sábado, 26 de junho de 2010

Debates nos anos noventa

Já cheguei a comentar por aqui a efervescência cultural e ideológica que havia na década de 1990. Foi nesse ano que ingressei no curso de Ciências Sociais e passei a acompanhar alguns debates travados no suplemento Letras, da Folha de S. Paulo. Tratava-se de um suplemento que existiu até 1992, quando veio a lume a primeira edição do caderno Mais!, hoje já extinto. Em Letras, os debates em torno de questões políticas eram agudos, provocativos. Talvez Mais! também tenha nascido para dar guarida a discussões acadêmicas. Todavia, não foi capaz de acolher tantas brigas fecundas. Limitou-se, após algum tempo, a mostrar tendências culturais modernas e a versar sobre temas que nem sempre me interessavam.

Em 1990, em Letras, um debate duradouro foi travado pelo saudoso José Guilherme Merquior e um doutorando de Filosofia da USP, Ricardo Musse, hoje docente daquela universidade. Já nem lembro mais qual era o teor da contenda, mas recordo-me de que ela partiu de uma resenha feita por Musse a uma determinada obra de Merquior. Além das questões teóricas propostas, houve ataques de ordem pessoal, que buscavam desqualificar argumentos em razão das atividades intelectuais de seus interlocutores.

Procurando pela rede algo sobre o debate, achei o seguinte trecho de autoria de Merquior:

"O resenhador de minha antologia [...] é apresentado como um jovem 'doutorando em filosofia na USP'. Não sei se aos doutorandos em 'filô' da USP se exige saber ler antes de pretender julgar. Em caso positivo, temo pelo doutoramento de Musse, porque as liberdades que tomou com o texto alheio não são de molde a inspirar confiança". (MERQUIOR, José Guilherme. "Resenhador de 'Crítica' foi apressado e redutor". In: Letras, Folha de S. Paulo. 17/11/1990, p. 6.)

Um trecho da réplica de Musse dizia o seguinte:

"Sem sequer me conhecer, a partir de uma só frase que me apresenta como estudante da USP, ele traça considerações genéricas sobre as minhas atividades escolares, o meu futuro acadêmico, a uni¬versidade, a imprensa, a situação da cultura no Brasil etc. Ao ver a folha de uma árvore, o nosso em¬baixador na Unesco apronta seus canhões e abre fogo — contra a floresta inteira. Foi essa facilidade metodológica que critiquei". (MUSSE, Ricardo. "Merquior vê a folha da árvore e atira na floresta". In: Letras,Folha de S. Paulo. 1º/12/1990, p. 6.).

A polêmica foi longe e acabou envolvendo, também, o jornalista Bernardo Carvalho que entrou na história em razão da transcrição de uma entrevista com Merquior.
Pouco tempo depois, José Guilherme morrera de modo precoce (1991). Quando isso aconteceu, aqueles que militavam nas tendências liberais muito lamentaram pela ausência do intelectual que era o retrato da erudição da direita brasileira. Os esquerdistas talvez tenham ficado satisfeitos por não terem mais um interlocutor de tamanha capacidade: seria mais fácil lidar com alguém que não tivesse o arcabouço teórico do grande diplomata.

Ainda no início dos anos 1990, houve um curto debate entre Antonio Candido e Miguel Reale. Segundo me recordo, no Jornal da USP, Antonio Candido teria dito que a violência é um instrumento de transformação da história. Por certo, sua ponderação estava diretamente ligada à famosa frase de Marx no capítulo "A assim chamada acumulação primitiva", d' O capital. A afirmação de Marx é simples: "A violência é a parteira da história".

Pois foi a partir do resgate de Marx por Candido que Reale publicou sua réplica, talvez na Folha de S. Paulo. A discussão era mais discreta, calcada em idéias e não em agressões sobre a personalidade acadêmica de quem quer que fosse. Creio que Antonio Candido fora incapaz de fazer qualquer comentário pessoal sobre seu interlocutor. Não deve ter trazido à baila o passado integralista de Reale e tampouco seu apoio ao Golpe de 1964. Reale, que teria iniciado o debate, silenciou quando Candido publicou um curto artigo na seção Tendências & Debates da Folha de S. Paulo. O título era algo como "pingos nos is". Morreu aí outra polêmica....

Muito tempo depois, já em 1997, acompanhei uma pequena discussão entre Maria Silvia de Carvalho Franco e Boris Fausto. Era um debate bobo, quase insosso, sobre "o que é um clássico". Homens livres na ordem escravocrata, de Maria Silvia, foi classificado com um clássico por Boris Fausto (seria isso mesmo?). Seguiu-se então uma discussão meio melindrosa....

Esses e outros debates eram extremamente úteis para quem iniciava a carreira, pois ofereciam referenciais nos quais os inexperientes e ainda sem leituras consistentes poderiam se apoiar. Circunscritos a um inequívoco maniqueísmo, tínhamos fome de debates. Não sei se aprendemos com eles.

3 comentários:

Marocas disse...

Puxa é realmente lamentável que já não haja espaço na grande imprensa para esse tipo de debate.
Abraços

williamlial disse...

Como você mesmo disse, debates como esses são "úteis para quem iniciava a carreira". Eles acabam trazendo um conhecimento maior do assunto discutido e delineando, mostrando, formas de argumentação - quando não descambam para a agressão, claro, rs!

Marcelo Figueiredo disse...

Ola mestre Barbato ! Excelente sua alusão ao jornalismo literário,que infelizmente não encontra o espaço que merece no fomento à cultura e a formação de opinião. Fui por muito tempo assíduo leitor do "Mais!" e acredito que um pouco da minha evolução cultural se deu pelo seu rico conteúdo. Parabéns pelo seu blog,suas esplanações estão sempre à sua altura como um admirável intelectual !
Abraços !