sábado, 4 de novembro de 2023

Orlando Silva e Cole Porter

 Orlando Silva e Cole Porter – Roberto Barbato Jr 

A obra de Cole Porter (1891/1964) teve amplo acolhimento no Brasil. Inúmeros intérpretes gravaram suas canções, em variados momentos. Caetano Veloso gravou So in love e Get of town; Gal Costa, Begin the beguine; Leny Andrade, I’ve got you under my skin; João Gilberto, You do something to me. Essas gravações são relativamente recentes. Datam, quando muito, de três ou quatro décadas.

Para além desse período, é possível encontrar uma longínqua versão de Beguin the beguine, com letra de Haroldo Barbosa, interpretada por Orlando Silva. Pois é. O maior ícone do choro-canção brasileiro fez o registro em 1945, com regência do Maestro Carioca. A gravação está no álbum Orlando Silva nos anos 40 - Série Monumento da Música Popular Brasileira.

Da contracapa do LP, consta que Cole Porter remeteu carta ao “músico das multidões” assinalando que sua interpretação era a mais perfeita que ouvira.

Ao ouvir a gravação de Orlando Silva, talvez seja difícil acreditar nas palavras do autor da música. O elogio é, todavia, crível. A potência da voz de Orlando, sua afinação, a elegância de seu timbre foram responsáveis por um ajuste bem resolvido, se entendido dentro do espectro do bolero, do choro-canção ou das tradicionais músicas de fossa que ele tão bem interpretava. O ajuste é tão exitoso que chega a mascarar a letra cafona: “quando começa o Beguin...”

Para quem já ouviu outras gravações do clássico, sobretudo a de Ella Fitzgerald no Songbook dedicado a Cole Porter, soa estranhíssimo, admita-se, o registro de Orlando Silva. À primeira audição sucederá um incômodo, um questionamento sobre a inexistência de uma Big Band ou de uma sonoridade mais próxima do Jazz. Depois, com a consciência de que Orlando recepcionou a canção dentro de seu universo musical, será mais fácil compreender o elogio de Cole Porter.

Ouça a música, que está disponível no YouTube, e, depois, comente aqui o que achou!

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terça-feira, 31 de outubro de 2023

Scats de Chet Baker

Scats de Chet Baker – Roberto Barbato Jr

Em sua coluna na Folha de S. Paulo (“Quem ‘canta jazz’ e quem não?”), em 13/08/23, Ruy Castro afirmou que, dentre outros intérpretes, Chet Baker não fazia “scat singing”. A expressão, como ele próprio define, é a “a improvisação vocal, sem palavras, criando novas linhas melódicas”. 

Houve equívoco da parte do cronista. Chet Baker fazia, sim, scat. E o fazia muito bem, simulando os solos de trompete. 

Para que se comprove o equívoco, basta ouvir “You'd Be So Nice To Come Home To”, do álbum “Chet Baker in Tokio” (1987); “But not for me”, do álbum “The Touch of Your Lips” (1986), “Just friends”, com Stan Getz, do álbum “Just Friends” (1983) e “It Could Happen To You”, do álbum “It Could Happen To You” (1954). 

Se o assunto é scat, vale ouvir as várias improvisações de Ella Fitzgerald e Mel Thormé.

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Lucio Rangel e a Bossa Nova

Lucio Rangel e a Bossa Nova – Roberto Barbato Jr

É conhecida a história do encontro de Tom Jobim com Vinícius de Moraes. Tom já relatou, por várias vezes, que Lucio Rangel o apresentou para o então diplomata. Naquela época, o maestro andava com uma pasta cheia de arranjos, “competindo com o aluguel”, segundo suas palavras.

Rangel promoveu o encontro no bar Villarino (hoje, Casa Villarino Bar). Sabia que Vinícius procurava por alguém capaz de musicar Orfeu da Conceição. Depois da recusa de Vadico, recém-chegado ao Brasil para tratar de sua saúde, Rangel logo imaginou que o jovem arranjador poderia assumir aquele desafio.

Incauto, Tom perguntou: “escuta, tem um dinheirinho nisso?”. De chofre, fora repreendido por Rangel: “Tom Jobim, esse aí é o poeta Vinícius de Moraes!”. A reprimenda denota a reverência que o jovem Jobim deveria prestar ao poetinha.

A peça teve estreia em 25/12/1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com cenários de Oscar Niemayer, foi interpretada pelos atores negros Abdias Nascimento Ruth de Sousa, Haroldo Costa e Ademar Pereira da Silva.

Em menos de dois anos, Elizeth Cardoso gravaria o álbum Canção do Amor Demais, com músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Nele, a música Chega de Saudade foi interpretada pela Divina, acompanhada pelo revolucionário violão de João Gilberto. Iniciava-se ali a Bossa Nova.

Hoje, parece não haver dúvida de que o encontro promovido por Lucio Rangel foi fundamental para o surgimento da Bossa Nova.

Em tempo: Lúcio do Nascimento Rangel (1914/1979) foi produtor musical, cronista e jornalista. Dirigiu a Revista Música Popular, editada entre 1954 e 1956. É autor de Samba, jazz e outras notas (Editora Agir) e Sambistas e Chorões (Editora Francisco Alves).

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sexta-feira, 6 de maio de 2022

Enfim, o que aconteceu com o Carva

Enfim, o que aconteceu com o Carva 

Uma Big Band como o Brasil jamais ouviu foi contratada pelo Gênova. Ao som de Anything Goes, convidados começaram a chegar. Luzes, brilhos, odores e melodias enformavam a atmosfera de um grande acontecimento. Homens de Black Tie, mulheres de longo, garçons com atendimento impecável. Scotch, Single Malts, Bourbons, Pró-secos, tintos de extração premiada eram sorvidos sem moderação. À socapa, entre móveis e cortinas, carreiras de coca eram aspiradas pelos adictos. Alguns não perceberam que o preto do smoking contrastava com o brilho do pó e denunciava os incautos.

