sexta-feira, 6 de maio de 2022

Enfim, o que aconteceu com o Carva

Enfim, o que aconteceu com o Carva 

Uma Big Band como o Brasil jamais ouviu foi contratada pelo Gênova. Ao som de Anything Goes, convidados começaram a chegar. Luzes, brilhos, odores e melodias enformavam a atmosfera de um grande acontecimento. Homens de Black Tie, mulheres de longo, garçons com atendimento impecável. Scotch, Single Malts, Bourbons, Pró-secos, tintos de extração premiada eram sorvidos sem moderação. À socapa, entre móveis e cortinas, carreiras de coca eram aspiradas pelos adictos. Alguns não perceberam que o preto do smoking contrastava com o brilho do pó e denunciava os incautos.

Quando Carva chegou no salão, deu um efusivo abraço no italiano. Naquele instante, Gênova foi atingido pelo olhar de Murilo e não deixou de piscar para ele. Era a senha confirmando a execução do meu amigo.

Eu já sabia que Léo havia se encarregado de relatar ao Gênova todo o estratagema de locupletação do Carva. Derramou sobre a mesa provas, acionou áudios para sua apreciação e até chamou testemunhas para corroborar o alegado. Com tudo isso, não restava dúvida sobre as intenções do italiano.

O difícil foi convencer Carva a dar seguimento ao que havíamos combinado para mantê-lo vivo. Ele chegou na festa alucinado, pretendendo fazer um escândalo e dar cabo no próprio Gênova. De quebra, também mataria o Murilo. Estava ressentido com a traição dos dois e faria o que pudesse para sugerir que os homicídios eram passionais.

- Porra, Carva! Assim, você vai se foder!

Não sei de que maneira consegui chamá-lo à razão. Pusemos o plano em prática.          

Saímos da festa e fomos para a zona do meretrício municipal. Lá, ateamos fogo no carro do Carva. Antes disso, colocamos o cadáver que Minhão nos arrumou no banco do motorista. Sim, Minhão nos ajudou graças à anuência do Solda, a quem Carva pagou todas as dívidas por drogas, com juros e correção monetária.

Para facilitar a identificação do corpo do Carva deixamos seus documentos do lado de fora do veículo. Como sabíamos que o cadáver passaria por perícia no IML, negociamos com o legista responsável pelo Instituto de Criminalística um valor significativo para que a identidade do meu amigo constasse do laudo. Em suma, a ciência atestaria que o corpo carbonizado e supostamente torturado era do Carva.

Naquela madrugada, deixei meu amigo escondido em casa. Pela manhã, antes mesmo de a polícia encontrar o cadáver carbonizado, Carva estava embarcando para a Itália, com identidade falsa.

Encarreguei-me de enviar ao Ministério Público Federal todas as escutas ambientais e telefônicas que Carva registrou durante as tratativas com Gênova, o Senador José Décio e o governador. Na sexta-feira subsequente, todos foram presos preventivamente. Já se sabe que, agora, respondem pelos vários crimes cometidos.

Juliana não conseguiu mais acessar as contas do Carva. Ele transferiu o dinheiro para a Itália e deixou as contas suíças zeradas. Para ela, restou apenas o apartamento em que residiam.

Enfim, hoje, Carva atende pelo nome de Guilhemo Di Tulio e passa os dias longe de confusões em Altomonte, um belo vilarejo no sul da Calábria.

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O convite

O CONVITE

            Gênova resolveu dar um rega-bofe para comemorar os 15 anos de sua empreiteira. Não poderiam faltar políticos, empresários, funcionários públicos e gente com alguma particularidade de influência na vida pública do país. O critério para a escolha dos convidados, contudo, ainda hoje é motivo de especulação. O que teria Gênova estabelecido como condição essencial para que alguém pudesse desfrutar da comemoração? Talvez nem ele soubesse...

A festa, produzida sem preocupações quanto ao orçamento, teria de causar alaridos. Quando se soube dela no meio político, houve grande expectativa. Quem fosse convidado teria, em tese, o reconhecimento de algum prestígio. A cada um caberia capitalizar esse prestígio. Depois daquela data, a credencial mais importante consistiria em dizer que foi pessoalmente convidado pelo italiano. E quanta gente não agiu assim!

