sexta-feira, 29 de abril de 2022

O convite

O CONVITE

            Gênova resolveu dar um rega-bofe para comemorar os 15 anos de sua empreiteira. Não poderiam faltar políticos, empresários, funcionários públicos e gente com alguma particularidade de influência na vida pública do país. O critério para a escolha dos convidados, contudo, ainda hoje é motivo de especulação. O que teria Gênova estabelecido como condição essencial para que alguém pudesse desfrutar da comemoração? Talvez nem ele soubesse...

A festa, produzida sem preocupações quanto ao orçamento, teria de causar alaridos. Quando se soube dela no meio político, houve grande expectativa. Quem fosse convidado teria, em tese, o reconhecimento de algum prestígio. A cada um caberia capitalizar esse prestígio. Depois daquela data, a credencial mais importante consistiria em dizer que foi pessoalmente convidado pelo italiano. E quanta gente não agiu assim!

De outro lado, pé rapados, sequiosos por alguma notoriedade, chegaram a vender a alma e o corpo para conseguir um convite. O acesso à festa seria franqueado pela venda de sexo a preços módicos. Nunca a lascívia foi tão desvalorizada no mercado dos boçais arrivistas. Quanta humilhação e indignidade!

         Mais que uma comemoração sobre o sucesso da empreiteira do italiano, a festa representaria a sonhada vingança sobre Carva. Gênova ansiava por isso.  

domingo, 10 de abril de 2022

Carva e a política

CARVA E A POLÍTICA

             Carva era pretensioso demais para ficar com a malhas da política regional. Prefeitos e vereadores eram alvo de suas investidas na política. Mas ele queria galgar posições mais altas, desejava produtos mais rentáveis. Por um concurso de circunstâncias, conheceu o Senador José Décio, o grande articulador da conquista da presidência da República. José Décio era uma mente diabólica. Seu planejamento era aparelhar o Estado e manter, por anos, a hegemonia política de seu partido. Para isso, é claro, tinha de fazer conchavos e maracutaias.

            A primeira dessas maracutaias se deu justamente com o Gênova. O italiano decidiu bancar a campanha política do Senador e, de quebra, ainda escorregou uma bolada para os membros do partido. Em troca disso, o óbvio: o esquema que alimentou a corrupção republicana nos últimos anos voltou à tona. Ou seja, a empreiteira do Gênova ganhava, sem esforço, as mais importantes licitações de obras públicas Brasil afora. Todo mundo se dava bem: a empreiteira lucrava, José Décio e seu partido ganhavam um bom dinheiro e se mantinham dentro da máquina estatal. Por fim, o Carva, além de prestígio, ganhava uma porcentagem de cada certame fraudado.

            Quando conheceu o governador do nosso Estado, Carva deu um jeito de inseri-lo na jogada. Com um jantar simples, tramado nas conjuras da política estadual, conseguiu fazê-lo se filiar ao partido do José Décio. Depois, apresentou-o ao Gênova. Resumindo a ópera, Gênova, José Décio e o governador tinham o domínio da maior parte das obras públicas estaduais e federais.

            Carva estava tranquilo e não tinha ideia da vingança tramada pelo Léo. Tudo era questão de tempo.  

domingo, 3 de abril de 2022

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana veio de baixa extração social e provou que elegância nem sempre está atrelada ao dinheiro. É uma mulher incrível, linda, elegante em tudo, nas vestes, nos gestos, nas falas. Não sei como o Carva conseguiu se casar com ela. Sabe essas pessoas que não foram feitas umas para as outras? Pois é: Carva e Juliana, Juliana e Carva. Quando soube que iam se casar, eu já era apaixonado por ela. Já havia tentado, de todas as formas, conquistá-la. Fiz de tudo, de oferta de rosas a declarações de amor que o mais sensível dos homens jamais faria.

Todas as suspeitas de que ela apanhava do marido eram infundadas ou, pelo menos, nunca encontraram eco em provas. Resumiam-se a ilações decorrentes do uso constante de óculos escuros. Havia, contudo, uma explicação lógica para isso: Juliana tinha olhos claríssimos – lindos! – e sofria com fotofobia. Daí por que o uso de lentes escuras seria sempre um expediente para se sentir confortável. Nada mais natural...

Jamais acreditei que aquela mulher fosse capaz de matar alguém. Ainda que não gostasse do marido, não teria índole para cometer uma atrocidade daquelas. Sabe-se que ela tinha conhecimento das puladas de cerca dele. Tinha ciência do affair entre ele e Murilo e não ficou surpresa ao saber que tivera uma temporada ao lado de Luize. Mas, em nenhum momento, demonstrou qualquer ponta de ciúme. Manteve-se  tranquila, como se não soubesse de nada. Não sei se por elegância ou por hipocrisia, preferiu assumir o papel de mulher resignada.

Pois o único motivo que poderia fazer com que Juliana encomendasse a morte do Carva seria o desejo de apossar-se do dinheiro que ele havia remetido para Genebra. Eram milhões. Ele não fazia ideia de que a esposa sabia dos estratagemas que  garantiam o produto de suas condutas não republicanas. Tinha a senha das contas suíças e o contato dos doleiros que engendravam as operações a cabo amiúde realizadas pelo marido. A cada negociata, acompanhava o crescimento do patrimônio do casal, conferindo o valor de cada aplicação estrangeira.

Além de linda, Juliana era inteligentíssima. E muito, muito discreta.