Quando Carva chegou no salão, deu um efusivo abraço no italiano. Naquele instante, Gênova foi atingido pelo olhar de Murilo e não deixou de piscar para ele. Era a senha confirmando a execução do meu amigo.

Eu já sabia que Léo havia se encarregado de relatar ao Gênova todo o estratagema de locupletação do Carva. Derramou sobre a mesa provas, acionou áudios para sua apreciação e até chamou testemunhas para corroborar o alegado. Com tudo isso, não restava dúvida sobre as intenções do italiano.

O difícil foi convencer Carva a dar seguimento ao que havíamos combinado para mantê-lo vivo. Ele chegou na festa alucinado, pretendendo fazer um escândalo e dar cabo no próprio Gênova. De quebra, também mataria o Murilo. Estava ressentido com a traição dos dois e faria o que pudesse para sugerir que os homicídios eram passionais.

- Porra, Carva! Assim, você vai se foder!

Não sei de que maneira consegui chamá-lo à razão. Pusemos o plano em prática.          

Saímos da festa e fomos para a zona do meretrício municipal. Lá, ateamos fogo no carro do Carva. Antes disso, colocamos o cadáver que Minhão nos arrumou no banco do motorista. Sim, Minhão nos ajudou graças à anuência do Solda, a quem Carva pagou todas as dívidas por drogas, com juros e correção monetária.

Para facilitar a identificação do corpo do Carva deixamos seus documentos do lado de fora do veículo. Como sabíamos que o cadáver passaria por perícia no IML, negociamos com o legista responsável pelo Instituto de Criminalística um valor significativo para que a identidade do meu amigo constasse do laudo. Em suma, a ciência atestaria que o corpo carbonizado e supostamente torturado era do Carva.

Naquela madrugada, deixei meu amigo escondido em casa. Pela manhã, antes mesmo de a polícia encontrar o cadáver carbonizado, Carva estava embarcando para a Itália, com identidade falsa.

Encarreguei-me de enviar ao Ministério Público Federal todas as escutas ambientais e telefônicas que Carva registrou durante as tratativas com Gênova, o Senador José Décio e o governador. Na sexta-feira subsequente, todos foram presos preventivamente. Já se sabe que, agora, respondem pelos vários crimes cometidos.

Juliana não conseguiu mais acessar as contas do Carva. Ele transferiu o dinheiro para a Itália e deixou as contas suíças zeradas. Para ela, restou apenas o apartamento em que residiam.

Enfim, hoje, Carva atende pelo nome de Guilhemo Di Tulio e passa os dias longe de confusões em Altomonte, um belo vilarejo no sul da Calábria.

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O convite

O CONVITE

            Gênova resolveu dar um rega-bofe para comemorar os 15 anos de sua empreiteira. Não poderiam faltar políticos, empresários, funcionários públicos e gente com alguma particularidade de influência na vida pública do país. O critério para a escolha dos convidados, contudo, ainda hoje é motivo de especulação. O que teria Gênova estabelecido como condição essencial para que alguém pudesse desfrutar da comemoração? Talvez nem ele soubesse...

A festa, produzida sem preocupações quanto ao orçamento, teria de causar alaridos. Quando se soube dela no meio político, houve grande expectativa. Quem fosse convidado teria, em tese, o reconhecimento de algum prestígio. A cada um caberia capitalizar esse prestígio. Depois daquela data, a credencial mais importante consistiria em dizer que foi pessoalmente convidado pelo italiano. E quanta gente não agiu assim!

De outro lado, pé rapados, sequiosos por alguma notoriedade, chegaram a vender a alma e o corpo para conseguir um convite. O acesso à festa seria franqueado pela venda de sexo a preços módicos. Nunca a lascívia foi tão desvalorizada no mercado dos boçais arrivistas. Quanta humilhação e indignidade!

         Mais que uma comemoração sobre o sucesso da empreiteira do italiano, a festa representaria a sonhada vingança sobre Carva. Gênova ansiava por isso.  

domingo, 10 de abril de 2022

Carva e a política

CARVA E A POLÍTICA

             Carva era pretensioso demais para ficar com a malhas da política regional. Prefeitos e vereadores eram alvo de suas investidas na política. Mas ele queria galgar posições mais altas, desejava produtos mais rentáveis. Por um concurso de circunstâncias, conheceu o Senador José Décio, o grande articulador da conquista da presidência da República. José Décio era uma mente diabólica. Seu planejamento era aparelhar o Estado e manter, por anos, a hegemonia política de seu partido. Para isso, é claro, tinha de fazer conchavos e maracutaias.

            A primeira dessas maracutaias se deu justamente com o Gênova. O italiano decidiu bancar a campanha política do Senador e, de quebra, ainda escorregou uma bolada para os membros do partido. Em troca disso, o óbvio: o esquema que alimentou a corrupção republicana nos últimos anos voltou à tona. Ou seja, a empreiteira do Gênova ganhava, sem esforço, as mais importantes licitações de obras públicas Brasil afora. Todo mundo se dava bem: a empreiteira lucrava, José Décio e seu partido ganhavam um bom dinheiro e se mantinham dentro da máquina estatal. Por fim, o Carva, além de prestígio, ganhava uma porcentagem de cada certame fraudado.

            Quando conheceu o governador do nosso Estado, Carva deu um jeito de inseri-lo na jogada. Com um jantar simples, tramado nas conjuras da política estadual, conseguiu fazê-lo se filiar ao partido do José Décio. Depois, apresentou-o ao Gênova. Resumindo a ópera, Gênova, José Décio e o governador tinham o domínio da maior parte das obras públicas estaduais e federais.

            Carva estava tranquilo e não tinha ideia da vingança tramada pelo Léo. Tudo era questão de tempo.  

domingo, 3 de abril de 2022

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana e Carva, Carva e Juliana

Juliana veio de baixa extração social e provou que elegância nem sempre está atrelada ao dinheiro. É uma mulher incrível, linda, elegante em tudo, nas vestes, nos gestos, nas falas. Não sei como o Carva conseguiu se casar com ela. Sabe essas pessoas que não foram feitas umas para as outras? Pois é: Carva e Juliana, Juliana e Carva. Quando soube que iam se casar, eu já era apaixonado por ela. Já havia tentado, de todas as formas, conquistá-la. Fiz de tudo, de oferta de rosas a declarações de amor que o mais sensível dos homens jamais faria.

