Tio Harlan - Roberto Barbato Jr
Não. Não acredito nessa história de loteria e mega sena. É tudo uma grande sacanagem. Coisa de picareta, como o tio Harlan, que todos dizem ter tino comercial apenas porque deixou de ser empregado e hoje tem uma empresa. O tio Harlan recende a picaretagem. Só virou empresário porque ganhou na loteria. Um dia quis me convencer que há homens eleitos pelo dinheiro. Eu perguntei um “como assim” meio envorgonhado e ele me garantiu que existiam os predestinados. Tio Harlan, seu filho da puta!
Não adianta. Você não vai encontrar uma fonte de renda remansosa. Esqueça o que te disserem. O negócio é o trabalho. Viver de renda, de aluguel, ser cafetão, agiota, onzenário, tudo isso é fria. Só o trabalho constrói. Somente o esforço agrega. Ou, então, você tem pai rico. Rico e comedido. Do contrário, as pompas ficarão nas memórias. Um pai rico perdulário é um castigo. Você fica aí pensando que o sujeito vai te deixar de boa, na sombra e na água fresca. Quando sai o inventário, você percebe que, quando muito, te restou uma aplicação de alto risco que, se não for resgatada logo, adeus. Se você tiver irmãos, fodeu. O adeus é de rigor.
Por entender que a vida é só trabalho, resolvi meter as caras. Como as teses do tio Harlan nunca me serviram de nada, achei melhor encarar o trabalho. Saí à cata de uma ocupação. Nem era emprego, era ocupação mesmo. Faria qualquer coisa. “Então tá bom”, disse o dono do hotel. “Você carrega mala de terça a domingo. Pode folgar na segunda-feira de manhã e pode usufruir da piscina, já que nunca tem ninguém nesse horário. Salário? Bom, isso a gente vê depois”. Foi o que ele me falou.
Vestido de um uniforme pesado, carreguei mala (com ou sem rodinha, pequena, grande e também nécessaire). Carregava, inclusive, hóspede bêbado. Levei cantada de madame, de camareira e de veado velho. Tinha certeza que não podia comer ninguém, o que poderia comprometer meu novo ofício.
Tinha de tudo no hotel: milionário de verdade, falso rico, alpinista social, puta de luxo e até michê disfarçado de garçom. As finanças começaram a andar mal. Quando suspeitei que iria pro olho da rua, me cocei. Primeiro, só de birra, entrava na piscina pra mijar. O esquema tinha um preparo interessante. Ficava quatro horas sem comer, tomava muita água, deixava a bexiga ficar bem cheia e ia nadar. Mijava o tempo inteiro, uma mijada em cada canto da piscina. Como a bomba estava quebrada, não havia reciclagem de água alguma. Em duas semanas aquilo ficaria fétido, cheio de bactérias. Alguém se estreparia por ali. Depois, pra dar um jeito momentâneo na vida, meti a mão na gaveta do seu João. Ele era o gerente do estacionamento e guardava a gorjeta da semana numa gaveta sem chave. Era uma paca. O dinheiro daria para um mês, sem muito luxo, é claro.
Acabou a grana. Encontrei um velho amigo da escola e ele perguntou se eu queria ganhar algum. “Você tem boa aparência. É o que precisamos lá na clínica. Um rapaz que atenda ligações e resolva problemas de última hora”. Era uma clínica clandestina de aborto. Perguntei pra ele se a clínica era mesmo clandestina. Ele não entendeu a piada. Recusei a proposta.
Corri até Câmara Municipal para procurar um vereador conhecido do Tio Harlan. O cara, diziam, tinha bom relacionamento com a turma da situação. Se pudesse me arrumar um cabide na administração atual, ficaria grato pro resto da vida. O seu Tenório conseguiu um lugar no setor de separação e entrega de missivas da própria Câmara Municipal. Eu não sabia o que era missiva, mas aceitei. Não devia ser coisa ruim. No primeiro dia de trabalho, percebi que meu negócio era separar e entregar cartas. Missiva é carta, foi o que o dicionário me disse. Separava correspondência pros gabinetes de vereadores, para a presidência da Câmara e até para dona Justina, que servia o cafezinho.
Foi ela que me avisou, depois de um ano de trabalho duro, que eu seria demitido logo mais. Com a história dessa tal terceirização resolveram terceirizar o serviço de correspondência e entregas. Eu ia tomar na cabeça. Mandaram me chamar. Como eu já sabia da demissão, fui à forra. Disse que ali só tinha bandido, político velhaco e puxa-saco. Uns chupins! E o salário era ridículo. Dei uma risada de louco, de gente desequilibrada. Toquei o terror! Comecei a gritar e simulei que ia morder alguém. Todo mundo subiu nas cadeiras, tinha gente até em cima da mesa. O seu Tenório ficou vermelho de raiva. Disse que minha postura não condizia com as referências que o tio Harlan lhe tinha dado.
A dona Justina, indignada com a situação, me indicou pra garçom de um boteco da família da cunhada da prima dela, lá na periferia. O negócio estava começando, mas dava ares de que iria pra frente. No almoço servia os PFs e à noite, lanche e cerveja. Eles me pagavam direitinho, inclusive o vale transporte pra ir e voltar. Na sexta-feira à noite, o expediente se estendia e eu podia dormir num quartinho do fundo do restaurante, porque, àquela altura dos acontecimentos, o boteco já tinha até nome de restaurante. Graças ao meu empenho, virei sócio. Propunha um evento hoje, uma música ao vivo amanhã, uma feijoada no domingo. Assim fui conquistando meu espaço. Ainda bem que não dei bola pras fantasias do tio Harlan. Em dois anos estava ficando abonado e pensei até em me casar com uma freguesa loirinha que me dava uns beijinhos sem nenhuma emoção.
Ao descobrir minha fibra empresarial, tio Harlan mandou me chamar. Propôs negócio, dizendo que talvez eu já fosse um eleito do dinheiro, tal como ele. Iríamos unir forças, ganhar muita grana. Resisti um pouco. Contudo, acabei cedendo. Vendi minha parte no restaurante da periferia, terminei com a loirinha insossa e virei sócio dele. O futuro prometia.
Prometia nada.... Ele passou a perna em mim. Quando percebi, estava trabalhando no almoxarifado da empresa, como um funcionário raso. Perdi minhas cotas da sociedade e a única coisa que me restou foram os convites para nadar na casa do Tio Harlan. Eu só precisava dar um jeito de quebrar a bomba da piscina.
"Modelando o artista ao seu feitio/ O tempo, com seu lápis impreciso/ Põe-lhe rugas ao redor da boca/ Como contrapesos de um sorriso. "Tempo e artista" - Chico Buarque/1993
sábado, 22 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
Ah, Julinha!
Ah, Julinha! - Roberto Barbato Jr
Ah, Julinha! Putz, todo mundo queria a Julinha. Baixinha, branquinha, uma bunda razoável e os peitos.... Vivia olhando pro seu busto. Quando ia pra escola com decote, eu ficava naquela curiosidade, estendia o pescoço para alcancar alguma posição favorável. Também ficava apreensivo se aparecia usando camiseta Hering branca com gola V. Aí, sim, ficava louco de vontade dela. A Julinha era muito gostosa. Muito boa mesmo. O quadril rebolando, o andar macio. Parecia que pisava num carpete.
