sábado, 23 de março de 2013

Escritores anônimos do ENEM


Na semana passada, o Brasil parece ter ficado perplexo diante da divulgação do teor de algumas redações integrantes do ENEM. Nelas, os alunos inseriram algo inusitado e completamente estranho ao tema versado. Um deles resolveu grafar um hino de clube de futebol. Outro, sob o pretexto de não tornar a dissertação cansativa, decidiu sapecar ali, em quatro linhas, uma receita de Miojo. A redação tinha por objetivo discutir a “imigração ilegal”. Nos dois casos, houve nota suficiente para a aprovação.

Com o escândalo disseminado na mídia, uma corretora foi instada a se manifestar e se justificou dizendo que "Somos orientados a não sermos rigorosos na correção". A declaração também ensejou uma série de comentários e observações de repúdio. Em que pese a orientação dada, há casos especiais em que, por óbvio, não se pode prescindir do bom senso. O mínimo que se deveria exigir dos corretores era a sumária reprovação dos candidatos. Em tese, é o que se espera, também, de uma instituição de educação responsável, séria e ciosa de sua importância.

A despeito disso, os responsáveis pela realização do exame afirmaram que a fuga parcial do tema não poderia motivar a nota zero. Assim, mesmo que parágrafos desconexos fossem grafados, não se poderia anular o texto por inteiro. Lamentável.

Feitas estas considerações, partamos para o lado obscuro, subjacente aos fatos em apreço. Por trás da conduta dos alunos, há um feito digno de nota: foram capazes de atingir um público leitor sobremaneira volumoso, algo invejável a muitos escritores, cronistas, blogueiros e ficcionistas de variados matizes. Como as fotos das redações foram publicadas na rede e inúmeros internautas compartilharam-nas nas redes sociais, a divulgação do texto ocorreu em progressão geométrica. Nem se dimensione quantos internautas não se furtaram a clicar na imagem escaneada da redação. O papel pautado e a inscrição “Folha de Redação” foram o bastante para conquistar a atenção dos curiosos, entre os quais, naturalmente, eu me incluo.

Quem não parou para ler a receita? Quem? Não me refiro ao conteúdo dela em si. Afinal, qualquer um sabe preparar um Miojo. O que talvez tenha açulado a curiosidade dos internautas foi o contexto, a maneira como o anônimo escritor a introduziu numa dissertação acadêmica. Sei que muitos esperaram alguma genialidade do garoto, torcendo para que mediasse o macarrão instantâneo com a imigração ilegal. Eu mesmo, desavisado, cheguei a imaginar uma trama na qual o Miojo tivesse sido introduzido em terras brasileiras de maneira sorrateira, justamente por imigrantes ilegais. “Contrabando de Miojo é prática no Brasil e preocupa a Polícia Federal”, seria uma das manchetes dos principais jornais nacionais. Todo o estratagema para trazer ao território pátrio a iguaria instantânea teria sido idealizado por mentes geniais do crime organizado internacional. Teríamos aí uma sofisticada narrativa que, porventura, revelaria um novo Dashiell Hammett ou um Lawrence Block. Ok, fui longe demais.... Não sejamos tão exigentes.

Enfim, por vias oblíquas, os incautos alunos lograram obter a atenção de um sem-número de leitores. Não pagaram a publicação, não submeteram seus originais a nenhuma editora, não publicaram em blog e nem no twitter. Utilizaram-se da forma mais barata e espontânea para a troça almejada. Só não imaginavam que ela tivesse alcance tão longo. Procurados para explicações, disseram que suas intenções consistiam em demonstrar que os corretores não liam as provas. Então, convenhamos, podiam ter sido mais criativos, redigindo uma peça literária por inteiro. Provavelmente, teriam editores interessados nas produções de sua lavra.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Livros impressos


Os livros são objetos transcendentes 
Mas podemos amá-los do amor táctil 
Que votamos aos maços de cigarro 
Domá-los, cultivá-los em aquários, 
Em estantes, gaiolas, em fogueiras 

Ou lançá-los pra fora das janelas 
(Livros - Caetano Veloso)

Certa vez, na Livraria Cultura, flagrei uma vendedora aspirando as páginas internas de uma obra qualquer. Indagada sobre sua inusual atitude, disse-me que não conseguia deixar de cheirar um livro quando recém-adquirido pela livraria. Talvez a moça, a exemplo do que descreveu Caetano Veloso, possa amar os livros "do amor táctil". De minha parte, não tenho essas excentricidades e, hoje, já hesito em afirmar que o livro impresso não irá acabar.  

