segunda-feira, 19 de julho de 2010

Alguém conhece Lubitsch?

"Henry Van Cleve (Don Ameche), um ex-playboy já maduro, morreu e foi para o inferno. Mas o chefão das trevas, Sua Excelência (Laird Cregar), não está convencido que Van Cleve veio para o lugar certo. Henry começa a contar a história de sua vida, desde seus primeiros arroubos de paixão por uma governanta francesa até quando cortejou e ganhou o coração de sua bela esposa Martha (Gene Tierney). No entanto, apesar de profundamente apaixonado, ele nunca conseguiu ser totalmente fiel e está convencido que merece uma vida de castigos eternos no inferno.

À medida que conta sua história, e uma vida de amor preenche a tela, fica a cargo de Sua Excelência dar a sentença final a Henry. Ricamente ambientado no mundo da alta sociedade da virada do século XX, o tema atemporal do amor versus o desejo é tratado com inteligência, bom gosto e sofisticação. Dirigido por Ernst Lubitsch e abrilhantado por fantásticas interpretações coadjuvantes, este romance clássico foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme e de melhor diretor em 1943".

Essa é a sinopse de "O diabo disse não" (Heaven Can Wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch, retirada do site 2001 Vídeo (http://www.2001video.com.br).

Se alguém achar uma cópia por aí, em locadoras ou na internet, por favor, me avise. Devo ter ainda uma fita VHS que gravei quando o filme passou na Globo há alguns anos. Por suposto, deve estar em péssima condição de uso e, ademais, meu vídeo já está na iminência do ocaso.

Imagino que hoje poucos conheçam Lubitsch. Todavia, é muito provável que tenham assistido "Mensagem para você", adaptação de Nora Ephron para o clássico "A loja da casa da esquina" ("The Shop Around the Corner"), obra-prima do diretor alemão. Aluguei o filme numa Blockbuster, antes da parceria da locadora com as Americanas Express. Depois de algum tempo, deu-me um estalo: em meio a tantas fitas antigas e renovação do acervo, era bem possível que o filme estivesse em alguma estante, perdido, abandonado. Urgia que eu o alugasse novamente para, talvez, fazer uma cópia e deixá-la à disposição para quando desejasse vê-la. Corri para a locadora e solicitei que fizessem a pesquisa no catálogo.

- Não temos esse filme.

Não me contentei com a resposta e perguntei:

- Você tem certeza?

- Sim. Não temos e nunca tivemos esse filme.

Solicitei que fizesse a busca pelo diretor.

- Lu, o quê? – perguntou o atendente

Soletrei:

- L-U-B-I-T-S-C-H.

- Não temos. Esse filme nunca passou por aqui.

Resignado, agradeci, virei as costas e fui embora.

Até hoje procuro pelos dois títulos. Também procuro por alguém que conheça Lubitsch.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Merquior e Da Matta

Já que evoquei José Guilherme Merquior no post passado, vale a transcrição de um pequeno trecho em que ele comenta a obra Carnavais, Malandros e Heróis, de Roberto da Matta. A crítica foi publicada no Jornal do Brasil em 01/09/1979.

Quem quiser mais informações sobre Merquior poderá acessar o link: "Dez anos sem José Guilherme Merquior". Foi de lá que retirei a citação abaixo:

"Um dos méritos de Roberto da Matta é, aliás, o seu cuidado com a literatura anterior. Nada noto nele dessa pífia presunção, feita de incultura e insegurança, com que vários dos nossos mais novos praticantes de ciências humanas dão as costas ao que se escreveu antes deles - com muita freqüência, muito melhor - sobre seus temas. Em compensação, a linguagem de Carnavais, Malandros e Heróis poderia ser mais apurada. O autor expõe, em geral com clareza, não raro com certa elegância; mas volta e meia sucumbe ao desleixo ou, pior ainda, a esse fraseado esquisito com que tantos textos universitários macaqueiam gratuitamente palavras e construções inglesas ou francesas. O desleixo abrange alguns anacolutos e várias regências incorretas, além da estranha menção a um tal "Alex" de Tocqueville (que intimidades são essas, Professor Matta? O homem se chamava Alexis). O fraseado postiço inclui, por exemplo, um emprego super-abundante do verbo "colocar" (em vez de "observar", "pretender", "argumentar", "postular", etc.). Esse abuso de "colocar" está virando uma verdadeira muleta verbal do nosso jargão universitário. Mas quanto a Roberto da Matta, não tenho dúvida em (agora, sim) colocar esse seu livro bem acima dessas mazelas de expressão. Ele, pelo menos (ao contrário da maioria dos colocadores), tem muito a dizer".

