sábado, 26 de janeiro de 2013

Primeira opção


Primeira opção - Roberto Barbato Jr

Um tiro bem no meio da testa. Da minha. Certeiro, sem nenhuma possibilidade de erro. Dizem que um tiro de 12, com cano serrado, faz um bom estrago. Deve esfacelar o cérebro inteiro, sem hesitação. Um segundo, e tudo se explode: miolos, sangue, ossos. Toda a memória de uma vida.

Não pode haver erro. Sei de pessoas que tentaram e não obtiveram êxito. A bala ficou alojada em algum lugar da cabeça. Em vez do sujeito se acabar, matou a família inteira, aos poucos, com muito sofrimento. Virou um vegetal. Ainda hoje está na cama. Há, também, aquelas situações patéticas em que alguém resolve dar cabo de sua vida de maneiras sui generis: desferindo um tiro no braço, furando o dedinho, cortando o ombro ou se jogando do primeiro andar. Passado o susto, vem a ressaca moral. O ridículo da situação é implacável. “Tá vendo aquele ali? Um incompetente”. Sem dúvida, não é pior que vegetar. Mas, convenhamos, é uma tristeza. Desmoralização cruel.

Por tudo isso, comigo terá de ser diferente. Não pode haver tentativa. Tem de haver consumação.

Sim, eu sei. Há alguma praga, cuja origem desconheço, segundo a qual quem se mata não tem direito ao Paraíso. Da Terra se vai, em um átimo, às profundezas do inferno. Não se admite que a vida seja autoceifada. Se o sofrimento é grande no mundo terreno, aceite-o, purgue, purifique sua alma. A recompensa virá. Em virtude dessa concepção, talvez seja melhor penar aqui e gozar lá. Não sei. Não estou convicto de que exista o “lá”. De mais a mais, cada coisa a seu tempo. Primeiro, a azeitona no meio da testa. Resolvido isso, parte-se, então, para o debate com quem conduz o destino do outro lado do mundo. Quem quer que seja, haverá sempre uma forma de negociação. Não vou, contudo, pensar em argumentos, nem conjecturar nada. Fecharei os olhos e Beatriz me conduzirá. 

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