na Zona Sul e o Colégio Santa Marcelina

Mistério na zona sul e o Colégio Santa Marcelina

Não há prêmio literário nem remuneração material que pague a satisfação de um autor ao ter sua obra lida e ser prestigiado pelos seus leitores.

Na sexta-feira passada (20/09) estive no Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, para conversar com os alunos das sextas séries sobre o meu livro Mistério na zona sul (romance infanto-juvenil publicado pela Editora Hedra em 2011). A obra foi adotada pela professora Maria Tereza Peres Munhoz de Freitas e colocada no centro das discussões dos alunos para a produção de textos, realização de brincadeiras e, provavelmente, de avaliações.

Logo que cheguei ao auditório do colégio, fui surpreendido pelos textos dos alunos que ficaram inteiramente à vontade para resenhar e criticar a obra. Em apenas uma página foram capazes de sintetizar a narrativa e tecer comentários sobre aspectos que reputaram interessantes.

Depois da leitura de alguns desses textos, fui para o auditório, onde a meninada, cuja faixa etária orça pelos dez anos, deu um show de perguntas inteligentes e sensíveis.

Enfim, foi uma manhã deliciosa e divertidíssima.

Agradeço, de coração, a todos os alunos, a profª. Maria Tereza e ao Colégio Santa Marcelina pela fantástica oportunidade de diálogo.

Seguem abaixo as fotos do encontro e alguns trechos dos trabalhos escritos pela meninada. Apenas por não saber se gostaria de ver seus nomes publicados aqui no blog, deixo de citar a fonte.

“Este foi um dos mais interessantes livros que já li. Não gostava e nem sabia direito o que era esse tipo de literatura. Quando fui ler achei que seria um livro qualquer, igual aos outros que eu já li, mas quando eu cheguei na primeira parte do suspense e mistério, não consegui parar de ler. Sempre, a cada página tinha um novo suspeito que poderia ser o vilão da história e um novo enigma para ser descoberto (....) Este foi um dos melhores livros que já li, e o primeiro de muitos outros romances policiais”

“Eu adorei esse livro, foi o melhor que já li na minha escola. Eu adoro filmes e livros de ação e mistério e romance policial, que nem esse. (...) Por favor, faça mais livros assim e a continuação desse”.

“Eu gostei do livro pois ele é de romance policial, e com as pistas que Plínio, Giulia e Tonico descobrem, vamos juntando-as e desvendando o mistério do orfanato Santa Isabel. Gostei também da forma que ela foi escrita, ela foi contada de uma forma bem contemporânea que facilita a leitura de jovens como nós”.

"Gostei do livro porque ele é interessante e não é daqueles livros que você é obrigado a ler. Ele é legal, dá vontade de ler, de continuar lendo, e eu adoro mistério, esse foi um dos motivos por eu gostar do livro".

"Eu nunca havia lido um romance policial por isso esse foi um dos motivos de ter apreciado tanto a leitura. Gosto muito de escrever e já pensei em ser até jornalista".



 Mural com os textos dos alunos


A meninada



A profª Maria Tereza e eu


Iuri Pereira (meu editor), eu e a meninada



A belíssima fachada do Colégio Santa Marcelina

sábado, 31 de agosto de 2013

O moderno cabotinismo

O moderno cabotinismo - Roberto Barbato Jr

A primeira vez que ouvi a palavra “cabotino”, foi por intermédio de minha mãe que tinha lido no jornal uma ácida crítica a Robert de Niro. O articulista da Folha de S. Paulo, cujo nome não convém revelar, havia dito que De Niro era um cabotino. Ato contínuo, recorri ao Aurélio e vi um dos significados do termo. Tratava-se de um ator comediante de baixa desenvoltura, aquilo que talvez, hoje, se assemelhe a um canastrão. Naturalmente, não poderia concordar com a crítica. De Niro tinha acabado de filmar “Tempo de despertar” e qualquer apontamento negativo a seu respeito me parecia uma heresia.

Tempos depois, ouvi falar num texto de Mário de Andrade, intitulado “Do cabotinismo”. Àquela época, já esquadrinhava minha pesquisa sobre o pensamento brasileiro e corri para ler o artigo publicado em O Empalhador de Passarinho. Por óbvio, a acepção que o líder modernista dava ao termo era um pouco distinta daquela usada pelo articulista e tinha um alcance maior.

Para Mário, o cabotinismo poderia ser definido como o fato de o “artista sacrificar grande parte da própria espontaneidade e da própria comoção e das próprias ideias em favor das ideias e comoções alheias”. Diria mais: “O artista perfeito nunca perderá de vista o seu público, e isto é cabotinismo. O artista completo jamais perderá de vista a ambição de se tornar ou se conservar célebre, e tudo isto é cabotinismo”. (ANDRADE, Mário de. O empalhador de passarinho. 3. ed. São Paulo: Martins; Brasília: I.N.L., 1972, p. 78-79).

