terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Novelas

Quando eu ainda não gostava de ler (como faz tempo!), a música popular brasileira – sobretudo a obra do Chico – e as novelas eram uma espécie de horizonte literário do qual eu desfrutava. Pode parecer estranho, já que novelas não se confundem com literatura. Todavia, é da literatura que elas surgem, é a atividade literária que enforma a trama da teledramaturgia.

Assim, a despeito da repulsa que uma parcela da intelectualidade brasileira tem em relação ao folhetim televisivo, ele é um instrumento de reflexão acerca de temas da atualidade e pode se prestar, evidentemente, a algum objetivo dirigido, interessado; enfim, político.

Algumas novelas nacionais poderiam ser comparadas a obras literárias de alto quilate, seja por seu conteúdo subjacente, seja por sua capacidade de entretenimento. Assinalo alguns autores e novelas adiante, sem nenhum compromisso analítico.

Na década de oitenta, a exibição de Roque Santeiro foi paradigmática. A novela de Dias Gomes já havia sido proibida na época da ditadura. Em 1986, foi ao ar com toda a liberdade possível. Por que colocá-la entre aquelas novelas capazes de questionar a vida nacional, mostrar suas mazelas? Porque sugeria uma série de características da brasilidade. Mostrava o coronelismo, o patrimonialismo, criticava um Brasil com resquícios de país rural. Evidenciava a necessidade de se preservar os mitos para a manutenção da ordem social capitalista. Já falei dela aqui no blog ("Os mitos sobrevivem – 24/11/2008"). Creio que a maior parte dos telespectadores jamais tenha atentado para esses detalhes. A novela foi famosa pelos tipos que encarnavam seus personagens: o coronel Sinhozinho Malta, a viúva Porcina, o irônico Roque Santeiro, o usurário Zé das Medalhas, o professor Astromar – exemplo típico de intelectual ornamental com sua insossa verborragia.

Em 1988, Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, partindo de outra perspectiva, também teria uma acidez crítica fantástica. O contexto retratado era o de um país da sacanagem, do jeitinho brasileiro, da astúcia usada para ludibriar os incautos. Era a nação de Odete Roitman que via nela todo tipo de vício canhestro, mas que, também hipócrita, se beneficiava de toda sorte de ardis para garantir seu status quo.

Gilberto Braga construiu ali aquilo que muitas obras sociológicas tentam explicar: o Brasil real versus o Brasil ideal. Ou, talvez até de modo maniqueísta, o Brasil honesto contra o Brasil da corrupção, das artimanhas, da velhacaria. Ivan (Antônio Fagundes) e Rachel (Regina Duarte) expressavam a esperança de um país sério, que não se renderia aos oportunismos de ocasião e à impunidade. Brasil, a música de abertura, de autoria de Cazuza, reforçava ainda mais o conteúdo da obra. Nunca houve tamanha sintonia entre um tema de novela e a letra de uma música.

Gilberto Braga, depois disso, fez algo bastante relevante no campo das minisséries (Anos Rebeldes, 1992). Voltaria, em 2003, com Celebridade, novela que mostrava a ânsia dos mortais comuns pela fama. O genial Renato Mendes (Fábio Assunção) era editor da Revista Fama, cujo grupo editorial era presidido por seu tio Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana). Foi Mendes quem, num episódio dramático, redigiu um apelativo artigo sobre o fato de Zeca – filho do depressivo jornalista Cristiano (Alexandre Borges) – ter caído em um poço no bairro do Andaraí. A situação era idêntica à de A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder. O editor da revista explorou a tragédia humana para poder estourar nas vendas de jornais e revistas.

Emblemática também foi a cena em que ele andava com seu conversível pela orla carioca após ter sido empossado momentaneamente vice-presidente do grupo Vasconcelos. Sozinho, aos berros, gritava que a partir daquele momento definiria o que a população iria ler, do que iria gostar, como leria, como gostaria. Mostrava, afinal, que o poder midiático seria capaz de influenciar diretamente a vida das pessoas.

Sílvio de Abreu, o mais paulista de todos os autores de novelas, não pode ser esquecido. Ocorre, todavia, que jamais me simpatizei com os pastelões anteriores à Rainha da Sucata. Guerra dos Sexos e Cambalacho, por exemplo, a despeito de todo sucesso conquistado, jamais me prenderam a atenção. Já em A próxima vítima, de 1995, Sílvio passou a ser outro autor, ao menos para mim. A trama policial misturada com uma comédia serena rendeu alto ibope televisivo. O mistério final – quem seria o "assassino em série" do Opala preto – fez com que houvesse tanto suspense quanto a revelação da assassina de Odete Roitman, em Vale Tudo.

