terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Naqueles tempos: a liberdade e o filme de Godard

Naqueles tempos: a liberdade e o filme de Godard

- Je, o quê?
- Vous salue Marie!
- Vu salí? Marrí?

Je vous salue, Marie era dificílimo de pronunciar, sobretudo para quem não tinha noção mínima do francês. E o diretor? Godard também era esquisito, não se sabia nem como grafá-lo... 

Após acompanhar a votação do Colégio Eleitoral e a morte de Tancredo, o menino ficou curioso para saber o que aconteceria. Com a assunção de Sarney, ouviu pelos quatro cantos que todos os cidadãos que acreditavam no Brasil deveriam se transformar em fiscais. O congelamento de preços havia sido anunciado e, para garanti-lo, a coletividade precisava mostrar seu empenho. “Tudo pelo social” virou um tema nacional e, também, uma grande chacota.

A inflação vivia época áurea e até mesmo a meninada despolitizada sabia o que era o overnight. Uma incógnita pairava sobre a cabeça de todos. Seu nome era futuro.

Mais que curioso, o menino ficou confuso. Disseram-lhe que o período de exceção havia, ao menos formalmente, chegado ao final. A professora lhe garantiu que a historiografia estabeleceria um novo marco. De 1985 para frente, o Brasil estaria na fase da Nova República. Era a liberdade.

E eis que ouviu no banco do ônibus uma infeliz senhora bradar que deveriam ficar todos presos. Divulgar aquela blasfêmia devia ser pecado. Se a censura era demais, imagine saber que a polícia havia interceptado uma sessão clandestina do filme? A curiosidade do menino aumentou. Para assistir ao longa, teria de esperar mais algum tempo.

Em junho daquele ano, ouviu a voz de Herbert Vianna cantar Selvagem, faixa título do LP recém-lançado. A música trazia uma breve descrição da ordem social brasileira. Tocado a um som reiterado, o riff da guitarra dava a impressão de insistência. Da repetição se criava um ciclo inesgotável formado pela polícia, pelo governo, pela cidade e pelos negros. Cada qual com sua incumbência, apresentava um cenário de horror e imposições.

A história era tão dissimulada quanto seria a Nova República nos anos seguintes. De liberdade, ali não havia nada. Por isso, Herbert entoava: “a liberdade cai por terra aos pés de um filme de Godard”.

Anos depois, diante do filme em VHS, o menino compreendeu o comentário da infeliz senhora do ônibus a música do Herbert. O menino era eu, é claro.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A despedida de Rogério Ceni

A despedida de Rogério Ceni

Aconteceu, enfim, a tão adiada (para alguns, odiada) aposentadoria de Rogério Ceni. Despede-se do futebol um mito, um raro caso de perfeita identidade entre jogador, clube e torcida. Futuras gerações o associarão ao São Paulo Futebol Clube com grande facilidade.

É infindável o número de suas vitórias, méritos e prêmios. Não vou enumerá-los, pois isso realmente consumiria tempo e paciência. Quem tiver interesse, que faça bom uso do Wikipédia. Lá, entre estatísticas e rankings, por certo terá a descrição da exitosa trajetória do rapaz. 

Dentre seus méritos está o fato de ter atuado por tanto tempo no São Paulo, recusando propostas de clubes estrangeiros. Fez história no clube, impedindo e marcando gols. Sim, um goleiro que marca gols de faltas e pênaltis.

Também parece não haver dúvidas de que seja um bom sujeito. Alheio a escândalos que geralmente envolvem jogadores de futebol, ele jamais apareceu no noticiário por supostas condutas ilícitas e comportamentos moralmente recusados pela opinião pública.

Mas não é nada disso que pretende focar essas linhas. O Rogério Ceni que agora interessa é outro.

Antes de sua aposentadoria, havia já algum tempo, estava difícil assistir a uma partida da qual participasse o goleiro. Explica-se. 