A reflexão de Mário de Andrade pode atender a duas perquirições sobre o assunto. Em primeiro plano, parece útil para ponderar se as injunções do mercado cultural moderno não impõem a atores, escritores, diretores e músicos uma postura cabotina. Não é improvável que muitos deles sejam compelidos a abrir mão de sua espontaneidade em benefício do produto final a ser comercializado. Livros, filmes e peças teatrais, por mais geniais que sejam, carecem da contrapartida financeira. Nesse caso, a lógica do mercado preponderaria sobre a sinceridade artística. Solaparia a espontaneidade natural que deveriam ter os homens de arte e de letras. Cedendo, portanto, a uma imposição da mídia, o artista, já despido de suas convicções íntimas, acabaria se revelando um cabotino. Estão aqui todos os ingredientes apontados pelo líder modernista para a confecção da prática cabotina: “nunca perder de vista seu público”, “abrir mão da espontaneidade” e a “ambição de se tornar célebre”. Para fins práticos – e jamais filosóficos –, pouco importaria se o cabotinismo partiu de um ato volitivo do artista ou se lhe foi imposto.

Em outro plano, não se deve eximir o sentimento próprio – este sim, volitivo – de muitos artistas. Se é verdade que a indústria cultural produz cabotinos em conformidade com seus interesses, não é menos verdade que mesmo os artistas independentes não dispensam apreender seu público e projetar seu nome no elenco da notoriedade. Com efeito, deve haver, em todo artista, alguma dose de cabotinismo. Não importa o nível de sua humildade, de sua simplicidade. Talvez seja um imperativo ínsito à sua personalidade a busca pela celebridade, pela conservação do brilho de sua obra para a posteridade.

Expondo a questão nesses termos, pode parecer que vivemos uma época em que o cabotinismo se tornou patológico, uma situação endêmica. A hipótese não é tão absurda, sobretudo num mundo em que a veiculação de obras de artes, ideias e textos se mostra fluida, gratuita e de facílimo acesso. Basta observar a profusão de material publicado na internet: blogs, videologs, posts no Facebook ou no Twitter e outras redes sociais. Os internautas tornaram-se artistas, filósofos e pensadores. No quinhão do espaço virtual que cabe a todos, temos, diariamente, manifestações de afetação individual e disseminação de nossa vaidade. Prestamo-nos a verdadeiramente filosofar, construir máximas e fórmulas com a vã esperança de que elas vicejarão.

Seria exagero pensar assim? Quantos de nós, que nem artistas somos, não aspiramos ao reconhecimento de um público que, pouco a pouco, se constrói nas modernas redes sociais? Não buscamos a concordância com os pontos de vista que ousamos expor em nossas pequenas manifestações? Ao elaborar um projeto acadêmico, escrever um texto ficcional, montar e encenar uma peça, não estamos de alguma forma cortejando nossas próprias ideias, fazendo delas um palco para nunca perder de vista nosso público e dotar nossa pequena contribuição de alguma feição célebre?

Quanto há de cabotinismo e de espontaneidade artística nessa postura?

A resposta a essa questão pode ser encontrada na bela música de Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Será que sabemos mesmo? E, se assim for, que nos importa o juízo alheio? Talvez o próprio Caetano, parafraseando sua obra-prima “Língua”, diria: “Sejamos cabotinos!”

Que encrenca, hein!


sábado, 24 de agosto de 2013

Referências, homenagens e plágios

Referências, homenagens e plágios - Roberto Barbato Jr

É de se lamentar os inúmeros mal-entendidos a que estão sujeitos os artistas que ousam lograr alguma homenagem àqueles que os inspiraram. Muitas vezes são acusados de se apropriar da obra alheia, como se fossem larápios. É raro que alguma criação seja integralmente inédita, iniciada a partir do nada. Nem mesmo os gênios seriam capazes disso. Há, sempre, um ponto de partida, uma referência. Um viés distorcido, contudo, poderá conceber a homenagem como plágio ou a referência como cópia.

Tom Jobim foi amiúde acusado de plágio. Sua biografia, escrita pela irmã Helena, relata circunstâncias específicas sob esse aspecto. Tom sempre fez homenagens sui generis aos seus mestres. Várias frases musicais de Villa-Lobos foram incluídas em suas composições. “Prelúdio 5” (em Ré Maior), por exemplo, está em “Gabriela”  (“chega mais perto, moço bonito”). Não é, também, à toa que ao final de “Imagina”, composição em parceira com Chico Buarque, tenha colocado um enfático piano de Ravel. Sobre essas questões, Chico revelou como o parceiro encarava o problema: “Só se rouba a quem se ama”. Com essa justificativa sarcástica e bem humorada, o maestro demonstrava a “apropriação” de certas melodias e ideias como simples homenagem.

