Tio Harlan 4: o carismático - Roberto Barbato Jr
O tio Harlan realmente impressiona. Ele causa frisson na mulherada e nos incautos. Sabe aquele sujeito que, no primeiro encontro, parece ser agradável, boa pinta e elegante? Aquele homem com o qual todos se deliciam, por tão agradável que parece ser? O tio Harlan é assim.
Quando é apresentado para alguém, ele faz de tudo: conta piada, narra histórias, fala de suas viagens à Europa e aos Estados Unidos. As pessoas chegam a acreditar nele. Ok: o cara é megalomaníaco, mas nem tanto. No fundo, sabe que se a mentira for grande, não será crível. Então, quando percebe a iminência do exagero, refreia seus impulsos. Menos mal.
Além das histórias de vida, o tio Harlan sabe contar piadas como ninguém. Ele tem a manha. Nunca se embaralha ao fazer a narrativa. Toda a trama é contada com coerência, sem enganos, sem avanços, sem tropeços. O final é sempre surpreeendente. Mais que isso, ele nunca – nunca mesmo – explica a piada. Se você ouviu uma anedota da boca dele, por mais infame que seja, a gargalhada será sua reação. Niguém jamais precisou fazer qualquer tipo de explicação.
Por fim, há nele uma outra grande virtude: ele sempre sabe quando parar. Ao perceber que as risadas começam a rarear, aborta a missão. Tem senso de percepção. Você pode não acreditar, mas ele tem.
Seu único escorregão nesse terreno cômico é que nunca deixa de contar uma piada de Joãozinho. Aquela que mais gosta é a do teste da memória. Ela nem tem graça, mas ele adora e conta com frequência. E o pior é que todo mundo ri.
É mais ou menos assim....
“Joãozinho, Pedrinho e Juquinha apostavam quem tinha uma memória melhor.
- Eu consigo me lembrar perfeitamente - gabava-se o Pedrinho – do tempo que a minha mãe me dava de mamar. Se eu fecho os olhos sou capaz de sentir o calor do seu peito...
- Isso não é nada - retrucou Juquinha. - Pois eu me lembro no dia em que eu nasci... Aquele túnel escuro... e o médico me segurando pelas pernas...
- Isso não é nada - argumentou Joãozinho. - Eu me lembro de ter ido num piquenique com o meu pai e voltado com a minha mãe!”
Se eu contasse essa piada, certamente ninguém riria.
Enfim, é por essas e outras que as pessoas adoram o tio Harlan quando o conhecem. Ele é o cara mais legal do mundo no primeiro encontro. Só aos poucos é que se percebe que o sujeito é um picareta. Mesmo assim, pasme, tem um número significativo de fãs, dentre os quais eu, naturalmente, não me incluo.
Minha opinião é inarredável: o tio Harlan é um filho da puta.
"Modelando o artista ao seu feitio/ O tempo, com seu lápis impreciso/ Põe-lhe rugas ao redor da boca/ Como contrapesos de um sorriso. "Tempo e artista" - Chico Buarque/1993
domingo, 8 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Sabiá versus Caminhando e Cantando
Georg Lukács escreveu um belíssimo artigo intitulado “Arte livre versus arte dirigida”. Não me recordo ao certo a que conclusão teria chegado o crítico húngaro. Tampouco me recordo do teor do texto. Todavia, seu título, vira e mexe, me sugere algumas reflexões.
Em 1992, a TV Globo passou o seriado “Anos rebeldes”, cujos protagonistas João Alfredo e Maria Lúcia – interpretados por Cássio Gabus Mendes e Malu Mader – discutem sobre o resultado do festival de 1968. As músicas finalistas eram “Sabiá”, de autoria de Tom Jobim e Chico Buarque, e “Caminhando e Cantando” (“Para não dizer que eu não falei de flores”), de Geraldo Vandré.
“Sabiá” foi a vencedora.
Na trama de Gilberto Braga, João Alfredo - militante sectário, intransigente - bradava em tom colérico para sua namorada Maria Lúcia que “Sabiá” jamais poderia ter sido a campeã do festival. Dizia que “Caminhando e Cantando” era um hino à liberdade. Representava, ademais, o momento político por que passava a sociedade brasileira naquele momento.
Maria Lúcia rechaçava os argumentos de João Alfredo dizendo que “Sabiá” era, esteticamente, muito mais densa, mais bonita, enfim.
Ao final da série, quando a relação dos dois se mostra impossível, João Alfredo se reporta à antiga discussão para concordar com Maria Lúcia. Ela tinha razão: “Sabiá” merecia ter sido a vencedora.
A leitura que fiz do embate entre as duas obras primas é bastante simplória. Enquanto a composição de Vandré dava voz aos gritos sufocados de liberdade na época da ditadura militar - assumindo, portanto, nítidos laivos políticos -, “Sabiá” se mostrava muito mais bela, melhor trabalhada e, esteticamente, muito superior. Tratava-se, naturalmente, da contraposição entre a arte dirigida, feita com propósitos interessados, e a arte livre, despojada de qualquer pretensão contestatória.
Em tempo: “Caminhando e Cantando”, tornou-se, mesmo após o regime de exceção, um hino de manifestação estudantil. Na minha época de estudante, constituía um inenarrável porre ouvir a acéfala geração cara-pintada cantar “vem, vamos embora que esperar não é saber....”. Mal sabe Vandré a quais propósitos sua música serviu nos anos 1990....
Em 1992, a TV Globo passou o seriado “Anos rebeldes”, cujos protagonistas João Alfredo e Maria Lúcia – interpretados por Cássio Gabus Mendes e Malu Mader – discutem sobre o resultado do festival de 1968. As músicas finalistas eram “Sabiá”, de autoria de Tom Jobim e Chico Buarque, e “Caminhando e Cantando” (“Para não dizer que eu não falei de flores”), de Geraldo Vandré.
