sábado, 29 de março de 2014

Até que ele morra

Até que ele morra

Era ainda menino e já havia tomado consciência da injustiça do mundo. Um tio materno impingiu-lhe uma lavagem cerebral, creditando todo o mal da humanidade às vísceras do capitalismo. Apoiou-se num daqueles credos socialistas que professavam a socialização de tudo, até mesmo dos mimos familiares. Desde então, não hesitava em pensar que seus brinquedos e roupas deveriam ter o destino inevitável das chamadas classes subalternas. Como o tio era exagerado, falava em lumpemproletariado. O moleque morria de pena. Pois é, o raciocínio era simplista, mas funcionava. Privava-se do pouco que lhe ofereciam, era realmente pródigo em doações.

Ainda imberbe, foi cooptado pelo Partidão. Disseram-lhe que o mundo se dividia entre os filiados e os demais seres humanos, órfãos da dignidade partidária. Fez política estudantil no segundo grau e na faculdade. Sua militância era fervorosa: participava de congressos e discussões, acampava com a pastoral, participava de distribuição de merenda e o escambau. Lia tudo quanto podia. Marx, Engels, Lenin, Gramsci e Rosa eram citados com familiaridade ímpar, de dar inveja aos mais tradicionais quadros do Partidão e aos intelectuais de carreira.

Vinte anos depois, estava casado, era pai e tinha emprego fixo sem nenhuma ligação política. Pouco a pouco, foi se tornando amargo, descrente. Já não queria saber de laços partidários, não falava com companheiros da antiga militância. Queria apagar o passado, a cerveja quente das reuniões com pretextos socialistas, a fiscalização ideológica e a repreensão aos quadros pelegos da política. Agora, tudo lhe parecia produto de dissabores, de uma história sem sentido. Mas, no fundo...

No fundo, em algum recôndito intocável e quase invisível, ainda sonhava com a economia planificada, a ordem social igualitária. Ao tomar conhecimento do ataque ao World Trade Center, deu um risinho de esguelha. A tal convulsão social mencionada pelo velho barbudo no Prefácio para Crítica da Economia Política (ele sabia até a página da edição) irromperia no centro do capitalismo. Teria chegado a hora? Enfim, os proletários de todo o mundo iriam se unir. Bin Laden? Fundamentalismo? Ora, aquilo não existia. O ataque foi produto de algum gênio do Kremlim. “A revolução! A revolução!”, sussurrava para si enquanto ouvia mentalmente os acordes iniciais da Internacional Socialista.

Quando anunciaram a nova crise das bolsas de investimento, teve o último sopro de esperança. Wall Street seria o sinônimo da ruída tão aguardada. Qual o quê!

Hoje, o mundo continua injusto e ele, já conformado, sabe que isso não vai mudar. Pelo menos, até que ele morra.




sábado, 11 de janeiro de 2014

Naqueles tempos: 1992 e os caras-pintadas

Naqueles tempos: 1992 e os caras-pintadas

Tal como os escritores modernistas, creio que os caras-pintadas não tinham muita consciência do que faziam. É claro que o momento político incitava a todos os jovens a protestar, exprimir seus pontos de vista e discutir em rodas de bar as razões da iminente derrota de Collor. A despeito de uma parcela realmente interessada no debate político, havia uma turma que se comprazia em aproveitar a movimentação para, digamos assim, escoar alguns excessos da juventude. Correndo o risco do exagero e de certo conservadorismo, poder-se-ia dizer que os caras-pintadas eram, em sua maioria, uma turma de oba-oba! Uns inconscientes, como diriam os modernistas.

Não foram poucas as passeatas de protesto a favor do impeachment. Em cada cidade havia uma, desde que, é claro, nela houvesse alguma turbulência política. Vi a passeata de Araraquara, em 1992. Não tinha o entusiasmo necessário para engrossar as filas da rebeldia política, mas acompanhei da calçada, juntamente com alguns amigos mais contidos, como eu.