Em entrevista concedida após o lançamento de Carioca (disponível no site da Biscoito Fino), Chico enfrenta o assunto das referências e plágios com sua habitual serenidade: “Não há citação da melodia, nem plágio, nem cópia, que eu acho que pode até acontecer inconscientemente”.  E, a seguir, cita as referências que constituem seu recente trabalho à época.

A belíssima “Porque era ela, porque era eu” nasceu da obra de Montaigne cujo verso inspirador, “qualquer estudante de Liceu na França conhece”. Aqui, Montaigne é lido, quando muito, em cursos de filosofia na graduação ou, eventualmente, por algum leitor diletante.

Em “Dura na queda”, o verso de “a flor também é ferida aberta” refere-se a Francis Ponge. Chico fala textualmente “isso é roubado do Ponge”. Depois, a demonstrar a total falta de dolo na “apropriação”, explica que ninguém faria a associação entre seu verso e o autor francês. Por isso, se quisesse, poderia silenciar, não revelando a fonte. Mas, o poeta é generoso e não carece surrupiar ninguém. “Eu dou o crédito”, assevera.

Outras referências são encontradas em “Ode aos Ratos”, num “quase Baudelaire” (“ó, meu semelhante, filho de Deus, meu irmão”). O velho Gershiwn também merece homenagem nos arranjos de “Dura na queda” e “As atrizes”.

Se na música o tema rende, nas telas televisivas não é diferente. Quantas foram as novelas em que seus autores utilizaram de referências da sétima arte para enriquecer sua obra?

Já falei aqui (vide link abaixo) que em “Celebridade”, novela de 2003, Gilberto Braga reproduziu a clássica situação de “A montanha dos sete abutres”. Remeteu o telespectador a uma obra prima da lavra do gênio Billy Wilder. Na novela, Zeca, filho de Cristiano (Alexandre Borges), fica preso em um buraco, uma espécie de poço urbano. Tomando ciência do ocorrido, Renato Mendes (Fábio Assunção) manifesta sua vontade de tirar proveito da desgraça alheia. Menciona como irá produzir o artigo que descreverá o trágico acidente com o menino. O foco, naturalmente, está na potencial vendagem da edição da revista da qual é editor. Fábio Assunção desempenharia o monstruoso papel de Kirk Douglas na trama original.

Silvio de Abreu é também cinéfilo e costuma abusar de homenagens. Em “A Rainha da Sucata”, por exemplo, escreveu parte da trama apoiando-se em “À meia luz”, filme que talvez mais tenha explorado a beleza noir de Ingrid Bergman. Nele, a protagonista é levada a crer, por meio de ações sub-reptícias de seu marido, que está com a memória desorientada, cometendo, por isso, equívocos de toda grandeza. Transplantada para a narrativa global, é esta a estratégia utilizada por Renato Maia (Daniel Filho) com sua esposa Mariana (Renata Sorrah). No caso de Sílvio de Abreu, o estratagema de Renato Maia consiste em se apropriar de nada menos do que 300 milhões de dólares.

Recentemente, em “Amor à vida”, de Walcyr Carrasco, o diretor Mauro Mendonça Filho criou, já no primeiro capítulo, uma cópia fidedigna de “O expresso da meia-noite”, obra magistral de Alan Parker. O personagem de Juliano Cazarré (Ninho) é preso num aeroporto por tráfico de drogas. A cena é primorosa e mantém a sequência do filme com riqueza de detalhes. A maioria dos telespectadores, contudo, não deve ter assistido ao clássico cinematográfico para saber da referência ou homenagem feita por Mendonça Filho. Todavia, já no dia seguinte à estreia da novela, os comentários pululavam na rede e o diretor teve de se pronunciar sobre o assunto.

Na literatura, há um caso que muito me interessa. Numa de suas belas crônicas publicada na Folha de S. Paulo, talvez nos anos noventa, Cony afirma que chegara a ficar corado quando percebeu a semelhança do final de um de seus romances com A idade da razão, de Sartre. Se alguém souber qual é o nome da obra em apreço, por favor, mande notícias.

Enfim, quando realmente desprovidas de intenção espúria, homenagens como as aqui citadas deveriam ser saudadas. Enriquecem nossas referências e nossa cultura.  



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Dorinha 2

Dorinha: deve ser sonho mesmo - Roberto Barbato Jr

Você pensa que foi fácil? Não. Não foi. Fiquei ali, esperando, esperando. Até perguntei pra vendedora, Ei, a Dorinha vem sempre aqui? A Dorinha? É. A da televisão? É. A que fez a Jujú naquela novela das oito? É, ela vem sempre aqui?, perguntei. Não sei, ela respondeu. Pergunta pra sua colega, pedi. Ela foi lá pra dentro.