“Sabiá” foi a vencedora.
Na trama de Gilberto Braga, João Alfredo - militante sectário, intransigente - bradava em tom colérico para sua namorada Maria Lúcia que “Sabiá” jamais poderia ter sido a campeã do festival. Dizia que “Caminhando e Cantando” era um hino à liberdade. Representava, ademais, o momento político por que passava a sociedade brasileira naquele momento.
Maria Lúcia rechaçava os argumentos de João Alfredo dizendo que “Sabiá” era, esteticamente, muito mais densa, mais bonita, enfim.
Ao final da série, quando a relação dos dois se mostra impossível, João Alfredo se reporta à antiga discussão para concordar com Maria Lúcia. Ela tinha razão: “Sabiá” merecia ter sido a vencedora.
A leitura que fiz do embate entre as duas obras primas é bastante simplória. Enquanto a composição de Vandré dava voz aos gritos sufocados de liberdade na época da ditadura militar - assumindo, portanto, nítidos laivos políticos -, “Sabiá” se mostrava muito mais bela, melhor trabalhada e, esteticamente, muito superior. Tratava-se, naturalmente, da contraposição entre a arte dirigida, feita com propósitos interessados, e a arte livre, despojada de qualquer pretensão contestatória.
Em tempo: “Caminhando e Cantando”, tornou-se, mesmo após o regime de exceção, um hino de manifestação estudantil. Na minha época de estudante, constituía um inenarrável porre ouvir a acéfala geração cara-pintada cantar “vem, vamos embora que esperar não é saber....”. Mal sabe Vandré a quais propósitos sua música serviu nos anos 1990....
domingo, 24 de abril de 2011
Tropa de Elite 2
Já que no post passado falei sobre minhas impressões a respeito da “Guerra do tráfico”, seguem dois pequenos parágrafos sobre Tropa de Elite 2.
Se visto pelo prisma da ficção, trata-se de um bom filme. Embora as conexões políticas com a questão do narcotráfico e da segurança pública sejam bem urdidas, não se pode tomar a trama cinematográfica como elemento bastante para explicar a realidade da capital fluminense.
Sem dúvida, o filme é mais denso que o primeiro. É mais bem amarrado, tecido. Wagner Moura continua impagável e personagens do primeiro filme aparecem com mais destaque. A narrativa parece assumir um tom maduro, encontrando-se mais afiada com o roteiro e as situações (fictícias, é claro) expostas.
Nada além disso....
Se visto pelo prisma da ficção, trata-se de um bom filme. Embora as conexões políticas com a questão do narcotráfico e da segurança pública sejam bem urdidas, não se pode tomar a trama cinematográfica como elemento bastante para explicar a realidade da capital fluminense.
Sem dúvida, o filme é mais denso que o primeiro. É mais bem amarrado, tecido. Wagner Moura continua impagável e personagens do primeiro filme aparecem com mais destaque. A narrativa parece assumir um tom maduro, encontrando-se mais afiada com o roteiro e as situações (fictícias, é claro) expostas.
Nada além disso....
sábado, 16 de abril de 2011
Impressões tardias sobre a guerra no Rio
Agora que o assunto não está mais no centro dos debates nacionais, que as discussões já serenaram e que a mídia não mais se preocupa tanto, gostaria de fazer sumárias - e tardias - observações sobre aquilo que se convencionou chamar de a “Guerra contra o tráfico”, ocorrida nos meses finais de 2010.
Em 2006, quando publiquei meu livro (Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico), trabalhei com uma premissa básica e já bastante divulgada por outros autores: a de que a população das comunidades faveladas permeadas pelo narcotráfico geralmente apóia a conduta de seus líderes e repudia as iniciativas da polícia e/ou do poder estatal. Esta postura só se explica pela absoluta ausência do Estado nessas comunidades. Ante as lacunas deixadas pelo poder oficial, é sintomático que irrompam formas alternativas de resolução dos conflitos sociais no morro. A partir de benfeitorias assistencialistas (construção de quadras poliesportivas, pagamento de material escolar a familiares que contribuem para o “movimento”, organização de bailes funks, saneamento, asfalto, etc), os líderes do tráfico logram obter uma legitimidade que seria motivo de inveja a vários políticos do cenário brasileiro.
Essa tese, factível e verificável até os dias atuais, suscitou, com o novo embate entre o Estado e o Tráfico, algumas reflexões. Primeiramente, são dignas de notas as manifestações positivas da população em relação às investidas da operação conjunta entre Polícia Militar, Exército e Polícia Federal. Segundo consta das notícias midiáticas, vários foram os moradores da Favela do Cruzeiro e também do Complexo do Alemão que mostraram deliberadamente sua expectativa de que a força do poder oficial pudesse solapar, de vez, os desmandos do narcotráfico em suas comunidades. É bem verdade que não se pode deixar de mencionar, também, que abusos por parte da polícia foram registrados por moradores. Mas isso, por si só, renderia nova discussão.
Outro aspecto dessa “guerra” que suscita debates é a eficácia das ações estatais para o combate ao tráfico. Sempre ouvi dizer, dos ingênuos desejosos de paz, que, a qualquer momento, a polícia poderia invadir os morros cariocas e acabar com tudo aquilo. Leia-se: acabar com o narcotráfico. Ou seja, acreditava-se que a polícia poderia arrostar o poder paralelo e minar suas bases. Para isso, diziam os incautos, bastaria que houvesse, por parte do Estado, vontade política.
Nessas discussões, sempre argumentei que a polícia não tinha sequer equipamento (armas de fogo) suficiente para uma investida eficaz nas favelas. Anotei também no meu livro – e isso é bastante sabido – que os armamentos mais sofisticados, muitos deles privativos de forças militares estrangeiras, constituem a base da beligerância do tráfico. Ora, se o fuzil mais sofisticado do mundo pertence aos líderes do narcotráfico carioca, não é com pistolas de calibre baixo que o aparato policial conseguirá êxito em um confronto armado.