Quando iniciei minha atividade de leitura, tinha apreço por livros velhos, encontrados em sebos. Campeei por raridades e edições esgotadas em vários estabelecimentos, livrarias e bibliotecas. Ao achar alguma coisa interessante, ficava feliz, com o sabor de uma conquista. Assim foi quando encontrei a Ontologia do ser social, de Lukács; A consciência conservadora no Brasil, de Paulo Mercadante; Tratado de Sociologia, de Luis Recaséns Siches e os livros de Caryl Chessman (o verdadeiro bandido da luz vermelha), inexistentes no Brasil em tradução para o português.

A cada descoberta, um ponto, um regozijo. A sensação de ter acesso a algo que praticamente desapareceu é muito prazerosa. É como se pudéssemos agarrar com veemência alguma coisa que está na iminência de acabar. Assim, a leitura dessas obras era ainda mais valorizada.

Aos poucos, os livros antigos foram perdendo o glamour. Depois de lidos, já não tinham mais utilidade a não ser a insossa possibilidade de falar a alguém que tal edição – raríssima! – havia caído em minhas mãos.

Não é só isso. O tempo também é implacável com os livros. Refiro-me não ao seu conteúdo, mas à sua forma física. Tornam-se deformados, puídos e, sobretudo, inesgotáveis fontes de ácaros. Embora tenha vontade de relê-los – ou mesmo consultar uma passagem ou outra – a tarefa torna-se inviável.

Teria vários exemplos para mencionar aqui. Minha edição de “Formação da Literatura Brasileira” – clássico da crítica literária nacional, de Antonio Candido – foi impressa naquele papel semelhante ao de jornal. Os dois volumes foram condensados, formando um catatau considerável. Hoje, é um acúmulo de poeira e microbichos passíveis de serem inalados por qualquer incauto. Qual é a possibilidade de eu voltar a manusear esse exemplar? Quase nenhuma. Ele está na lista para a próxima doação (alguém se habilita?).

Depois que soube ter alergia crônica, o afastamento desses livros quase se me impôs, como um castigo. A despeito disso tudo, existe, ainda, uma necessidade de guardar algumas obras impressas. Meus volumes d’ “O Capital” tem anotações da época da graduação. Ali estão informações das primeiras vezes que, maravilhado, li “A assim chamada Acumulação Primitiva” e “A mercadoria”. Como me desfazer desses volumes?

A mesma situação pode ser mencionada em relação às várias obras de Mário de Andrade, adquiridas ainda no início da década de 1990. O que fazer com todos aqueles volumes já anotados, fichados, que um dia serviram para alguma reflexão interessante? Já ofereci a amigos. Espero que eles ainda venham buscá-los. Aliás, preparo uma doação de quase todo meu acervo. Assim que criar coragem....

Se me arrependerei disso? Espero que não. Apenas manterei a expectativa de que um dia todos esses títulos sejam lançados em formato digital. Enquanto isso não acontecer, vou guardando um número considerável de obras cuja leitura (ou releitura) me parece, cada vez mais, distante.

A atitude de tatear um livro, virar suas páginas, marcar a orelha, etc. já não me parece mais tão prazerosa. Ando preferindo algo mais fácil de se manusear, podendo ler nos eReaders, nos Tablets e até mesmo no celular. Isso, contudo, é assunto para depois.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Terceira opção

Terceira opção - Roberto Barbato Jr

A terceira opção é pouco provável e talvez não passe mesmo de um sopro de esperança. Como o momento da transcendência deve ser precedido pela  narrativa da vida pretérita, pintemos um quadro animador. Afinal de contas, sonhar é gratuito e, a rigor, não faz mal nenhum.

Durante toda a minha vida, não houve um momento sequer de privação material. Sempre tive o que queria. Para mim, querer era poder. Em virtude disso, não precisei trabalhar arduamente. Como filho de uma família aristocrata e muito abastada, entendi, desde cedo, que fazer firula era um meio de vida. Apenas para não ficar desagradável aos olhos dos menos afortunados, fingia lograr algum tipo de atividade laborativa. Isso mesmo, simular o trabalho era quase uma necessidade para privar de algumas companhias que me apeteciam. Mera forma de socialização. 