Enquanto esperava (a Dorinha ou a vendedora), fiquei ensaiando mentalmente. Olha, Dorinha, desculpe-me pela inconveniência [ela para, dá uma risadinha e fica esperando que eu fale]. É o seguinte, eu te vi aqui num desses sábados, com seus filhos, fazendo compras. Antes, veja bem, eu me encontrei com você no corredor. Podia ter falado alguma coisa, mas vou ser honesto, não te reconheci. Depois, nossa, fiquei boquiaberto ao perceber que a moça do corredor era você, a Dorinha. Aí, te vi aqui na loja. Não quis ficar olhando, porque você podia pensar que eu era um paparazzo ou um caipira. Fui embora, tipo nem te ligo, mas me dei conta de que eu estava apaixonado por você. Aliás, não era paixão.

A vendedora volta.

A Dorinha vem aqui, sim. Vem? Vem. Sempre? Não, de vez em quando, parece que veio no mês passado. Ah. Dizem que é ela é bonita mesmo. Bonita? É linda, falei meio irritado. Vocês têm o cadastro dela na loja? Cadastro? É, cadastro, nome, endereço, telefone. Ah, deve ter, claro. Mas é confidencial, não podemos dar pra ninguém, ela explicou. Não, imagine, nem pensei nisso...

Parecia mágica. Quando terminei de falar, a Dorinha apareceu. Acredite. Sozinha, sem filhos, sem bolsa. Calça jeans, tênis, celular no bolso traseiro e camiseta. Simples, sem maquiagem, de cara lavada. Uma mulher que é bonita assim, é bonita mesmo, não tem truque, não tem grupo, como diziam os mais antigos. E pensar que ela aparecia na televisão, era vista por milhões de pessoas. A Dorinha, a Dorinha mesmo (juro que era ela), estava ali, de novo. Bem diante de mim.

O que eu fiz? Cheguei perto dela, trêmulo, extasiado. Disse Oi e vi seu rosto sendo desfeito, se pulverizando. Aos poucos, na minha frente, ela foi sumindo, como o final de uma personagem, o ocaso de uma trama. Não sei porque isso aconteceu, mas ainda vou esperar por ela. Se não vier no sábado que vem, virá no outro. Será sempre um devir. Não interessa, vou esperar. A vida inteira.

sábado, 10 de agosto de 2013

Dorinha

Dorinha: a  moça do sonho numa noite de verão - Roberto Barbato Jr

Pra ser sincero, não percebi quem era. Pensei, Nossa, que moça linda. Só depois, andando um pouco pelo corredor, é que imaginei que pudesse ser mesmo a Dorinha da televisão. Sabe aquele efeito retardado? Deve ter sido o impacto da beleza dela. Quando eu poderia imaginar que a Dorinha frequentasse aquele shopping? Estava lá com os filhos. Dois meninos. Entrou numa loja de moda feminina e os moleques ficaram ali na frente, sentados jogando alguma coisa, cada um no seu tablet. Ela veio até a porta da loja e deu meia volta. Foi tão rápido que nem consegui visualizar seu rosto. O problema é que eu, pra não dar pinta de caipira, não fiquei olhando. Se soubesse de pronto que era ela, diria alguma coisa ali mesmo, no meio daquele corredor. 

Perguntaria sua identidade ou se a conhecia de algum lugar qualquer. Quem sabe fosse prima da tia Lalá? Não, não, você deve tá me confundindo. Eu sou atriz. Eu sabia, eu sabia. Poxa, você é linda mesmo. É como a gente vê na televisão. Quer dizer, você é mais bonita assim, ao vivo. Obrigada, ela agradece. E vai embora calada. Linda.

Era mesmo a Dorinha. Na adolescência eu arrastava um bonde – um bonde, não, um comboio – por ela. Até hoje me pergunto como a figura de uma atriz pode fascinar tanto alguém que está do outro lado da tela, na plateia, ou no corredor do shopping. Essa atriz encarna uma personagem, entra na sua vida toda noite, destroça o seu coração, faz você sonhar com ela. E o pior é que você não sabe se é a atriz ou a personagem. Quem é que faz você se perder. Eu nunca me enganei. A Dorinha era a Dorinha, a atriz. Fosse qual fosse a personagem.

Eu sonhava com ela uns sonhos reais, a gente conversando e tal. Era tudo colorido, nítido. Pegava na mão dela, caminhava pertinho. Só uma vez, uma vez só, o sonho foi erótico. Mesmo assim não passou de um beijo. Ela nem aparecia sem roupa, nem nada. Era um beijo de uma atriz. O sonho era tão real que senti, juro que senti, o gosto daquele beijo. Falo isso porque os beijos de sonhos não têm gosto, são insípidos. O da Dorinha tinha.