De outro lado, pé rapados, sequiosos por alguma notoriedade, chegaram a vender a alma e o corpo para conseguir um convite. O acesso à festa seria franqueado pela venda de sexo a preços módicos. Nunca a lascívia foi tão desvalorizada no mercado dos boçais arrivistas. Quanta humilhação e indignidade!

         Mais que uma comemoração sobre o sucesso da empreiteira do italiano, a festa representaria a sonhada vingança sobre Carva. Gênova ansiava por isso.  

domingo, 10 de abril de 2022

Carva e a política

CARVA E A POLÍTICA

             Carva era pretensioso demais para ficar com a malhas da política regional. Prefeitos e vereadores eram alvo de suas investidas na política. Mas ele queria galgar posições mais altas, desejava produtos mais rentáveis. Por um concurso de circunstâncias, conheceu o Senador José Décio, o grande articulador da conquista da presidência da República. José Décio era uma mente diabólica. Seu planejamento era aparelhar o Estado e manter, por anos, a hegemonia política de seu partido. Para isso, é claro, tinha de fazer conchavos e maracutaias.

            A primeira dessas maracutaias se deu justamente com o Gênova. O italiano decidiu bancar a campanha política do Senador e, de quebra, ainda escorregou uma bolada para os membros do partido. Em troca disso, o óbvio: o esquema que alimentou a corrupção republicana nos últimos anos voltou à tona. Ou seja, a empreiteira do Gênova ganhava, sem esforço, as mais importantes licitações de obras públicas Brasil afora. Todo mundo se dava bem: a empreiteira lucrava, José Décio e seu partido ganhavam um bom dinheiro e se mantinham dentro da máquina estatal. Por fim, o Carva, além de prestígio, ganhava uma porcentagem de cada certame fraudado.

            Quando conheceu o governador do nosso Estado, Carva deu um jeito de inseri-lo na jogada. Com um jantar simples, tramado nas conjuras da política estadual, conseguiu fazê-lo se filiar ao partido do José Décio. Depois, apresentou-o ao Gênova. Resumindo a ópera, Gênova, José Décio e o governador tinham o domínio da maior parte das obras públicas estaduais e federais.

            Carva estava tranquilo e não tinha ideia da vingança tramada pelo Léo. Tudo era questão de tempo.  

domingo, 3 de abril de 2022

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana veio de baixa extração social e provou que elegância nem sempre está atrelada ao dinheiro. É uma mulher incrível, linda, elegante em tudo, nas vestes, nos gestos, nas falas. Não sei como o Carva conseguiu se casar com ela. Sabe essas pessoas que não foram feitas umas para as outras? Pois é: Carva e Juliana, Juliana e Carva. Quando soube que iam se casar, eu já era apaixonado por ela. Já havia tentado, de todas as formas, conquistá-la. Fiz de tudo, de oferta de rosas a declarações de amor que o mais sensível dos homens jamais faria.

Todas as suspeitas de que ela apanhava do marido eram infundadas ou, pelo menos, nunca encontraram eco em provas. Resumiam-se a ilações decorrentes do uso constante de óculos escuros. Havia, contudo, uma explicação lógica para isso: Juliana tinha olhos claríssimos – lindos! – e sofria com fotofobia. Daí por que o uso de lentes escuras seria sempre um expediente para se sentir confortável. Nada mais natural...

Jamais acreditei que aquela mulher fosse capaz de matar alguém. Ainda que não gostasse do marido, não teria índole para cometer uma atrocidade daquelas. Sabe-se que ela tinha conhecimento das puladas de cerca dele. Tinha ciência do affair entre ele e Murilo e não ficou surpresa ao saber que tivera uma temporada ao lado de Luize. Mas, em nenhum momento, demonstrou qualquer ponta de ciúme. Manteve-se  tranquila, como se não soubesse de nada. Não sei se por elegância ou por hipocrisia, preferiu assumir o papel de mulher resignada.