Só se falava nela e ela falava pra cacete. Como falava! Contava da fazenda do pai, da bicicleta nova, do clube, do primo carioca. Jogava bola, subia no trepa-trepa e nunca se recusou a participar daquela brincadeira do beijo, abraço e aperto de mão. Quando era pra beijar na boca, ela beijava com língua e tudo. O beijo da Julinha era um tesão, deixava todo mundo de pau duro. Também brincava do tal jogo da verdade. Contava umas vantagens. Diziam que isso acontecia porque era baixinha e tinha complexo. Imagine: a Julinha com complexo....
Ninguém acreditou quando eu disse que a pediria em namoro. Namorar a Julinha seria o máximo. Beijo de língua e os cambau. Queria surpreendê-la atrás do portão da quadra de vôlei no momento em que as meninas iriam pro vestiário. Pegaria na mão dela, puxaria-a pra mim e faria a proposta. Foram pelo menos umas dez vezes que jurei fazer isso. Nunca conseguia. Chegava perto dela e meu coração disparava, a perna bambeava e eu ficava vermelho, suando frio. Jurava pra mim que no dia seguinte conseguiria. Mas não conseguia.
Eu sonhava com a Julinha constantemente, sentia o perfume dela no sonho. Acordava com ela na cabeça e logo arquitetava algum plano pra sentar perto dela na classe. Mandava bilhetinhos anônimos cuja autoria, é óbvio, ela conhecia. Pensei em sequestrá-la, prendê-la em algum lugar ao qual só eu tivesse acesso. Trancaria a Julinha numa cabine do campo de futebol da escola, colocaria um cadeado com chave única. Levaria roupas e alimentos pra ela, até pizza. Ficaríamos juntos durante todo o dia, movidos a beijos. É claro que o plano não tinha nenhuma chance de êxito. Mas não custava sonhar. E eu sonhava.
Crescemos. A Julinha não quis saber mais de ninguém da turma. Já tinha sido sondada por um menino do segundo colegial, o Marcão. O cara era parrudo, musculoso, jogava bola, corria e nadava. Tinha, também, o cérebro meio atrofiado: não conjugava verbo, não sabia onde era o Japão e um dia jurou que me pegaria na saída da escola. Só porque a Julinha desceu a escada da entrada conversando comigo. Deu um sorriso e me disse que "amanhã a gente se fala". Pronto, o Marcão ficou uma pistola. Ombro a ombro, cara de malvado, me olhou feio. Bateu a mão fechada no peito que nem um King Kong. Foi aí que a Julinha ficou ainda mais gostosa. Agora, quase proibida e prometida pro Marcão, havia se tornado meu sonho de consumo. Era uma questão de honra, eu tinha que conquistá-la.
Grudei nela: no corredor das salas de aula, na classe, na escada da cantina, na porta do banheiro, no intervalo e na saída. A Julinha ficava comigo o tempo inteiro, era uma delícia. Estava pirando de tanta paixão. Enquanto isso, o Marcão continuava jurando que ia me arrebentar. Quanto mais me via com ela, com mais raiva ficava. A surra seria grande. Coitado de mim.
Um dia, chovia pra dedéu, a Julinha chegou na escola ensopada. Olhou pra mim com cara de choro, os olhos molhados, e me disse que iria embora. Ia mudar de escola, de cidade. Iria pra bem longe, mas me mandaria um cartão de Natal. Porra, Julinha, isso é coisa que se diga? Eu preferia apanhar do Marcão. Pois é. A Julinha foi embora. Ah, Julinha....
Ah, Julinha! Putz, todo mundo queria a Julinha. Baixinha, branquinha, uma bunda razoável e os peitos.... Vivia olhando pro seu busto. Quando ia pra escola com decote, eu ficava naquela curiosidade, estendia o pescoço para alcancar alguma posição favorável. Também ficava apreensivo se aparecia usando camiseta Hering branca com gola V. Aí, sim, ficava louco de vontade dela. A Julinha era muito gostosa. Muito boa mesmo. O quadril rebolando, o andar macio. Parecia que pisava num carpete.
Só se falava nela e ela falava pra cacete. Como falava! Contava da fazenda do pai, da bicicleta nova, do clube, do primo carioca. Jogava bola, subia no trepa-trepa e nunca se recusou a participar daquela brincadeira do beijo, abraço e aperto de mão. Quando era pra beijar na boca, ela beijava com língua e tudo. O beijo da Julinha era um tesão, deixava todo mundo de pau duro. Também brincava do tal jogo da verdade. Contava umas vantagens. Diziam que isso acontecia porque era baixinha e tinha complexo. Imagine: a Julinha com complexo....
Ninguém acreditou quando eu disse que a pediria em namoro. Namorar a Julinha seria o máximo. Beijo de língua e os cambau. Queria surpreendê-la atrás do portão da quadra de vôlei no momento em que as meninas iriam pro vestiário. Pegaria na mão dela, puxaria-a pra mim e faria a proposta. Foram pelo menos umas dez vezes que jurei fazer isso. Nunca conseguia. Chegava perto dela e meu coração disparava, a perna bambeava e eu ficava vermelho, suando frio. Jurava pra mim que no dia seguinte conseguiria. Mas não conseguia.
Eu sonhava com a Julinha constantemente, sentia o perfume dela no sonho. Acordava com ela na cabeça e logo arquitetava algum plano pra sentar perto dela na classe. Mandava bilhetinhos anônimos cuja autoria, é óbvio, ela conhecia. Pensei em sequestrá-la, prendê-la em algum lugar ao qual só eu tivesse acesso. Trancaria a Julinha numa cabine do campo de futebol da escola, colocaria um cadeado com chave única. Levaria roupas e alimentos pra ela, até pizza. Ficaríamos juntos durante todo o dia, movidos a beijos. É claro que o plano não tinha nenhuma chance de êxito. Mas não custava sonhar. E eu sonhava.
Crescemos. A Julinha não quis saber mais de ninguém da turma. Já tinha sido sondada por um menino do segundo colegial, o Marcão. O cara era parrudo, musculoso, jogava bola, corria e nadava. Tinha, também, o cérebro meio atrofiado: não conjugava verbo, não sabia onde era o Japão e um dia jurou que me pegaria na saída da escola. Só porque a Julinha desceu a escada da entrada conversando comigo. Deu um sorriso e me disse que "amanhã a gente se fala". Pronto, o Marcão ficou uma pistola. Ombro a ombro, cara de malvado, me olhou feio. Bateu a mão fechada no peito que nem um King Kong. Foi aí que a Julinha ficou ainda mais gostosa. Agora, quase proibida e prometida pro Marcão, havia se tornado meu sonho de consumo. Era uma questão de honra, eu tinha que conquistá-la.
Grudei nela: no corredor das salas de aula, na classe, na escada da cantina, na porta do banheiro, no intervalo e na saída. A Julinha ficava comigo o tempo inteiro, era uma delícia. Estava pirando de tanta paixão. Enquanto isso, o Marcão continuava jurando que ia me arrebentar. Quanto mais me via com ela, com mais raiva ficava. A surra seria grande. Coitado de mim.