Aquele encontro – teria sido um encontro? – me pirou. Fiquei um mês pensando nela. Logo que cheguei em casa procurei por alguma informação na internet. Ninguém falou nada. Os sites de celebridades não disseram que ela estava no shopping. Nem as revistas publicaram “Dorinha Meireles faz compra com filhos em shopping”. Aquele devia ser um dia normal. Acordou, almoçou e foi com as crianças fazer compra. O marido? Não. Não tem marido. Está separada. Foi casada com um cara que, pra conquistá-la, convenhamos, só pode ser um deus. Fiquei até imaginando como eles se conheceram e que tipo de conversa rolou antes do primeiro beijo. Ela era atriz contratada e ele fazia sabe-se lá o quê. Ele devia ser o cara, porque nem artista era. Quando uma atriz é casada com um ator ou músico, a gente entende. Mas a Dorinha, não. Ela se casou com alguém que não era do meio artístico. Daí a grandiosidade do sujeito. Não houve ensaio, encontro na coxia, no set de filmagem, nada disso. Ele chegou e arrebatou o coração dela, como alguém simples. Alguém que até podia ser eu, se eu não fosse esse bocó.

Olha, acho que a Dorinha é eterna. Ok, tudo bem. Pode parecer que o entusiasmo é grande. Reconheço que tive fases. Primeiro a Lili, depois a Cláudia Helena, a Malu, a Alicia. De fato, a Dorinha deve ter sido meu último arroubo juvenil. Agora, adolescência acabada, não dá para dizer que é só entusiasmo. Deve ser amor mesmo, no duro. É difícil admitir uma coisa assim, tão imponderável, mas isso é o amor.

Sábado que vem estarei lá de novo. Vou passar por aquele corredor e depois me sentar na frente da tal loja. Quando aparecer, juro, vou contar tudo isso pra ela. E ela vai gostar.


(continua)

sábado, 27 de julho de 2013

A desgraçada da internet

A desgraçada da internet - Roberto Barbato Jr

Quando digo que odeio a internet é porque ela arruinou minha vida. Acho que esse negócio de rede virtual é coisa do capeta, de quem pretende a desgraça alheia. Não vou me estender nesses comentários porque a raiva não leva a nada. Mas, também, não posso deixar de contar minha história. Se ela é triste? Não. Nem triste, nem gozada. Talvez por isso seja melhor você não perder seu tempo. Quem avisa, amiga é.

No dia em que me pediu em casamento, o Alcir disse que conhecia um negócio revolucionário, que nele iria investir fundo, a ponto de garantirmos o nosso sustento. Eu poderia parar de dar minhas aulas particulares. Em pouco tempo, estaríamos com a vida organizada e iríamos providenciar nossos filhos. Minha família relutou em aceitar que eu me casasse com um sujeito como ele, meio esquisito, perdido no mundo e desapegado das coisas do espírito.

Seis meses antes da festa, ele apareceu na casa dos meus pais com um aparelho que ninguém imaginava existir. Era um vídeo cassete. Fez a ligação dos fios na televisão, conectou tudo o que era preciso e lá enfiou uma fita do “O homem que queria ser rei”. Assistimos ao filme como se estivéssemos no cinema. Antes de ir embora, o Alcir vaticinou: “Ainda vamos ganhar muito dinheiro com isso”. Ele estava falando da locadora de filmes que pretendia abrir.

No mês seguinte, fez empréstimo no banco, alugou um imóvel, encheu os cômodos de prateleiras, contratou uma funcionária, a Késia, e mandou vir de não-sei-onde as fitas de VHS. A locadora ficou completa, com filmes de todos os gêneros, inclusive de sexo explícito. Naquela época, a aquisição de aparelhos de vídeo cassetes ainda era algo fora da realidade da maioria da população. Poucas famílias conseguiam fazer uma importação ou tinham dinheiro para bancar o alto preço proposto pelas lojas nacionais especializadas em som, áudio e vídeo. Mesmo assim, o movimento da locadora era bom e prometia aumentar.

Logo nos primeiros meses, Alcir teve um lucro interessante e disse que eu poderia acabar com minhas atividades docentes. É bem verdade que ele desdenhava do meu ofício. Dizia amiúde que eu ensinava uma meia dúzia de números a crianças quase débeis mentais, mas aquilo não me ofendia. Em face da possibilidade concreta de largar as aulas, liguei para cada mãe de aluno e comuniquei que não continuaria zelando pela educação de seus filhos. Conforme suspeitava, minha atitude não gerou nenhum desconforto. Minhas aulas não fariam falta alguma. Afinal, sempre fui uma professora medíocre.

Comecei a me dedicar de corpo e alma à “empresa” (ele gostava que a locadora fosse tratada dessa forma). Assistia aos filmes, esboçava as sinopses dos enredos e, uma vez aprovadas por ele, as datilografava em pequenas fichas que eram inseridas nas estantes temáticas. Também ajudava-o a rebobinar todas as fitas que eram devolvidas pelos clientes menos zelosos. Com o passar do tempo, passei a atender no balcão e a colaborar na contabilidade de uma empresa que ia de vento em popa.