Sabe-se que o dinheiro não compra felicidade e, bem ao contrário do que dizem por aí, não manda buscá-la. É certo que também é incapaz de adquirir saúde. Mas que ajuda, isso ajuda. O meu caso é exemplar. Fiz esportes, alimentei-me bem, dormi a contento e pude desfrutar de excelente orientação médica. Nunca fumei, não usei drogas e quando ousei beber, era apenas para degustar, com parcimônia, o sabor de algum vinho. A genética, componente fundamental desse processo virtuoso, sempre me foi favorável. Hoje, com a idade já avançada, não tive nenhum diagnóstico de qualquer doença degenerativa, nenhuma ocorrência de neoplasia e tampouco adversidades de ordem cardíaca. Minha lucidez é constantemente aprovada pelos meus netos. Eles adoram me testar.

Como este relato vai remanescendo enfadonho, resolvo encerrá-lo, não sem antes assinalar que amei, constante e intensamente. Construí família digna de inveja. Uma prole unida, sem desvios ou qualquer tipo de desventura significativa.

Agora, cabe-me apenas projetar o que virá. Numa tarde de sexta-feira, em pleno outono, estarei na sala de casa. Será um cômodo bem asseado, com acústica ímpar. Quase deitado no sofá, após sorver uma taça de tinto e degustar um Monte Cristo, ficarei, uma vez mais, encantado com a melodia da música que estará grassando pelo infinito, sem nenhuma interferência. Ao meu lado, aberto no capítulo do Paraíso, repousará um exemplar da Divina Comédia. Beatriz estará ali para conduzir Dante, tal como desejei que me acontecesse na primeira opção.

Já em estado de torpor, algum desconforto anestesiado irromperá subitamente dentro de mim. Com a placidez de quem realmente merece descanso sem sofrimento, tombarei a cabeça para o lado. Meu corpo aguardará estático e rijo até que alguém tenha ciência do meu fim.

Em tempo: é óbvio que esta narrativa padece de um sério problema: a omissão da música que estará tocando no momento da partida. Deixarei uma lista aqui na próxima semana. Mas, desde já, aguardo sugestões.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Veríssimo e o Jazz


Veríssimo e o Jazz

Que Veríssimo toque Saxofone, não é novidade. O que soa curioso – ao menos para mim foi motivo de surpresa – é seu conhecimento e sua paixão pelo Jazz, pelos seus maiores representantes e pelas peculiaridades técnicas desse estilo. Tudo isso e um pouco mais é abordado em seu recentíssimo Jazz, publicado pela editora Foglio, em formato digital (sim, é um e-book). Não sei se os textos ali reunidos foram publicados em algum veículo ou coletânea de crônicas.

Então, quer dizer que Veríssimo – um dos maiores cronistas brasileiros – publicou um trabalho de exegese e crítica musical? Nada disso. O que se lê nas páginas digitais são, também, crônicas. Algumas delas têm caráter puramente ficcional, como é o caso daquela em que ele narra o encontro entre Jorge Luis Borges e Benny Goodman, ambos mortos em junho de 1986. O diálogo entre eles contrasta o universo da música com o da literatura. Ali, quase se trava um duelo estético.

A obra se inicia com especulações sobre a origem da palavra Jazz, passa pela exposição de características técnicas de Dave Brubeck e Paul Desmond, aponta a paixão de Miles Davis pelo boxe, compara a extração social de Cole Porter com a de Gershwin e revela a verdadeira identidade do saxofonista Bob Fleming (alguém o conhece?).

Veríssimo é dos poucos cronistas capazes de fazer com que uma narrativa com dados biográficos se assemelhe a melhor ficção, como se fosse, de fato, uma estória criada. O leitor de Jazz ficará estupefato – e talvez até desconfiado – ao se deparar com breve relato sobre o dia em que, ainda jovem, o autor perambulou por Nova Iorque em busca de sessões musicais e se deparou com... ninguém menos que Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O detalhe: encontrou-os juntos, tocando no mesmo palco, no Birdland. Fantástico!

Por essas e tantas outras, vale apreciar Jazz.

