segunda-feira, 1 de maio de 2017

A adaga de Margot



A adaga de Margot – Roberto Barbato Jr
Conto originalmente publicado na Revista Inutensílio em 14/04/2017

    Parei na frente do guichê e entreguei o ticket para retirada da encomenda. 
    – Já chegou? — perguntei ao funcionário da empresa.
    – Um minuto.
    Voltei para casa com ela nas mãos.


    As investigações foram intensas e a negociação para comprá-la, cansativa. Paguei o que pediram apenas quando tive a certeza de que se tratava do único exemplar daquela espécie, aquele mesmo que eu desejava.
    Tirei-a da caixa de madeira, desenrolei-a da flanela com a qual a haviam polido. Como era bonita!
    A suspensão da droga para acalmá-la surtiu bom efeito. Margot se mostrava mais lúcida e se arriscava a contar histórias da mocidade para seus enfermeiros. Que vida tivera, a velha. Agora, indefesa e prostrada, não era mais ninguém. A valentia cedera, a altivez esgotara… Aquela mulher determinada, hostil, feroz, era uma precária massa de carne e ossos aparentes. Dia após dia, os músculos se tornavam flácidos e sua força rareava. Seu rosto estava totalmente desfigurado. Fui eu que me encarreguei disso. Não hesitei em contratar uma pessoa especialista nesse tipo de lesão facial. Aquilo me seria muito útil.
    Quando me postava à sua frente, reagia como alguém que se apavora sem saber o que terá adiante. Olhava-me com um misto de comiseração e arrependimento.
    – Vai ser hoje? — perguntou-me Gualtérnio. Ele estava ansioso por sua estreia em rituais como aquele. Disse-me que quando pequeno assistiu a vários deles na fazenda em que morava. A noite que antecedia o evento era de grande expectativa. Ele mal dormia, ficando a imaginar o momento da passagem. Depois de alguns segundos, o sangue já exposto no chão do tronco, olhava para cima da cabeça do sacrificado para ver se sua alma saía da matéria. Tinha curiosidade para saber o que viria depois do momento tão esperado.
    Ficava noites sem dormir a pensar nisso. As cenas do ritual lhe cobraram quase um mês de insônia. Durante aquele período, seria capaz de reconstituir, quadro a quadro, todo o episódio: a adaga perfurando as vísceras do condenado com exímia cautela e lentidão, a retração da lâmina para fora do abdômen e as sucessivas incisões em partes distintas do corpo, até o suspiro final. O grito desesperado de quem percebe que sofrerá antes de morrer ecoava na sua memória auditiva. Seria capaz de reproduzi-lo sem macular seu timbre ou volume.
    Preparei as largas tiras de couro com as quais em breve amarraria Margot no poste. Também verifiquei a existência de marcas pelo corpo da velha. Não poderia haver nenhuma, a menos que fosse de nascença. Nenhum edema, arroxeado ou equimose seria exposto durante o ritual. Aquilo certamente conspurcaria a nobreza do ato. Ela deveria se apresentar ilesa. Ficaria desnuda por inteiro. Os cabelos seriam presos, deixando o rosto às escancaras. Todos veriam o horror em sua face. Justamente ela que tanto aterrorizou os indefesos…
    Gualtérnio manifestou o desejo de conhecê-la. Tinha curiosidade de saber como era fisicamente, se aparentava a idade que lhe falei, se seu semblante denotava a maldade por mim descrita.
    – Ainda não. Anteontem suspendi os remédios que a deixam fora do ar. Já está bem lúcida. Em poucos minutos vou narrar para ela os detalhes do ritual. Colocarei a adaga em seu horizonte. Quero saber se algum dia ela já viu uma dessas.
    – Qual é o motivo? — ele me perguntou.
    – Permita-me lhe contar uma história. Depois que minha mãe morreu, meu pai casou-se novamente e teve um filho com sua segunda esposa. Como eu não tinha boas relações com ela, logo me mudei da fazenda e me estabeleci aqui, para nunca mais voltar. Um dia, recebi a notícia de que meu pai havia sido assassinado. Sua mulher o matara e fugiu da fazenda, levando com ela seu filho tão querido, que contava com dez anos. Fincou raízes em uma das estâncias do sul do país e lá construiu um império de produção agrícola. Como não fosse sã das faculdades mentais, mandou produzir uma adaga negra, a única feita integralmente no Brasil. Com ela passou a exterminar os agregados da fazenda que não tinham aptidão para o trabalho. Acreditava que assim teria somente homens sem aproximações com o ócio. Queria uma produção sem igual. Impiedosa, não poupava aqueles que poderiam comprometer seus objetivos. Os números das mortes orçam por quase cem. Um de seus colonos, entretanto, escapou do sacrifício e fugiu. Como retaliação, sequestrou seu filho, levando-o para bem longe. Aquela senhora gastou fortunas procurando pelo menino que, à época dos fatos, já era um moço. Ela, contudo, nunca o encontrou. Dizem que o rapaz acabou se matando. Há quem diga que ele foi encontrado, mas, por também renegar a mãe, jamais foi vê-la.
    Gualtérnio esboçou uma expressão de quem talvez conhecesse história parecida com aquela. Preferiu, no entanto, silenciar quanto ao assunto. Levantou-se e saiu de onde estávamos.  
    Terminada a narrativa, percebi minha exaustão. Resgatar aquelas lembranças sempre me deixava exaurido. Restava esperar pelo pôr do sol.
    Ao cair da noite, Margot foi conduzida até o poste especialmente erigido para seu sacrifício. Apenas quando tiraram sua venda é que pôde ver o filho ali, diante de si, a se tornar seu carrasco. Gualtérnio selaria minha vingança.

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