Três anos depois do casamento, exatamente como planejado, nasceu Gabriela, nossa filha. No ano seguinte, veio o Elpídio, cujo nome fora sugerido pelo Oscar, um contrabandista que trazia umas máquinas esquisitas do Paraguai para o Alcir. Eram os tais dos computadores. Eu não via graça nenhuma neles, mas me disseram que o futuro estava ali, diante de nós.

Durante quinze anos, nossos negócios prosperaram com toda força. É claro que, vez por outra, tínhamos crises financeiras. Entretanto, com a dedicação que devotávamos à locadora, tudo se resolvia.

Com a falsa justificativa de que mirava o futuro, Alcir começou a investir em computadores. Comprava um atrás do outro. Primeiro, eram máquinas robustas, lentas. Depois, vieram as mais sofisticadas. Aquela tecnologia evoluía exponencialmente. Um dia, durante o almoço, falou que já tinha gente que se comunicava por meio de terminais computadorizados. Era a tal da internet. À medida que crescia seu interesse pela informática, reduzia drasticamente sua atenção à locadora. Tendo ciência da minha responsabilidade, acabei assumindo o negócio sozinha: fazia o atendimento, comprava fitas, negociava estoque antigo e fazia a contabilidade. Gabriela e Elpídio, embora estivessem mocinhos, não trabalhavam. Eu queria que tivessem uma adolescência saudável, longe do trabalho e próxima dos estudos.

Com o surgimento dos DVDs, tudo mudou. Tive que repensar a estratégia comercial da locadora. Qualquer pessoa que quisesse sobreviver naquele ramo, teria que investir na substituição do acervo de VHS pela nova mídia. Acabei fazendo negócios com o Oscar. Comprei títulos importados que ainda não haviam chegado ao Brasil e vendi à clientela mais sofisticada. Eu sabia quem queria o quê, e tinha boas relações com os cinéfilos de plantão. Aos poucos, consegui trocar todo o estoque das fitas VHS. Nossa locadora foi a primeira na cidade a ter um acervo cem por cento digital.

Os DVDs foram capazes de manter a locadora com movimentação extraordinária. Eram fantásticos e não nos causavam os problemas típicos das antigas fitas. Cheguei a duvidar que o homem fosse capaz de inventar uma tecnologia ainda mais interessante e barata que eles. Nem me preocupei com isso.

Cada vez mais eu ganhava intimidade com o sucesso empresarial. Por outro lado, meu casamento estava uma merda. Alcir não fazia sexo comigo e, pior que tudo, pouco conversava com a família. Ia dormir com o dia claro e acordava no final da tarde, sempre em desacordo com o fuso horário de gente normal. Em pouco tempo, percebi que a causa dessa mudança de hábitos se devia à internet. Descobri, então, as salas de bate papo e, com elas, a existência da Soraia.

A Soraia, segundo me disse sorrateiramente o Oscar, devia ser muito gostosa. Todavia, não era nada mais do que uma paixão virtual e eu não precisaria me preocupar. Melhor ser traída por uma mulher virtual do que por uma puta qualquer, ele me disse. A Soraia era inofensiva, quase inexistente. Enquanto Alcir ficava de bate papo com ela madrugada afora, eu ralava como uma doida.

Um dia, no meio da tarde, acometeu-me uma enxaqueca. Deixei a Késia tomando conta da locadora e fui pra casa. Quando cheguei perto do meu quarto, pela fresta da porta flagrei os dois – ele e a Soraia, é claro – transando na cama. Pois é, a Soraia, que até então era virtual, estava ali, diante dos meus olhos, dando para o meu marido. O que mais me doeu não foi a traição, mas o fato de o Alcir nunca ter me fodido daquele jeito, com aquela volúpia toda.

Corri até a despensa e peguei o três oitão que guardávamos para alguma eventualidade. Próxima do quarto, empurrei em silêncio a porta e mirei bem a cabeça dele. Não tive coragem de atirar. Abaixei a arma e mandei os dois embora de casa. Sabe aquela cena patética de novela pastelão? Pois é, o Alcir saiu pulando da cama de pau duro, enquanto a Soraia tentava cobrir os peitos com o lençol da minha cama. Não achei graça alguma naquilo. Enquanto a cena acontecia, eu chorava feito criança.

O pastelão acabou com a entrada do Elpídio em casa. Foi tudo muito constrangedor. Ele teve a sensibilidade de esperar a situação acalmar para me dar uma notícia: nos Estados Unidos o mercado de DVDs estava ameaçado pelo repentino crescimento da comercialização do Blu-ray. Eu sabia o que me esperava: teria de renovar o acervo da locadora novamente. Daquela vez, contudo, não tive nenhum êxito. Antes mesmo do Blu-ray emplacar, começou a moda de baixar filmes da internet. A maldita internet – ela, de novo – faria outro estrago na minha vida. A clientela foi rareando rapidamente e a locadora nunca mais foi a mesma. Meu faturamento desmoronou, até que percebi a inviabilidade da empresa.