Até mesmo pré-adolescentes e adolescentes estavam por lá. Era interessante ver aquela gente tão nova já participando da política, da definição do destino de um presidente que, após longo tempo de eleições indiretas, havia vencido o pleito eleitoral. Muitos deles diziam que tinham opinião e queriam-na respeitada. Bradavam pela transparência, pela ética, pela democracia e pela moralidade na política. Em suma, levantavam as bandeiras que o então maior partido da oposição (PT) defendia. Às vésperas do século XXI, a puberdade passou a incluir entre seus atributos uma sólida consciência política. Era de admirar!

A respeito do assunto, há algum tempo, Mariana Ximenes, atriz global, deu uma entrevista no quadro Minha Adolescência, do programa Altas Horas, dizendo que se lembrava do impeachment, que saiu às ruas, etc: “Me lembro do impeachment. Me lembro forte. A gente saía na rua. Foi uma época muito marcante. Tirar um presidente...”. Em 1992, a atriz tinha 11 aninhos e já era imbuída de consciência política. Como ela, deve ter havido tantas outras jovens “conscientes”...

Quando olho para trás, fico curioso: gostaria de saber o que aqueles jovens tão engajados pensam do momento atual, como interpretaram a ascensão de Lula e a prisão dos chamados mensaleiros. Também me pergunto se chegaram a redefinir suas noções de respeito à coisa pública, lisura, ética, democracia...

Será que, hoje, eles também têm alguma opinião?

Em tempo: o link para a citada entrevista de Mariana Ximenes (http://www.youtube.com/watch?v=VQOfPF1ZQUMfoi retirado do Youtube com a seguinte justificativa: "A conta do Youtube associada a este vídeo foi encerrada devido a várias notificações de terceiros sobre a violação de direitos autorais. 


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cesar Camargo Mariano e a generosidade do velho

Cesar Camargo Mariano e a generosidade do velho

Em 1986, quando se divulgou que Cesar Camargo Mariano daria um show no São Carlos Clube, a molecada que tinha alguma aspiração musical ficou ansiosa. O repertório poderia ser apreciado por quem, independentemente de preferências de estilo, tivesse apreço pela boa música. Assim, pouco importava se não houvesse a movimentação típica das apresentações do rock nacional, então em efervescência.

O show tão cobiçado seria, ao menos para mim, inacessível. Primeiramente, porque havia um incômodo de natureza interior: o preço do ingresso era elevado. Trezentos cruzeiros era uma quantia acima daquilo que eu me permitia pedir ao meu pai. Em segundo lugar, havia um problema de ordem prática: eu estava em período de “segregação” por ter matado aulas na sexta-feira da semana anterior ao show. Com o perdão do exagero, por quatro finais de semana minha liberdade estaria “cerceada”. Meu pai não era afeito a esse tipo de reprimenda, mas a infração foi comunicada a ele pela própria diretoria da escola, o que moralmente o impedia de adotar com o filho outro procedimento que não aquele. Pois é. A data do show do Cesar Camargo coincidia com o período da tal segregação que me foi imposta. Fazer o quê? Em situações como essa, aproveita-se o que é possível, não é?

Foi com esse raciocínio que formulei a ideia de que o show seria preterível desde que eu acompanhasse o ensaio, a chamada “passada de som”. Como morava perto – literalmente em frente – da sede do clube, aproveitei para dar um pulo lá no salão de bailes. Esse era, aliás, um hábito que tinha sempre que alguma banda se apresentava por ali. Passava tardes ouvindo e vendo os músicos se prepararem. Ao lado do palco, vi Cesar Camargo brincar com as teclas do piano. Como todo músico virtuoso, seus dedos flutuavam sobre o instrumento. Mas não havia nenhum desatino de notas velozes. Ele imprimia leveza e precisão em acordes contidos.

Quando o ensaio acabou, saí dali e me encontrei com uma turma que esboçava uma maneira de burlar a entrada no show. Entrariam no clube por uma cerca furada do campo de futebol e, de modo furtivo, passariam pelas quadras que ficavam atrás do salão. A entrada estaria, então, liberada: sem catracas e sem apresentação de ingressos. Moleza! Para mim, contudo, ainda que o plano fosse eficaz, de nada adiantaria.