Por alguma razão que foge ao nosso conhecimento, o jogador que defendia a inércia das redes passou a se arrogar o papel de árbitro de futebol. Pois é, em vez de goleiro, alçou-se, ainda que informalmente, à posição de juiz. O bom moço demonstrou que era pródigo em discussões sobre o destino do jogo. Em tudo opinava, gritava, coçava a cabeça, debatia, vociferava! Manifestava inconformismo com toda e qualquer atitude do árbitro, sobretudo se não fosse favorável ao seu time.

Já cheguei a notar situações em que ele saía da grande área e corria até o outro lado do campo para, sempre de maneira respeitosa (mãos para trás), reivindicar uma postura do juiz. Então, fazia comparações, cobrava dele uma coerência que supunha existir na sua interpretação do jogo. Quando contrariado – o que era frequente! –, voltava para seu lugar, resmungando, sinalizando negativamente com a cabeça, a testa enrugada, o semblante carrancudo.

Em sua concepção, a arbitragem era invariavelmente errada, mesmo quando, diante do momento do pênalti, ele adiantava mais de quatro passos à frente da linha do gol. Talvez se um tira-teima lhe mostrasse sua precipitação, não hesitaria em colocar a culpa no árbitro, argumentando que o apito é que havia chegado atrasado.

Nos últimos anos, assistir a um jogo do São Paulo equivalia a observar um show de lamentações. Era como ver um atleta se movimentar com micagens, cacoetes de insatisfação e ranhetice.

Rogério Ceni poderia ter nos poupado de tudo isso. Seu brilhantismo e a competência com a qual desempenhou seu ofício em campo, poderiam vir acompanhados de um espírito leve e do riso que marca a personalidade de tantos craques como ele.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mistério no Morro do Deleite




MISTÉRIO NO MORRO DO DELEITE - ROBERTO BARBATO JR
Uma valiosa pintura do modernismo brasileiro é roubada de um milionário, que oferece generosa recompensa por informações que levem à recuperação do quadro. Três jovens jornalistas, Plínio, Giulia e Tonico, dotados da curiosidade própria à profissão, logo percebem que a história contada deixava algumas pontas soltas: por que a obra era tão pouco conhecida? Quem foi aquele pintor, de quem nada mais se conhecia e que tivera uma passagem meteórica no mundo da arte?
Mistério no morro do deleite é uma história de suspense que leva os personagens aos labirintos sociais das fortunas desfeitas, das fraudes fiscais e do tráfico de drogas em uma comunidade urbana. A narrativa ágil de Roberto Barbato Jr. coloca o leitora ao lado dos personagens que procuram com sua investigação localizar as peças que faltam para completar sua história.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Naqueles tempos: a falta do Whats App

Naqueles tempos: a falta do Whats App

Naqueles tempos não tinha celular, e-mail, Facebook, Whats App, nada disso. O contato com ela tinha de ser feito por telefone. Depois de descoberto o número – o que já era uma façanha e tanto –, tínhamos de enfrentar uma batalha: ligar para a casa dela, correndo o risco de sermos surpreendidos por seu pai ou sua mãe. O pai, é claro, sempre atendia com aquela voz grave indicativa de que era macho. Sem graça e educadíssimos, pedíamos o favor de chamar a filha. O sujeito, que não era bobo, nem nada, perguntava sua identidade. Não havia saída: você tinha que dizer o nome. Dependendo da boçalidade dele, telefone no gancho.

Em alguns casos, na cara dura, perguntava: “O que você quer com ela?”. Aquilo era um constrangimento suficiente para suscitar uma resposta simples, mas honesta: “Quero falar com ela”. A reação dele poderia ser, também, o telefone no gancho.

O máximo era quando as meninas tinham uma linha reservada no quarto. Aí, a coisa fluía. O problema é que, naqueles tempos, linha telefônica custava uma bala. Dificilmente, uma menina dessas daria bola pra gente.