Um dia, chovia pra dedéu, a Julinha chegou na escola ensopada. Olhou pra mim com cara de choro, os olhos molhados, e me disse que iria embora. Ia mudar de escola, de cidade. Iria pra bem longe, mas me mandaria um cartão de Natal. Porra, Julinha, isso é coisa que se diga? Eu preferia apanhar do Marcão. Pois é. A Julinha foi embora. Ah, Julinha....
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Luiz Inácio e o carisma
Ao discutir a transição do governo Luiz Inácio para a nova presidenta, Eliane Cantanhede (“Voto de Confiança”, Folha de S. Paulo, 02/01/2011), me levou a pensar na clássica questão da sucessão do líder carismático, tal como formulada por Weber.
Como se sabe, o gênio alemão havia tipificado os três tipos de dominação legítima: a dominação racional-legal, a dominação tradicional e a dominação carismática.
Luiz Inácio é o exemplo mais que pertinente para se ilustrar a dominação carismática. Comentários a esse respeito seriam mais do que desnecessários aqui, bastando realçar sua indiscutível habilidade de persuação e sua capacidade para aglutinação de discípulos e partidários em torno de si.
Em seu sintético (mas afiado) texto, Eliane afirma que “Difícil será preencher o vazio de um presidente carismático”. Sua observação está diretamente ligada à sucessão acima aludida. Como o líder carismático – no caso, o sr. Luiz Inácio – é dotado de características que não podem ser simplesmente “transmitidas”, haveria de se indagar como seria possível encontrar alguém para substituí-lo.
Referindo-se à obra weberiana, Julien Freund, assim discorre sobre o assunto:
“A grande questão do domínio carismático é, pois, a da sucessão. Com efeito, como perpetuar o sistema após a morte do chefe, uma vez que o carisma não se aprende nem se deixa inculcar mas desperta e é sentido, e que os partidários do chefe, como o seu estado-maior, têm um interesse material e ideal de fazer durar esse domínio? A dificuldade reside no fato de ser a obediência dos partidários pura dedicação à pessoa do chefe e de carecer da continuidade que constitui a força da tradição e da legalidade. Weber examina exaustivamente as diversas soluções possíveis. Ou se tenta descobrir um outro portador de carisma, que possua características análogas às do desaparecido (caso do Dalai Lama); a conseqüência desta prática é fundar uma tradição. Ou confia-se na revelação, nos oráculos, na sorte, no julgamento de Deus ou em outro critério irracional; nestes casos, caminha-se mais ou menos rapidamente para uma legitimidade legalista. Ou então o chefe em exercício designa ele próprio o seu sucessor com ou sem a aprovação de seus partidários. Ou ainda a designação é feita pelo estado-maior carismático; este processo exclui a eleição fundamentada no princípio majoritário, pois o problema é encontrar o homem adequado, se se quiser ficar fiel à fórmula carismática. Enfim, o carisma pode-se tornar hereditário, quando se admite a lei do sangue”. (FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. 4 ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987).
No contexto atual, a sucessão de Luiz Inácio não nos remete a reflexão tão apurada e desgastante. A presidenta Dilma, eleita pelo povo brasileiro (e não sugerida por oráculos ou julgada por Deus) muito longe está de qualquer traço carismático. Como bem assevera Cantanhede, a nova chefe (ou também será chefa?) “só não deve arriscar tudo para tentar ser o que não será: um mito”. É de se esperar que saiba, portanto, qual é o papel que lhe cabe nos próximos quatro anos. Aspiremos, mais que esperemos.
Em tempo: já que se fala em carisma e este supõe, de alguma maneira, um traço de inteligência, devemos também recorrer ao comentário de FHC que, há algumas semanas, comentando sobre Dilma, revelou: “Tenho dificuldade mesmo. Você sabe que eu sou curto de inteligência, às vezes eu não consigo. Ela não termina o raciocínio, e eu não tenho imaginação suficiente para saber o que ela ia dizer”. O comentário foi feito no “Manhattan Connection”, de 26/12/2010 (Fonte: Folha de S. Paulo. 28/12/2010).
Como se sabe, o gênio alemão havia tipificado os três tipos de dominação legítima: a dominação racional-legal, a dominação tradicional e a dominação carismática.
Luiz Inácio é o exemplo mais que pertinente para se ilustrar a dominação carismática. Comentários a esse respeito seriam mais do que desnecessários aqui, bastando realçar sua indiscutível habilidade de persuação e sua capacidade para aglutinação de discípulos e partidários em torno de si.
Em seu sintético (mas afiado) texto, Eliane afirma que “Difícil será preencher o vazio de um presidente carismático”. Sua observação está diretamente ligada à sucessão acima aludida. Como o líder carismático – no caso, o sr. Luiz Inácio – é dotado de características que não podem ser simplesmente “transmitidas”, haveria de se indagar como seria possível encontrar alguém para substituí-lo.
Referindo-se à obra weberiana, Julien Freund, assim discorre sobre o assunto:
“A grande questão do domínio carismático é, pois, a da sucessão. Com efeito, como perpetuar o sistema após a morte do chefe, uma vez que o carisma não se aprende nem se deixa inculcar mas desperta e é sentido, e que os partidários do chefe, como o seu estado-maior, têm um interesse material e ideal de fazer durar esse domínio? A dificuldade reside no fato de ser a obediência dos partidários pura dedicação à pessoa do chefe e de carecer da continuidade que constitui a força da tradição e da legalidade. Weber examina exaustivamente as diversas soluções possíveis. Ou se tenta descobrir um outro portador de carisma, que possua características análogas às do desaparecido (caso do Dalai Lama); a conseqüência desta prática é fundar uma tradição. Ou confia-se na revelação, nos oráculos, na sorte, no julgamento de Deus ou em outro critério irracional; nestes casos, caminha-se mais ou menos rapidamente para uma legitimidade legalista. Ou então o chefe em exercício designa ele próprio o seu sucessor com ou sem a aprovação de seus partidários. Ou ainda a designação é feita pelo estado-maior carismático; este processo exclui a eleição fundamentada no princípio majoritário, pois o problema é encontrar o homem adequado, se se quiser ficar fiel à fórmula carismática. Enfim, o carisma pode-se tornar hereditário, quando se admite a lei do sangue”. (FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. 4 ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987).
No contexto atual, a sucessão de Luiz Inácio não nos remete a reflexão tão apurada e desgastante. A presidenta Dilma, eleita pelo povo brasileiro (e não sugerida por oráculos ou julgada por Deus) muito longe está de qualquer traço carismático. Como bem assevera Cantanhede, a nova chefe (ou também será chefa?) “só não deve arriscar tudo para tentar ser o que não será: um mito”. É de se esperar que saiba, portanto, qual é o papel que lhe cabe nos próximos quatro anos. Aspiremos, mais que esperemos.