sábado, 26 de junho de 2010

Debates nos anos noventa

Já cheguei a comentar por aqui a efervescência cultural e ideológica que havia na década de 1990. Foi nesse ano que ingressei no curso de Ciências Sociais e passei a acompanhar alguns debates travados no suplemento Letras, da Folha de S. Paulo. Tratava-se de um suplemento que existiu até 1992, quando veio a lume a primeira edição do caderno Mais!, hoje já extinto. Em Letras, os debates em torno de questões políticas eram agudos, provocativos. Talvez Mais! também tenha nascido para dar guarida a discussões acadêmicas. Todavia, não foi capaz de acolher tantas brigas fecundas. Limitou-se, após algum tempo, a mostrar tendências culturais modernas e a versar sobre temas que nem sempre me interessavam.

Em 1990, em Letras, um debate duradouro foi travado pelo saudoso José Guilherme Merquior e um doutorando de Filosofia da USP, Ricardo Musse, hoje docente daquela universidade. Já nem lembro mais qual era o teor da contenda, mas recordo-me de que ela partiu de uma resenha feita por Musse a uma determinada obra de Merquior. Além das questões teóricas propostas, houve ataques de ordem pessoal, que buscavam desqualificar argumentos em razão das atividades intelectuais de seus interlocutores.

Procurando pela rede algo sobre o debate, achei o seguinte trecho de autoria de Merquior:

"O resenhador de minha antologia [...] é apresentado como um jovem 'doutorando em filosofia na USP'. Não sei se aos doutorandos em 'filô' da USP se exige saber ler antes de pretender julgar. Em caso positivo, temo pelo doutoramento de Musse, porque as liberdades que tomou com o texto alheio não são de molde a inspirar confiança". (MERQUIOR, José Guilherme. "Resenhador de 'Crítica' foi apressado e redutor". In: Letras, Folha de S. Paulo. 17/11/1990, p. 6.)

Um trecho da réplica de Musse dizia o seguinte:

"Sem sequer me conhecer, a partir de uma só frase que me apresenta como estudante da USP, ele traça considerações genéricas sobre as minhas atividades escolares, o meu futuro acadêmico, a uni¬versidade, a imprensa, a situação da cultura no Brasil etc. Ao ver a folha de uma árvore, o nosso em¬baixador na Unesco apronta seus canhões e abre fogo — contra a floresta inteira. Foi essa facilidade metodológica que critiquei". (MUSSE, Ricardo. "Merquior vê a folha da árvore e atira na floresta". In: Letras,Folha de S. Paulo. 1º/12/1990, p. 6.).

A polêmica foi longe e acabou envolvendo, também, o jornalista Bernardo Carvalho que entrou na história em razão da transcrição de uma entrevista com Merquior.
Pouco tempo depois, José Guilherme morrera de modo precoce (1991). Quando isso aconteceu, aqueles que militavam nas tendências liberais muito lamentaram pela ausência do intelectual que era o retrato da erudição da direita brasileira. Os esquerdistas talvez tenham ficado satisfeitos por não terem mais um interlocutor de tamanha capacidade: seria mais fácil lidar com alguém que não tivesse o arcabouço teórico do grande diplomata.

Ainda no início dos anos 1990, houve um curto debate entre Antonio Candido e Miguel Reale. Segundo me recordo, no Jornal da USP, Antonio Candido teria dito que a violência é um instrumento de transformação da história. Por certo, sua ponderação estava diretamente ligada à famosa frase de Marx no capítulo "A assim chamada acumulação primitiva", d' O capital. A afirmação de Marx é simples: "A violência é a parteira da história".

Pois foi a partir do resgate de Marx por Candido que Reale publicou sua réplica, talvez na Folha de S. Paulo. A discussão era mais discreta, calcada em idéias e não em agressões sobre a personalidade acadêmica de quem quer que fosse. Creio que Antonio Candido fora incapaz de fazer qualquer comentário pessoal sobre seu interlocutor. Não deve ter trazido à baila o passado integralista de Reale e tampouco seu apoio ao Golpe de 1964. Reale, que teria iniciado o debate, silenciou quando Candido publicou um curto artigo na seção Tendências & Debates da Folha de S. Paulo. O título era algo como "pingos nos is". Morreu aí outra polêmica....

Muito tempo depois, já em 1997, acompanhei uma pequena discussão entre Maria Silvia de Carvalho Franco e Boris Fausto. Era um debate bobo, quase insosso, sobre "o que é um clássico". Homens livres na ordem escravocrata, de Maria Silvia, foi classificado com um clássico por Boris Fausto (seria isso mesmo?). Seguiu-se então uma discussão meio melindrosa....