Pois é.... a experiência recente de ocupação dos morros mostrou que, em conformidade com o que muita gente pensava, bastou haver a tão propalada vontade política, organização e ação para que algo realmente significativo fosse feito. Em outros termos, aqueles que defendiam o grande poderio do tráfico ficaram perplexos com a facilidade policial para promover o êxodo de alguns traficantes de seus redutos. Hoje, certamente, aqueles que acima qualifiquei de incautos, devem estar vociferando, dizendo que tudo é muito simples. Num momento de desvario, cheguei mesmo a perguntar se eles – os tais incautos – não teriam razão.
Por fim, um último comentário. Atualmente, há uma ilusão de que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) conseguirão manter os traficantes longes do morro. Até segundo aviso, não pretendo acreditar rigorosamente nisso. Caso não haja ação constante e presença do Estado para preencher as lacunas que geraram o assistencialismo dos narcotraficantes, a antiga estrutura irromperá novamente. Estaremos, portanto, diante de um círculo vicioso
O problema é, enfim, estrutural e não episódico.
Em 2006, quando publiquei meu livro (Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico), trabalhei com uma premissa básica e já bastante divulgada por outros autores: a de que a população das comunidades faveladas permeadas pelo narcotráfico geralmente apóia a conduta de seus líderes e repudia as iniciativas da polícia e/ou do poder estatal. Esta postura só se explica pela absoluta ausência do Estado nessas comunidades. Ante as lacunas deixadas pelo poder oficial, é sintomático que irrompam formas alternativas de resolução dos conflitos sociais no morro. A partir de benfeitorias assistencialistas (construção de quadras poliesportivas, pagamento de material escolar a familiares que contribuem para o “movimento”, organização de bailes funks, saneamento, asfalto, etc), os líderes do tráfico logram obter uma legitimidade que seria motivo de inveja a vários políticos do cenário brasileiro.
Essa tese, factível e verificável até os dias atuais, suscitou, com o novo embate entre o Estado e o Tráfico, algumas reflexões. Primeiramente, são dignas de notas as manifestações positivas da população em relação às investidas da operação conjunta entre Polícia Militar, Exército e Polícia Federal. Segundo consta das notícias midiáticas, vários foram os moradores da Favela do Cruzeiro e também do Complexo do Alemão que mostraram deliberadamente sua expectativa de que a força do poder oficial pudesse solapar, de vez, os desmandos do narcotráfico em suas comunidades. É bem verdade que não se pode deixar de mencionar, também, que abusos por parte da polícia foram registrados por moradores. Mas isso, por si só, renderia nova discussão.
Outro aspecto dessa “guerra” que suscita debates é a eficácia das ações estatais para o combate ao tráfico. Sempre ouvi dizer, dos ingênuos desejosos de paz, que, a qualquer momento, a polícia poderia invadir os morros cariocas e acabar com tudo aquilo. Leia-se: acabar com o narcotráfico. Ou seja, acreditava-se que a polícia poderia arrostar o poder paralelo e minar suas bases. Para isso, diziam os incautos, bastaria que houvesse, por parte do Estado, vontade política.
Nessas discussões, sempre argumentei que a polícia não tinha sequer equipamento (armas de fogo) suficiente para uma investida eficaz nas favelas. Anotei também no meu livro – e isso é bastante sabido – que os armamentos mais sofisticados, muitos deles privativos de forças militares estrangeiras, constituem a base da beligerância do tráfico. Ora, se o fuzil mais sofisticado do mundo pertence aos líderes do narcotráfico carioca, não é com pistolas de calibre baixo que o aparato policial conseguirá êxito em um confronto armado.
Pois é.... a experiência recente de ocupação dos morros mostrou que, em conformidade com o que muita gente pensava, bastou haver a tão propalada vontade política, organização e ação para que algo realmente significativo fosse feito. Em outros termos, aqueles que defendiam o grande poderio do tráfico ficaram perplexos com a facilidade policial para promover o êxodo de alguns traficantes de seus redutos. Hoje, certamente, aqueles que acima qualifiquei de incautos, devem estar vociferando, dizendo que tudo é muito simples. Num momento de desvario, cheguei mesmo a perguntar se eles – os tais incautos – não teriam razão.
Por fim, um último comentário. Atualmente, há uma ilusão de que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) conseguirão manter os traficantes longes do morro. Até segundo aviso, não pretendo acreditar rigorosamente nisso. Caso não haja ação constante e presença do Estado para preencher as lacunas que geraram o assistencialismo dos narcotraficantes, a antiga estrutura irromperá novamente. Estaremos, portanto, diante de um círculo vicioso
O problema é, enfim, estrutural e não episódico.
sábado, 9 de abril de 2011
Tio Harlan 3: o ponto fraco
Tio Harlan 3: o ponto fraco - Roberto Barbato Jr
Antes de contar por que o tio Harlan foi parar na cadeia, vou falar sobre seu ponto fraco. É claro que um sujeito como ele há de ter um ponto fraco. Todo mundo tem, não é?
Pois o ponto fraco do tio Harlan chama-se Aline. Ela é morena, olhos pretos, busto na medida – nem grande, nem pequeno – e as coxas mais lindas das quais já tive notícia. Quando fala, Aline não alteia a voz, mantém o mesmo timbre, o mesmo volume e a mesma cadência. Tem uma voz rouca que parece um sussurro direcionado ao tubo auditivo. Ela não anda, flutua. É de deixar qualquer homem louco. Na frente do tio Harlan, então, ela causa verdadeiro estrago.
Quando a conheceu, fez de um tudo para conquistá-la. Procurou o seu endereço na lista telefônica (ainda não existia internet) e mandou rosas pra casa dela, de duas em duas horas. Cada buquê com um cartão diferente. A família da moça espirrou a noite inteira: todo mundo lá era alérgico a flores, mas o idiota não sabia disso, nem poderia prever. Ficaram todos curiosos e, de alguma forma, disseram que se vingariam do remetente, fosse quem fosse.
