sexta-feira, 10 de maio de 2013

Naqueles tempos: 1985, o rock e a política

Naqueles tempos: 1985, o rock e a política

Janeiro de 1985. Ano de mudanças. As chamadas do Rock ‘n Rio na televisão anunciavam que o Brasil seria movimentado. Com 12 anos e já apreciando rock, não tive autorização para ir ao evento. Embora houvesse muito diálogo em casa, nem se discutiu aquela possibilidade. Sem chance. A resposta foi uma irônica piada do meu pai. Teria de me resignar com as transmissões esporádicas da Rede Globo. 

Boatos sobre a duvidosa presença de algumas bandas marcavam o tom das conversas na escola e no clube. Yes, AC/DC, Queen, Iron Maiden e Whitesnake viriam de fato? Reclamações também abundaram. “O que o Gil tem a ver com Rock? E o Ivan Lins?”. Os metaleiros não poderiam admitir que representantes da MPB estivessem misturados no maior evento de rock do mundo. “E James Taylor? Aquele violão insosso, vozinha fina...”.  

Ainda em janeiro daquele ano, teríamos a disputa no colégio eleitoral: Tancredo versus Maluf. No ano anterior, as ruas tinham sido tomadas pela campanha das “Diretas Já”, que defluía da emenda constitucional proposta por Dante de Oliveira. Nós, alunos da 6ª série, colocávamos uma fita amarela nos adereços escolares e íamos para as aulas. Alguns tinham as camisas amarelas com a inscrição “Eu quero votar pra presidente”. Chico Buarque havia composto “Pelas tabelas”, uma espécie de conclamação ao “movimento”.  A emenda, entretanto, foi vetada e o confronto entre Tancredo e Maluf, inevitável.

Lembro-me de ter assistido à votação no Colégio Eleitoral com minha mãe. Já naquela época eu havia cultivado uma inequívoca e justificada repulsa ao sr. Paulo Maluf. A certeza de que jamais votaria nele era tão inexorável quanto a morte. De outro lado, não sabia exatamente o que significavam as forças que apoiavam Tancredo. Todavia, em face da possibilidade de Maluf ser presidente, qualquer candidato poderia ser melhor.

Tancredo foi eleito. Assisti a programas que narraram sua trajetória, mostravam seus discursos e suas ambições. Ouvi dizer que deveríamos aguardar um Brasil sem tantos privilégios para os mais abastados. Uma vaga noção sobre a ideia de combate ao patrimonialismo parecia traçada pelo político mineiro. Enfim, havia o anúncio de algo novo. Para mim, naquela época, o novo era incerto.

Em pouco tempo, a notícia da internação do futuro presidente foi nacionalmente divulgada. Muito se especulou e juraram que ele não chegaria a assumir. No dia 21 de abril, pouco antes de dormir, ouvi Antônio Britto anunciar sua morte.

Puta que pariu, pensei. E agora?