Com o passar do tempo, criaram-se alguns recursos para não ter de lidar diretamente com o pai da fulana. O negócio consistia em colocar alguma menina na parada. Assim, se o sujeito perguntasse quem queria falar com a filha, a menina logo diria: é uma amiga dela. Qualquer amiga era digna de confiança.

Eu tinha uma amiga que valia por todas: a Carmem. Ela ligava para a casa da fulana e, em menos de um minuto, estávamos falando ao telefone. Por aí se vê que a Carmem tinha amizade com uma infinidade de meninas. O que não se botava reparo era que ela não tinha voz de menina. Mesmo assim, o negócio dava certo. Podia-se até achar estranho, mas a coisa ia pra frente.

Um dia a fulana veio falar comigo. Quando atendeu, perguntou quem era e eu me identifiquei. “Ué, não era a Carmem?”. Telefone no gancho.

Em algumas situações, a ausência da Carmem era cruel. Sucedeu o seguinte... Uma fulaninha tinha acabado de se apresentar no festival de balé. Terminado o espetáculo, já em casa, liguei para ela. Pretendia fazer um meio de campo. O pai atendeu e, ato contínuo, falou: “Boa noite, Brasil”. Sem saber o que fazer, perguntei: “Boa noite, Brasil?”. E ele, mais entusiasmado, praticamente gritou do outro lado da linha:

- Boa noite, Brasil!

Diante daquela circunstância, quase sem reação, pedi para falar com a filha dele. Totalmente sem graça foi chamá-la sem perguntar de quem se tratava. Imaginou que a chamada era do Flávio Cavalcanti, um apresentador fanfarrão que ligava para a casa de telespectadores e dava prêmios em dinheiro, desde que se atendesse ao chamado com um efusivo “Boa noite, Brasil”.

“Boa noite, Brasil“ é o caralho. Eu lá tinha voz de Flávio Cavalcanti?

Pois é. Com ou sem a Carmem, o clima que antecedia a conversa no telefone era repleto de expectativas, frios na barriga. Havia uma atmosfera de suspense impensável diante das tecnologias de hoje. Todo o tortuoso caminho que se percorria para chegar a um simples contato agora inexiste. O Whats App resolve tudo. E, para ele, nem é preciso responder “Boa noite, Brasil”.

domingo, 17 de maio de 2015

Entre consagrados e normais

Entre consagrados e normais - Roberto Barbato Jr

Depois de alcançar décadas em vigência, a Lei Rouanet continua a propiciar toda sorte de discussões entre artistas, produtores e intelectuais. Recentemente, em entrevista ao jornal Valor Econômico, Francisco Bosco, presidente da Funarte, disse que seu pai, o músico João Bosco, “tem a dignidade moral de nunca ter se inscrito na Rouanet”. A publicação da entrevista ensejou comentários contundentes da articulista Fernanda Torres, (Folha de S. Paulo, “Os indignos”, 01/05) que se opôs frontalmente à sua manifestação acerca dos critérios utilizados para conceder os benefícios da consignada lei.

Em réplica, (Folha de S. Paulo, “Os normais”, 04/05), Bosco afirmou “que o Estado, de modo geral, não deve usar dinheiro público para viabilizar projetos que o mercado já viabiliza”. Dessume-se de suas ponderações que artistas capazes de obter recursos por meio do mercado não deveriam se inscrever na Lei Rouanet. Levado ao limite, seu raciocínio soa exagerado. Não deixa, contudo, de suscitar uma questão visceral da vida brasileira: a quem cabe promover a produção e difusão das manifestações culturais?

Quando das primeiras experiências formais de administração cultural, máxime por ocasião da criação do Departamento de Cultura, dirigido por Mário de Andrade no decênio de 1930, a ideia a nortear a gestão cultural consistia em suprimir o caráter ornamental das manifestações artísticas, em sua maioria havidas como elitistas, e aproximá-las do povo. Tratava-se de elidir o fosso abissal entre a cultura erudita e a cultura popular. Os concertos populares realizados no Teatro Municipal de São Paulo são um exemplo de como era possível franquear o acesso do povo à música erudita. Integrantes de classes subalternadas eram convidados a se imiscuir em um universo cujas portas estavam, até então, inequivocamente fechadas. À época, como inexistissem mecanismos de mercado para promover a cultura, creditava-se tão somente ao Estado essa tarefa. Talvez a primeira empreitada a contar com a iniciativa privada tenha sido a Biblioteca Ambulante. Com o fornecimento da carroceria do carro-biblioteca pela Ford Motor Company Exports Inc a política cultural brasileira passou a visar investimentos privados.