Todas as suspeitas de que ela apanhava do marido eram infundadas ou, pelo menos, nunca encontraram eco em provas. Resumiam-se a ilações decorrentes do uso constante de óculos escuros. Havia, contudo, uma explicação lógica para isso: Juliana tinha olhos claríssimos – lindos! – e sofria com fotofobia. Daí por que o uso de lentes escuras seria sempre um expediente para se sentir confortável. Nada mais natural...

Jamais acreditei que aquela mulher fosse capaz de matar alguém. Ainda que não gostasse do marido, não teria índole para cometer uma atrocidade daquelas. Sabe-se que ela tinha conhecimento das puladas de cerca dele. Tinha ciência do affair entre ele e Murilo e não ficou surpresa ao saber que tivera uma temporada ao lado de Luize. Mas, em nenhum momento, demonstrou qualquer ponta de ciúme. Manteve-se  tranquila, como se não soubesse de nada. Não sei se por elegância ou por hipocrisia, preferiu assumir o papel de mulher resignada.

Pois o único motivo que poderia fazer com que Juliana encomendasse a morte do Carva seria o desejo de apossar-se do dinheiro que ele havia remetido para Genebra. Eram milhões. Ele não fazia ideia de que a esposa sabia dos estratagemas que  garantiam o produto de suas condutas não republicanas. Tinha a senha das contas suíças e o contato dos doleiros que engendravam as operações a cabo amiúde realizadas pelo marido. A cada negociata, acompanhava o crescimento do patrimônio do casal, conferindo o valor de cada aplicação estrangeira.

Além de linda, Juliana era inteligentíssima. E muito, muito discreta.

domingo, 27 de março de 2022

A bissexualidade do Carva

 A BISSEXUALIDADE DO CARVA

             Carva me confidenciou que tinha apreço por homens quando já tínhamos mais de 40 anos. Para ele, foi muito difícil confessar aquilo. Seu pai era um machão, sujeito rude, e não admitia o que chamava de safadeza. Sua mãe era uma coitada, não tinha voz em casa. Pessoa simples, não conseguiria entender o que era bissexualidade. Diante disso tudo, Carva não tinha com quem se abrir. Um dia, do nada, me contou sobre um relacionamento que estava tendo com um personal trainer, o Murilo.

            O rapaz era garoto de programa de luxo. Saía com os frequentadores da academia onde trabalhava. Em pouco tempo, se afeiçoou ao Carva e percebeu que, às custas de seu ciclo de amizades, poderia se dar bem. Por um laivo de ingenuidade, Carva não demorou para apresentá-lo ao Gênova. Imaginava que, assim, pudesse tentar alguma ocupação para o amante na empreiteira.

Quando o italiano bateu os olhos no Murilo, ficou arrepiado de tesão e mal conseguiu esconder o rubor. Gaguejou, titubeou e desmunhecou.... Já com o casamento desgastado, Gênova queria uma aventura e apostou naquela oportunidade. Pulou de cabeça! Murilo pediu as contas na academia e passou a ficar as tardes na empresa à espera do chamado do novo patrão. Fornicavam nos fundos da sala da presidência. E, no final do mês, era grandemente recompensado...

A moral da história é que o Carva nem sequer imaginava a triangulação amorosa à qual havia dado ensejo. Pensava que Murilo era exclusivamente dele e que Gênova lhe fizera um favor ao contratar o rapaz. Não era uma situação segura e Carva pagaria por ela....

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Carva e os negócios

CARVA E OS NEGÓCIOS 

Gênova, sócio majoritário da Gênova Incorporações LTDA sabia que Carva tinha boas relações com políticos de todos os escalões, de vereadores a senadores. Chamou-o para engendrar um esquema de negociatas que implicava fraudes a licitações. A empreiteira seria selecionada para a execução de obras de várias prefeituras e levaria uma bolada.

No início, visaram a região metropolitana da cidade, composta por quinze municípios. Em cada prefeitura, havia alguém disposto a direcionar o certame para a empreiteira. Esse alguém era contatado pelo Carva, a ponte imprescindível do negócio. Ele combinava preços, formas de pagamento e outras benesses. Conhecia todas as etapas e personagens do plano. Nada acontecia se ele não desse o comando. Tinha o controle de absolutamente tudo. Se alguém caísse nas graças dele, poderia abocanhar as polpudas vísceras do erário.

Meses antes de sua morte, Carva resolveu voar alto. Fechou um acordo coletivo com oito prefeitos. Só ele ficaria com 60% de todo o capital envolvido. O restante, que não era pouco, seria dividido entre os prefeitos, agentes públicos e ainda sobraria para realizar, com folga, os empreendimentos. Enfim, uma tacada de gênio.

            O que o Carva não conseguiu prever é que um sistema corrompido de cima a baixo sempre tem um delator. Naquele caso, tinha um delator traído, o Léo.

A mulher do Léo era uma mulher tão sedutora quanto mentirosa. Luize se envolveu com o Carva por meses e não fez esforços para acobertar o relacionamento. Quando o Léo ficou sabendo, decidiu vingar-se do Carva. Mas não usou de violência. Preferiu juntar provas de que Gênova seria passado para trás e as guardou para usar oportunamente.

        Carva não perderia por esperar.

sábado, 12 de março de 2022

Carva e as drogas

CARVA E AS DROGAS

             Carva viveu intensamente. Excedia-se em tudo. Com as drogas não seria diferente. Quando passou a experimentar a dificuldade material, decidiu adotar uma estratégia para garantir o consumo da droga. Inicialmente, comprava de um fornecedor e pagava à vista. Consumia o que lhe era possível, mas dava um pouco para os amigos saberem que o produto era de qualidade. Quando o dinheiro rareava, ele apresentava aqueles amigos para o fornecedor. Garantia que iriam comprar em grande quantidade. O fornecedor, é claro, viu naquela sistemática uma maneira de ganhar mais dinheiro. Passou a encarar o Carva como um parceiro da mercancia.      A lógica toda ruía quando os amigos também paravam de pagar o fornecedor. Conclusão, de parceiro, o Carva passou a ser perseguido com um traidor.