No final da tarde daquela sexta-feira, cheguei em casa e comentei, sem nenhuma intenção subjacente, o plano que seria seguido à noite pelos meus amigos e conhecidos. Meu pai ouviu atento o relato e, depois, perguntou-me o valor do ingresso. Curioso, esperei por algum comentário depreciativo ou algum tipo de achincalhe relativo à adoção daquele indecoroso estratagema. O velho, generoso como sempre, me tirou do castigo e me deu o dinheiro para a compra do ingresso. A sua compreensão e o seu apoio, acreditem, foram muito melhores que o show.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pontepretano: o bravo da recalcitrância

Pontepretano: o bravo da recalcitrância

Sou corintiano. Nunca pensei em mudar de time e, em matéria de futebol, jamais tive qualquer inclinação que não fosse o amor pelo Timão. Desde menino o esquadrão do Parque São Jorge avassalou meu coração. Lembro-me do dia em que o Corinthians rompeu longo jejum em vitórias contra a Ponte Preta, naquela final histórica do Campeonato Paulista, em 1977. Não prestava atenção ao embate, mas brincava pela sala na qual todos o assistiam. Em 1982, sobreveio a consciência da Democracia Corintiana e a paixão pelo Dr. Sócrates. Naquela época, talvez eu torcesse mais pelo Doutor do que pelo Corinthians. Depois, vieram as grandes fases, o rebaixamento, a conquista da sonhada libertadores e do campeonato mundial. Enfim, meu coração é corintiano. Eu não me engano.

Se falo isso é porque depois que vim para Campinas, por inúmeras vezes, me perguntaram: “Em Campinas você torce pra quem: Ponte Preta ou Guarani? A resposta é óbvia: para o Corinthians. Sim, para o Corinthians, em qualquer lugar do mundo. Não tem essa de que o fulano torce para um time numa cidade, para outro em uma outra cidade, e por aí vai. Quem torce, torce para seu time. E pronto.

Isso não impede, contudo, que exista alguma simpatia por outro time que não “aquele do coração”. Eu, por exemplo, tenho apreço pela Ponte Preta. Quando disputam o mesmo campeonato, Timão e Ponte, torço pela vitória do meu time. Todavia, encerradas as possibilidades de conquistar o título, fico na torcida para que o time campineiro logre, pela primeira vez, algum resultado digno de representatividade (um título de primeira divisão ou internacional).

A simpatia pelo time da Macaca não se deve apenas ao fato de ele ter, tal como o Timão, o alvinegro como traço emblemático. Deve-se, também, ao fato de haver uma grande identificação com a massa. A Ponte é um time popular, de torcida sofrida, empenhada e insistente. Mesmo após 113 anos de luta – mais de um século, vejam só! – sem nenhum título na divisão de elite, a Macaca continua esperançosa, ávida pela conquista de um campeonato.

Acho que o pontepretano é um bravo da recalcitrância. Sua insistência, sua tenacidade e senso de esperança são admiráveis. Já por isso mereceria a reverência incontestável das torcidas adversárias.

O triste malogro da conquista da taça Sul-Americana não desmerece em nada o brilho característico da Macaca. O título tão esperado ainda está por vir. Torçamos!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Estamos juntos?

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
(Gilberto Gil - Metáfora)

Não se duvide que o poder da metáfora seja infinito e possa ser utilizado até mesmo pelos menos sofisticados em matéria literária. As crianças, com sua imensa capacidade de dedução, são capazes de nos surpreender com o sentido figurado de muitas expressões. Não sabem o significado delas, mas a usam com toda propriedade. Os boçais costumam se apoderar do sentido análogo. Traçam paralelismos, fazem comparações, utilizam exemplos à farta. Felizmente, a metáfora é democrática e se presta a propósitos de toda sorte e grandeza.

Exemplo disso é o que ocorreu recentemente. Ao saber da expedição dos mandados de prisão de José Dirceu e José Genuíno, o ex-presidente do Brasil, Sr. Luiz Inácio, telefonou para os dois e disse: “Estamos juntos”. Com o perdão da repetição: ao saber que seus colegas de partido estavam na iminência de ser presos, Lula se dirigiu a eles para dizer que “estavam juntos”.