Longo período se passou desde que Mário de Andrade revolucionou a cultura na Pauliceia Desvairada. Com a irrupção da ingerência da iniciativa privada na gestão cultural, o debate sobre o papel do Estado nessa seara assumiu maior relevo. Questiona-se se é legítimo pensar que à esfera estatal incumbe tutelar apenas produções artísticas e culturais que sejam hipossuficientes. Indaga-se se o Estado deve, também, acolher pretensões de artistas que poderiam encontrar respaldo nas teias do mercado brasileiro?

Em um contexto cultural como o nosso, conviria responder a essas questões levando-se em consideração que ainda não se concretizou uma política cultural apta a abarcar as manifestações artísticas de exígua circulação no Brasil. Há, ainda, um vasto potencial de criação que não deixou o estágio do planejamento. Por não contar com apoio do Estado e do mercado, esse potencial distante está de se transformar em cultura propriamente dita. Fala-se muito em criação e difusão da arte por meio de estratégicas midiáticas e pela internet. O que não se evidencia é que existe uma enorme carência de recursos para externar as produções de um Brasil ainda subdesenvolvido, mas absolutamente rico em suas expressões culturais. É difícil atender a essa demanda sem que se recorra ao patrocínio estatal e quase impossível que o mercado se interesse por ela.

De outro lado, é evidente que artistas já renomados – consagrados, indignos ou normais – encontrem maior facilidade de patrocínio para seus projetos. O caminho de quem já obteve o reconhecimento público é mais curto e sujeito a menores riscos financeiros. Nem por isso seria sensato que o Estado recusasse incentivo fiscal àqueles que, pela trajetória construída ao longo de décadas, são “consagrados”. A nenhum título se justificaria, por exemplo, a negativa em patrocinar, por meio da Lei Rouanet, um espetáculo protagonizado por Fernanda Montenegro ou Nathalia Thimberg. Se é certo que ambas têm grande potencial de atração para incremento de seus projetos na iniciativa privada, não é menos correto admitir que vetar suas possibilidades de concretização concorreria para disseminar uma postura antidemocrática, contrária ao que Mário de Andrade intentou lograr.

Entre consagrados e normais, Estado e mercado, há que se buscar o meio termo. E isso nada tem a ver com dignidade moral. É mera questão de sensatez.

sábado, 8 de novembro de 2014

Desilusões com a política

Desilusões com a política

“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída,
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
(Chico Buarque)

Quando ouvi que a Dilma havia sido reeleita Presidente do Brasil, tal como reza o senso comum, pensei: “cada povo tem o representante que merece”. Depois, vendo os números da apuração, pensei, em tom de pilhéria, que somente metade da população tem o representante que merece. Segundo esse estapafúrdio raciocínio, nossa presidente careceria da legitimidade necessária à assunção do cargo. Naturalmente, tudo isso não passa de brincadeira. Afinal, o processo eleitoral transcorreu sem que indícios razoáveis de fraude tenham sido verificados. Dilma é, portanto, uma representante legítima do povo brasileiro. Por mais quatro anos, salvo se houver alguma intercorrência legal que possa cassá-la, viveremos sob os auspícios dessa senhora.

Que esse fato não me agrade não é novidade. O que talvez seja novidade é maneira pela qual venho pensando a política.

Sempre descrevi aqui mesmo (vide links abaixo) minhas convicções sobre a política. Manifestei votos, pugnei pela necessidade de se promover discussões respeitando a diversidade ideológica e, mais do que tudo, demonstrei minha frontal contrariedade à postura de quem prega os votos nulo e branco.