Em tempo: já que se fala em carisma e este supõe, de alguma maneira, um traço de inteligência, devemos também recorrer ao comentário de FHC que, há algumas semanas, comentando sobre Dilma, revelou: “Tenho dificuldade mesmo. Você sabe que eu sou curto de inteligência, às vezes eu não consigo. Ela não termina o raciocínio, e eu não tenho imaginação suficiente para saber o que ela ia dizer”. O comentário foi feito no “Manhattan Connection”, de 26/12/2010 (Fonte: Folha de S. Paulo. 28/12/2010).
sábado, 8 de janeiro de 2011
Luiz Inácio, privilégios e regalias
Houve uma época em que cheguei a acreditar que o sr. Luiz Inácio primava pela absoluta exclusão de privilégios pessoais e interesses particulares no Brasil. Segundo entendia, ele e seu partido lutavam contra toda forma de benefício de uns em detrimento de outros. Toda e qualquer prerrogativa individual não poderia ser aceita, sob pena de macular o processo de construção de um país ético e democrático. Regalias, portanto, nem pensar.
Era isso mesmo ou estou enganado?
Não era o ex-presidente sem anel de Doutor quem lutava pelo fim das políticas clientelistas e do fisiologismo? Não era ele que entendia ser necessária a igualdade de oportunidades para todos os brasileiros? Não era ele que criticava a postura das nossas elites atrasadas, marcadas por laços de caudilho?
Recentemente, ao ler a Folha de S. Paulo fui surpreendido pela notícia de que, dois dias antes de terminar seu mandato, pediu a renovação dos passaportes diplomáticos de seus filhos. Essa renovação é válida por mais 4 anos. Ou seja, enquanto a Sra. Dilma governar o país, os filhos de Lula, sem que tenham qualquer ligação com o governo e com a esfera da administração pública, poderão gozar das benesses que o tal passaporte lhes dá, entre elas a de não precisarem de visto para ir para China e para a Índia.
Mas não é só! Os garotos não precisarão enfrentar filas na alfândega! E isso, provavelmente, no entender do guru sem o anel de Doutor, não é nenhuma regalia.
Sabem a história daqueles que não enfrentam fila? Daqueles que sempre dizem o “sabe com quem está falando”? Sim, aqueles que têm e/ou tiveram os privilégios sempre combatidos por Lula e seu partido? Naturalmente, eles nenhuma relação terão com os filhos do nosso emotivo ex-presidente.
Não bastasse a bizarrice dessa concessão, chamou-me a atenção a forma como se pretendeu justificá-la. Embora já tenham excedido a idade necessária para obtenção do especialíssimo documento (24 anos), aos filhos de Luiz Inácio a renovação se deu sob o pretexto de que existe o “interesse do país”. Esse foi o argumento utilizado pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Como o “interesse do país” é critério eivado de grande subjetividade, não há que se questionar como poderão os filhos da família Silva agir em prol do nosso país.
Ontem, o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, meteu o bedelho na discussão e disse que o assunto é de uma “irrelevância absoluta”. Vejam só! Aquilo que era relevantíssimo no passado, uma das pedras angulares do discurso petista, passa atualmente, num passe de mágica, a ser considerado irrelevante. Como não há maneira de justificar o injustificável, Marco Aurélio atribui as críticas feitas à concessão aos “3 ou 4% que consideram o governo Lula péssimo” (Cf. Filhos de Lula renovam passaporte diplomático e causam polêmica. O globo. 07/01/2011). O argumento, por absoluta falta de criatividade do autor, é, no mínimo, patético. Basta notar que, mesmo entre os adoradores do nosso líder barbudo e de seu governo, há aqueles que repudiam regalias como a que aqui se discute.
Ah sim.... já ia me esquecendo: também deu na Folha de S. Paulo que o neto de Lula, de 14 anos, igualmente contrariando norma interna do Itamaraty, ganhou o passaporte dois dias antes do término do mandato do avô. Menino importante, hein?!!!!
Era isso mesmo ou estou enganado?
Não era o ex-presidente sem anel de Doutor quem lutava pelo fim das políticas clientelistas e do fisiologismo? Não era ele que entendia ser necessária a igualdade de oportunidades para todos os brasileiros? Não era ele que criticava a postura das nossas elites atrasadas, marcadas por laços de caudilho?
Recentemente, ao ler a Folha de S. Paulo fui surpreendido pela notícia de que, dois dias antes de terminar seu mandato, pediu a renovação dos passaportes diplomáticos de seus filhos. Essa renovação é válida por mais 4 anos. Ou seja, enquanto a Sra. Dilma governar o país, os filhos de Lula, sem que tenham qualquer ligação com o governo e com a esfera da administração pública, poderão gozar das benesses que o tal passaporte lhes dá, entre elas a de não precisarem de visto para ir para China e para a Índia.
Mas não é só! Os garotos não precisarão enfrentar filas na alfândega! E isso, provavelmente, no entender do guru sem o anel de Doutor, não é nenhuma regalia.
Sabem a história daqueles que não enfrentam fila? Daqueles que sempre dizem o “sabe com quem está falando”? Sim, aqueles que têm e/ou tiveram os privilégios sempre combatidos por Lula e seu partido? Naturalmente, eles nenhuma relação terão com os filhos do nosso emotivo ex-presidente.
Não bastasse a bizarrice dessa concessão, chamou-me a atenção a forma como se pretendeu justificá-la. Embora já tenham excedido a idade necessária para obtenção do especialíssimo documento (24 anos), aos filhos de Luiz Inácio a renovação se deu sob o pretexto de que existe o “interesse do país”. Esse foi o argumento utilizado pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Como o “interesse do país” é critério eivado de grande subjetividade, não há que se questionar como poderão os filhos da família Silva agir em prol do nosso país.
Ontem, o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, meteu o bedelho na discussão e disse que o assunto é de uma “irrelevância absoluta”. Vejam só! Aquilo que era relevantíssimo no passado, uma das pedras angulares do discurso petista, passa atualmente, num passe de mágica, a ser considerado irrelevante. Como não há maneira de justificar o injustificável, Marco Aurélio atribui as críticas feitas à concessão aos “3 ou 4% que consideram o governo Lula péssimo” (Cf. Filhos de Lula renovam passaporte diplomático e causam polêmica. O globo. 07/01/2011). O argumento, por absoluta falta de criatividade do autor, é, no mínimo, patético. Basta notar que, mesmo entre os adoradores do nosso líder barbudo e de seu governo, há aqueles que repudiam regalias como a que aqui se discute.
Ah sim.... já ia me esquecendo: também deu na Folha de S. Paulo que o neto de Lula, de 14 anos, igualmente contrariando norma interna do Itamaraty, ganhou o passaporte dois dias antes do término do mandato do avô. Menino importante, hein?!!!!
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Incômodos espelhos
Incômodos espelhos – Roberto Barbato Jr
Ainda moleque notei uma disposição ímpar para suscitar desditas. Elas se me apresentavam amiúde, sem hora nem lugar certo. Acometiam-me os assombros dos espíritos de má fé que, sempre sequiosos de aporrinhar alguém, encontravam em mim presa fácil. Já estava desconfiado de que o pagamento de certos tributos mundanos me era mesmo uma dessas imposições as quais não se pode delir. Cogitei da possibilidade de uma sina, um destino adrede traçado. Mas, ora, isso não podia ser...
Pouco a pouco percebi que modificara a forma como vislumbrava minhas desventuras. Tudo agora se cifrava a uma tortura psicológica, eivada de idéias fixas, tormentos íntimos e outras coisas mais. Se outrora importunavam-me as agressões evidentes, hoje vivo perplexo diante de uma evidência sutil, porém nada rasa.