Como, juntos? Juntos, onde, cara pálida?

Os dois Josés iriam – como foram! – para o xilindró e Luiz Inácio continuaria – continua! – fruindo de sua liberdade. Teria ele perdido a noção espacial? Ou seria detentor do dom da ubiquidade?

Só a metáfora poderia justificar uma frase de tão mau gosto! Mesmo com tanta licença poética, a expressão do ex-presidente soa oportunista. Aliás, sob esse aspecto, ele tem jogado um bolão (justo ele que aprecia tanto as analogias com o futebol)! 

Estamos juntos? Peroba nele!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Se o Genuíno pode...

Se o Genuíno pode...

Acendi um cigarro, olhei para o lado e disse:

- Mazeu, acende um cigarro aí. Se o Genuíno pode, nós também podemos.

Na verdade, ninguém podia. No anfiteatro, existiam placas com a indicação de “proibido fumar”. Todavia, o primeiro a acender o cigarro foi o deputado petista, que estava lá para falar sobre sua trajetória de vida e sobre a política brasileira.

Logo que demos o primeiro trago, vimos o diretor da faculdade (se não me engano, o nome dele era Telmo) falar alguma coisa ao pé do ouvido do então parlamentar. Depois, balançou a cabeça em direção a nós, como a indicar que agíamos daquele modo motivados pela iniciativa do deputado.

Ato contínuo, Genuíno apagou seu cigarro. E nós, os nossos. Se ele podia, nós também podíamos.

Isso aconteceu em 1991 ou 1992, no auditório da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. A história é curta, mas verídica. 


sábado, 2 de novembro de 2013

Seleção de todos os tempos

Seleção de todos os tempos

Recentemente, para comemorar o dia do futebol, meu amigo Carlos Henrique Gileno propôs uma brincadeira interessante: montar a seleção de todos os tempos. A única exigência negativa é que não se escale jogadores que não se viu jogar.

De acordo com a proposta feita, pensei na minha seleção. Nascido em 1972, não tive a oportunidade de ver Pelé, Garrincha, Canhoteiro, Pagão, Luisinho, Cláudio, Carbone e Baltazar jogarem. Por outro lado, assisti, pela televisão, Sócrates, Zico, Falcão e a genial seleção de 1982. Também acompanhei o triunfo do Timão no final dos anos noventa e início de 2000. Assisti aos dois mais belos gols de todos os tempos (em matéria de futebol, exagerar nunca é demais!).

Chega de blablablá. Vamos à minha seleção.

Goleiros:
Titular: Rinat Dasayev (Rússia, 1982)
Reserva: Dino Zoff (Itália, 1982)

Zagueiros:
Carlos Gamarra (Paraguai)
Aldair (Brasil)

Lateral esquerdo: Éder (Brasil)
Lateral direito: Edílson (Brasil)

Meio de campo: Marcelinho Carioca (Brasil); Sócrates (Brasil)
Maradona (Argentina); Zico (Brasil)

Atacantes: Ronaldo Fenômeno (Brasil), Romário (Brasil).

Ok, ok! Já estou ouvindo as críticas de que a minha seleção é praticamente brasileira. Mais que isso: corintiana. Fazer o quê? É pra quem pode!


Quem quiser, que monte a sua seleção.

sábado, 28 de setembro de 2013

O Direito Penal em Amor à Vida

O Direito Penal em Amor à Vida

Em algum momento da nossa história, os autores da teledramaturgia devem ter feito um pacto: mostrar, em suas tramas, situações jurídicas que nenhuma relação têm com a realidade. Em suas novelas colocariam determinadas cenas incompatíveis com o mundo empírico. Quem assistisse às suas narrativas, ficaria com uma visão distorcida do direito brasileiro. Sem correr o risco do exagero, seria uma espécie de desserviço ofertado aos telespectadores. Tudo isso teria sido confabulado em uma furtiva reunião da qual participariam os mais famosos escritores globais.