Num passado não muito distante, costumava a acreditar que os partidos políticos eram instrumentos de transformação social, capazes de organizar a política e administrar o dissenso. Acreditava também que, à exceção da cultura, não haveria outro caminho que não o político para a transformação da sociedade. Defluía daí minha insistência para que se assumisse, mesmo diante de opções eleitorais não satisfatórias, o compromisso do voto. Todos deviam prestigiar o instituto da representatividade política.

Não foram poucas as vezes em que me insurgi contra opiniões que derivavam do senso comum. “Cada povo tem o representante que merece”, “políticos são todos farinha do mesmo saco”, “Os políticos usam dos partidos para obter vantagens pessoais” e “Não há político que preste, todos são bandidos” foram máximas que rechacei de pronto, convicto de que havia alguns vocacionados e dispostos a atingir o objetivo da política, o bem comum.

Devo confessar que grande parte das minhas convicções eram sustentadas pela práxis de um partido político que honrava seu discurso. Tratava-se de um partido que lutava pela ética na política, que não fazia acordos com meras intenções eleitoreiras e que chegava até mesmo a recusar alianças consideradas espúrias em nome da coerência com sua plataforma ideológica.

A um rapaz que participaria da primeira eleição direta depois dos longos anos do regime de exceção era extremamente sedutora a ideia de que aquele partido poderia romper, em alguma medida, com as práticas fisiológicas, com o nepotismo que sangrava a máquina pública, com o costume do caudilho, com um passado abominável, enfim. No voto da eleição de 1989 depositei muita esperança, sobretudo porque era preciso combater o adversário, àquela altura dos acontecimentos um lídimo representante de todas as práticas nefastas acima aludidas.

Nas eleições subsequentes, já com muitas ressalvas, ainda houve esperança. O discurso continuava sedutor. As metas eram explícitas e ditas com todas as letras: minar a hiperinflação, minimizar as disparidades sociais, proporcionar condições dignas à massa de brasileiros que vivia abaixo da pobreza, erradicar o analfabetismo e distribuir a renda!

O Brasil, diziam, precisava crescer por si só, “jamais dando o peixe, mas ensinando o povo a pescar”. Reproduzia-se essa máxima à larga. O assistencialismo era quase um palavrão, uma afronta ao rigoroso – quase inexorável – estratagema ideológico de desenvolvimento social. Com invejável habilidade, o líder máximo dessa agremiação política convenceu muita gente.

E tinha mais: seus asseclas enchiam a boca para dizer que aquele era o único partido ético, alheio às práticas obscuras da política tradicional, da velhacaria que se praticava amiúde no país. Pugnava-se pela fidelidade partidária, pela coerência ideológica das alianças eleitorais. Em tudo o partido era digno de elogios.

Veio, finalmente, o poder. A esperança venceu o medo, disseram. E, então, começou o pesadelo. O cumprimento das promessas anteriormente jogadas à população se mostrou inviável. O governo do sempre ético Partido dos Trabalhadores ficou refém da política econômica tão criticada por ele mesmo. Aos poucos, o partido mostrou-se contaminado por um sem-número de atitudes suspeitas.

Evidentemente, já estava em curso um discreto processo de aparelhamento do Estado brasileiro. Nas gestões dos executivos municipais não se deixou de verificar o velho nepotismo, outrora acidamente criticado pelo partido. A hipocrisia do discurso era patética. No âmbito federal, alguma coisa acontecia sem que Luiz Inácio “soubesse de nada”.

O “mensalão“ rompeu qualquer dúvida à época existente sobre a idoneidade de muitos políticos do Partido dos Trabalhadores. Rompeu, também, com a aura da pureza e da honestidade que, pensava-se, pertencia a poucos. Caiu por terra a crença de que aquele era um partido afeiçoado à ética na política. Luiz Inácio continuou a reivindicar o monopólio da moralidade pública. Com inenarrável desfaçatez afirmou: “Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que nosso partido. Admitimos que tem gente igual a nós, mas não admitimos que tenha melhor”. Quem não conseguiu rir, certamente foi capaz de chorar.