            Como era insistente e não podia se livrar do vício, Carva imaginou que, se a estratégia dava certo com um fornecedor, daria com outros. Não hesitou em replicar seu modus operandi com as demais bocas de fumo da cidade. Até que a dinâmica se esgotasse com cada um deles, estaria tranquilo. No fundo, ele alternava fornecedores que participavam de facções rivais. Assim, mandava recado a alguns em nome de outros. É óbvio que todo mundo queria a cabeça do meu amigo.

            Agora, o pulo do gato de toda essa odisseia era o fato de que nenhum dos fornecedores conheceu a fuça do Carva. Quando era instado a responder a alguma mensagem, ele colocava uma foto de perfil diferente, geralmente de um desafeto seu. Para cada fornecedor, um rosto. Para cada encrenca, um filho da puta.

            Pelo que fiquei sabendo, o Solda, que era o maior traficante da região, teve um papo reto com o Minhão e lhe deu 24 horas para apresentar o corpo do Carva. Só que ninguém sabe onde está o Minhão. Nem eu.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Missa de Sétimo Dia do Carva

 CONVITE PARA MISSA DE SÉTIMO DIA DO CARVA


O convite para a Missa de Sétimo Dia do Carva foi de uma cafonice sem igual:

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, por que se você parar para pensar, na verdade, não há. (Renato Russo)

 

A família convida todos os amigos e parentes para a Missa de Sétimo dia de João Carvalho Filho, o querido Carva. Ele deixa pais e esposa. E também muitos amigos que o amavam.

 Não sei quem mandou o texto para o jornal, mas tenho certeza de que não foi a Juliana. O Carva odiava o Renato Russo e as músicas da Legião Urbana.

terça-feira, 1 de março de 2022

A morte do Carva

 A MORTE DO CARVA


    - Porra, Carva! Assim, você vai se foder!

    Foram as últimas palavras que falei para o Carva naquela noite, ainda na festa. No dia seguinte, a notícia de sua morte consternou a todos. A necrópsia constatou que ele foi friamente torturado. Sofreu muito, o coitado. Depois, incineraram o corpo. Ficou irreconhecível.

    Liguei para Juliana, sua esposa.

    - Estou bem, sim. Vou superar tudo isso.

    As mais diversas hipóteses sobre a motivação do homicídio começaram a chegar até mim. Eu só ouvia...

    - O Carva foi assassinado por um traficante. Nos últimos anos, estava cheirando muito e todos sabiam que ele não pagava pelas encomendas. O Minhão deve saber de alguma coisa. Era o avião.

    - O Carva? Esse foi morto pelas mãos de um marido traído. Bonito e gostoso, era também um sedutor. Meu Deus! Só eu, tenho três amigas que se envolveram com ele. Não me arrisquei porque o Léo é muito violento e, se soubesse, certamente acabaria com o Carva.

    - Só tem uma explicação: a impaciência do Gênova, o empreiteiro. Muita coisa ficou sem explicação sobre a época em que o Carva trabalhou na empresa dele. Foi o período de maior crescimento do patrimônio do italiano. Aí tem.

    - Quem matou o Carva? Só pode ter sido um garoto de programa! Quase ninguém sabia, mas ele era bi. Tinha cacho com o Murilo, um personal trainer que também fazia michê. Verdade! O Murilo era um Apolo. Uma noite, vi os dois juntos num motel. O Carva era dado a putarias de toda sorte.

    - Foi a mulher, a Juliana. Apanhava demais e tinha medo de avisar a polícia. Às vezes, ficava reclusa em casa. Quando saía, sempre usava óculos escuros. Eu gostava muito dela e disse que poderia ir até a Delegacia de Defesa da Mulher para ajudá-la a dar queixa. Mas ela resistia. Dizia que não seria capaz. Amava o Carva. Mas tem uma hora...

    - Prefiro nem falar no assunto. Sei que tem até político envolvido nisso. Gente de cima, de poder mesmo. A coisa é pesada.

    A morte do Carva foi um grande mistério. Até que...


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A verdadeira origem do trompete e do saxofone