Como a menina ainda não sabia quem era o tio Harlan, a besta resolveu ligar pra casa dela para ouvir sua voz. A paixão já havia assumido proporções grandiosas. Ligava e não falava nada, ficava com o telefone na orelha ouvindo “alô, alô, alô”, como se aquilo lhe pudesse dar algum prazer. Naquela época também não tinha bina e, por isso, o tio Harlan abusava das ligações. A família da Aline já não sabia mais o que fazer quando atendia um telefone mudo. Apelidaram o interlocutor silente de mudinho. Mal sabia o retardado do meu tio que ele já tinha até apelido para a família da moça.
Quando foi apresentado para a menina, quase teve uma caganeira. Tremeu, ficou vermelho e gaguejou. A moça, um pouco surpresa, perguntou se ele passava bem. Por um milagre, em duas semanas começaram o namoro. O tio Harlan estava nas nuvens. Conheceu o futuro sogro, a sogra e as duas cunhadas (que também eram lindas mas não chegavam aos pés da irmã). Passou a frequentar a casa dela, almoçava, jantava e assistia ao Jornal Nacional na sala com todos. Àquela altura dos acontecimentos, o sogro, que não era bobo, nem nada, já tinha sacado que o mudinho e o remetente das flores eram a mesma pessoa, ou seja, a besta do tio Harlan. Afinal, os telefonemas mudos não já existiam mais.
Namoro no sofá, intimidade com as cunhadas, beijinho atrás da porta, mãozinha aqui, mãozinha ali.... e tio Harlan se achando o sujeito mais gostoso do mundo. Do dia pra noite, tomou o fora. Foi uma hecatombe. Aline confessou que estava apaixonada pelo Tarcísio e que já tinha iniciado com ele um relacionamento intenso. Muito intenso, ela fez questão de frisar.
O problema é que o Tarcísio era o melhor amigo do meu tio, amizade antiga, de infância mesmo. Ele não conseguia entender como aquilo foi acontecer: o Tarcísio era desengonçado, mal arrumado, tinha crateras de espinhas no rosto e, pior, mau hálito. Parecia que tinha engolido um urubu. Perder a Aline para ele era um pesadelo, dos piores.
Tio Harlan chorou noventa noites seguidas. Foi nessa época que começou a beber pra esquecer a Aline. Nunca esqueceu. Quando ouve algum comentário sobre ela ou a encontra casualmente, fica pálido, sem ação. Chega mesmo a tremer. Depois, arruma um jeito de se isolar num banheiro qualquer e chora a falta da amada.
Coitado. Nem o tio Harlan - que é um filho da puta - merecia isso.
Antes de contar por que o tio Harlan foi parar na cadeia, vou falar sobre seu ponto fraco. É claro que um sujeito como ele há de ter um ponto fraco. Todo mundo tem, não é?
Pois o ponto fraco do tio Harlan chama-se Aline. Ela é morena, olhos pretos, busto na medida – nem grande, nem pequeno – e as coxas mais lindas das quais já tive notícia. Quando fala, Aline não alteia a voz, mantém o mesmo timbre, o mesmo volume e a mesma cadência. Tem uma voz rouca que parece um sussurro direcionado ao tubo auditivo. Ela não anda, flutua. É de deixar qualquer homem louco. Na frente do tio Harlan, então, ela causa verdadeiro estrago.
Quando a conheceu, fez de um tudo para conquistá-la. Procurou o seu endereço na lista telefônica (ainda não existia internet) e mandou rosas pra casa dela, de duas em duas horas. Cada buquê com um cartão diferente. A família da moça espirrou a noite inteira: todo mundo lá era alérgico a flores, mas o idiota não sabia disso, nem poderia prever. Ficaram todos curiosos e, de alguma forma, disseram que se vingariam do remetente, fosse quem fosse.
Como a menina ainda não sabia quem era o tio Harlan, a besta resolveu ligar pra casa dela para ouvir sua voz. A paixão já havia assumido proporções grandiosas. Ligava e não falava nada, ficava com o telefone na orelha ouvindo “alô, alô, alô”, como se aquilo lhe pudesse dar algum prazer. Naquela época também não tinha bina e, por isso, o tio Harlan abusava das ligações. A família da Aline já não sabia mais o que fazer quando atendia um telefone mudo. Apelidaram o interlocutor silente de mudinho. Mal sabia o retardado do meu tio que ele já tinha até apelido para a família da moça.
Quando foi apresentado para a menina, quase teve uma caganeira. Tremeu, ficou vermelho e gaguejou. A moça, um pouco surpresa, perguntou se ele passava bem. Por um milagre, em duas semanas começaram o namoro. O tio Harlan estava nas nuvens. Conheceu o futuro sogro, a sogra e as duas cunhadas (que também eram lindas mas não chegavam aos pés da irmã). Passou a frequentar a casa dela, almoçava, jantava e assistia ao Jornal Nacional na sala com todos. Àquela altura dos acontecimentos, o sogro, que não era bobo, nem nada, já tinha sacado que o mudinho e o remetente das flores eram a mesma pessoa, ou seja, a besta do tio Harlan. Afinal, os telefonemas mudos não já existiam mais.
Namoro no sofá, intimidade com as cunhadas, beijinho atrás da porta, mãozinha aqui, mãozinha ali.... e tio Harlan se achando o sujeito mais gostoso do mundo. Do dia pra noite, tomou o fora. Foi uma hecatombe. Aline confessou que estava apaixonada pelo Tarcísio e que já tinha iniciado com ele um relacionamento intenso. Muito intenso, ela fez questão de frisar.