Em menos de um ano, dei baixa na junta comercial, com o caixa zerado e, felizmente, sem nenhuma dívida. A única coisa que fiz questão de guardar foi a velha fita do VHS “O homem que queria ser rei”. Quando tenho saudades daquela época, assisto um pouco do filme num vídeo cassete que resiste bravamente ao tempo, e quase morro sufocada de tanta nostalgia.

Nunca mais vi ou falei com Alcir. Gabriela casou-se e hoje reside na Suíça, com um gerente de banco transnacional. É ele que deposita algum dinheiro na minha conta todo mês. Elpídio juntou-se com a Késia (eles viviam se pegando no quartinho do estoque antigo da locadora) e se mudaram para Porto Alegre em busca de sonhos. Pois é... Meus filhos imploram para que eu mantenha contato com eles (veja se pode!) pela internet. Quando vêm com essa ideia, nem sei o que dizer.

O que sei é que, no sábado passado, encontrei um sujeito na padaria. Enquanto ele tomava seu café da manhã, puxei assunto e contei toda minha vida, sem nenhuma vergonha. Ele me disse que tem um blog e que não se incomodaria de publicar uma história tão infame. Pra mim, tanto faz. O blog também fica na internet...


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Naqueles tempos: 1992 e o início da débâcle

Naqueles tempos: 1992 e o início da débâcle

No início de 1992, Collor já estava desgastado. Os debates na universidade eram acirrados. Alguns militantes do PT, com sua rebeldia açodada, já ansiavam por uma “revolução” cuja forma nem mesmo eles conheciam. Eu não era – nunca fui – filiado ao PT e sempre tive restrições em relação às posturas que o partido como um todo adotava. A maioria de seus militantes levantava a bandeira do monopólio da moralidade pública, da ética e da transparência – exatamente como Luiz Inácio fez recentemente. Pois é, certas coisas parecem não mudar...

Interessado no debate político, tinha a convicção de que os partidos de esquerda – PT, PSB, PPS, PC do B – estavam se posicionando da maneira correta. Aguardavam a oportunidade para tomar uma providência em face dos indícios de condutas ilícitas na gestão collorida. Quando a possibilidade do impeachment assumiu contornos nítidos, a esquerda radicalizada a entendeu como esperança real de subversão da ordem. A inocência de alguns caminhou para a crença de que estávamos frente a uma nova chance de revolução, algo que pudesse encaixar o Brasil nos trilhos do socialismo. Por incrível que pareça, os militantes mais intransigentes acreditavam piamente nisso. À queda do presidente sobreviria uma grande catarse e o capitalismo seria banido na sociedade brasileira. O discurso era uma piada, mas muita gente acreditava nele.

Naturalmente, havia tantas outras facções e partidos que, embora defendessem a moralidade na política, não manifestavam uma leitura tão ingênua do momento nacional. A “substituição” de Collor era desejada, amplamente apoiada. Todavia, apresentava-se, de certa forma, como um fato desprovido de consequências. Não se pensava – ou talvez não se tenha querido fazê-lo – em como se daria a sucessão presidencial para um político que, àquela altura dos fatos, nada mais era do que um ponto sem luz, desconhecido em variada medida. Quem era, afinal, Itamar Franco?

O debate político ecoava nas geniais aulas de Teoria do Estado Moderno ministradas pelo professor Milton Lahuerta. Temas como a concepção explosiva do Estado, as vantagens do atraso e a revolução passiva, entre outros, orientavam o pensamento de quem construía seu repertório intelectual. Ler Gramsci, Bobbio, Marx e Engels, Lenin... Tudo aquilo me oferecia (creio que a todos da turma) um horizonte interpretativo extremamente fecundo, sobretudo num momento conturbado. A teoria e a realidade políticas constituíam um enigma a ser decifrado.

Ainda haveria muita leitura para ser feita, muito a ser estudado. Faltava, entretanto, pouco tempo para que o impeachment se tornasse realidade.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Naqueles tempos: 1992 e a patrulha ideológica


Naqueles tempos: 1992 e a patrulha ideológica

Naqueles tempos, o que não faltava na faculdade era patrulha ideológica. Tratava-se de algo tão difundido e corriqueiro entre os alunos que, mesmo não desejando incorrer nessa conduta, muitas vezes não conseguíamos frear nossos impulsos.

Hoje pode parece banal, mas naquele contexto certas palavras assumiam um tom de heresia. A palavra “liberal” e a expressão “liberal-democracia” eram problemáticas. Qualquer tendência a ser identificada com elas era suficiente para que o debate desembocasse na patrulha – ou na zombaria. O interlocutor, de socialista comprometido com a divisão material dos meios de produção (veja só o exagero!), passava, em virtude de um pequeno lapso, a ser defensor intransigente do liberalismo político. Ninguém perdoava.