 A verdadeira origem do trompete e do saxofone

Em meio a um profundo tédio, desses capazes de fazer qualquer pessoa desistir da existência, Michet clamou pela presença de Deus. Queria um diálogo breve.
– Meu Deus, por favor, faça algo que dê sentido à minha vida.
Sabendo que Michet tinha grande afeição pela música, pois que vivia a assobiar, Deus propôs:
– Que tal um instrumento musical?
– Perfeito. Adoraria...
No dia seguinte, Deus o chamou e lhe entregou o prometido.
– Eis aqui o trompete. É um instrumento de sopro, composto por três pistos, uma campana, um lide pipe, curva de afinação, gatilhos das pompas... Há, também, uma peça móvel: o bocal!
Maravilhado, Michet pediu uma demonstração de como funcionava.
Deus tocou uma escala simples, o suficiente para que qualquer um tomasse ciência da beleza do som produzido pelo trompete.
Michet, todavia, estranhou:
– Como produzir todas essas notas com apenas três pistos?
Deus, paciente, explicou:
– Você terá de unir a digitação dos pistos com a flexibilidade dos lábios. Dessa conjunção resultarão todas as notas. Ao imprimir força a um pisto, haverá inúmeras possibilidades de notas a partir do movimento dos lábios. Não é tão simples, mas você chegará lá...
Michet logo deduziu que a beleza do som do trompete exigiria dele esforço e muito treino. Ao tentar emitir os sons, não teve êxito e ficou injuriado.
Deus, então, lhe disse:
– Michet, esse é um instrumento para as pessoas obstinadas, aquelas que têm vontade e perseverança. Para tocá-lo, não bastará talento. Serão necessários muitos estudos, tanto para formar a embocadura, quanto para articular as notas.
Michet entendeu que seu talento para assobiar e sua sensibilidade musical talvez lhe conferissem habilidade no manuseio do trompete. Com muita perseverança, tornou-se um grande trompetista.
Vendo e ouvindo Michet tocar, Horácio sentiu-se injustiçado. Queria também algo feito com exclusividade para si. Exigiu a presença divina.
– Pois, não, Horácio.
– Meu Deus, também quero um instrumento. O senhor seria capaz de inventar algo?
Deus perguntou-lhe:
– Não gostou do trompete? É um instrumento fantástico.
– Não é que não tenha gostado – explicou Horácio. É que já tentei tocá-lo e não consegui. Prefiro algo mais fácil, que exija menos esforços, menos estudos. Não quero algo que tenha apenas três pistos. Isso impõe ao músico um trabalho ingente. Desejo um instrumento que não precise da embocadura do trompete. Também gostaria que ele fosse dotado de várias chaves para que eu tivesse todas as notas disponíveis, ao alcance das mãos. Sem essa de ter de usar os lábios para produzir som... É muito trabalhoso. Não é para mim....
Deus sintetizou a pretensão de Horácio:
– Então, você deseja um instrumento simples, fácil de tocar, que não demande esforços e que seja bastante cômodo para qualquer pessoa?
– Perfeito – respondeu Horácio...
Assim nasceu o saxofone.
Em tempo: aposto no bom humor dos saxofonistas!!!!

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tio Harlan 10: a vacina contra o Coronavírus

Tio Harlan e a vacina contra o Coronavírus
Não acreditei quando ouvi o toque de videoconferência do WhatsApp. Era o tio Harlan.
- Estou voltando para o Brasil!
- E a Lava-Jato? – indaguei curioso.
- Coisa do passado. Não vão me pegar.
Embora soubesse que entre o Tio Harlan e o trabalho há uma antítese insolúvel, resolvi perguntar se tinha alguma perspectiva de emprego por aqui. 
- Emprego? Estou prestes a ficar bilionário!
- Bilionário? O que o senhor aprontou dessa vez?
- Descobri a vacina contra o novo Coronavírus! Estou negociando a fórmula com um grande laboratório americano.
Aquilo não podia ser verdade. Tio Harlan acabando com a pandemia mundial? Piada! Pedi informações sobre a tal vacina. Ele me explicou que ela já havia sido testada em um grupo de mais de 500 pessoas. Todas se mostraram imunizadas. O sucesso era garantido.
Contudo, quando se fala de Tio Harlan, sempre há uma ressalva ou exceção. Com ele, nada é cem por cento. Arrisquei uma provocação.
- Todas, sem exceção, Tio Harlan?
Ele, então, abriu o jogo. À míngua da certeza da eficácia da vacina, a ela foi adicionada uma substância, oriunda da papoula, que poderia, na maioria dos casos, reduzir os efeitos da Covid-19. Ou seja, se não funcionasse, o antídoto milagroso proporcionaria ao contaminado uma inequívoca sensação de bem-estar.
- Puta que o pariu, Tio Harlan! Desse jeito, o senhor vai entorpecer o planeta!
- E não é disso que estamos precisando?
Dessa vez, fui eu a bater no telefone na cara dele.

sábado, 21 de março de 2020

Literatura, cárcere e ressocialização



Literatura, cárcere e ressocialização
Na semana passada, antes que irrompesse o caos provocado pelo Coronavírus, estive no Centro de Progressão Penitenciária de Hortolândia. Não fui visitar nenhum cliente, mas participar de uma oficina de leitura com os reeducandos do regime semiaberto. Eles leram meus romances policiais, Mistério na Zona Sul e Mistério no Morro do Deleite.
Havia tempos esperava por uma oportunidade de fazer isso. Além da satisfação em ter novos leitores, gostaria de saber o que pensariam sobre as tramas que construí para abordar temas como o trabalho infantil e o tráfico de drogas.
Antes de responder às perguntas sobre os livros, apresentei-me. Disse que sou advogado criminalista e professor. Falei um pouco sobre minha trajetória. Depois, enfatizei a importância da leitura para a construção de uma visão crítica sobre o mundo. Em dado momento, provoquei-os com uma frase de impacto: a pior prisão é a ignorância! Senti um frio na barriga. O que diriam da afirmação em face da desumana segregação que lhes foi imposta? Talvez fosse fácil falar assim para quem não foi privado da liberdade. Parecia-me uma grande provocação. A reação de todos, contudo, foi extraordinária. Balançaram positivamente as cabeças e disseram que eu tinha toda a razão.
Seguiram-se, então, inúmeras perguntas sobre as temáticas dos livros, a construção de seus personagens, cenas importantes das tramas. Ao anúncio do mistério que envolverá o próximo livro, tentaram, sempre de maneira divertida, arrancar de mim algum spoiler. Não cedi! Mantive o mistério em segredo. Espero que, em breve, todos possam ler Mistério na ONG.
Após comerem bolo e tomarem café, tiramos fotos juntos. Abraçaram-me com um sentimento e calor humano capazes de me emocionar. Antes da saída, visitei rapidamente a biblioteca do CPP.
Logo mais, serão apreciados os requerimentos de remição da pena pela leitura. Espero, sinceramente, que o Ministério Público adote, em seus pareceres, posição diferente daquela que tem sido usual. Seja como for, aguardo pela serenidade dos magistrados da execução criminal. A eles credito a esperança de reconhecerem o papel da leitura no processo de ressocialização e na construção de um mundo melhor.
Por fim, não posso deixar de mencionar que a oficina somente foi possível graças aos esforços da Helen Ferreira, Estagiária de Direito do CPPH, da Elisande de Lourdes Quintino de Oliveira, funcionária da FUNAP e do Diretor Técnico Marcos Antônio de Medeiros Silva. Contamos, também, com a oferta de exemplares dos meus livros por parte da Editora Hedra. A todos eles, bem com a cada um dos reeducandos, agradeço, de coração, pela oportunidade.
Em tempo: fico devendo as fotos, pois sua divulgação ainda depende de autorização. 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Aquele som