Naturalmente, a cena acima descrita é fictícia. Por certo, nenhum autor faria, conscientemente, das relações jurídicas e processuais um palco de escárnio ou de outra forma de entretenimento. Se as situações da trama televisiva não são compatíveis com a realidade do direito pátrio, isso em nada desmerece o produto novelesco. Até onde se saiba, não há, por parte de seus autores, nenhuma obrigação de expor institutos jurídicos num veículo tão prosaico de diversão. Não seria razoável deles exigir algum tipo de pedagogia ou didatismo jurídico. Novela, afinal, não se presta a isso. 

Abusar da criatividade e desdenhar da realidade jurídica para escrever capítulos que vão ao ar diariamente tem sido uma rotina dos autores globais. Salvo equívoco, poucos deles, em raríssimas novelas, preocuparam-se em afiná-las com as regras do ordenamento jurídico brasileiro. O que se vê, à saciedade, é justamente o contrário.

Para que não se alongue excessivamente sobre o assunto – material não faltaria para ilustrar o que se alega –, siga-se com apenas um exemplo.

“Amor à vida”, novela das nove atualmente no ar, tem trazido a lume, ao menos na seara penal, uma grande “inventividade”. Quando verificou que Atílio (Luis Melo), já casado com Vega, havia assinado um acordo de união estável com Márcia (Elizabeth Savalla), a advogada de sua esposa, Sílvia (Carol Castro), disse que iria “entrar com uma denúncia pelo crime de bigamia”. Contudo, a titularidade da ação penal do crime de bigamia é do Ministério Público, pois se trata de ação penal pública incondicionada. Com efeito, a nobre advogada não poderia, jamais, “entrar com uma denúncia pelo crime de bigamia”.

Depois de alguns capítulos, a situação mudou. Se, até então, a ilustre causídica pensava em denúncia, com o tempo passou a cogitar da possibilidade de ajuizar uma Queixa-Crime. Isso mesmo! Antes a nobre advogada entendia que poderia cumprir o papel do Ministério Público ao ofertar denúncia; posteriormente, ela mesma poderia ajuizar uma ação penal privada por um crime que é de ação penal pública incondicionada.

Tem mais. Márcia também se interessou por ver Atílio processado. Contratou um advogado – à época recentemente aprovado no exame da OAB – para representá-la. Ele, tal como sua colega, não hesitou em tomar uma providência: “entrar com uma Queixa-Crime”. Ao se consultar com seu patrono, Márcia decidiu: “Entra, meu filho, entra com o que você quiser”.

Não sei como (realmente não me lembro dos meandros dos capítulos), sobreveio a acusação pelo crime de falsidade ideológica. Atílio deveria responder criminalmente por ter falsificado os documentos que lhe permitiram casar-se com Márcia, utilizando o nome de Alfredo Gentil.

O processo culminou numa pândega audiência na qual compareceram diante da Juíza as duas “vítimas” (mulheres de Atílio) e seus advogados, o suposto criminoso (Atílio, é claro) e o representante do Ministério Público. Ao término da inverossímil instrução criminal, o réu foi condenado – pasmem! – a 5 anos de reclusão, a serem cumpridos em regime fechado. Criminalistas e juristas de todo o país devem ter se divertido à exaustão (ou se revoltado): nunca viram pena e regime tão pesados por dois crimes pouco gravosos: bigamia e falsidade ideológica.

A trama avançou no tempo, bebês nasceram, a rotina dos personagens se alterou, casamentos se desfizeram... Onde estava Atílio? Permaneceu segregado, preso como um criminoso de alta periculosidade. 

Enfim, na divertida novela de Carrasco, o Direito Penal brasileiro é revirado. A ele se somam tantas outras discussões que permeiam o Direito de Família, Direito das Sucessões... A ficção se constrói sem nenhum arrimo legal, sem nenhum preceito constitutivo do repertório jurídico.

Diante disso, caberia a indagação: as novelas devem socorrer-se da realidade para tornar-se críveis, passíveis de alguma plausibilidade no contexto da narrativa? Adotar um ponto de vista positivo a esse respeito certamente significaria despir o folhetim televisivo de sua essência ficcional. Novela é entretenimento. Diverte-se quem quer.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mistério na Zona Sul e o Colégio Santa Marcelina

Mistério na zona sul e o Colégio Santa Marcelina

Não há prêmio literário nem remuneração material que pague a satisfação de um autor ao ter sua obra lida e ser prestigiado pelos seus leitores.