O problema é que o Tarcísio era o melhor amigo do meu tio, amizade antiga, de infância mesmo. Ele não conseguia entender como aquilo foi acontecer: o Tarcísio era desengonçado, mal arrumado, tinha crateras de espinhas no rosto e, pior, mau hálito. Parecia que tinha engolido um urubu. Perder a Aline para ele era um pesadelo, dos piores.
Tio Harlan chorou noventa noites seguidas. Foi nessa época que começou a beber pra esquecer a Aline. Nunca esqueceu. Quando ouve algum comentário sobre ela ou a encontra casualmente, fica pálido, sem ação. Chega mesmo a tremer. Depois, arruma um jeito de se isolar num banheiro qualquer e chora a falta da amada.
Coitado. Nem o tio Harlan - que é um filho da puta - merecia isso.
sábado, 2 de abril de 2011
Tio Harlan 2: o campeão
Tio Harlan 2: o campeão - Roberto Barbato Jr
Pois é. O tio Harlan nem sempre foi um filho da puta. Quando eu era pequeno achava que ele era um sujeito bacana. Vivia me contando suas experiências exitosas. Eu morria de admiração por ele.
Uma vez me relatou que um de seus grandes méritos foi ter vencido os 100 metros livres numa olimpíada. Falou que, naquele dia, se sentiu o máximo, como se fosse um motor da Ferrari. A potência em pessoa, a velocidade encarnada num corpo humano. Chegou à frente dos outros competidores com uma diferença de 7 segundos, o que, segundo ele, era uma eternidade. “Carl Lewis? Nunca ouvi falar”, dizia desdenhoso.
Nas olimpíadas seguintes, a dar provas de sua versatilidade, resolveu mudar o esporte. Tornou-se nadador. Venceu tudo a que tinha direito: crawl, costas, borboleta e, principalmente, o nado de peito. Era medalha atrás de medalha. Com o sucesso, chamaram-no pra ser treinador de uma equipe norte-americana. O problema era que seu passaporte estava vencido e ele tinha preguiça de renová-lo. Então, acabou recusando a proposta. “Isso é pra quem pode”, respondeu quando perguntei se o motivo da recusa era aquele mesmo. Acreditei, é claro.
Sua última incursão no mundo esportivo teria sido como tenista. A carreira só não foi longe porque ele enjoou do barulho da bola e dos gemidos dos jogadores. Odiava quando alguém batia na bola e soltava um ãããh. Dizia que aquilo era coisa de maricas. Mesmo admitindo que não teve lá muito sucesso, sempre contou aos quatro ventos que derrotou o Borg, no auge da sua forma física. Encontraram-se num clube paulistano para uma partida as dez horas da noite. Pouca gente presenciou o espetáculo, a pedido do próprio Borg, que pressentia a derrota para o grande tenista Harlan.
Pô, o tio Harlan era o máximo. Era o cara.
Fiquei sem graça quando a tia Cecília, ex-mulher dele, me confessou que o filho da puta nunca passou perto de uma piscina ou de uma quadra. Na juventude, o que ele mais sabia fazer era encher a cara. Bebia como um doido. Dava baixaria, caía, berrava. Xingava meia cidade e acabava sendo levado pra casa por alguma boa alma que o encontrava em estado lastimável na rua. “Seu avô morria de vergonha”, disse a tia Cecília. O tio Harlan, quem diria, era o maior alcoólatra da paróquia. Pois é: além de filho da puta, era também alcoólatra. E papudo.
Se hoje ele ainda bebe? Não, claro que não. Ele parou com isso. Na cadeia.
Pois é. O tio Harlan nem sempre foi um filho da puta. Quando eu era pequeno achava que ele era um sujeito bacana. Vivia me contando suas experiências exitosas. Eu morria de admiração por ele.
Uma vez me relatou que um de seus grandes méritos foi ter vencido os 100 metros livres numa olimpíada. Falou que, naquele dia, se sentiu o máximo, como se fosse um motor da Ferrari. A potência em pessoa, a velocidade encarnada num corpo humano. Chegou à frente dos outros competidores com uma diferença de 7 segundos, o que, segundo ele, era uma eternidade. “Carl Lewis? Nunca ouvi falar”, dizia desdenhoso.
Nas olimpíadas seguintes, a dar provas de sua versatilidade, resolveu mudar o esporte. Tornou-se nadador. Venceu tudo a que tinha direito: crawl, costas, borboleta e, principalmente, o nado de peito. Era medalha atrás de medalha. Com o sucesso, chamaram-no pra ser treinador de uma equipe norte-americana. O problema era que seu passaporte estava vencido e ele tinha preguiça de renová-lo. Então, acabou recusando a proposta. “Isso é pra quem pode”, respondeu quando perguntei se o motivo da recusa era aquele mesmo. Acreditei, é claro.
Sua última incursão no mundo esportivo teria sido como tenista. A carreira só não foi longe porque ele enjoou do barulho da bola e dos gemidos dos jogadores. Odiava quando alguém batia na bola e soltava um ãããh. Dizia que aquilo era coisa de maricas. Mesmo admitindo que não teve lá muito sucesso, sempre contou aos quatro ventos que derrotou o Borg, no auge da sua forma física. Encontraram-se num clube paulistano para uma partida as dez horas da noite. Pouca gente presenciou o espetáculo, a pedido do próprio Borg, que pressentia a derrota para o grande tenista Harlan.
Pô, o tio Harlan era o máximo. Era o cara.
Fiquei sem graça quando a tia Cecília, ex-mulher dele, me confessou que o filho da puta nunca passou perto de uma piscina ou de uma quadra. Na juventude, o que ele mais sabia fazer era encher a cara. Bebia como um doido. Dava baixaria, caía, berrava. Xingava meia cidade e acabava sendo levado pra casa por alguma boa alma que o encontrava em estado lastimável na rua. “Seu avô morria de vergonha”, disse a tia Cecília. O tio Harlan, quem diria, era o maior alcoólatra da paróquia. Pois é: além de filho da puta, era também alcoólatra. E papudo.