Aquele som
Quando chegou na capital ouviu dizerem que havia um som novo, coisa de gênio. Um sujeito que não cantava, sussurrava, a voz melódica, macia. Duvidou daquilo e preferiu passar os dias tangendo as cordas do seu inseparável instrumento. Sabia que queria ir longe, mas desdenhava de como fazê-lo. Já havia rompido com a vida tacanha que tivera em sua terra natal, aquela cuja maior parte do tempo passava embaixo de alguma lenha frondosa, acompanhado do roto violão e de alguns amigos.
Ao passar pelo centro da cidade foi tragado para dentro da loja de discos. Pretendia ouvir alguma coisa. Provavelmente, um samba-canção, um bolero ou, talvez, um chorinho. Mas foi justamente com aquele som que se deparou.
Pegou o acetato, tirou da embalagem, se trancou na cabine do estabelecimento. Era mesmo coisa de gênio. O sussurro intimista entoando clássicos de Gershiwn e Cole Porter entremeado com o som aveludado que passava pelos três pistos e se projetava para além da campana o deixou extasiado. Era um fraseado contido, elegante, sem arroubos. A voz, inqualificável, alvejou em cheio sua alma. Arriscou acompanhá-lo no canto, baixo, quase rouco, suave até o limite. Aos poucos imprimia laivos de algum ineditismo e já se sentia promissor. Quantas tardes não passou ali, preso, inarredável, praticamente esbulhado da vida cotidiana?
Jamais o conheceria se não lhe tivessem cantado a bola. Ficaria perambulando pelo centro em busca de algo que pudesse imprimir ao seu violão – ou à sua voz - um compasso original, uma batida, uma arranhada. De certo ficaria intimidado pelo pessoal da zona sul que já estava à sua frente, na vida, na música, no mundo. Alguma novidade já estava em curso. Ele mal sabia o quanto aquele som iria mudar sua vida e, com ela, a música brasileira.

Em tempo: espero que os poucos leitores desse texto saibam de quem estou falando...

sexta-feira, 29 de junho de 2018

As "injustiças" e os privilégios

Artigo publicado no Correio Popular (29/06/2018)

            Recentemente, a imprensa brasileira iniciou a divulgação do Festival Lula Livre, a se realizar nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, em 28 de julho. A convocatória para o evento foi assinada por Chico Buarque, Leonardo Boff, Martinho da Vila, José Celso Martinez Corrêa, Eric Nepomuceno e Fernando Morais, entre outros artistas e intelectuais.
O evento não seria motivo de atenção se não fosse endossado por um texto permeado por disparates e contradições. Salvo melhor juízo, seu conteúdo denota as posições que alguns dos asseclas da legenda petista e seus simpatizantes vêm assumindo diante da condenação e da segregação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De sorte a tentar esquadrinhar as aludidas posições, avancemos com algumas hipóteses e interpretações.
O panfleto – se assim podemos qualificá-lo – inicia demonstrando o objetivo do festival: "pedir a imediata libertação" de Lula. Não se sabe a quem o pleito será formulado. Isso, contudo, pouco importa diante do fato de que ele representa um "gesto de exigência para que se respeite a Justiça, pilar básico de qualquer sistema minimamente democrático". A única interpretação possível dessa assertiva é a de que a prisão de Luiz Inácio é uma injustiça e o sistema judicial brasileiro não se revela democrático.
            Avançando a leitura, encontra-se uma frase de grande altivez: "O caso de Luís Inácio Lula da Silva tem um simbolismo único na história recente do nosso país". Por se tratar de um ex-presidente – o mais popular da história republicana – a justiça deve ser interpretada de maneira peculiar, aferindo a ele uma justiça também sui generis: aquela diferente da dos demais cidadãos, ou seja, a que somente teria viabilidade de aplicação para Luiz Inácio. 
Pois é, então, que se verifica a contradição das ideias contidas na convocatória: a justiça não respeitada naquele sistema não democrático deveria levar em consideração o "simbolismo único" de Lula na história nacional. Daí porque, para os signatários do texto, a justiça deva servir de modo diferenciado a um ex-presidente da República. Não há como se furtar a concluir que, para os combativos intelectuais e artistas, o ex-presidente em apreço seja merecedor de privilégios consoantes a um sistema democrático. Como um sistema concebido nesses termos jamais abarcaria tais privilégios, ter-se-ia uma peculiar forma de justiça.
Também chama a atenção que o julgamento de Lula seja visto como "um erro jurídico sem limites", já que não havia "uma única e mísera prova dos crimes dos quais ele foi acusado". O elevado conhecimento jurídico dos autores do panfleto e o acesso que tiveram aos autos é que lhes permitiu fazer essa afirmativa. Para legitimá-la, recorreu-se a um argumento de autoridade: "não se trata de opinião, mas de constatação". Não arrisque o leitor a discutir. A constatação é o bastante para que não se emita nenhuma opinião. É talvez desse modo que se vai construindo uma "nova" forma de diálogo para os defensores de Lula, aquela que prima pela constatação em detrimento da pluralidade de opiniões.
Não se pense que a referida "constatação" esteja ancorada apenas em virtude do conhecido embate entre o Juiz Sérgio Fernando Moro e os interesses defensivos do ex-presidente. O pretenso "erro jurídico" de sua condenação foi corroborado pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região numa trama que contou com a "complacência de todas as demais instâncias". Segundo esse raciocínio, todo o sistema processual penal brasileiro estaria contaminado por julgamentos destituídos de isenção e não acordes com a apreciação das provas. Dentre os acusados da Operação Lava-Jato, Lula seria um perseguido, o mais emblemático deles, aquele de "simbolismo único". Aqui residiria a "injustiça" que o vitimizou: sendo um ex-presidente, Luiz Inácio teria direito a uma justiça "diferente", o que lhe foi negado por "manobras jurídicas".
Esse argumento, sistematicamente utilizado pela militância petista, parece resistir ao bom senso e à capacidade crítica de qualquer observador da realidade brasileira dos últimos anos. Situar a condenação de Lula no campo político é argumento de rasa inteligência, proveniente de uma quimérica mania persecutória apta a justificar suas condutas não republicanas.
É então que, partindo para o epílogo, o texto reclama a participação de Lula nas eleições presidenciais. Eis o motivo essencial para se romper com a injusta segregação do ex-presidente. Sendo ele o único capaz de retomar o "rumo da normalidade" do país, não se poderia manter o "flagrante desrespeito às regras mais elementares da Justiça". Leia-se: não se poderia mantê-lo segregado. Nova contradição irrompe: a mesma política – e não o devido processo legal – que sacrificou a liberdade de Lula precisa preponderar sobre o julgamento judicial. Se a condenação é injusta, deve-se resolvê-la por intermédio da política. Com efeito, nada mais apropriado que atribuir à população brasileira a opção por elegê-lo. A tensão insolúvel entre a esfera política e a jurídica se resolveria com o processo eleitoral e, uma vez mais, a lei – no caso, a da Ficha Limpa – teria de ser utilizada também de forma diferenciada para Luiz Inácio. 
Esperemos para verificar, nos próximos meses, a extensão do famigerado "desrespeito às regras mais elementares de Justiça". Até que ele acabe, as "injustiças" e os privilégios permanecerão no cenário brasileiro.