Sua presença em minha vida tornou-se tão insidiosa que me flagro pensando em sua morada. Ele vive numa edícula, nos fundos de um imóvel velho, quase abandonado. Ao abrir a porta da entrada, nota-se estranhamente espelhos dispostos irregularmente. Sente-se logo o cheiro de mofo e o olor indecente das fezes dos felinos que lá fincaram raízes, com seu consentimento. Recebem-no com indiferença, resignando-se a mover apenas os olhos. Depois, instados a sair de onde estão, rebelam-se à farta, berram um grito quase humano. Correm lépidos para fora da sala, não sem antes esbarrar em seus sapatos. Ele coloca sua sacola rente ao sofá puído, furado pelas guimbas de cigarro que lá caíram porque negligenciou a busca do cinzeiro. Senta no chão e ali fica horas, inerte. Não sabe se come os restos da refeição que logrou fazer na rua, colocados num saco plástico já deteriorado. Imagina que seria prudente tomar um banho após quase duas semanas de abstenção à água. Incomoda-se muito pouco com o cheiro que exala de suas roupas e do suor escuro, porque misturado com as crostas de sujeira de seu corpo. Regozija-se, aliás, com elas. Crava-lhe as unhas compridas para depois deleitar-se ao tirar as pequenas fileiras de gordura ali acumuladas e levá-las ao nariz. Desiste da refeição e do banho. Afaga a testa com o indicador, deslisa o dedo até encontrar o limite da peruca loira, amarelo-cor-de-gema, que lhe atribui um inconteste aspecto postiço. Deita no colchão, boceja e dorme um sono profundo, bastante atormentado. Sua aparência repugnante é mais uma cor a compor o quadro daquele lugar sombrio.
Ele somente sonha um sonho tranqüilo quando Alferes posta-se ao seu lado, a cabeça empinada, como a insinuar que o assiste a cada instante. Por certo não tem ciência da presença do felino, mas a sente. O nariz adunco não lhe é bastante para aspirar o ar que precisa; por isso, recorre à abertura da boca com certa freqüência. O cheiro fétido exalado de seu estômago já constituiu interesse para o bichano que, com andar ressabiado, chegara perto do dono, olhara furtivamente as lacunas frontais de sua dentição e abandonara o intento de saborear o que quer que se mostrasse atraente.
Ao acordar, já na manhã seguinte, não boceja, não espreguiça; apenas olha com indiferença para os raios do sol que incidem sobre o rabo de Alferes. Imagina que poderia dar ao gato dileto um tratamento mais requintado: tosa, banho e consultas periódicas ao veterinário. No inverno colocar-lhe-ia uma roupa meticulosamente planejada para seu corpo. As patas, ah... as patas seriam calçadas com meias antiderrapantes... No verão, como a insinuar a fidalguia do bicho, limitar-se-ia a colocar um laço pomposo em sua cabeça. Fosse qual fosse a estação do ano, não deixaria de passar algum xampu manipulado em farmácias, dessas que atendem gente... Tudo isso só faria sentido uma vez rico. Uma vez rico! Sim, ele já fora rico. Houve, em tempos mais ditosos, um conforto a permear aquela vida hoje decadente.
Ele agora permanece deitado, como a recordar sua história pretérita. Lembra-se de quando, concluído o colegial, dissera ao pai que pretendia mesmo gozar a vida. Não lhe passava pela cabeça a possibilidade de qualquer labor; não havia, ademais, descoberto sua vocação. Na falta de uma, resolvera que vagabundear não seria mau negócio. Especializara-se em modalidades várias de vícios: bebidas, fumos, jogos e também mulheres. Estas lhe eram tão íntimas que não usava o tempo para conhecê-las; restringia-se apenas a aproveitar aquelas disponíveis. Eram muitas, invariavelmente ao seu dispor. Não se importava se alguma delas não lhe pudesse satisfazer a contento. Nesses casos, solicitava a presença de outra que certamente o saciaria de pronto. Era generoso com a retribuição dos favores sexuais prestados. Ao término da cópula, sentia ainda mais prazer emitindo frêmitos cadenciados enquanto tateava levemente as notas destinadas ao pagamento. Dobrava-as em seqüência de valores; do menor para o maior, como a sugerir que tudo tenciona ocorrer evolutivamente. Pegava o elástico amarelo, manchado, dava duas voltas no maço de notas e ouvia o estalar da borracha no papel. Era o ápice!
Não quisera casar-se. Tivera um rompante caso de amor, desses arrebatadores. A princípio, Lucélia lhe deixara inebriado de paixão, suspirando forte sempre que a via. Emoções batiam-lhe no peito e o coração batia forte, sempre muito forte. Sentia odores, os mais agradáveis. A moça entrevira sua preferência por aromas doces, dulcíssimos. Banhava-se com ervas, fragrâncias finas. Sabia como lhe agradar. Seduzira-o pela primeira vez num bosque, enquanto passeavam. Ali mesmo, entre um jequitibá e outro, consumaram a paixão. Ele, afoito; ela, tranqüila e sem medo. A partir de então passaram a abusar da privacidade que quatro paredes poderiam lhes propiciar. Os lençóis cheirosos, limpos e passados; o tinto, devidamente respirado, aguardando pelo primeiro trago; o som tocado de alguma composição apta a estimular a lascívia; a facilidade para o despojamento das indumentárias... Isso apetecia mais a ele do que a ela. Era, enfim, um rapaz de costumes refinados. Ela sabia disso...
Propusera-lhe casamento. Lucélia ansiava constituir família. Os parcos proventos que recebia não lhe eram suficientes. Ele declinou da proposta, que julgou, aliás, indecorosa. Um desvario! Onde já se viu! Casamento... Continuara com a vida promíscua, pródiga e em tudo exagerada!
Morrera-lhe o pai. Chorou a morte do velho ciente de que o vultoso patrimônio herdado logo mais seria digerido, queimado juntamente com as mulheres, os jogos, os vícios, os vinhos. E, assim, deixara de copular, de jogar, de tragar...
Naquela manhã, pelejando compreender sua aviltante condição social, sobreviera-lhe algum traço de consciência possível. Em profunda solidão, depositara o olhar rútilo nos incômodos espelhos dispersos pela sala e vira, de modo inequívoco, a si próprio. Era eu quem me olhava, buscando sonegar, ao menos dessa vez, os tributos que a vida me cobrava.
Ainda moleque notei uma disposição ímpar para suscitar desditas. Elas se me apresentavam amiúde, sem hora nem lugar certo. Acometiam-me os assombros dos espíritos de má fé que, sempre sequiosos de aporrinhar alguém, encontravam em mim presa fácil. Já estava desconfiado de que o pagamento de certos tributos mundanos me era mesmo uma dessas imposições as quais não se pode delir. Cogitei da possibilidade de uma sina, um destino adrede traçado. Mas, ora, isso não podia ser...
Pouco a pouco percebi que modificara a forma como vislumbrava minhas desventuras. Tudo agora se cifrava a uma tortura psicológica, eivada de idéias fixas, tormentos íntimos e outras coisas mais. Se outrora importunavam-me as agressões evidentes, hoje vivo perplexo diante de uma evidência sutil, porém nada rasa.
