sábado, 31 de outubro de 2009

Uma pergunta para o Jabor

Assisti "Eu sei que vou te amar", em 1986. Tinha 14 anos e fui até a locadora procurar pelo filme que diziam ter sido premiado em Cannes. Fernanda Torres havia levado o prêmio de melhor atriz. O filme se passava num apartamento, tendo raríssimas cenas externas. Fernanda contracenava com o hilário Thales Pan Chacon. Eram diálogos que "discutiam a relação" ou explicitavam a neurose do casal. Nem lembro o que pensei do filme, mas olhando para o passado, tenho a certeza que, dada minha imaturidade, aproveitei muito pouco dele.

Já na década de 90, quando entrei na faculdade, Jabor era colunista da Folha de S. Paulo. Se não me engano, estreou na Ilustrada, escrevendo semanalmente. Eu me perguntava sempre se aquele era o Jabor "cineasta" e o que o teria feito desistir do cinema. A pergunta ficou na minha cabeça por muito tempo.

Um dia, assisti a uma entrevista em que ele dizia que só voltaria a filmar se houvesse um motivo realmente importante, que justificasse sua volta ao cinema.

Depois, já no final da década de 90, Jabor virou comentarista do Jornal da Globo. Seu estilo misturava histeria com radicalismo. Fazia comentários fervorosos, incisivos, capazes de suscitar no telespectador algum inconformismo. Quando "Central do Brasil" concorreu ao Oscar e perdeu para "A vida é bela" ele não deixou de fazer críticas duras ao filme do Benigni: disse que nada mais era do que uma recauchutagem barata do surrealismo italiano. Não pude deixar de concordar com ele: Central do Brasil, ao menos do ponto de vista estético, é muito mais interessante do que "A vida é bela".

Jabor escreveu livros, artigos, participou de debates políticos ao longo de todo esse tempo, foi comentarista do Manhattan Connection. Recentemente, voltou para atrás das lentes. Em ritmo frenético, e totalmente dedicado, está dirigindo "A suprema felicidade".

O que terá justificado sua volta para o cinema?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Falta de respeito 02

Pois é.... eis aqui a segunda versão do vídeo "Falta de Respeito". Como diria o Maestro Soberano, "espero que definitiva"! É ela que irá para o tal festival.

Não foi necessário que me convencessem da minha lamentável atuação como ator. Eu mesmo já tinha feito um juízo extremamente negativo sobre meus movimentos diante da câmera (é uma pena que nem todos atores tenham essa serenidade.... quá, quá, quá!). Apenas mudei a versão porque entendo que a imagem do celular está em maior sintonia com o tema do clipe.

Ah sim, o tempo continua o mesmo: menos de um minuto e quarenta segundos!

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Falta de respeito

"Falta de respeito" é o nome desse vídeo aí embaixo. Ele deve participar de um festival de curtas-metragens. Pretendia explicar a idéia original e fazer uns comentários sobre o resultado. Contudo, as imagens falam por si. Quem tiver paciência para ver, fique à vontade. Tem menos de um minuto e quarenta segundos.


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sábado, 3 de outubro de 2009

Gadelha e a cidade grande

Gadelha e a cidade grande - Roberto Barbato Jr

Conto publicado originalmente no Portal Cronópios (http://www.cronopios.com.br) em 03/10/2009


Sua existência estivera circunscrita ao restrito mundo da venda de seu pai. Completara duas décadas praticamente trancado ali, entre notas e carregamentos, vendas e pedidos. Seus conhecimentos nas matemáticas eram exíguos, sabia executar de modo claudicante as quatro operações elementares – o suficiente para levar a termo a tarefa que sr. Afrânio desde cedo lhe confiara. Tinha relações as mais cordiais com os fregueses e não raro os recebia em casa, quando a necessidade os surpreendia no meio da madrugada. Gadelha era um menino dado às generosidades da alma humana. Um bom rapaz, dizia a voz do vilarejo.


Amigos, fizera poucos. Lograra o infortúnio de uma paixão quase platônica. Jamais nutriria tamanha afeição por qualquer outra mulher. Amelinha representava a descoberta de sua sexualidade e de seus sentimentos mais nobres. Um dia entrara na venda para anunciar que mudaria para a cidade grande. Tinha devaneios incompatíveis com a vida de Gadelha. Seria atriz.