domingo, 18 de março de 2018

O metaleiro e o Maestro

Sexta-feira Santa chuvosa. Vontade de não fazer nada, ficar em casa. Ela me liga:
- O que cê tá fazendo?
- Nada.
- Vamos lá?
Lá. Se ela falou “lá” é porque supôs que eu soubesse onde era.
- Onde?
- Na casa dele.
Não tinha a menor vontade de ir. Queria ficar quieto.
- Muito empenho! - eu disse.
- Vamos, ela insistiu.
Não podia recusar. Sabe aquela sensação? Puta que pariu, você pensa. 
- Ok. Em meia hora, na quinze. Pode ser?
- Jura que cê vai?
Fazer o quê? Eu ia.
O sujeito era metaleiro. Gostava de rock pesado. Hard. Aquelas coisas que eu, mesmo curtindo rock ‘n roll, não conseguia suportar. Além do mais, a conjuntura pessoal não era favorável. Passarim, do Maestro Jobim, havia acabado de sair. Eu ouvia, mentalmente, "I've never been in Paris for the summer, I've never drank a Scotch with this bouquet, My life is such a mess let'a have a Brahma, I'm happy that you called, I really feel touché”...
            - E se ele nos convidar pra entrar?
            Nem respondeu.
            Fui. Com chuva, inércia e, o pior, o ponto de ônibus. Mais de meia hora esperando ali, o vento gelado, a chuva fina. A incerteza de que o ônibus passaria: nada pior.
            - Melhor desistir, sugeri.
            - Não brinca comigo.
            - Tem certeza?
            - Lógico. Vai valer a pena.
            Valer a pena? Pra quem, cara pálida? – pensei, mas não falei nada.
            O ônibus chegou.
            - Sabe o endereço?
            - Mais ou menos. Fui lá uma vez.
            Chegamos.
            Tocou a campainha e alguma coisa disparou dentro dela. Arritmia, aos 16 anos, é sintoma de paixão. Não era.
            Cinco minutos. Não dá pra acreditar. O metaleiro viajou. Tivesse, ao menos, avisado. Nem recado na porta. Claro, ele nem sabia quem era o Arnesto.
            - Vambora? – ela perguntou.
            - Certeza? Não quer tentar mais um pouco? – retruquei irônico.
            Voltamos. De ônibus.
            Ao chegar em casa, coloquei o LP na pick up do meu pai. Ouvi Chansong: “My life is such a mess...”
            Ela poderia contar comigo. Sempre.

sábado, 10 de março de 2018

Tio Harlan 9: a Lava-jato

Tio Harlan me telefonou. Era urgente.
- Preciso de um criminalista!
- O quê?
- É isso mesmo que você está pensando: a Lava-Jato me pegou!
- Até você, tio Harlan?
Fiquei estupefato. Ou, melhor, estarrecido, como diria aquela mulher.
- Não acredito.
- É verdade. Chegaram até mim.
Fazia um bom tempo que o Tio Harlan não dava notícias. Meus amigos já estavam preocupados. Sabiam que, uma hora ou outra, ele sempre aparecia. Se não era para pedir socorro, era para pedir colo (ou advogado).
- O que aconteceu? – perguntei incrédulo.
Ele começou a narrar. Disse que embora ninguém suspeitasse, sempre teve relações com o homem da Moralidade. Naturalmente, desconfiei. Alguém que disse ter ganhado do Borg ou composto “Disparada”, não poderia ter relações com o dono da Moralidade. Mas ele afirmou:
- Sim, tomávamos café em São Bernardo. A d. Larisa Metícia é que servia. Tudo na maior intimidade, com suspiros e camafeus.
- Continue – eu disse.
A história era, aparentemente, simples. A pretexto de ajudar o ex-ministro da Casa Civil, ele disse que não se importava em figurar como proprietário na escritura de um Loft.
- Onde era?
- No Leblon!
Pelo menos a história não foi tão miserável com meu tio. Do Guarujá para o Leblon a grandeza é abissal, de distância e de bom gosto.
- Era só assinar. A matrícula era minha, mas a propriedade, dele.
- Puta que o pariu, Tio Harlan. Você assinou?
- Assinei. A carne é fraca!
Ele caiu no choro, coitado. Confessou que foi o Jesley, um amigo dos tempos do ginásio e filho de açougueiro, que o estimulou. Os tempos eram outros, não havia, ainda, a caça às bruxas.
- A gente fazia o que queria. Ninguém ligava. De repente, começou essa histeria. O mouro do sul nem era conhecido e estava longe de fazer discursos da Ilustração.
- E o Loft? Valeu a pena? – perguntei como se quisesse animá-lo, mas o tom de sarcasmo era indisfarçável.
Não teve dúvidas: bateu o telefone na minha cara.
Pobre Tio Harlan. Curitiba o aguarda!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A adaga de Margot

A adaga de Margot – Roberto Barbato Jr 

Conto originalmente publicado na Revista Inutensílio, 1a edição, em 14/04/2017.