Boa leitura para os interessados! E muito Jazz, mesmo durante o carnaval!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Segunda opção


Segunda opção - Roberto Barbato Jr

Meu corpo já putrefaz. Bebi, fumei, experimentei ervas e essências. Um sedentário incomparável. Nunca segui uma prescrição médica. Por décadas, dormi mal e pouco. Materialmente também sou uma catástrofe. Gastei tudo o que ganhei, sem pudor. Não acumulei, não projetei, não previ. Vivia a oportunidade do momento. Pagava o almoço, o aluguel e as putas. O que entrava, saía.

O futuro ainda não existia.

Agora, estou convicto de que já vivi mais da metade da minha vida. Daqui para frente, o caminho será pesaroso. Sujeitar alguém a viver é o pior castigo. Muito pior que a morte. Não é isso que dizem?

Não terei mulher. Meus filhos não saberão onde estarei. A dona da pensão a que serei relegado, depois de alguma paciência, vai me despejar por motivos óbvios: meus serviços não lhe serão mais úteis. Sem alternativa, desembocarei num abrigo municipal, ávido por uma sopa e um cobertor capaz de me ensejar alergia. Serei alocado em um cômodo fétido, recendendo a urina. Minha cervical, quase pó de osso, não me permitirá dormir. Anti-inflamatórios me serão negados, sob a desculpa de que a verba para remédios foi há muito cortada pelos gestores da coisa pública (justo pra mim que, um dia, acreditei no Estado). Quando chegar o verão, a coluna de certo vai melhorar, mas os pernilongos e as baratas farão a festa. Malditos.

Eu sei, eu sei. Esse cenário é quase idílico diante das doenças que estarão em curso. Males, síndromes degenerativas e infecções de toda sorte. Dor de verdade, sem nenhuma droga para aplacar. Com a superveniência de uma isquemia, metade do meu corpo ficará paralisado e eu sucumbirei na cama. Ficarei todo cagado, mijado, esperando que alguém me limpe. Será insuportável.

Só, então, vou me arrepender de não ter agarrado a primeira opção. Seguirei desgraçadamente acordado. E vivo.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Primeira opção


Primeira opção - Roberto Barbato Jr

Um tiro bem no meio da testa. Da minha. Certeiro, sem nenhuma possibilidade de erro. Dizem que um tiro de 12, com cano serrado, faz um bom estrago. Deve esfacelar o cérebro inteiro, sem hesitação. Um segundo, e tudo se explode: miolos, sangue, ossos. Toda a memória de uma vida.

Não pode haver erro. Sei de pessoas que tentaram e não obtiveram êxito. A bala ficou alojada em algum lugar da cabeça. Em vez do sujeito se acabar, matou a família inteira, aos poucos, com muito sofrimento. Virou um vegetal. Ainda hoje está na cama. Há, também, aquelas situações patéticas em que alguém resolve dar cabo de sua vida de maneiras sui generis: desferindo um tiro no braço, furando o dedinho, cortando o ombro ou se jogando do primeiro andar. Passado o susto, vem a ressaca moral. O ridículo da situação é implacável. “Tá vendo aquele ali? Um incompetente”. Sem dúvida, não é pior que vegetar. Mas, convenhamos, é uma tristeza. Desmoralização cruel.

Por tudo isso, comigo terá de ser diferente. Não pode haver tentativa. Tem de haver consumação.

Sim, eu sei. Há alguma praga, cuja origem desconheço, segundo a qual quem se mata não tem direito ao Paraíso. Da Terra se vai, em um átimo, às profundezas do inferno. Não se admite que a vida seja autoceifada. Se o sofrimento é grande no mundo terreno, aceite-o, purgue, purifique sua alma. A recompensa virá. Em virtude dessa concepção, talvez seja melhor penar aqui e gozar lá. Não sei. Não estou convicto de que exista o “lá”. De mais a mais, cada coisa a seu tempo. Primeiro, a azeitona no meio da testa. Resolvido isso, parte-se, então, para o debate com quem conduz o destino do outro lado do mundo. Quem quer que seja, haverá sempre uma forma de negociação. Não vou, contudo, pensar em argumentos, nem conjecturar nada. Fecharei os olhos e Beatriz me conduzirá. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O pai da Lucinha

O pai da Lucinha - Roberto Barbato Jr

O pai da Lucinha era um pentelho. Dos grandes. Sujeito chato mesmo. Adorava infernizar a vida alheia. Um dia, meteu na cabeça que iria atazanar a professora da filha, a tia Joviane. Com esse nome, pensava, a mulher não era boa coisa. Além de barriguda, devia ter bigode e mau hálito. Nem se deu ao trabalho de vê-la ou pedir informações à filha acerca de sua beleza. Estava convencido: a tia Joviane era um tribufu.