Sua presença em minha vida tornou-se tão insidiosa que me flagro pensando em sua morada. Ele vive numa edícula, nos fundos de um imóvel velho, quase abandonado. Ao abrir a porta da entrada, nota-se estranhamente espelhos dispostos irregularmente. Sente-se logo o cheiro de mofo e o olor indecente das fezes dos felinos que lá fincaram raízes, com seu consentimento. Recebem-no com indiferença, resignando-se a mover apenas os olhos. Depois, instados a sair de onde estão, rebelam-se à farta, berram um grito quase humano. Correm lépidos para fora da sala, não sem antes esbarrar em seus sapatos. Ele coloca sua sacola rente ao sofá puído, furado pelas guimbas de cigarro que lá caíram porque negligenciou a busca do cinzeiro. Senta no chão e ali fica horas, inerte. Não sabe se come os restos da refeição que logrou fazer na rua, colocados num saco plástico já deteriorado. Imagina que seria prudente tomar um banho após quase duas semanas de abstenção à água. Incomoda-se muito pouco com o cheiro que exala de suas roupas e do suor escuro, porque misturado com as crostas de sujeira de seu corpo. Regozija-se, aliás, com elas. Crava-lhe as unhas compridas para depois deleitar-se ao tirar as pequenas fileiras de gordura ali acumuladas e levá-las ao nariz. Desiste da refeição e do banho. Afaga a testa com o indicador, deslisa o dedo até encontrar o limite da peruca loira, amarelo-cor-de-gema, que lhe atribui um inconteste aspecto postiço. Deita no colchão, boceja e dorme um sono profundo, bastante atormentado. Sua aparência repugnante é mais uma cor a compor o quadro daquele lugar sombrio.
Ele somente sonha um sonho tranqüilo quando Alferes posta-se ao seu lado, a cabeça empinada, como a insinuar que o assiste a cada instante. Por certo não tem ciência da presença do felino, mas a sente. O nariz adunco não lhe é bastante para aspirar o ar que precisa; por isso, recorre à abertura da boca com certa freqüência. O cheiro fétido exalado de seu estômago já constituiu interesse para o bichano que, com andar ressabiado, chegara perto do dono, olhara furtivamente as lacunas frontais de sua dentição e abandonara o intento de saborear o que quer que se mostrasse atraente.
Ao acordar, já na manhã seguinte, não boceja, não espreguiça; apenas olha com indiferença para os raios do sol que incidem sobre o rabo de Alferes. Imagina que poderia dar ao gato dileto um tratamento mais requintado: tosa, banho e consultas periódicas ao veterinário. No inverno colocar-lhe-ia uma roupa meticulosamente planejada para seu corpo. As patas, ah... as patas seriam calçadas com meias antiderrapantes... No verão, como a insinuar a fidalguia do bicho, limitar-se-ia a colocar um laço pomposo em sua cabeça. Fosse qual fosse a estação do ano, não deixaria de passar algum xampu manipulado em farmácias, dessas que atendem gente... Tudo isso só faria sentido uma vez rico. Uma vez rico! Sim, ele já fora rico. Houve, em tempos mais ditosos, um conforto a permear aquela vida hoje decadente.
Ele agora permanece deitado, como a recordar sua história pretérita. Lembra-se de quando, concluído o colegial, dissera ao pai que pretendia mesmo gozar a vida. Não lhe passava pela cabeça a possibilidade de qualquer labor; não havia, ademais, descoberto sua vocação. Na falta de uma, resolvera que vagabundear não seria mau negócio. Especializara-se em modalidades várias de vícios: bebidas, fumos, jogos e também mulheres. Estas lhe eram tão íntimas que não usava o tempo para conhecê-las; restringia-se apenas a aproveitar aquelas disponíveis. Eram muitas, invariavelmente ao seu dispor. Não se importava se alguma delas não lhe pudesse satisfazer a contento. Nesses casos, solicitava a presença de outra que certamente o saciaria de pronto. Era generoso com a retribuição dos favores sexuais prestados. Ao término da cópula, sentia ainda mais prazer emitindo frêmitos cadenciados enquanto tateava levemente as notas destinadas ao pagamento. Dobrava-as em seqüência de valores; do menor para o maior, como a sugerir que tudo tenciona ocorrer evolutivamente. Pegava o elástico amarelo, manchado, dava duas voltas no maço de notas e ouvia o estalar da borracha no papel. Era o ápice!
Não quisera casar-se. Tivera um rompante caso de amor, desses arrebatadores. A princípio, Lucélia lhe deixara inebriado de paixão, suspirando forte sempre que a via. Emoções batiam-lhe no peito e o coração batia forte, sempre muito forte. Sentia odores, os mais agradáveis. A moça entrevira sua preferência por aromas doces, dulcíssimos. Banhava-se com ervas, fragrâncias finas. Sabia como lhe agradar. Seduzira-o pela primeira vez num bosque, enquanto passeavam. Ali mesmo, entre um jequitibá e outro, consumaram a paixão. Ele, afoito; ela, tranqüila e sem medo. A partir de então passaram a abusar da privacidade que quatro paredes poderiam lhes propiciar. Os lençóis cheirosos, limpos e passados; o tinto, devidamente respirado, aguardando pelo primeiro trago; o som tocado de alguma composição apta a estimular a lascívia; a facilidade para o despojamento das indumentárias... Isso apetecia mais a ele do que a ela. Era, enfim, um rapaz de costumes refinados. Ela sabia disso...
Propusera-lhe casamento. Lucélia ansiava constituir família. Os parcos proventos que recebia não lhe eram suficientes. Ele declinou da proposta, que julgou, aliás, indecorosa. Um desvario! Onde já se viu! Casamento... Continuara com a vida promíscua, pródiga e em tudo exagerada!
Morrera-lhe o pai. Chorou a morte do velho ciente de que o vultoso patrimônio herdado logo mais seria digerido, queimado juntamente com as mulheres, os jogos, os vícios, os vinhos. E, assim, deixara de copular, de jogar, de tragar...
Naquela manhã, pelejando compreender sua aviltante condição social, sobreviera-lhe algum traço de consciência possível. Em profunda solidão, depositara o olhar rútilo nos incômodos espelhos dispersos pela sala e vira, de modo inequívoco, a si próprio. Era eu quem me olhava, buscando sonegar, ao menos dessa vez, os tributos que a vida me cobrava.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Tom Jobim, sempre
Hoje faz 16 anos que Tom Jobim morreu. Pela falta de tempo e pela necessidade de recordá-lo, sempre, segue abaixo o link para o post publicado em 08/12/2008.
Trata-se de A morte do Maestro Soberano
Trata-se de A morte do Maestro Soberano
domingo, 28 de novembro de 2010
Preconceito: blog é coisa de veado (e vagabundo)
- Blog é coisa de veado!
- Com certeza: coisa de veado.
- Veado e vagabundo!
- Claro: o cara, além de veado, é vagabundo.
- Veado, porque blog é como diário. E diário é coisa de menina adolescente. Se o cara escreve diário na Internet, não importa. Continua sendo diário. Portanto, quem escreve diário, sendo homem, não é homem, é veado.
- É isso aí. Veado e vagabundo.