Parei na frente do guichê e entreguei o ticket para a retirada da encomenda.
– Já chegou? — perguntei ao funcionário da empresa.
– Um minuto.
Voltei para casa com ela nas mãos.

As investigações foram intensas e a negociação para comprá-la, cansativa. Paguei o que pediram apenas quando tive a certeza de que se tratava do único exemplar daquela espécie, aquele mesmo que eu desejava.

Tirei-a da caixa de madeira, desenrolei-a da flanela com a qual a haviam polido. Como era bonita!


A suspensão da droga para acalmá-la surtiu bom efeito. Margot se mostrava mais lúcida e se arriscava a contar histórias da mocidade para seus enfermeiros. Que vida tivera, a velha. Agora, indefesa e prostrada, não era mais ninguém. A valentia cedera, a altivez esgotara… Aquela mulher determinada, hostil, feroz, era uma precária massa de carne e ossos aparentes. Dia após dia, os músculos se tornavam flácidos e sua força rareava. Seu rosto estava totalmente desfigurado. Fui eu que me encarreguei disso. Não hesitei em contratar uma pessoa especialista nesse tipo de lesão facial. Aquilo me seria muito útil.

Quando me postava à sua frente, reagia como alguém que se apavora sem saber o que terá adiante. Olhava-me com um misto de comiseração e arrependimento.

– Vai ser hoje? — perguntou-me Gualtérnio. Ele estava ansioso por sua estreia em rituais como aquele. Disse-me que quando pequeno assistiu a vários deles na fazenda em que morava. A noite que antecedia o evento era de grande expectativa. Ele mal dormia, ficando a imaginar o momento da passagem. Depois de alguns segundos, o sangue já exposto no chão do tronco, olhava para cima da cabeça do sacrificado para ver se sua alma saía da matéria. Tinha curiosidade para saber o que viria depois do momento tão esperado.

Ficava noites sem dormir a pensar nisso. As cenas do ritual lhe cobraram quase um mês de insônia. Durante aquele período, seria capaz de reconstituir, quadro a quadro, todo o episódio: a adaga perfurando as vísceras do condenado com exímia cautela e lentidão, a retração da lâmina para fora do abdômen e as sucessivas incisões em partes distintas do corpo, até o suspiro final. O grito desesperado de quem percebe que sofrerá antes de morrer ecoava na sua memória auditiva. Seria capaz de reproduzi-lo sem macular seu timbre ou volume.

Preparei as largas tiras de couro com as quais em breve amarraria Margot no poste. Também verifiquei a existência de marcas pelo corpo da velha. Não poderia haver nenhuma, a menos que fosse de nascença. Nenhum edema, arroxeado ou equimose seria exposto durante o ritual. Aquilo certamente conspurcaria a nobreza do ato. Ela deveria se apresentar ilesa. Ficaria desnuda por inteiro. Os cabelos seriam presos, deixando o rosto às escancaras. Todos veriam o horror em sua face. Justamente ela que tanto aterrorizou os indefesos…

Gualtérnio manifestou o desejo de conhecê-la. Tinha curiosidade de saber como era fisicamente, se aparentava a idade que lhe falei, se seu semblante denotava a maldade por mim descrita.

– Ainda não. Anteontem suspendi os remédios que a deixam fora do ar. Já está bem lúcida. Em poucos minutos vou narrar para ela os detalhes do ritual. Colocarei a adaga em seu horizonte. Quero saber se algum dia ela já viu uma dessas.

– Qual é o motivo? — ele me perguntou.

– Permita-me lhe contar uma história. Depois que minha mãe morreu, meu pai casou-se novamente e teve um filho com sua segunda esposa. Como eu não tinha boas relações com ela, logo me mudei da fazenda e me estabeleci aqui, para nunca mais voltar. Um dia, recebi a notícia de que meu pai havia sido assassinado. Sua mulher o matara e fugiu da fazenda, levando com ela seu filho tão querido, que contava com dez anos. Fincou raízes em uma das estâncias do sul do país e lá construiu um império de produção agrícola. Como não fosse sã das faculdades mentais, mandou produzir uma adaga negra, a única feita integralmente no Brasil. Com ela passou a exterminar os agregados da fazenda que não tinham aptidão para o trabalho. Acreditava que assim teria somente homens sem aproximações com o ócio. Queria uma produção sem igual. Impiedosa, não poupava aqueles que poderiam comprometer seus objetivos. Os números das mortes orçam por quase cem. Um de seus colonos, entretanto, escapou do sacrifício e fugiu. Como retaliação, sequestrou seu filho, levando-o para bem longe. Aquela senhora gastou fortunas procurando pelo menino que, à época dos fatos, já era um moço. Ela, contudo, nunca o encontrou. Dizem que o rapaz acabou se matando. Há quem diga que ele foi encontrado, mas, por também renegar a mãe, jamais foi vê-la.

Gualtérnio esboçou uma expressão de quem talvez conhecesse história parecida com aquela. Preferiu, no entanto, silenciar quanto ao assunto. Levantou-se e saiu de onde estávamos.

Terminada a narrativa, percebi minha exaustão. Resgatar aquelas lembranças sempre me deixava exaurido. Restava esperar pelo pôr do sol.

Ao cair da noite, Margot foi conduzida até o poste especialmente erigido para seu sacrifício. Apenas quando tiraram sua venda é que pôde ver o filho ali, diante de si, a se tornar seu carrasco. Gualtérnio selaria minha vingança.