Instruiu a menina para colocar a professora em saia justa diante de toda a classe. A Lucinha, coitada, com seus sete anos, não tinha ciência da sacanagem que estava prestes a fazer.

Numa tarde, enquanto ouvia explicação sobre os quatros elementos da natureza, a Lucinha interrompeu a aula e se saiu com essa:

- Tia, você sabe quem foi Leibniz?

A tia Joviane corou. Com sua parca experiência no magistério e uma formação intelectual lacunosa, não soube o que responder. A classe toda riu e surgiu uma desconfiança da parvalhice da professora. Um espírito de porco, o pai da Lucinha! Conseguiu o que queria.

Ao tomar conhecimento da proeza da filha, o imbecil vibrou. Nem bem esperou virar a semana e apresentou outro nome esdrúxulo para a menina. Ela mandou ver. Daquela vez, a Tia Joviane, sempre tão meiga, explanava sobre as quatro estações do ano.

- Tia, você já leu Kierkegaard?

A criançada veio abaixo na sala de aula: uma guerra de papeizinhos, um zum-zum-zum de assobios e o barulho das carteiras se arrastando...

O pai da Lucinha já não se continha na sua sanha exitosa. Apresentou à filha ninguém menos que Heidegger. E complementou:

- Se a tia Joviane disser que conhece Heidegger, pergunte se ela sabe quem foi a aluna por quem ele se apaixonou.

A menina adorou saber que a namorada do sujeito era uma tal de Hannah Arendt, também filósofa. Incrementou a provocação do pai.

- Tia Joviane, a senhora sabe quem foi professor de Hannah Arendt?

Uasuashauhs! A molecada não se conteve! A tia Joviane já estava em descrédito com o corpo – corpinho – discente. A criançada não perdoava.

No final do mês, o pai da Lucinha foi implacável. Deu à filha uma aula sobre a Lei de Hooke e fez um pedido para a menina:

- Se a mula da tia Joviane não souber, explique você para a turma toda.

Dito e feito. A Lucinha fez a indagação. A exemplo das outras vezes, a tia Joviane não soube responder. A menina dissertou sobre o tema como se defendesse uma tese de livre-docência. Arrasou.

Diante do ocorrido, a professora foi objeto de longa discussão da diretoria da escola. Reunião de pais e mestres foi marcada e o pai da Lucinha, o primeiro a comparecer. Queria ver a baranga da professora. Quando ela entrou na sala, o biltre ficou boquiaberto, totalmente descrente daquela realidade cruel. Um metro e sessenta de pura delícia, um corpo escultural. Um paradoxal mulherão! Quem diria, a tia Joviane, hein? Burrinha, é verdade. Mas, que mulher! Se arrependimento matasse, pensou. E matou. Em segundos foi fulminado pela beleza da moça.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mistério na zona sul no Colégio João XXIII


No mês passado, em 23/10, fui para São Paulo conversar com a meninada do Colégio João XXIII. As turmas da 7ª série leram o Mistério na Zona Sul e, a partir de sua narrativa, fizeram alguns trabalhos, conversaram com vereadores, juristas e outros profissionais. Também fizeram panfletos e camisetas que versavam sobre a temática do trabalho infantil.

Saber que as turmas leram o livro já seria motivo de sobejo para um escritor iniciante se sentir feliz. Com o convite, veio-me uma sensação ainda mais satisfatória: a de reconhecimento. Não bastasse ter sido apreciada pela garotada, a obra suscitou uma profusão de reflexões interessantíssimas, ligadas tanto à literatura, quanto a questões correlatas ao tema tratado no livro.

Naquela manhã, diante de indagações tão argutas da meninada, perguntei-me mentalmente a razão pela qual não se investe em leitura no Brasil. É certo que hoje se critica de modo enfático a disposição das gerações mais novas para os passatempos da internet, em detrimento da leitura e de outras atividades culturais. Todavia, há uma enorme ansiedade dos jovens pela leitura. Não se duvide disso.