Se hoje ele ainda bebe? Não, claro que não. Ele parou com isso. Na cadeia.
sábado, 12 de março de 2011
O chefe
O chefe - Roberto Barbato Jr
O chefe anda tomando alguma coisa estranha. Todo mundo que passa pela sala dele se pergunta o que é aquele pote com suco amarelo que fica em cima da mesa do computador.
Ele começou a tomar o negócio há pouco tempo. Desde então, suspeita-se que seu humor se alterou – ainda mais do que geralmente se altera, já que o cara é dessas pessoas identificadas como bipolar. Disseram que, só ontem, deu umas quinze patadas na secretária. Xingou a moça e disse que assim ela não se manteria lá. Depois, aparentando um bem-estar incomum, quase uma felicidade, foi para a sala de reunião com um cliente. O sujeito saiu de lá assustado, como se tivesse ouvido alguma barbaridade ou visto o capeta. Perguntou para a secretária se já poderia ir embora. Pois não, é por aqui, disse ela mostrando a saída. Quando a porta se abriu, ele saiu correndo, como um louco.
No meio da tarde, o chefe apareceu na copa do escritório com o suco amarelo na mão. A feição era de quem estava enfurecido. Todo mundo ficou preocupado e cada um foi se encolhendo, buscando uma alternativa – ou uma desculpa – para sair dali. Se ele desse mais um passo, ia ser um rebu. Teria até gente pisoteada.
Como a secretária conhece a família há tempos, resolveu chamar o pai para uma conversa. Explicou o que estava acontecendo, disse que ninguém mais se sentia seguro em trabalhar ali, sob as ordens e desmandos dele. O pai perguntou o porquê e foi informado que um tal de suco andava fazendo a cabeça do rapaz.
- Suco amarelo?, perguntou o pai.
- É, um composto estranho, ela explicou. Depois que ele toma, a coisa fica preocupante por aqui.
- Ah, sei – disse o pai. Por acaso, é um suco meio granulado?
- Esse mesmo – ela respondeu.
- Sei, sei. Deixe comigo!
O pai subiu para a sala do filho. Foi recebido a tapas. Mal entrou, levou um na cara. Começou a gritar e a pedir para parar. O filho batia mais, a mão aberta, tapa estalado. Houve um grande barulho: a estante caiu. Em cima do pai, claro. O chefe abriu a porta e o velho, todo machucado, lágrimas nos olhos, foi embora.
Depois de um mês, irresignados, pedimos demissão. Talvez os loucos fôssemos nós mesmos. Hoje, curiosamente, todo mundo toma o tal suco amarelo. Muita coisa mudou em nossas vidas. Felizmente não somos chefes. Ainda.
O chefe anda tomando alguma coisa estranha. Todo mundo que passa pela sala dele se pergunta o que é aquele pote com suco amarelo que fica em cima da mesa do computador.
Ele começou a tomar o negócio há pouco tempo. Desde então, suspeita-se que seu humor se alterou – ainda mais do que geralmente se altera, já que o cara é dessas pessoas identificadas como bipolar. Disseram que, só ontem, deu umas quinze patadas na secretária. Xingou a moça e disse que assim ela não se manteria lá. Depois, aparentando um bem-estar incomum, quase uma felicidade, foi para a sala de reunião com um cliente. O sujeito saiu de lá assustado, como se tivesse ouvido alguma barbaridade ou visto o capeta. Perguntou para a secretária se já poderia ir embora. Pois não, é por aqui, disse ela mostrando a saída. Quando a porta se abriu, ele saiu correndo, como um louco.
No meio da tarde, o chefe apareceu na copa do escritório com o suco amarelo na mão. A feição era de quem estava enfurecido. Todo mundo ficou preocupado e cada um foi se encolhendo, buscando uma alternativa – ou uma desculpa – para sair dali. Se ele desse mais um passo, ia ser um rebu. Teria até gente pisoteada.
Como a secretária conhece a família há tempos, resolveu chamar o pai para uma conversa. Explicou o que estava acontecendo, disse que ninguém mais se sentia seguro em trabalhar ali, sob as ordens e desmandos dele. O pai perguntou o porquê e foi informado que um tal de suco andava fazendo a cabeça do rapaz.
- Suco amarelo?, perguntou o pai.
- É, um composto estranho, ela explicou. Depois que ele toma, a coisa fica preocupante por aqui.
- Ah, sei – disse o pai. Por acaso, é um suco meio granulado?
- Esse mesmo – ela respondeu.
- Sei, sei. Deixe comigo!
O pai subiu para a sala do filho. Foi recebido a tapas. Mal entrou, levou um na cara. Começou a gritar e a pedir para parar. O filho batia mais, a mão aberta, tapa estalado. Houve um grande barulho: a estante caiu. Em cima do pai, claro. O chefe abriu a porta e o velho, todo machucado, lágrimas nos olhos, foi embora.
Depois de um mês, irresignados, pedimos demissão. Talvez os loucos fôssemos nós mesmos. Hoje, curiosamente, todo mundo toma o tal suco amarelo. Muita coisa mudou em nossas vidas. Felizmente não somos chefes. Ainda.
sábado, 5 de março de 2011
O rosto da Lili
O rosto da Lili - Roberto Barbato Jr
O que eu queria mesmo era encontrar um rosto bonito, nas capas de revistas. Parava em frente à banca e ficava procurando. Ia de uma em uma, capa por capa, fileira por fileira. Quando cansava, parava e comprava umas palavras-cruzadas. Na hora de pagar, voltava os olhos para as fileiras que tinham faltado na primeira busca. Enquanto o seu Altenor me dava o troco, terminava minha procura. Se dava tempo? Claro que dava. As publicações não eram muitas.