Na sexta-feira passada (20/09) estive no Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, para conversar com os alunos das sextas séries sobre o meu livro Mistério na zona sul (romance infanto-juvenil publicado pela Editora Hedra em 2011). A obra foi adotada pela professora Maria Tereza Peres Munhoz de Freitas e colocada no centro das discussões dos alunos para a produção de textos, realização de brincadeiras e, provavelmente, de avaliações.

Logo que cheguei ao auditório do colégio, fui surpreendido pelos textos dos alunos que ficaram inteiramente à vontade para resenhar e criticar a obra. Em apenas uma página foram capazes de sintetizar a narrativa e tecer comentários sobre aspectos que reputaram interessantes.

Depois da leitura de alguns desses textos, fui para o auditório, onde a meninada, cuja faixa etária orça pelos dez anos, deu um show de perguntas inteligentes e sensíveis.

Enfim, foi uma manhã deliciosa e divertidíssima.

Agradeço, de coração, a todos os alunos, a profª. Maria Tereza e ao Colégio Santa Marcelina pela fantástica oportunidade de diálogo.

Seguem abaixo as fotos do encontro e alguns trechos dos trabalhos escritos pela meninada. Apenas por não saber se gostaria de ver seus nomes publicados aqui no blog, deixo de citar a fonte.

“Este foi um dos mais interessantes livros que já li. Não gostava e nem sabia direito o que era esse tipo de literatura. Quando fui ler achei que seria um livro qualquer, igual aos outros que eu já li, mas quando eu cheguei na primeira parte do suspense e mistério, não consegui parar de ler. Sempre, a cada página tinha um novo suspeito que poderia ser o vilão da história e um novo enigma para ser descoberto (....) Este foi um dos melhores livros que já li, e o primeiro de muitos outros romances policiais”

“Eu adorei esse livro, foi o melhor que já li na minha escola. Eu adoro filmes e livros de ação e mistério e romance policial, que nem esse. (...) Por favor, faça mais livros assim e a continuação desse”.

“Eu gostei do livro pois ele é de romance policial, e com as pistas que Plínio, Giulia e Tonico descobrem, vamos juntando-as e desvendando o mistério do orfanato Santa Isabel. Gostei também da forma que ela foi escrita, ela foi contada de uma forma bem contemporânea que facilita a leitura de jovens como nós”.

"Gostei do livro porque ele é interessante e não é daqueles livros que você é obrigado a ler. Ele é legal, dá vontade de ler, de continuar lendo, e eu adoro mistério, esse foi um dos motivos por eu gostar do livro".

"Eu nunca havia lido um romance policial por isso esse foi um dos motivos de ter apreciado tanto a leitura. Gosto muito de escrever e já pensei em ser até jornalista".



 Mural com os textos dos alunos


A meninada



A profª Maria Tereza e eu


Iuri Pereira (meu editor), eu e a meninada



A belíssima fachada do Colégio Santa Marcelina

sábado, 31 de agosto de 2013

O moderno cabotinismo

O moderno cabotinismo - Roberto Barbato Jr

A primeira vez que ouvi a palavra “cabotino”, foi por intermédio de minha mãe que tinha lido no jornal uma ácida crítica a Robert de Niro. O articulista da Folha de S. Paulo, cujo nome não convém revelar, havia dito que De Niro era um cabotino. Ato contínuo, recorri ao Aurélio e vi um dos significados do termo. Tratava-se de um ator comediante de baixa desenvoltura, aquilo que talvez, hoje, se assemelhe a um canastrão. Naturalmente, não poderia concordar com a crítica. De Niro tinha acabado de filmar “Tempo de despertar” e qualquer apontamento negativo a seu respeito me parecia uma heresia.