Sílvio foi capaz de construir, ainda em A próxima vítima, um dos personagens mais contraditórios da novela brasileira: Juca, o quitandeiro do Mercado Municipal de São Paulo. Embora rude, ignorante e preconceituoso, amava óperas e se identificava com a sensibilidade das obras eruditas.

Torre de Babel (1998), seguiu na mesma trilha. Depois, veio Belíssima (2005) cujos capítulos iniciais mostravam o confronto entre a postura sórdida e ardilosa de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e a ingenuidade de sua neta Júlia, interpretada por Glória Pires. Em tom sóbrio e com ironia fina, Bia diria à neta para que ela não levasse tão a sério as aulas de catecismo, incongruentes com as finalidades do mundo empresarial. A racionalidade da grande matriarca deveria preponderar sobre a imaginação anódina da neta. Apenas esse diálogo seria suficiente para alçar Sílvio de Abreu à categoria dos grandes autores brasileiros.

Sílvio também sempre utilizou-se de referências cinematográficas para suas tramas. Tirou de À meia luz, obra prima do cinema noir com Ingrid Bergman (1944), a idéia do marido que muda os objetos em sua casa sem avisar a mulher, justamente para enlouquecê-la. Renata Sorrah não é uma Ingrid Bergman, mas o personagem lhe caiu muito bem em Rainha da Sucata.

Não sou fã de Manoel Carlos, mas suas novelas têm dois trunfos que, pessoalmente, me prendem: o clima Bossa Nova (respira-se a música do Maestro Soberano Tom Jobim), e as imagens idílicas, paradisíacas do Rio de Janeiro, sobretudo do Leblon. Afora isso, é claro que o autor tem seus méritos....

Glória Perez? Não assisto suas novelas. É uma questão de falta de afinidade. Quando há algo dela no ar, tiro férias da teledramaturgia.

Enfim, gosto de novelas. As boas, somente as boas. Não partilho da opinião intelectualóide de que não assisti-las seja um procedimento de higiene mental. Tanto quanto outro instrumento de ficção, elas são capazes de nos fazer penetrar em sua trama e preterir algumas agruras da rotina. Também se prestam a espelhar a realidade em que vivemos. Não é, afinal, para isso que serve a ficção?

Mas, então, o problema não é o gênero novela e sim o conteúdo de suas espécies.

Em tempo: na USP há, se não me engano, um grupo de estudos sobre novela brasileira. Ouvi dizer que ali existem ricas análises da realidade brasileira, não encontrada em outras produções científicas.

2 comentários:

José Pedro Renzi disse...

de MISSIONÁRIOS
A INTELECTUAIS
E doutores...
o BARBATTO....
EM plena forma de ESCRITOR..
continue velho amigo...!
adeus academias??
adeus miseráveis da midiacritica...
sem Piedade...
salve os escritores!!
Pedrinhorenzi.

Wilame Prado disse...

Olá Roberto. Nem preciso dizer que, mais uma vez, impressiono-me com o modo sereno como produz seus artigos. Seria um bom articulista de jornal impresso, sem dúvidas.

Sobre novelas, confesso para você que faço parte da “parcela da intelectualidade brasileira” que não gosta do folhetim televisivo. Quando criança, assistia novelas com minha mãe. Não sabia eu que poderia estar ocupando meu tempo lendo livros ou algo do tipo. O que me incomoda hoje, nas novelas, são os enquadramentos focados em excesso no rosto dos personagens, assim como os filmes da Globo Filmes, e a atuação do grupo de atores de uma maneira geral. Além disso, também sinto um cheiro de safadeza nas novelas maior do que nossa própria safadeza humana. Afinal, as cenas picantes e de adultério são importantes para manter o Ibope.

Minha mulher, antes da tv a cabo, assistia novelas. Hoje, e não sei se isso é bom ou ruim, deve assistir a pelo menos cinco seriados norte-americanos, sendo a maioria sobre rotina médica. Eu, na tv, ou estou assistindo meus filmes baixados pelo torrent ou, e isso é a minha maior alienação, consumindo vorazmente uma partida de futebol do meu Santos Futebol Clube e os programas que ficam inutilmente discutindo o futebol.

De todo modo, tentarei, mais uma vez, graças ao seu contundente artigo, prestar mais atenção nas famosas novelas brasileiras.

Um abraço.