O julgamento da ação penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal não deixou dúvidas sobre a ilicitude das atividades desempenhadas por líderes do Partido dos Trabalhadores, alguns dos quais sempre se orgulharam por terem lutado pela democratização do Brasil. Eles, que supostamente tanto fizeram por uma sociedade democrática, foram condenados por ajudá-la a se corromper. Quanta ironia!

O maior esquema de corrupção praticado no Brasil não foi uma fantasia como querem muitos petistas. Sua apreciação pelo Poder Judiciário não demonstrou a existência de nenhum tribunal de exceção. É muito difícil convencer os donos da verdade sobre a impessoalidade das normas jurídicas. Para eles sempre haverá uma exceção. Eles são a exceção. Por isso, a regra jamais poderá ser aplicada em relação a eles.
                                          
Vivenciando todo esse cenário, somente um insensível não seria capaz de repensar suas convicções. Pois eu, agora, não me tornei adepto das máximas do senso comum. Não entendo que políticos sejam, todos, iguais e inescrupulosos. Mas não posso deixar de afirmar que já não me importo mais com a escolha de uma plataforma partidária e tampouco julgo um político pelo partido ao qual ele está vinculado.

Fidelidade partidária e coerência ideológica não fazem mais parte dos critérios que utilizo para escolher algum representante. Continuo acreditando – não sei por quanto tempo – que os votos nulo e branco não devem ser utilizados. Insisto na necessidade de uma escolha, ainda que ela não nos satisfaça plenamente.

De forma talvez corajosa – ou ingênua! – sigo acreditando que há políticos interessados em transformar a sociedade em que vivemos. Ainda há aqueles que “vivem para a política” e não “vivem da política”, como diria Weber.

Embora desiludido, continuo confiante. 



Links relacionados: 








quarta-feira, 30 de julho de 2014

Copa do Mundo de 2014: teorias da conspiração.


O sucesso de divulgação das teorias da conspiração depende menos da plausibilidade de seus postulados do que da convicção daqueles que a professam. Não se tenha dúvidas: é fundamental afirmar categoricamente, insistir no argumento e nunca – nunca mesmo! – recuar. Não importa se a teoria é débil, se existem elos frágeis a compor sua sustentação. Tudo se resolve com a intensidade da crença. Em uma palavra, é preciso ter fé e passá-la adiante.

O que aconteceu com a Copa do Mundo de 2014 não foge à lógica do que ora se alega. Muitos foram os comentários acerca de compra do resultado pelo Brasil. Estamos diante da “teoria da compra da Copa”. A ideia é simples: depois de ter conseguido sediar a Copa em terras nacionais, nossos dirigentes teriam tramado, nas conjuras do futebol internacional, o acordo que daria a taça à seleção brasileira. A trama, evidentemente, incluiria a disposição de alguma cifra milionária. O dinheiro, entretanto, justificaria uma série de benesses para o programa eleitoreiro em curso. Trocando em miúdos, a nossa presidente e seus asseclas, poderiam garantir sua estada no poder a partir do suposto êxito da seleção canarinho.

O espetáculo começou e os defensores dessa teoria se viram cada vez mais convictos e donos da razão. O Brasil estreou ganhando. Contra a Croácia fez 3 a 1. Depois, para que não houvesse desconfiança alguma, resolvera empatar com o México, por zero a zero. Era um abalo planejado e necessário. Conforme os defensores da teoria, a compra da Copa implicava expedientes discretos, daí a necessidade de, ao menos, um empate. Veio, então, o embate com Camarões. Nesse jogo a vitória brasileira teria de acontecer. Do contrário, também haveria desconfiança. 4 a 1 era um placar razoável (leia-se: comprado).