- Vagabundo mesmo. Quem escreve em blog não tem mais o que fazer da vida. Imagine: o cara escreve todo dia. É sempre aquela conversa mole. Se ainda fosse jornalista, vá lá....
- É mesmo. Se o cara trabalhasse, não teria tempo para escrever em blog, em diário ou sei lá.
- Isso não é nada. Quem quer saber da vida dele? Saber da vida de um veado e vagabundo?
- Quem? Quem quer saber?
- Só se forem outros veados que também têm blogs. Vira uma veadagem só! Um monte de veados vagabundos. Porque ser veado, vá lá, tudo bem. Agora, ser veado e vagabundo é o fim da picada.
- É verdade. Uma legião de blogueiros vagabundos.
- Blogueiros vagabundos é pleonasmo.
- Verdade. Pleonasmo. Pleonasíssimo.
- E tem vagabundo que escreve em blog porque diz que faz literatura. Publica lá uns contos, umas crônicas. Se fossem bons, publicaria em livros. Teria um monte de editoras querendo publicar. Mas, não. Os caras gostam mesmo é de blog.
- Veados! Uns veados! Uns vagabundos!
- Acham que o blog tem mais penetração.
- Tá vendo: isso é papo de veado. Penetração....
- Atinge um público maior, eles dizem. Não ficam presos às teias editoriais, ao controle do mercado literário.
- Pois é. Essa história de liberdade literária só pode ser coisa de veado.
- Homem que é homem não briga por liberdade. Homem que é homem, é livre. E pronto. O cara escreve o que quer e a editora publica. E ai do editor se não publicar.
- Mas é aí que está o ponto.
- Que ponto?
- Vou explicar. Preste a atenção: o editor só não publica se perceber que o cara é veado ou vagabundo. Aí, recusa os originais e manda o veado-vagagundo escrever em blog. O veado fica triste porque o livro não vai sair, mas, logo depois, percebe que o melhor é escrever em blog mesmo (afinal, também é vagabundo). Acha que sua obra será melhor difundida. É a tal história da penetração que você falou....
- Eu? Penetração?
- É. Penetração!
- Tô achando que você é que é veado. Você tem blog?
- Com certeza: coisa de veado.
- Veado e vagabundo!
- Claro: o cara, além de veado, é vagabundo.
- Veado, porque blog é como diário. E diário é coisa de menina adolescente. Se o cara escreve diário na Internet, não importa. Continua sendo diário. Portanto, quem escreve diário, sendo homem, não é homem, é veado.
- É isso aí. Veado e vagabundo.
- Vagabundo mesmo. Quem escreve em blog não tem mais o que fazer da vida. Imagine: o cara escreve todo dia. É sempre aquela conversa mole. Se ainda fosse jornalista, vá lá....
- É mesmo. Se o cara trabalhasse, não teria tempo para escrever em blog, em diário ou sei lá.
- Isso não é nada. Quem quer saber da vida dele? Saber da vida de um veado e vagabundo?
- Quem? Quem quer saber?
- Só se forem outros veados que também têm blogs. Vira uma veadagem só! Um monte de veados vagabundos. Porque ser veado, vá lá, tudo bem. Agora, ser veado e vagabundo é o fim da picada.
- É verdade. Uma legião de blogueiros vagabundos.
- Blogueiros vagabundos é pleonasmo.
- Verdade. Pleonasmo. Pleonasíssimo.
- E tem vagabundo que escreve em blog porque diz que faz literatura. Publica lá uns contos, umas crônicas. Se fossem bons, publicaria em livros. Teria um monte de editoras querendo publicar. Mas, não. Os caras gostam mesmo é de blog.
- Veados! Uns veados! Uns vagabundos!
- Acham que o blog tem mais penetração.
- Tá vendo: isso é papo de veado. Penetração....
- Atinge um público maior, eles dizem. Não ficam presos às teias editoriais, ao controle do mercado literário.
- Pois é. Essa história de liberdade literária só pode ser coisa de veado.
- Homem que é homem não briga por liberdade. Homem que é homem, é livre. E pronto. O cara escreve o que quer e a editora publica. E ai do editor se não publicar.
- Mas é aí que está o ponto.
- Que ponto?
- Vou explicar. Preste a atenção: o editor só não publica se perceber que o cara é veado ou vagabundo. Aí, recusa os originais e manda o veado-vagagundo escrever em blog. O veado fica triste porque o livro não vai sair, mas, logo depois, percebe que o melhor é escrever em blog mesmo (afinal, também é vagabundo). Acha que sua obra será melhor difundida. É a tal história da penetração que você falou....
- Eu? Penetração?
- É. Penetração!
- Tô achando que você é que é veado. Você tem blog?
sábado, 20 de novembro de 2010
Mané Fogueteiro e a minha angústia
Existem certas angústias e sentimentos que, aos olhos da maioria das pessoas, poderiam soar insossas, não houvesse razão bastante peculiar que as justificassem....
Em 1992, quando Caetano fez 50 anos, houve um especial de comemoração de seu aniversário. Se não me engano, era época do então LP (também vendido na versão CD) "Circuladô de Fulô". O vídeo foi veiculado não sei onde e, depois, virou VHS.
No especial, Caetano cantava sua primeira música, que é digna de nota e merecia ter sido gravada. Também falava dos compositores que lhe inspiraram, sem se esquecer, obviamente, daquele que credita ser o mais importante da música popular brasileira: João Gilberto.
Referindo-se à sua música "Genipapo Absoluto", do LP "Estrangeiro", disse que havia emprestado uma parte da música de Braguinha (João de Barro), chamada "Mané Fogueteiro". O último trecho da música de Caetano é o seguinte:
"'Aquele que considera' a saudade
Uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a 'rosa também'".
Mané Fogueteiro, por sua vez, tem o seguinte trecho:
"Mané Fogueteiro gostava da Rosa
Cabocla mais linda esse mundo não tem
Mas o pior é que o Zé Boticário
Gostava um bocado da Rosa também".
Fiquei com "Mané Fogueteiro" na cabeça durante anos, sem saber a letra inteira. Como em 1992 a internet muito longe estava da nossa realidade, não tinha onde procurar pela música. Perguntei ao meu avô e à minha avó. Por serem mais velhos, provavelmente, conheceriam a composição de Braguinha. Ninguém, entretanto, ouvira falar dela.
Depois que meu avô morreu, ainda insisti com minha avó. Nenhuma lembrança, por mais vaga que fosse, ocupava a cabeça dela. Era o que dizia, embora eu tivesse a convicção de que, repentinamente, ainda fosse se recordar da melodia e, consequentemente, da letra. No ano passado, consegui uma bela versão da música. Baixei-a da internet e a remeti para minha irmã, que estava indo para Rio Preto visitar minha avó. Bastaria reproduzi-la no laptop para que sua memória fosse refrescada. Minha irmã de fato dormiu em seu apartamento, conversou com ela e riu de suas histórias. Por algum motivo que agora me escapa, esqueci-me de perguntar à minha irmã sobre a resposta dada por D. Líbia quando da suposta audição da música.
Recentemente, indagada a respeito dessa resposta, minha irmã chegou a sugerir, hesitante, que nem sequer executou a música para sanar minha dúvida. Indignado, cobrei-lhe uma posição precisa, mas de nada adiantou.