Esses e outros debates eram extremamente úteis para quem iniciava a carreira, pois ofereciam referenciais nos quais os inexperientes e ainda sem leituras consistentes poderiam se apoiar. Circunscritos a um inequívoco maniqueísmo, tínhamos fome de debates. Não sei se aprendemos com eles.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago e Fernando Meirelles

Para homenagear Saramago, segue abaixo o link de um pequeno vídeo comovente. Trata-se do momento em que o grande autor manifesta sua opinião sobre a adaptação de seu Ensaio sobre a cegueira, feita por Fernando Meirelles.

Não deixem de ver!

http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

domingo, 13 de junho de 2010

Blogagem coletiva: livro brasileiro

Em dezembro passado, William Lial – um craque da nossa literatura – promoveu em seu blog uma "blogagem coletiva". A idéia era simples: os convidados deveriam escrever sobre o melhor livro que leram no ano passado.

Pensei em dar continuidade à idéia do Lial (nem pedi autorização a ele!). Contudo, o mote da blogagem coletiva que proponho é "o último livro brasileiro que li". Quem tiver blog e gostar de escrever, poderá fazer comentários sobre o último livro que leu, desde que seu autor seja nacional. Romance, contos, poesia, ensaio, etc.... valem todos os gêneros.

A dinâmica que proponho é a seguinte: cada interessado deverá publicar em seu blog no dia 23/07 (Sexta-feira), os comentários sobre o livro escolhido. Não se trata de nenhuma resenha, nada que seja rigoroso e tampouco que contenha ares de academicismo. O objetivo é falar, de modo descompromissado, sobre o livro escolhido. É claro que, sendo possível, as informações bibliográficas da obra devem abrir a redação (autor, título, cidade de publicação, editora, ano de publicação e número de páginas).

Depois que as postagens tiverem sido feitas em seus blogs, os autores que quiserem participar da blogagem coletiva poderão me encaminhar o link correspondente. Farei a relação dos textos, autores e links aqui no Lápis Impreciso. Os participantes também podem colocar o link em seus blogs.

Imagino que possamos tomar conhecimento de obras que ainda não conhecemos. E o debate sobre elas será sempre bem-vindo!

Todos estão convidados! Manifestem-se nos comentários desse post!

domingo, 6 de junho de 2010

Copas do Mundo

Em épocas de Copa do Mundo, lembro-me, sempre, das anteriores. Não sou tão velho, acompanhei sete Copas: 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002 e 2006.

Além delas, tenho alguma lembrança vaga da Copa de 1978. Eu tinha 6 anos e vivia brincando no pátio do prédio em que morava. Ouvia gritos de gol que, ao menos para mim, nada significavam.

Em 1982, já com dez anos, fui apresentado realmente à Copa. E da melhor maneira possível: em casa comprávamos salgadinhos e refrigerantes para ver os jogos. Ficávamos na sala, obcecados, absortos. Brasil goleava as demais seleções. A escalação daquela seleção é digna de nota: Sócrates, Zico, Junior, Falcão, Éder, Batista, Leandro, Toninho Cerezo e Valdir Peres no gol. Devo ter esquecido de alguém, mas foi a melhor seleção que vi jogar. Até hoje lembro-me de certos detalhes como, por exemplo, o último escanteio batido pelo Brasil após a fatalidade do gol de Paolo Rossi. Estavam ali minhas esperanças de não sermos eliminados.

Não acreditei na desclassificação. Acho que foi naquela Copa que aprendi a indiscutível lição de que o futebol não é justo. É preciso contar com o senso de oportunidade ou com aquilo que alguns chamam de sorte.

Em 1986, perdemos nos pênaltis para a França. Zico errou um pênalti no tempo regulamentar da partida. Disseram-me, depois, que insistiu em bater o tal pênalti porque havia prometido para o filho que, caso houvesse uma penalidade máxima, assim agiria. Foi longo o tempo em que amaldiçoei o moleque. Doutor Sócrates, então meu ídolo maior do futebol, também errou. Bateu um pênalti displicente, sem garra, sem vontade. Aquilo não combinava com ele.