“Que socialista, o quê! Liberal enrustido, isso sim”.

Houve um dia em que, não suportando mais a pressão da tropa de fiscalização da turma, um aluno se rebelou. Dissera que, em conversa com o pai, foi convencido a adotar o credo liberal. Sob ele poderia proteger-se dos dissabores da uniformidade socialista e da falta de criatividade que o Kremlin faria se espalhar pelo mundo. A metáfora utilizada para persuadir o filho não era nada engenhosa. Bastou uma imagem cruelmente estúpida e reiterativa: depois que o Brasil produzisse o grande bolo do desenvolvimento, deveriam abocanhar a maior fatia dele. Pois é, o rapaz abraçou a ideia paterna e imagino que até hoje esteja com fome.

Se conto tudo isso, não posso deixar de dizer que também fui vítima dessa patrulha ideológica. Comigo, entretanto, um dos episódios foi relativamente cômico. Cheguei à faculdade logo de manhã, peguei um café e fui me sentar à mesa do pessoal que ali conversava sobre a possível queda do ministério do Collor. Sem saber qual era o assunto versado, acendi um cigarro e perguntei:

- Alguém aí sabe quem ganhou o Oscar ontem?

A resposta foi furiosa.

- O ministério do Collor está quase caindo e você está preocupado com o Oscar?

Era isso mesmo. Eu não poderia gostar de cinema. Muito menos, me interessar pelo vencedor do Oscar. A arte cinematográfica não combinava com a política.

Detalhe: naquele ano, Silêncio dos Inocentes venceu 5 oscars, inclusive o de melhor filme. Essa era a informação que eu desejava. E, por causa dela, quase apanhei.


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Naqueles tempos: 1990 e a nação collorida

Naqueles tempos: 1990 e a nação collorida

15 de março de 1990. Araraquara. Faculdade de Ciências e Letras da UNESP. Primeiro semestre do curso de Ciências Sociais.

Por volta das 10 horas da manhã, eu estava na fila da cantina para comprar um café. Ouvi pelo rádio a transmissão da posse de Fernando Collor. Imediatamente, veio-me à cabeça a voz do meu avô chamando-o de fascista. “Fascista”, xinguei-o mentalmente (acho que foi uma das poucas vezes que concordei com meu avô em matéria de política).

No dia seguinte, veio a notícia do confisco da poupança. Com um imaturo e vingativo riso, pensei em todos aqueles que tanto haviam defendido o “caçador de marajás”. Lembrei-me de cada argumento dado por conhecidos para justificar a eleição do jovem presidente. Depois, oportunamente, perguntei se estavam satisfeitos com a gestão collorida do Brasil, aquela que, finalmente, tiraria o país do atraso.

Esse sentimento pueril de forra, deixou de existir quando tomei a real dimensão daquela patética situação. A conduta de Collor, infelizmente atingia também aqueles que jamais depositaram qualquer voto em seu nome. Ouvia, aos poucos, relatos de gente que havia guardado dinheiro para a compra da casa própria, a realização do casamento, a construção de um negócio de família.

Os primeiros meses daquela gestão, foram conturbados e deixavam sempre em suspense o que poderia acontecer dali para frente.

Em meio a toda essa turbulência política, iniciava meus estudos de ciências sociais um tanto perdido em relação à teoria que lia e à realidade que vivia. A leitura d’ O capital, do Manifesto do Partido Comunista e dos artigos publicados por Florestan Fernandes, às segundas-feiras na Folha de S. Paulo, acirravam ainda mais a antipatia que nutria por Collor. Com suas tórridas metáforas, Florestan comparava o então presidente a um imperador e desancava todas as suas condutas. Sua coluna semanal ressoava como um brado de resistência que, infelizmente, a poucos tocava.

Aquela foi minha primeira eleição. Era, também, a primeira eleição direta após tanto tempo de silêncio popular para a escolha presidencial. Quer dizer que depois de longos anos, o brasileiro havia conquistado o direito de ir às urnas para eleger o filho da aristocracia alagoana? Daríamos vida ao continuísmo? Justamente num momento em que o que mais se desejava era a modernização da política e a moralização da rés pública?

De maneira quase inédita, além de aumentar a insatisfação da oposição, Collor foi cativando o desprezo de seus eleitores. Deixou a todos descontentes. Mesmo assim, a irracionalidade política dos que o haviam eleito era manifesta sempre que instados a se posicionar. Em pouco tempo, o presidente se tornou um homem show, promovendo espetáculos aos domingos em qualquer oportunidade em que pudesse capitalizar a simpatia da população. Virou atleta, malabarista, assumiu um sem-número de funções, inclusive a de arremedo de presidente. Felizmente, aquilo duraria pouco. Bastaria esperar...