Com o passar do tempo, passei a ser mais exigente. Não queria só um rosto bonito, queria a perfeição: medidas, cores, volumes, tudo tinha que ser perfeito, inclusive o conjunto da obra. Seria difícil, mas quem sabe um dia....
Seu Altenor investiu na banca. Comprou umas revistas importadas, fez negociação com o pessoal da capital e passou a ser o vendedor exclusivo de tudo aquilo que a cidade não conhecia. Aos poucos fui me acostumando àquelas capas coloridas, cheias de detalhes sofisticados e mulheres lindas. Pena que não tinham o rosto perfeito. Acho que já estava me rendendo e a paciência, certamente, não iria longe.
No carnaval daquele ano, tomei um susto quando estava passando perto da banca. O seu Altenor me chamou para ver as fotos da Lili Neves. Queria me mostrar como era boa, como tinha o corpo perfeito. E o rosto também, falei. Era o rosto que eu procurava. Até parecia que eu havia feito o desenho dele e mandado alguém esculpir. A Lili Neves era um estouro!
Puta que pariu!, gritei. Por pouco não babei na capa da revista. Corri pra casa, peguei o resto da mesada no cofrinho e contei as notas com a esperança de que somassem o que eu precisava. Faltou grana e, para complicar, o dia de receber a mesada estava longe. Seu Altenor seria compreensivo? Naturalmente, deixou que eu o pagasse no início do mês seguinte. Lá fui eu com a Lili Neves para casa.
Na semana seguinte, ela estreou na televisão, como atriz de novela. Não perdi um capítulo. A trama não era lá essas coisas, mas a Lili aparecia todo dia. Sua interpretação não era ruim, não. Dava lá alguma mostra de que seu futuro na TV seria promissor. Depois, veio a segunda novela. A Lili fazia o papel de uma mocinha pobre que foi pro Rio de Janeiro tentar ganhar a vida. Deram um jeito de enfeiá-la. Até bigode colocaram nela. Que sacanagem! Só quando se casou com o Aderbal – o cafa da novela – é que apareceu bonita para todo mundo. Não dava pra acreditar....
Nessa época, a Lili já havia se convertido numa espécie de obsessão. Eu sonhava com ela, noite sim, noite não. Se perdia o capítulo da novela, aparecia no meu sonho pra me contar o que tinha acontecido, como se ela mesma fosse a autora ou roteirista da trama. A Lili conversava comigo, frente a frente, o hálito gelado, a língua se movendo em câmera lenta. Que boca! Depois, ia embora jogando um beijo pra mim. Só podia ser sonho.
Um dia, notei que a Lili havia ficado velha, uma cinquentona. Continuava linda, sem dúvida. Só consegui perceber que o tempo tinha passado porque encontrei a revista guardada num armário antigo, junto com o cofrinho da minha adolescência. Até hoje o seu Altenor me pergunta quanto eu quero por aquele exemplar cuja compra ele generosamente parcelou. Diz que paga à vista. Não vendo, não! Também jamais venderia a lembrança daquele dia em que conheci o rosto da Lili.
O que eu queria mesmo era encontrar um rosto bonito, nas capas de revistas. Parava em frente à banca e ficava procurando. Ia de uma em uma, capa por capa, fileira por fileira. Quando cansava, parava e comprava umas palavras-cruzadas. Na hora de pagar, voltava os olhos para as fileiras que tinham faltado na primeira busca. Enquanto o seu Altenor me dava o troco, terminava minha procura. Se dava tempo? Claro que dava. As publicações não eram muitas.
Com o passar do tempo, passei a ser mais exigente. Não queria só um rosto bonito, queria a perfeição: medidas, cores, volumes, tudo tinha que ser perfeito, inclusive o conjunto da obra. Seria difícil, mas quem sabe um dia....
Seu Altenor investiu na banca. Comprou umas revistas importadas, fez negociação com o pessoal da capital e passou a ser o vendedor exclusivo de tudo aquilo que a cidade não conhecia. Aos poucos fui me acostumando àquelas capas coloridas, cheias de detalhes sofisticados e mulheres lindas. Pena que não tinham o rosto perfeito. Acho que já estava me rendendo e a paciência, certamente, não iria longe.
No carnaval daquele ano, tomei um susto quando estava passando perto da banca. O seu Altenor me chamou para ver as fotos da Lili Neves. Queria me mostrar como era boa, como tinha o corpo perfeito. E o rosto também, falei. Era o rosto que eu procurava. Até parecia que eu havia feito o desenho dele e mandado alguém esculpir. A Lili Neves era um estouro!
Puta que pariu!, gritei. Por pouco não babei na capa da revista. Corri pra casa, peguei o resto da mesada no cofrinho e contei as notas com a esperança de que somassem o que eu precisava. Faltou grana e, para complicar, o dia de receber a mesada estava longe. Seu Altenor seria compreensivo? Naturalmente, deixou que eu o pagasse no início do mês seguinte. Lá fui eu com a Lili Neves para casa.
Na semana seguinte, ela estreou na televisão, como atriz de novela. Não perdi um capítulo. A trama não era lá essas coisas, mas a Lili aparecia todo dia. Sua interpretação não era ruim, não. Dava lá alguma mostra de que seu futuro na TV seria promissor. Depois, veio a segunda novela. A Lili fazia o papel de uma mocinha pobre que foi pro Rio de Janeiro tentar ganhar a vida. Deram um jeito de enfeiá-la. Até bigode colocaram nela. Que sacanagem! Só quando se casou com o Aderbal – o cafa da novela – é que apareceu bonita para todo mundo. Não dava pra acreditar....
Nessa época, a Lili já havia se convertido numa espécie de obsessão. Eu sonhava com ela, noite sim, noite não. Se perdia o capítulo da novela, aparecia no meu sonho pra me contar o que tinha acontecido, como se ela mesma fosse a autora ou roteirista da trama. A Lili conversava comigo, frente a frente, o hálito gelado, a língua se movendo em câmera lenta. Que boca! Depois, ia embora jogando um beijo pra mim. Só podia ser sonho.