Quartas de final. Felipão alardeou que a vitória não seria fácil e vociferou que o Chile é um grande time. O Brasil teve de disputar a vaga nos pênaltis. Até aqui, tudo como previsto. A próspera seleção campeã ia avançando em consonância com o programa da compra. O próximo adversário era a Colômbia. O Brasil teria de ser moderado. Dois gols no vizinho sul-americano eram suficientes e, para manter o expediente insuspeito, seria bom tomar um gol.
Enfim, era a vez de enfrentarmos a Alemanha. Os baluartes da teoria continuaram fiéis. Até mesmo pela terra de Hegel o Brasil passaria, ainda que tivesse de recorrer novamente aos pênaltis. Se isso acontecesse, não haveria preocupação. Jogadores e goleiro do time germânico já estariam avisados de que teriam de errar. Não foi o que aconteceu. Por motivos que até hoje ninguém sabe quais são, o Brasil foi vítima do tal “apagão”, a maior goleada da história de todas as Copas do Mundo. Uma humilhação  com direito a discursos populistas dos jogadores mais carismáticos.

Pronto! A teoria da compra da Copa do Mundo não havia sido comprovada. Não resistira aos vaticínios feitos. Para que não cedessem totalmente, seus defensores lançaram mão da “teoria da compra parcial da Copa do Mundo”. De acordo com seus pressupostos, o Brasil não poderia, de fato, ter comprado a Copa. Mas não deixaria de garantir um honroso terceiro lugar. As “vozes da razão” foram mais cautelosas: um terceiro lugar se ajustava aos anseios eleitorais daqueles que estão no poder.

O Brasil perdeu da Holanda por três a zero, resultado que fez qualquer brasileiro lembrar a fatídica derrota para a França na final de 1998. Aliás, faça-se parênteses para lembrar que, também naquela Copa, houve teorias da conspiração, sendo, todavia, a França a adquirente do título (a suposta adquirente de má-fé). 

Nem mesmo o terceiro lugar pôde dar lastro à viabilidade da teoria tão propagada nesta Copa. Aqueles que juraram de pés juntos que o Brasil seria campeão tiveram de se conformar que difundiram uma ideia tão inviável quanto estúpida.

Não é só.

Como o brasileiro é inventivo – e sobre isso ninguém ousa discordar –, surgiu recentemente a “teoria da venda da Copa”. Segundo ela, o Brasil teria vendido a Copa do Mundo. Entenda-se.

Tendo comprado a Copa de 2014 – ou seja, o título –, o Brasil resolveu vendê-lo. Qual seria o propósito da negociação? A resposta é simples: sediar a Copa do Mundo de 2022. Vamos à descrição sumária desse sofisticado esquema teórico.

O Brasil deveria avançar o suficiente para se fazer crer que teria condições de ser campeão. No entanto, após o ingresso nas quartas de final teria que abdicar do sonho da taça. Assim, a coluna fraturada de Neymar foi meticulosamente combinada. Zuniga teria recebido orientações – e quiçá dinheiro – para colidir de maneira não responsável com a coluna do craque brasileiro. Neymar também teria recebido seu quinhão para chorar de dor e sair de campo. O executor do plano (não se confunda o papel de Felipão com os mentores intelectuais do esquema) a tudo endossaria. Fred e Hulk também estariam no centro das ações. Pouco talentosos, não seria difícil permanecerem inertes ou desastrados em campo. Dante teria descoberto a falcatrua e mostrara interesse em denunciar a todos. Entretanto, conforme a fantástica teoria, fora ameaçado antes que pudesse fazer alguma coisa. Optara pelo silêncio.

O tal “apagão” ocorreu, portanto, em decorrência de um planejamento traçado pelos beneficiários da teoria da venda da Copa. Como se percebe, o investimento foi grande e só produzirá seus frutos em oito anos.

O importante, agora, é propalar a teoria de modo enfático: em 2022 o Brasil voltará a sediar o maior espetáculo futebolístico do mundo.

O que eu penso disso tudo? Estou com Cony: "Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito".