sábado, 5 de março de 2011

O rosto da Lili

O rosto da Lili - Roberto Barbato Jr


O que eu queria mesmo era encontrar um rosto bonito, nas capas de revistas. Parava em frente à banca e ficava procurando. Ia de uma em uma, capa por capa, fileira por fileira. Quando cansava, parava e comprava umas palavras-cruzadas. Na hora de pagar, voltava os olhos para as fileiras que tinham faltado na primeira busca. Enquanto o seu Altenor me dava o troco, terminava minha procura. Se dava tempo? Claro que dava. As publicações não eram muitas.

Com o passar do tempo, passei a ser mais exigente. Não queria só um rosto bonito, queria a perfeição: medidas, cores, volumes, tudo tinha que ser perfeito, inclusive o conjunto da obra. Seria difícil, mas quem sabe um dia....

Seu Altenor investiu na banca. Comprou umas revistas importadas, fez negociação com o pessoal da capital e passou a ser o vendedor exclusivo de tudo aquilo que a cidade não conhecia. Aos poucos fui me acostumando àquelas capas coloridas, cheias de detalhes sofisticados e mulheres lindas. Pena que não tinham o rosto perfeito. Acho que já estava me rendendo e a paciência, certamente, não iria longe.

No carnaval daquele ano, tomei um susto quando estava passando perto da banca. O seu Altenor me chamou para ver as fotos da Lili Neves. Queria me mostrar como era boa, como tinha o corpo perfeito. E o rosto também, falei. Era o rosto que eu procurava. Até parecia que eu havia feito o desenho dele e mandado alguém esculpir. A Lili Neves era um estouro!

Puta que pariu!, gritei. Por pouco não babei na capa da revista. Corri pra casa, peguei o resto da mesada no cofrinho e contei as notas com a esperança de que somassem o que eu precisava. Faltou grana e, para complicar, o dia de receber a mesada estava longe. Seu Altenor seria compreensivo? Naturalmente, deixou que eu o pagasse no início do mês seguinte. Lá fui eu com a Lili Neves para casa.

Na semana seguinte, ela estreou na televisão, como atriz de novela. Não perdi um capítulo. A trama não era lá essas coisas, mas a Lili aparecia todo dia. Sua interpretação não era ruim, não. Dava lá alguma mostra de que seu futuro na TV seria promissor. Depois, veio a segunda novela. A Lili fazia o papel de uma mocinha pobre que foi pro Rio de Janeiro tentar ganhar a vida. Deram um jeito de enfeiá-la. Até bigode colocaram nela. Que sacanagem! Só quando se casou com o Aderbal – o cafa da novela – é que apareceu bonita para todo mundo. Não dava pra acreditar....

Nessa época, a Lili já havia se convertido numa espécie de obsessão. Eu sonhava com ela, noite sim, noite não. Se perdia o capítulo da novela, aparecia no meu sonho pra me contar o que tinha acontecido, como se ela mesma fosse a autora ou roteirista da trama. A Lili conversava comigo, frente a frente, o hálito gelado, a língua se movendo em câmera lenta. Que boca! Depois, ia embora jogando um beijo pra mim. Só podia ser sonho.

Um dia, notei que a Lili havia ficado velha, uma cinquentona. Continuava linda, sem dúvida. Só consegui perceber que o tempo tinha passado porque encontrei a revista guardada num armário antigo, junto com o cofrinho da minha adolescência. Até hoje o seu Altenor me pergunta quanto eu quero por aquele exemplar cuja compra ele generosamente parcelou. Diz que paga à vista. Não vendo, não! Também jamais venderia a lembrança daquele dia em que conheci o rosto da Lili.

3 comentários:

Joana d'Arc Neves de Paula disse...

Adorei!!!!
Ainda mais que o meu sobrenome é??? NEVES!!!!!kkkkkkk
A sua forma literária me dá uma emoção ma-ra-vi-lho-saaaaa!!!
Roberto,
Os desejos são colhidos pelas imagens que projetamos,e são banidos de nossas mentes pelo valor que os damos.E esses desejos nos cabem pelo tesão que os rotulamos!!
Belo dia!! Carnaval cheio de desejos com esplendores de magia e de harmonia entre os panos!!!
Joana d'Arc Neves de Paula

Joana d'Arc Neves de Paula disse...

Oiê!!!ROBERTO...BELO DIA!!!
FOI PASSEAR COM A LILI???
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
SAUDADES DE SUAS ESCRITAS...
VOLTE, PARA A GUARIDA DO LOUCUUUSSS POR HISTÓRIAS VIVIDAS!!!!
EU, VOCÊ, ELA, ELE, NÓS PRECISAMOS DE SEUS PENSAMENTOS...
A SUA LINGUAGEM NOS TEMPERA... ACIMA DE QUALQUER SOFRIMENTO, PORQUE TODOS ELES VIRAM UMA QUIMERA!!!!
BEIJINHOS SORTIDOS DE SONHOS VARRIDOS...
(e não é loucura da joaninha)

Fernando Nogueira disse...

O conto é bacana e vc está se saindo um grande contista, meu caro! Parabéns! Já andas pelo Facebook? Estamos, um bando de gente, por lá... Grande abraço!