Eis o link das fotos!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Avenida Brasil: a catarse de um vilão titubeante



Nunca uma novela das oito esteve tão próxima do cinema como Avenida Brasil, no capítulo da quinta-feira (11/10). Com cenas capazes de remeter o telespectador a clássicos como “Sob o domínio do medo” (Sam Peckinpah) ou a “Horas de desespero” (William Wyler), as tomadas feitas no barraco de Mãe Lucinda mostraram como uma trama novelesca pode se alçar ao requinte de grandes obras cinematográficas. A fotografia, impecável, conciliou o clima sombrio da circunstância narrada com um ambiente claustrofóbico que, embora escuro, não deixou de evidenciar os movimentos dos personagens e sua precisa identificação. Pois é, via-se com clareza a tudo e a todos.

Essa aproximação com algum thriller da telona não foi, entretanto, o grande mérito do capítulo. Por meio dele, o telespectador acompanhou a derrocada de um personagem sui generis da teledramaturgia brasileira: um vilão titubeante, submisso e nada exitoso. As inúmeras desventuras por ele amealhadas ao longo da trama certamente culminariam no evidente desfecho de sua morte. Tanto melhor que assim fosse, sobretudo porque seria ela, em momento imediatamente anterior, o elemento ensejador da catarse do desgraçado personagem.

No barraco de Lucinda, o cenário estava quase completo. Além de ter levado Carminha para lá, Max foi surpreendido com o auxílio do acaso: para o espetáculo que pretendia realizar, contou com a presença de Nina. De posse da pistola antes furtada de Tufão, subjugou a todos. Amarrou os pais, a ex-mulher – a quem não cansou de chamar de vagabunda – e a pretensa amante. Regado a goles cadenciados de cachaça, revelou que nem mesmo ele se amava e assinalou o desprezo que sempre recebeu dos pais. Iniciava-se ali a purgação que seria coroada com a evocação do dia do Juízo Final. Antes de sua descida ao inferno – como se estivesse ciente que seu único destino seria aquele –, Max lograria ter algo que jamais conseguiu: Nina. A expectativa da curra acentuou ainda mais o clima de tensão no barraco, que só foi quebrado com a heroica e piegas chegada de Jorginho.

Depois de dominar o filho, atirou aos quatro ventos uma profusão de diatribes, revelando recalques que ninguém imaginou povoar suas ideias. Em tempos mais ditosos, ele ansiava pela constituição de uma família. Mostrou-se profundamente desgostoso ao mencionar que tinha planos para o filho. Queria dar seu nome a ele, mas, por imposição de Carminha, o guri se chamou Cristiano. “Você gostava de mim”, revelou ao garoto, reivindicando a paternidade afetiva que Tufão lhe roubara. “Era assim que você me chamava: papai“, relatou ao menino. “Você não se lembra?”. É claro que Jorginho não se recordava de nada. Era pequeno ainda, sem memória formada. Também não se lembrava de que foi o pai biológico quem lhe presenteou com a primeira bola de futebol. Com ele, jogava pelada nos fundos de sua casa. Com essa revelação, de maneira inédita na trama, o vilão pleiteava para si os tributos que o menino pagava a Tufão pelo suposto talento que dele havia herdado para o trato com a pelota. Os reclames de Max não prosperaram.

Aquela família rapidamente desenhada pelo desengonçado vilão talvez jamais subsistisse à ambição de Carminha. De maneira escancarada, ela sempre manipularia o parceiro, fato ao qual, aliás, se poderia creditar todos os seus insucessos e sua inequívoca insegurança.

Pouco antes de ser assassinado, já a sós com Nina em lugar desconhecido, Max fez a última tentativa de determinar o seu destino. Ao ouvir da menina que deveria matá-la naquele instante, sem mais delongas, limitou-se a dizer que o faria apenas quando quisesse (“eu mato quando eu quiser”). Nem mesmo disso foi capaz. O sempre titubeante vilão perdeu o jogo antes de marcar um único ponto.