Pois o único motivo que poderia fazer com que Juliana encomendasse a morte do Carva seria o desejo de apossar-se do dinheiro que ele havia remetido para Genebra. Eram milhões. Ele não fazia ideia de que a esposa sabia dos estratagemas que  garantiam o produto de suas condutas não republicanas. Tinha a senha das contas suíças e o contato dos doleiros que engendravam as operações a cabo amiúde realizadas pelo marido. A cada negociata, acompanhava o crescimento do patrimônio do casal, conferindo o valor de cada aplicação estrangeira.

Além de linda, Juliana era inteligentíssima. E muito, muito discreta.

domingo, 27 de março de 2022

A bissexualidade do Carva

 A BISSEXUALIDADE DO CARVA

             Carva me confidenciou que tinha apreço por homens quando já tínhamos mais de 40 anos. Para ele, foi muito difícil confessar aquilo. Seu pai era um machão, sujeito rude, e não admitia o que chamava de safadeza. Sua mãe era uma coitada, não tinha voz em casa. Pessoa simples, não conseguiria entender o que era bissexualidade. Diante disso tudo, Carva não tinha com quem se abrir. Um dia, do nada, me contou sobre um relacionamento que estava tendo com um personal trainer, o Murilo.

            O rapaz era garoto de programa de luxo. Saía com os frequentadores da academia onde trabalhava. Em pouco tempo, se afeiçoou ao Carva e percebeu que, às custas de seu ciclo de amizades, poderia se dar bem. Por um laivo de ingenuidade, Carva não demorou para apresentá-lo ao Gênova. Imaginava que, assim, pudesse tentar alguma ocupação para o amante na empreiteira.

Quando o italiano bateu os olhos no Murilo, ficou arrepiado de tesão e mal conseguiu esconder o rubor. Gaguejou, titubeou e desmunhecou.... Já com o casamento desgastado, Gênova queria uma aventura e apostou naquela oportunidade. Pulou de cabeça! Murilo pediu as contas na academia e passou a ficar as tardes na empresa à espera do chamado do novo patrão. Fornicavam nos fundos da sala da presidência. E, no final do mês, era grandemente recompensado...

A moral da história é que o Carva nem sequer imaginava a triangulação amorosa à qual havia dado ensejo. Pensava que Murilo era exclusivamente dele e que Gênova lhe fizera um favor ao contratar o rapaz. Não era uma situação segura e Carva pagaria por ela....

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Carva e os negócios

CARVA E OS NEGÓCIOS 

Gênova, sócio majoritário da Gênova Incorporações LTDA sabia que Carva tinha boas relações com políticos de todos os escalões, de vereadores a senadores. Chamou-o para engendrar um esquema de negociatas que implicava fraudes a licitações. A empreiteira seria selecionada para a execução de obras de várias prefeituras e levaria uma bolada.

No início, visaram a região metropolitana da cidade, composta por quinze municípios. Em cada prefeitura, havia alguém disposto a direcionar o certame para a empreiteira. Esse alguém era contatado pelo Carva, a ponte imprescindível do negócio. Ele combinava preços, formas de pagamento e outras benesses. Conhecia todas as etapas e personagens do plano. Nada acontecia se ele não desse o comando. Tinha o controle de absolutamente tudo. Se alguém caísse nas graças dele, poderia abocanhar as polpudas vísceras do erário.

Meses antes de sua morte, Carva resolveu voar alto. Fechou um acordo coletivo com oito prefeitos. Só ele ficaria com 60% de todo o capital envolvido. O restante, que não era pouco, seria dividido entre os prefeitos, agentes públicos e ainda sobraria para realizar, com folga, os empreendimentos. Enfim, uma tacada de gênio.

            O que o Carva não conseguiu prever é que um sistema corrompido de cima a baixo sempre tem um delator. Naquele caso, tinha um delator traído, o Léo.

A mulher do Léo era uma mulher tão sedutora quanto mentirosa. Luize se envolveu com o Carva por meses e não fez esforços para acobertar o relacionamento. Quando o Léo ficou sabendo, decidiu vingar-se do Carva. Mas não usou de violência. Preferiu juntar provas de que Gênova seria passado para trás e as guardou para usar oportunamente.

        Carva não perderia por esperar.

sábado, 12 de março de 2022

Carva e as drogas

CARVA E AS DROGAS

             Carva viveu intensamente. Excedia-se em tudo. Com as drogas não seria diferente. Quando passou a experimentar a dificuldade material, decidiu adotar uma estratégia para garantir o consumo da droga. Inicialmente, comprava de um fornecedor e pagava à vista. Consumia o que lhe era possível, mas dava um pouco para os amigos saberem que o produto era de qualidade. Quando o dinheiro rareava, ele apresentava aqueles amigos para o fornecedor. Garantia que iriam comprar em grande quantidade. O fornecedor, é claro, viu naquela sistemática uma maneira de ganhar mais dinheiro. Passou a encarar o Carva como um parceiro da mercancia.      A lógica toda ruía quando os amigos também paravam de pagar o fornecedor. Conclusão, de parceiro, o Carva passou a ser perseguido com um traidor.

            Como era insistente e não podia se livrar do vício, Carva imaginou que, se a estratégia dava certo com um fornecedor, daria com outros. Não hesitou em replicar seu modus operandi com as demais bocas de fumo da cidade. Até que a dinâmica se esgotasse com cada um deles, estaria tranquilo. No fundo, ele alternava fornecedores que participavam de facções rivais. Assim, mandava recado a alguns em nome de outros. É óbvio que todo mundo queria a cabeça do meu amigo.

            Agora, o pulo do gato de toda essa odisseia era o fato de que nenhum dos fornecedores conheceu a fuça do Carva. Quando era instado a responder a alguma mensagem, ele colocava uma foto de perfil diferente, geralmente de um desafeto seu. Para cada fornecedor, um rosto. Para cada encrenca, um filho da puta.

            Pelo que fiquei sabendo, o Solda, que era o maior traficante da região, teve um papo reto com o Minhão e lhe deu 24 horas para apresentar o corpo do Carva. Só que ninguém sabe onde está o Minhão. Nem eu.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Missa de Sétimo Dia do Carva

 CONVITE PARA MISSA DE SÉTIMO DIA DO CARVA


O convite para a Missa de Sétimo Dia do Carva foi de uma cafonice sem igual:

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, por que se você parar para pensar, na verdade, não há. (Renato Russo)

 

A família convida todos os amigos e parentes para a Missa de Sétimo dia de João Carvalho Filho, o querido Carva. Ele deixa pais e esposa. E também muitos amigos que o amavam.

 Não sei quem mandou o texto para o jornal, mas tenho certeza de que não foi a Juliana. O Carva odiava o Renato Russo e as músicas da Legião Urbana.

terça-feira, 1 de março de 2022

A morte do Carva

 A MORTE DO CARVA


    Porra, Carva! Assim, você vai se foder!

    Foram as últimas palavras que falei para o Carva naquela noite, ainda na festa. No dia seguinte, a notícia de sua morte consternou a todos. A necrópsia constatou que ele foi friamente torturado. Sofreu muito, o coitado. Depois, incineraram o corpo. Ficou irreconhecível.

    Liguei para Juliana, sua esposa.

    - Estou bem, sim. Vou superar tudo isso.

    As mais diversas hipóteses sobre a motivação do homicídio começaram a chegar até mim. Eu só ouvia...

    - O Carva foi assassinado por um traficante. Nos últimos anos, estava cheirando muito e todos sabiam que ele não pagava pelas encomendas. O Minhão deve saber de alguma coisa. Era o avião.

    - O Carva? Esse foi morto pelas mãos de um marido traído. Bonito e gostoso, era também um sedutor. Meu Deus! Só eu, tenho três amigas que se envolveram com ele. Não me arrisquei porque o Léo é muito violento e, se soubesse, certamente acabaria com o Carva.

    - Só tem uma explicação: a impaciência do Gênova, o empreiteiro. Muita coisa ficou sem explicação sobre a época em que o Carva trabalhou na empresa dele. Foi o período de maior crescimento do patrimônio do italiano. Aí tem.

    - Quem matou o Carva? Só pode ter sido um garoto de programa! Quase ninguém sabia, mas ele era bi. Tinha cacho com o Murilo, um personal trainer que também fazia michê. Verdade! O Murilo era um Apolo. Uma noite, vi os dois juntos num motel. O Carva era dado a putarias de toda sorte.

    - Foi a mulher, a Juliana. Apanhava demais e tinha medo de avisar a polícia. Às vezes, ficava reclusa em casa. Quando saía, sempre usava óculos escuros. Eu gostava muito dela e disse que poderia ir até a Delegacia de Defesa da Mulher para ajudá-la a dar queixa. Mas ela resistia. Dizia que não seria capaz. Amava o Carva. Mas tem uma hora...

    - Prefiro nem falar no assunto. Sei que tem até político envolvido nisso. Gente de cima, de poder mesmo. A coisa é pesada.

    A morte do Carva foi um grande mistério. Até que...


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A verdadeira origem do trompete e do saxofone

 A verdadeira origem do trompete e do saxofone

Em meio a um profundo tédio, desses capazes de fazer qualquer pessoa desistir da existência, Michet clamou pela presença de Deus. Queria um diálogo breve.
– Meu Deus, por favor, faça algo que dê sentido à minha vida.
Sabendo que Michet tinha grande afeição pela música, pois que vivia a assobiar, Deus propôs:
– Que tal um instrumento musical?
– Perfeito. Adoraria...
No dia seguinte, Deus o chamou e lhe entregou o prometido.
– Eis aqui o trompete. É um instrumento de sopro, composto por três pistos, uma campana, um lide pipe, curva de afinação, gatilhos das pompas... Há, também, uma peça móvel: o bocal!
Maravilhado, Michet pediu uma demonstração de como funcionava.
Deus tocou uma escala simples, o suficiente para que qualquer um tomasse ciência da beleza do som produzido pelo trompete.
Michet, todavia, estranhou:
– Como produzir todas essas notas com apenas três pistos?
Deus, paciente, explicou:
– Você terá de unir a digitação dos pistos com a flexibilidade dos lábios. Dessa conjunção resultarão todas as notas. Ao imprimir força a um pisto, haverá inúmeras possibilidades de notas a partir do movimento dos lábios. Não é tão simples, mas você chegará lá...
Michet logo deduziu que a beleza do som do trompete exigiria dele esforço e muito treino. Ao tentar emitir os sons, não teve êxito e ficou injuriado.
Deus, então, lhe disse:
– Michet, esse é um instrumento para as pessoas obstinadas, aquelas que têm vontade e perseverança. Para tocá-lo, não bastará talento. Serão necessários muitos estudos, tanto para formar a embocadura, quanto para articular as notas.
Michet entendeu que seu talento para assobiar e sua sensibilidade musical talvez lhe conferissem habilidade no manuseio do trompete. Com muita perseverança, tornou-se um grande trompetista.
Vendo e ouvindo Michet tocar, Horácio sentiu-se injustiçado. Queria também algo feito com exclusividade para si. Exigiu a presença divina.
– Pois, não, Horácio.
– Meu Deus, também quero um instrumento. O senhor seria capaz de inventar algo?
Deus perguntou-lhe:
– Não gostou do trompete? É um instrumento fantástico.
– Não é que não tenha gostado – explicou Horácio. É que já tentei tocá-lo e não consegui. Prefiro algo mais fácil, que exija menos esforços, menos estudos. Não quero algo que tenha apenas três pistos. Isso impõe ao músico um trabalho ingente. Desejo um instrumento que não precise da embocadura do trompete. Também gostaria que ele fosse dotado de várias chaves para que eu tivesse todas as notas disponíveis, ao alcance das mãos. Sem essa de ter de usar os lábios para produzir som... É muito trabalhoso. Não é para mim....
Deus sintetizou a pretensão de Horácio:
– Então, você deseja um instrumento simples, fácil de tocar, que não demande esforços e que seja bastante cômodo para qualquer pessoa?
– Perfeito – respondeu Horácio...
Assim nasceu o saxofone.
Em tempo: aposto no bom humor dos saxofonistas!!!!