1990, em plena era Collor, tivemos a pior seleção que já vi jogar. Contaminado por pruridos ideológicos, não queria ver o Brasil campeão. Achava que a eventual conquista da taça pudesse chancelar o aparente clima de prosperidade que o então presidente queria fazer vingar a todo custo. Só não gostei de termos sido eliminados pela Argentina. Maradona havia dado alguma entrevista provocativa em que vaticinara nossa eliminação. A partir de então, continuei a torcer para que perdêssemos o mundial, mas, com mais fervor, torci para que não fôssemos desclassificados pela seleção de Diego Armando. Claro que hoje, olhando para trás, acho aquela torcida uma grande besteira. Onde já se viu, torcer para o Brasil perder a Copa.... Era um sentimento ultrapassado, démodé.

Em 1994, fiquei animado com a possibilidade do título mundial. As eliminatórias foram conturbadas. Chamaram Romário que, com sua genialidade, classificou o Brasil. Para incorrer no exagero alheio, arrisco a dizer que nos trouxe a taça também. Era uma seleção bacana, mas, à exceção de Romário e Bebeto, os demais jogadores não eram fantásticos. Ronaldo, aquele que seria posteriormente apelidado de Fenômeno, foi para os Estados Unidos no banco da seleção. Parece que comprou vinte pares de tênis. Não jogou, ficou quieto aprendendo algumas coisas que certamente lhe serviram para experiências futuras.

Ganhamos a Copa da Itália na disputa de Pênaltis, com um erro de Roberto Baggio. Foi uma vitória esquisita. Tive a sensação de que deveríamos ao menos ganhar a partida com um gol nosso e não com erro da seleção adversária.

Os jogadores foram recebidos aqui com honras de Estado e causaram polêmica por não quererem pagar os impostos das volumosas compras feitas na América. Um dos nossos titulares achou justo que não pagassem impostos: a velha prática do patrimonialismo havia tomado a cabeça dos nossos esportistas. Já que venceram a Copa, “fizeram uma festa bonita”, teriam direito à isenção tributária? Podíamos ficar sem essa....

Em 1998 o Brasil certamente ganharia a Copa. Com uma seleção mais competente que a anterior, fomos para as disputas crentes de que não teria para ninguém. O Brasil era o favorito. Fomos à final. Saí no dia anterior para encher a cara de chope. Quando a partida – aquele espetáculo bizarro – começou, cheguei a me perguntar se era realidade ou alguma conseqüência do porre do sábado. Primeiro tempo: dois a zero para a França. Meu pai me ligou no intervalo do jogo. Ainda poderíamos reverter a situação! Mas qual o quê? Tomamos mais um gol e até hoje tentamos entender o que aconteceu com Ronaldinho.

2002 foi a maior zebra da história das Copas das quais participamos, ou seja, de todas. A seleção daquela época havia feito as partidas das eliminatórias sem nenhuma competência, nenhum brilho. Jamais acreditei que pudessem fazer algo em campo. Felipão foi quase agredido por não levar Romário. Brigou com 180 milhões de brasileiros e não arredou pé: Romário não foi.

Fomos campeões. Vi Ronaldinho jogar para valer, obstinado a ganhar a Copa, como disse em várias entrevistas. Era a redenção do menino. Todos duvidaram que ele pudesse, depois das cirurgias do joelho, voltar a jogar como antes. Foi o artilheiro daquela Copa que fez brasileiros acordarem de madrugada para torcer. Ganhamos o título numa manhã de domingo, por volta das dez horas da manhã.

Tal como aconteceu em 1998, fomos para a Copa de 2006 convictos de que iríamos faturar outro título. Vimos uma seleção brasileira apática perder para a França. Ouvi Cafu, com a maior cara-de-pau, retrucar para um jornalista que a sua geração era vencedora e que a derrota para a França não poderia ser parâmetro para avaliá-la. Ainda que tivesse razão, seria melhor ter ficado quieto ou se desculpado pelo vexame de seus colegas. Pela terceira vez, fomos eliminados da Copa pela França.

Agora, a poucos dias da estréia da Copa de 2010, quero crer que a seleção de Dunga possa nos surpreender. Para não arriscar palpite, fico na expectativa. Essa, de todas as seleções que vi jogar, é a mais misteriosa, aquela que menos conheço.
Ainda assim, merece minha torcida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Detalhes inúteis 2

Escrever sobre o quanto ficamos presos a certos detalhes inúteis fez-me lembrar de uma cena de um clássico do cinema moderno: Os intocáveis, de Brian de Palma.

Eliot Ness e sua equipe estão no encalço de Al Capone. A luta que se travou entre eles é grande, intensa. Juntamente com o delegado, há um antigo guarda (Connery), um exímio atirador, membro da academia de Polícia (Andy Garcia) e um contador. Cada um a seu modo, contribui para que a caça a Capone tenha êxito. O contador, por exemplo, insistia que o grande mafioso poderia ser pego com na sonegação fiscal.