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Nunca chorei o maltrato da vida

Nunca chorei o maltrato da vida - Roberto Barbato Jr

Nunca chorei o maltrato da vida. Não tinha dinheiro pra comprar coca-cola, cortar cabelo e nem comprar tênis. Sorvete e cinema, nem pensar. A escola era pública e o material, emprestado. Recebia os livros todos riscados, amassados. Não dava pra reclamar. Era a única maneira de aprender alguma coisa. O uniforme, minha mãe comprava sabe lá Deus com que sacrifício. Eu não gostava de estudar, mas também não tinha outra opção. Meu pai só existiu na minha imaginação. Ele é um daqueles pais famosos que grande parte dos brasileiros tem. Sim, é aquele sujeito que saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou. Felizmente, minha mãe sabia que o cigarro era uma desculpa e jamais alimentou a ilusão de que o safado voltaria. Não voltou.

Além da precariedade material, sempre fui feio. Quando digo feio, quero dizer feio mesmo. Coisa séria. Feio a ponto de as meninas fazerem cara de enjoo quando me viam. Feio e pobre, não teria chance nenhuma com ninguém. Enquanto a meninada se vestia para o cinema, eu ficava em casa, imaginando um jeito de vazar a roleta, sem pagar nada. Depois que passasse pela porta, a escuridão da sala me daria guarida. Ninguém me acharia. E, convenhamos, nem seria interessante o lanterninha correr atrás de um menino como eu. Se me achasse no escuro, certamente tomaria um susto.

Durante algum tempo tive prática em surrupiar a broinha de milho da padaria. Era bem fácil. Bastava entrar calmamente, ir até o balcão e pedir dois pães franceses. Quando a moça se virava para pegá-los, já era: estava na rua dando a primeira mordida. Não era bonito fazer isso. Eu não contava para ninguém, pois não queria que me achassem um cara esperto. Furtar a broinha não era questão de esperteza, mas de sobrevivência. E disso eu sempre entendi muito bem.

Percebi que o mundo não me daria nada de graça. Teria que brigar pra conseguir uma vida mais ou menos digna. É claro que eu nunca acreditei naquela conversa de que o trabalho dignifica o homem. Se tivesse um pouco de habilidade para o crime, tentaria o sucesso fácil, alheio ao trabalho empenhado. Pouco se me daria a tal da dignidade. Prefiro o dinheiro. A merda é que até nisso eu fui cagado. Pobre e feio, deveria ao menos ter vocação para o afano, a tungada perfeita, tal como conseguia com a broinha. Mas, qual o quê! Virei um bundão. Ao sinal do menor temor, já me via gaguejando, tremendo, titubeando nas ações.  

Preferi a submissão, é claro. Pra um sujeito como eu, é mais fácil a subserviência. Bastaria algum estudo e um pouquinho, só um pouquinho, de sorte. Arranjando um empreguinho medíocre, bem me satisfaria. Ficaria quieto, recebendo ao final do mês o suficiente pra parar em pé, de estômago cheio. Mas nem tudo foi tão fácil.

Quando a Mel me conheceu, anunciou o estrago que faria na minha vida. Teríamos filhos, muitos filhos. Ela me seduziu, engravidou na primeira transa e foi taxativa ao dizer que seria uma mãe muito zelosa. Por zelosa, eu entendi dedicação integral aos nossos filhos. Isso me encheu de orgulho. Acontece que eu sou pobre e feio, mas não sou burro. Logo saquei que teria de trabalhar pra garantir tanto zelo da parte dela. Então, vieram a Amália, a Amélia e a Emília (antes que alguém pergunte, foi ela quem escolheu os nomes das meninas). Paramos por aí.

Com essa prole toda, tive que mudar de emprego pra ganhar mais. Meu projeto de só parar em pé, bastando ter o estômago cheio, caiu por terra. O dinheiro precisava render e eu, também. Com sacrifício, criamos as meninas. Eu trabalhando, e a Mel cuidando delas.

O tempo se passou. Continuei feio e pobre. As meninas se casaram e a Mel arrumou um amante. No dia que descobri a traição, matei os dois. Como não tinha dinheiro para contratar um bom advogado, peguei um rábula que nem sabia direito o que era homicídio privilegiado. Hoje estou aqui cumprindo pena com mais oito na minha cela. Amália, Amélia e Emília nunca vieram me ver e, provavelmente, jamais virão. Dizem que a progressão de regime tardará a chegar. Não faço a menor ideia do que farei quando sair daqui, mas, honestamente, espero morrer antes disso. Agora, tenho que receber uma visita. Um sujeito quer me ver. Diz que é meu pai.