segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Uma pequena história

Estava casado e procurava um apartamento maior para alugar. Vimos – ela e eu – uma placa de "aluga-se", com o nome e o telefone da imobiliária. Para quem já procurou tanto imóvel e fez tanta mudança como eu, aquilo era somente mais uma aventura. Lá fomos ver o apartamento, cuja chave encontrava-se na portaria do prédio.

- Isso não é um apartamento! É um castelo!

O imóvel era grande, bem maior que o nosso. Estava relativamente bem conservado. Era uma construção antiga, com acabamento também antigo, algo vetusto. A cozinha, revestida por ladrilhos azuis, dava-nos uma certa melancolia, mas, sendo também ampla, não nos preocupou. O banheiro era verde, de cabo a rabo. Parecia banheiro de casa de avó. E por aí vai....

Entrei em contato com o proprietário da imobiliária. Pelo telefone logo entendi que se tratava de um senhor muito cortês, educadíssimo. Não podia tratá-lo, portanto, de modo informal. Com rapidez percebi que nossos diálogos deveriam ter algum rigor na linguagem.

Fui ao centro da cidade para negociar com ele o contrato de aluguel. Quando avistei o prédio comercial, notei que o prédio era velhíssimo, antiguíssimo. Não estranhei, contudo. Entrei no elevador e, aí sim, tomei um susto: havia ascensorista. Era um sujeito com chapéu de guarda que a todos perguntava o destino. Depois, fechava a porta e dava a volta na manivela. Que medo daquilo despencar....

Deparei-me com a sala da imobiliária. Precisa dizer? Era velha, móveis velhos. As cortinas, escuras e um tanto puídas, davam a impressão de que ali residia alguém avesso à luz (um vampiro?). Não seria injusto se dissesse que também senti, ali, algum cheiro de mofo.

Apresentei-me. Ele fez o mesmo, com cordialidade e muita formalidade. Após a conversa, fiquei de voltar com os documentos necessários e os fiadores. Antes mesmo de sair, propôs-se a redigir o contrato. Pediu que esperasse. Sem problemas. Imaginei que tivesse um modelo pronto no computador e que, após simples acréscimo dos dados pessoais, poderia imprimir sem mais delongas.

Ouvi um som inconfundível: o de uma máquina de escrever. Não era possível! Em 1997 os computadores já haviam invadido os estabelecimentos comerciais do Brasil. Quem não tinha um 386 e uma impressora matricial, daquelas que faziam um barulho absurdo?

Aquele senhor não tinha computador, não tinha impressora, tampouco tinha fax. Tinha várias máquinas datilográficas e muitos, muitos papéis carbonos. Foi assim que meu contrato foi impresso: em duas vias, uma original e a outra, cópia por carbono.

Mudança feita, havia chegado o dia de pagar pelo primeiro aluguel. Fui até a imobiliária. Entreguei o cheque e esperei pelo preenchimento rápido do recibo. Lá foi ele apegar-se às suas indeléveis máquinas e papéis carbonos. Essa rotina durou meses....

Um dia, recebi a notícia de que ele se mudaria para "instalações mais modernas". Ufa, já não era sem tempo, pensei! Para onde seria?

- Ao lado de minha casa, respondeu.

Mês seguinte, lá fui pagar o aluguel. Eram modernas, de fato, as instalações: piso de borracha, portas novas, mesas padronizadas, armários para arquivos.... Logo procurei por computadores e impressoras, sinais inequívocos da modernidade da época. Não me surpreendi ao notar que em uma única sala estavam concentradas várias máquinas datilográficas. Era ali que ele iria novamente bater o recibo do meu aluguel. Fez isso com muita calma.

Quando eu já estava com o recibo em mãos, pronto para ir embora, resolveu me contar uma história. A despeito da pressa, não pude me furtar a ouvi-lo, por questão de absoluta educação. No meio da narrativa, minha paciência estava na iminência de se esgotar. Graças a Deus, tocou o telefone! Mas ele continuou a contar a história. O telefone tocou mais uma vez. A história avançava. Mais um toque. Olhei para ele e, ato contínuo, para o telefone. Sugeri, com um meneio de cabeça, que o atendesse. Minha sugestão foi recusada tacitamente. Mais um toque. Ele avançou a narrativa. Mais dois toques e eu já demonstrava afliação. Repentinamente, ele interrompeu a fala, pediu licença para atender ao telefone. Aliviado, concordei. Caminhou lentamente e retirou o gancho do aparelho:

- Alô!

Desligaram.

Veio em minha direção e, um tanto indignado, disse:

- Essa turma de hoje não tem paciência para nada!

Controlei-me absurdamente para não gargalhar. Temi ser inoportuno porque aquela frase, dita daquele modo, era algo sério para ele. Tenho a convicção de que acreditava naquilo, como se toda urgência do universo inexistisse. Durante alguns instantes, refleti se havia algum lugar confortável para ele nesse mundo.

Morrera pouco tempo depois.

2 comentários:

Antonio Ozaí da Silva disse...

Bela história!
Parabéns e obrigado por compartilhar.

Abraços,
Ozaí

Djalma Oliveira disse...

Caro amigo, não seria o caso de pensar em - concomitantemente - aos lançamentos dos importantes livros "técnicos", pensar em enveredar por outros veios da literatura, e nos presentear com outros belos textos como este?