Um dia, notei que a Lili havia ficado velha, uma cinquentona. Continuava linda, sem dúvida. Só consegui perceber que o tempo tinha passado porque encontrei a revista guardada num armário antigo, junto com o cofrinho da minha adolescência. Até hoje o seu Altenor me pergunta quanto eu quero por aquele exemplar cuja compra ele generosamente parcelou. Diz que paga à vista. Não vendo, não! Também jamais venderia a lembrança daquele dia em que conheci o rosto da Lili.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Sem compromisso
Ainda hoje, quando escrevo alguma besteira aqui, lembro-me do post inicial deste Blog (Sem compromisso: a razão desse blog). É muito bom escrever sem nenhum compromisso. Também é fantástico não ter a obrigação de escrever. Ninguém sentirá falta....
sábado, 29 de janeiro de 2011
Não deram certo
Existem certas interpretações musicais que realmente não deram certo. Vamos a algumas delas.
Emílio Santiago. Não há uma música específica. Tudo – ou quase tudo – o que ele interpreta tem arranjo de baile de clube de interior. É algo cafona, com arranjos intragáveis. Exceção deve ser feita à "Teresa da Praia" que ele gravou junto com Luiz Melodia. Todavia, se, num domingo à noite, você estiver ouvindo FM no carro e tocar “Saigon”, é melhor se matar. Sua atitude será plenamente justificável.
Leila Pinheiro interpretando Renato Russo. Só ouvi uma música e, por mais imbecil que isso possa ser, não estou disposto a conferir o resto. Leila Pinheiro poderia dar um presente aos seus fãs: cantar apenas Bossa Nova. Ela nasceu para isso.
Ella Fitzgerald. É dificílimo falar d'Ella. Minha deusa musical não deu certo com “Love for Sale”, de Cole Porter. Não sei por que, mas não soou legal. Diga-se o mesmo de “Dream a Little Dream of Me”, cuja interpretação já comentei aqui no blog.
Caetano Veloso cantando “Igreja”, composição dos Titãs. A interpretação, aliás, foi feita juntamente com os Titãs, no final da década de 1980. Caetano, de jaqueta de couro, tencionava dar um ar rebelde que em nada combinava com sua legítima baianice genial.
Gal Costa cantando “Begin the Beguine”. Ninguém duvida da potência dos agudos da Gal. Que quisesse interpretar uma das mais belas músicas de Cole Porter é perfeitamente compreensível. Não precisava, contudo, terminar a interpretação tentando fazer o impossível: alcançar Ella. A música certamente foi para prensa sem que ela ouvisse como ficou a gravação. Do contrário, não teria deixado passar. Até hoje quando a ouve, se penitencia por tê-la gravado.
Bete Carvalho cantando “As rosas não falam”. Nada contra Bete Carvalho. Ela tem o grande mérito de ser mangueirense e ter descoberto o Zeca Pagodinho. Além disso, com todo o respeito, poderia se limitar a cantar os sambas-enredos da Estação Primeira. A obra-prima do Cartola, definitivamente, não lhe cai bem. Se alguém tiver interesse em ouvir um bela interpretação, a dica é Paulinho da Viola. Ele levou anos para conseguir coragem e gravar a música. E só o fez em 1999, quando do lançamento de “Bebadosamba”. Ficou belíssima.
Alguém conhece mais alguma furada? Aguardo respostas!
Emílio Santiago. Não há uma música específica. Tudo – ou quase tudo – o que ele interpreta tem arranjo de baile de clube de interior. É algo cafona, com arranjos intragáveis. Exceção deve ser feita à "Teresa da Praia" que ele gravou junto com Luiz Melodia. Todavia, se, num domingo à noite, você estiver ouvindo FM no carro e tocar “Saigon”, é melhor se matar. Sua atitude será plenamente justificável.
Leila Pinheiro interpretando Renato Russo. Só ouvi uma música e, por mais imbecil que isso possa ser, não estou disposto a conferir o resto. Leila Pinheiro poderia dar um presente aos seus fãs: cantar apenas Bossa Nova. Ela nasceu para isso.
Ella Fitzgerald. É dificílimo falar d'Ella. Minha deusa musical não deu certo com “Love for Sale”, de Cole Porter. Não sei por que, mas não soou legal. Diga-se o mesmo de “Dream a Little Dream of Me”, cuja interpretação já comentei aqui no blog.
Caetano Veloso cantando “Igreja”, composição dos Titãs. A interpretação, aliás, foi feita juntamente com os Titãs, no final da década de 1980. Caetano, de jaqueta de couro, tencionava dar um ar rebelde que em nada combinava com sua legítima baianice genial.
Gal Costa cantando “Begin the Beguine”. Ninguém duvida da potência dos agudos da Gal. Que quisesse interpretar uma das mais belas músicas de Cole Porter é perfeitamente compreensível. Não precisava, contudo, terminar a interpretação tentando fazer o impossível: alcançar Ella. A música certamente foi para prensa sem que ela ouvisse como ficou a gravação. Do contrário, não teria deixado passar. Até hoje quando a ouve, se penitencia por tê-la gravado.
Bete Carvalho cantando “As rosas não falam”. Nada contra Bete Carvalho. Ela tem o grande mérito de ser mangueirense e ter descoberto o Zeca Pagodinho. Além disso, com todo o respeito, poderia se limitar a cantar os sambas-enredos da Estação Primeira. A obra-prima do Cartola, definitivamente, não lhe cai bem. Se alguém tiver interesse em ouvir um bela interpretação, a dica é Paulinho da Viola. Ele levou anos para conseguir coragem e gravar a música. E só o fez em 1999, quando do lançamento de “Bebadosamba”. Ficou belíssima.
Alguém conhece mais alguma furada? Aguardo respostas!
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