Tempos depois, ouvi falar num texto de Mário de Andrade, intitulado “Do cabotinismo”. Àquela época, já esquadrinhava minha pesquisa sobre o pensamento brasileiro e corri para ler o artigo publicado em O Empalhador de Passarinho. Por óbvio, a acepção que o líder modernista dava ao termo era um pouco distinta daquela usada pelo articulista e tinha um alcance maior.

Para Mário, o cabotinismo poderia ser definido como o fato de o “artista sacrificar grande parte da própria espontaneidade e da própria comoção e das próprias ideias em favor das ideias e comoções alheias”. Diria mais: “O artista perfeito nunca perderá de vista o seu público, e isto é cabotinismo. O artista completo jamais perderá de vista a ambição de se tornar ou se conservar célebre, e tudo isto é cabotinismo”. (ANDRADE, Mário de. O empalhador de passarinho. 3. ed. São Paulo: Martins; Brasília: I.N.L., 1972, p. 78-79).

A reflexão de Mário de Andrade pode atender a duas perquirições sobre o assunto. Em primeiro plano, parece útil para ponderar se as injunções do mercado cultural moderno não impõem a atores, escritores, diretores e músicos uma postura cabotina. Não é improvável que muitos deles sejam compelidos a abrir mão de sua espontaneidade em benefício do produto final a ser comercializado. Livros, filmes e peças teatrais, por mais geniais que sejam, carecem da contrapartida financeira. Nesse caso, a lógica do mercado preponderaria sobre a sinceridade artística. Solaparia a espontaneidade natural que deveriam ter os homens de arte e de letras. Cedendo, portanto, a uma imposição da mídia, o artista, já despido de suas convicções íntimas, acabaria se revelando um cabotino. Estão aqui todos os ingredientes apontados pelo líder modernista para a confecção da prática cabotina: “nunca perder de vista seu público”, “abrir mão da espontaneidade” e a “ambição de se tornar célebre”. Para fins práticos – e jamais filosóficos –, pouco importaria se o cabotinismo partiu de um ato volitivo do artista ou se lhe foi imposto.

Em outro plano, não se deve eximir o sentimento próprio – este sim, volitivo – de muitos artistas. Se é verdade que a indústria cultural produz cabotinos em conformidade com seus interesses, não é menos verdade que mesmo os artistas independentes não dispensam apreender seu público e projetar seu nome no elenco da notoriedade. Com efeito, deve haver, em todo artista, alguma dose de cabotinismo. Não importa o nível de sua humildade, de sua simplicidade. Talvez seja um imperativo ínsito à sua personalidade a busca pela celebridade, pela conservação do brilho de sua obra para a posteridade.

Expondo a questão nesses termos, pode parecer que vivemos uma época em que o cabotinismo se tornou patológico, uma situação endêmica. A hipótese não é tão absurda, sobretudo num mundo em que a veiculação de obras de artes, ideias e textos se mostra fluida, gratuita e de facílimo acesso. Basta observar a profusão de material publicado na internet: blogs, videologs, posts no Facebook ou no Twitter e outras redes sociais. Os internautas tornaram-se artistas, filósofos e pensadores. No quinhão do espaço virtual que cabe a todos, temos, diariamente, manifestações de afetação individual e disseminação de nossa vaidade. Prestamo-nos a verdadeiramente filosofar, construir máximas e fórmulas com a vã esperança de que elas vicejarão.

Seria exagero pensar assim? Quantos de nós, que nem artistas somos, não aspiramos ao reconhecimento de um público que, pouco a pouco, se constrói nas modernas redes sociais? Não buscamos a concordância com os pontos de vista que ousamos expor em nossas pequenas manifestações? Ao elaborar um projeto acadêmico, escrever um texto ficcional, montar e encenar uma peça, não estamos de alguma forma cortejando nossas próprias ideias, fazendo delas um palco para nunca perder de vista nosso público e dotar nossa pequena contribuição de alguma feição célebre?

Quanto há de cabotinismo e de espontaneidade artística nessa postura?

A resposta a essa questão pode ser encontrada na bela música de Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Será que sabemos mesmo? E, se assim for, que nos importa o juízo alheio? Talvez o próprio Caetano, parafraseando sua obra-prima “Língua”, diria: “Sejamos cabotinos!”

Que encrenca, hein!