Sofria calado, sonhava com o momento de conhecer aquilo que só havia no relato de companheiros e na televisão. Pensava em edifícios grandes, os chamados arranha-céus – disseram-lhe que eles existiam! Mesmo diante de evidências, hesitava acreditar que aquilo tudo seria possível. De quando em vez, suplicava ao pai para conhecer a cidade grande. Reticente, o velho assentia:

- Um dia, quem sabe...

Divertimentos, só na Casa de Lulú, a cortesã do vilarejo. Lá passava as noites com o consentimento do pai. Tinha já sua rapariga cativa, a quem transferia as fantasias outrora sonhadas com Amelinha. Ao final do prazer, tal qual uma epifania, imperava a imagem da musa eterna. Depois, acometia-lhe a preocupação com os afazeres comerciais, restava-lhe o dissabor da labuta.

Iniciara-se nas primeiras locuções da língua inglesa. Pronunciava-as com sotaque carregado, tentando alcançar a perfeição. Como fosse incapaz de articular um período com lógica, repetia expressões sem lograr seu completo entendimento. Com isso, imaginava prescindir da legenda do telão quando de sua primeira visita ao cinema. Também sonhava com ele.

Passaram-se alguns anos. Sr. Afrânio agonizava na cama. Já não era sem tempo!, exclamara o filho. Presenciara sua morte, suspirara e atirara-se em cima do velho. Um choro indefinido: não sabia se de alegria ou desespero. Vencera o primeiro, imprimindo-lhe uma sensação de liberdade jamais experimentada. Iria atrás de Amelinha, decidira.

Mas, como?, refletia na solidão da venda, por trás do balcão. Elvira, a vizinha, concordara em levá-lo desde que prometesse discrição. Não queria repentes e vexames, já lhe custara muito a imagem de caipira na cidade grande.

Foi então que, com um misto de receio e alumbramento, Gadelha pusera-se a sonhar novamente. Ensaiara posturas, gestos e frases de efeito. Buscava a naturalidade de uma situação que, sabia, lhe seria hostil. Preparara com dificuldade sua mala; arrumara roupas e pertences de forma desordenada; vestira sua melhor camisa. Partiram.

Ao aproximar-se da cidade, estacara perplexo. Calara-se. Quisera voltar, desistir de tudo. Elvira encrencara:

– Assenta, homem.

Gadelha a tudo olhava. As pontes, os edifícios, as ruas, largas construções, carros a mancheias: tudo lhe causava assombro! Flagrara-se diante de um universo temeroso. Preferira ficar calado, não abrir a boca. Elvira, vez por outra, explicava-lhe as coisas, dizia o nome, a utilidade. Mostrava-lhe o sentido daquele cenário inédito, fazendo-o crer que para além da venda de seu pai havia um mundo repleto de significados.

A primeira noite fora de casa... Foram ao cinema assistir a um filme de procedência norte-americana. Gadelha fazia questão: queria testar seu inglês. Poucas foram as palavras que conseguira captar. Depois de poucos minutos rendera-se à lépida legenda. Ao final da fita, após tantos diálogos perdidos, não pôde entender o intrincado jogo de artimanhas entre a mocinha e o bandido. Passara a repudiar o cinema. Melhor seria confinar-se à venda, lá teria compreensão de tudo quanto lhe parecesse dificultoso.

Mal dormira durante a noite pensando em Amelinha. Como encontrá-la? Disseram-lhe que a cidade grande é realmente grande. Teria pouquíssimas possibilidades de rever o antigo amor. A menos que o encontrasse casualmente, sem a mínima intenção. Mas, qual o quê? Gadelha não tinha boas relações com as coincidências. Sempre que elas se lhe apresentavam era porque estava a caminho alguma desdita.

Impingira-o um desalento implacável, já não tinha mais ânimo para nada. A vizinha tentara consolá-lo, convencendo-o de que Amelinha já não se importava com ele. E mesmo que estivesse enganada, um novo encontro de nada adiantaria: após longos anos, ela não se renderia às mesuras do rapaz. Sugeriu-lhe que aproveitasse a última noite na cidade grande assistindo a um musical em uma dessas casas de duvidosa reputação.

Espetáculo começado, a boca de Gadelha não se continha em pequenos risos. Deleitava-se com cenas de intensa vulgaridade. Gargalhava com a precária coreografia das danças. Sentira-se absolutamente feliz até o momento em que, perplexo, notara a presença de Amelinha no palco. Palpitara-lhe o coração, ficara pálido, trêmulo, inerte.

Poderia voltar para casa. Já era indiferente ao sonho da cidade grande, do cinema e do amor de Amelinha.