Pois em meio àquele clima de perseguições estratégicas e mortes, Ness, olhando o infinito, absorto, recebe um recado de sua mulher. Ela deseja saber de que cor será pintada a cozinha.

Ele apenas fala:

- E tem gente que ainda se preocupa com a cor da cozinha.

sábado, 8 de maio de 2010

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré

Língua brasileira 6

Alagados, música dos Paralamas do Sucesso, é, sem nenhuma dúvida, um clássico. Creio ter ouvido, há tempos, Hebert dizer que ela foi uma espécie de passaporte para o sucesso da banda. Não me recordo exatamente suas palavras, mas o sentido era esse. A música veio a lume em 1986, no LP Selvagem?

Para quem nunca prestou a atenção em sua letra, segue, ao final desse post, seu conteúdo.

Em recente entrevista ao Paulinho Moska, no programa Zumbido do Canal Brasil, Hebert falou sobre a trilogia das favelas mencionadas na letra: Alagados (Bahia), Trenchtown (Jamaica) e Favela da Maré (Rio de Janeiro). As três são favelas construídas com base em palafitas.

Hebert disse que, por ocasião da criação da música, estava lendo a biografia de Bob Marley que menciona a favela de Trenchtown, na qual ele fora criado. Logo depois, associou-a à favela de Alagados e, por fim, à Favela da Maré, por onde passava quando era universitário no Rio de Janeiro.

Como quase ninguém sabe o que é Trenchtown, por ocasião de shows, o público acaba por cantar: "Alagados, sem sal, Favela da Maré"....

Pois, então, não é "sem sal", mas sim "Trenchtown".

Segue abaixo a letra da música:

****

Alagados

Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Vem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê

domingo, 2 de maio de 2010

Detalhes inúteis

Estive recentemente numa pequena cidade do interior paulista. Precisei tirar uns xerox. Entrei na casa onde as cópias seriam feitas. Era um imóvel antigo, com muitos papéis afixados na parede. Ali seria possível tirar cópias xerográficas, converter VHS para DVD e até elaborar e imprimir currículos.

O preço de cada versão do currículo, incluindo 10 cópias, era R$ 3,00 (três reais). Se a esse valor fosse aduzido R$ 1,00 (um real), o consumidor ganharia uma lista de classificados de empregos da cidade. Nada mais coerente: o indivíduo vai lá, imprime seu currículo e ainda ganha as opções para enviá-lo. Serviço quase completo.

Justamente no momento em que entrei na fila para ser atendido, notei que uma moça estava a ditar os dados de seu currículo para a atendente que ali trabalhava sozinha. O currículo em questão nem era extenso, mas demorou um bocado para ser concluído e impresso.

Embora estivesse com pressa, fiquei quieto e pensei que a situação exigia compreensão. Afinal, estava diante de alguém que procurava por emprego e necessitava garantir sua subsistência. Notei que as informações do currículo lhe eram muito caras. Ela fazia questão produzir seu histórico de maneira didática.

Sucedeu que, quando da impressão da versão final do currículo, a moça notou que as folhas estavam com "pequenas manchinhas", segundo suas próprias palavras. Eu teria de esperar mais um tempo para ser atendido. Curioso, desloquei-me sutilmente para ver as manchinhas. Não as vi. Pensei que os óculos recentemente trocados pudessem ter me levado a algum equívoco. Aproximei-me das folhas à procura do problema apontado. Nada. Travou-se quase um debate entre a moça e a atendente.

Ainda sem ver as tais manchas, cogitei de falar com a moça, explicando que, tratando-se de algo tão singelo, quase imperceptível, ela não teria prejuízo algum. Diria que o importante no currículo é o conteúdo e não a forma como ele é apresentado. A essa altura dos acontecimentos, notei que ela pôs as mãos no rosto e esboçou uma cara de profunda insatisfação, quase um choro.

Já quase em desespero, disse à atendente:

- Veja! São mínimos detalhes que vão fazer toda a diferença para quem for receber meu currículo.

Embora insignificantes, os detalhes lhe eram sobremaneira importantes e muito provavelmente justificariam eventual insucesso na conquista de outro emprego.

Saí de lá sem saber o desfecho daquela história. Todavia, fiquei pensando em quanto tempo perdemos com detalhes inúteis.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os normais 2

O grande, enorme, fabuloso e inquestionável mérito de Os normais 2 (Direção de José Alvarenga Jr, 2009) é sua duração: apenas e tão-somente 75 minutos.