Minha avó se foi pouco depois e o Mané Fogueteiro agora está atrelado a uma angústia que talvez me consuma o resto da vida.
Em 1992, quando Caetano fez 50 anos, houve um especial de comemoração de seu aniversário. Se não me engano, era época do então LP (também vendido na versão CD) "Circuladô de Fulô". O vídeo foi veiculado não sei onde e, depois, virou VHS.
No especial, Caetano cantava sua primeira música, que é digna de nota e merecia ter sido gravada. Também falava dos compositores que lhe inspiraram, sem se esquecer, obviamente, daquele que credita ser o mais importante da música popular brasileira: João Gilberto.
Referindo-se à sua música "Genipapo Absoluto", do LP "Estrangeiro", disse que havia emprestado uma parte da música de Braguinha (João de Barro), chamada "Mané Fogueteiro". O último trecho da música de Caetano é o seguinte:
"'Aquele que considera' a saudade
Uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a 'rosa também'".
Mané Fogueteiro, por sua vez, tem o seguinte trecho:
"Mané Fogueteiro gostava da Rosa
Cabocla mais linda esse mundo não tem
Mas o pior é que o Zé Boticário
Gostava um bocado da Rosa também".
Fiquei com "Mané Fogueteiro" na cabeça durante anos, sem saber a letra inteira. Como em 1992 a internet muito longe estava da nossa realidade, não tinha onde procurar pela música. Perguntei ao meu avô e à minha avó. Por serem mais velhos, provavelmente, conheceriam a composição de Braguinha. Ninguém, entretanto, ouvira falar dela.
Depois que meu avô morreu, ainda insisti com minha avó. Nenhuma lembrança, por mais vaga que fosse, ocupava a cabeça dela. Era o que dizia, embora eu tivesse a convicção de que, repentinamente, ainda fosse se recordar da melodia e, consequentemente, da letra. No ano passado, consegui uma bela versão da música. Baixei-a da internet e a remeti para minha irmã, que estava indo para Rio Preto visitar minha avó. Bastaria reproduzi-la no laptop para que sua memória fosse refrescada. Minha irmã de fato dormiu em seu apartamento, conversou com ela e riu de suas histórias. Por algum motivo que agora me escapa, esqueci-me de perguntar à minha irmã sobre a resposta dada por D. Líbia quando da suposta audição da música.
Recentemente, indagada a respeito dessa resposta, minha irmã chegou a sugerir, hesitante, que nem sequer executou a música para sanar minha dúvida. Indignado, cobrei-lhe uma posição precisa, mas de nada adiantou.
Minha avó se foi pouco depois e o Mané Fogueteiro agora está atrelado a uma angústia que talvez me consuma o resto da vida.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Heresia
Estava na Siciliano. Vi o livro, peguei um exemplar e sentei no chão. Comecei a ler. Era fantástico, como todas as demais obras daquele autor. Gargalhei aos montes e, além disso, o clima da narrativa me tomou por inteiro. Não conseguia parar de lê-la. Continuei mais um pouco. Quando a trama anunciou o que realmente viria pela frente, tive de encerrar a leitura. Já era hora de ir embora. Não comprei o livro naquele dia, mas fiquei com água na boca.
Logo depois, ganhei a obra, que chegou pelos Correios. Como não havia lido muitas páginas, reiniciei a leitura e, pouco a pouco, fui notando que a história se arrastava. Parei para pensar que algo devia estar equivocado.
Seria porque o autor é especialista em outro gênero? Seria porque não estava no clima daquele texto? Mas, como? Na Siciliano eu podia jurar que o livro era delicioso....
Insisti. Não se deixa de ler um livro sem um motivo realmente forte. Por certo, eu estava enganado. Talvez fosse questão de algumas páginas. Bastaria ler mais um pouco para encontrar a felicidade. De nada adiantou, contudo. Prosseguir já não era mais um caminho agradável. Era incompatível com o prazer da leitura. Resolvi abandoná-la. Ainda tenho a esperança de que, em uma oportunidade qualquer, possa retomá-la e me envolver com ela.
Hoje, olhando para aquela situação, imagino que pareça uma grande heresia o fato de eu não ter conseguido terminar a leitura do livro. Trata-se de Os espiões, do Luis Fernando Veríssimo. Paciência. Quem sabe um dia?
Logo depois, ganhei a obra, que chegou pelos Correios. Como não havia lido muitas páginas, reiniciei a leitura e, pouco a pouco, fui notando que a história se arrastava. Parei para pensar que algo devia estar equivocado.
Seria porque o autor é especialista em outro gênero? Seria porque não estava no clima daquele texto? Mas, como? Na Siciliano eu podia jurar que o livro era delicioso....
Insisti. Não se deixa de ler um livro sem um motivo realmente forte. Por certo, eu estava enganado. Talvez fosse questão de algumas páginas. Bastaria ler mais um pouco para encontrar a felicidade. De nada adiantou, contudo. Prosseguir já não era mais um caminho agradável. Era incompatível com o prazer da leitura. Resolvi abandoná-la. Ainda tenho a esperança de que, em uma oportunidade qualquer, possa retomá-la e me envolver com ela.
Hoje, olhando para aquela situação, imagino que pareça uma grande heresia o fato de eu não ter conseguido terminar a leitura do livro. Trata-se de Os espiões, do Luis Fernando Veríssimo. Paciência. Quem sabe um dia?
sábado, 6 de novembro de 2010
Era carnaval
Era carnaval – Roberto Barbato Jr
Era carnaval. O desfile das Escolas de Samba talvez fosse o único programa para aquela noite. Hesitara ligar a TV, temendo que todo seu passado viesse à tona, em quadros nítidos, detalhistas. Temia por isso e não raro evitava qualquer situação capaz de fazê-la regredir no tempo. Pensara que devesse dormir, mas a idéia lhe soara covarde. Aceitara o desafio, não sem antes preparar uma dose de malte importado que houvera guardado para ocasiões especiais.
Uísque em punho, TV ligada. Acompanhava o desfile observando cada minúcia das fantasias. Apreciava-as. A velhice não fora capaz de elidir o despudor que tivera nos anos de juventude. As mulheres desnudas, seios aparentes e as nádegas destacadas pelas câmeras não lhe causavam nenhuma espécie de repulsa. Não tinha, ademais, o falso moralismo característico das mulheres de sua geração. Não sabia, por questão de natureza, ser hipócrita. Agira assim desde sempre. Agora, tão-só e concentrada, via a pouca vergonha de que outrora fora cúmplice, sem ter de opinar e tampouco se defender. Se quisessem, poderiam se desnudar por inteiro, pensava sobre as meninas da tela. Tanto fazia. Era carnaval.
Lembrava-se com sabor dos anos em que figurava como a mais destacada vedete do Teatro de Revista. À época, tachada de sirigaita, fazia questão de afrontar as senhoras de família. Deixava as coxas à mostra, despertando a lascívia masculina. Não abria mão do alto salto, sempre a retesar a panturrilha, de modo a evidenciá-la em seus mais definidos contornos. Rebolava vulgarmente, içava a anca, dando giros sutis para que parecesse provocante. Mesmo os homens menos abnegados lhe enxergavam um excesso de leviandade.
O ônus de sua irreverência, contudo, fora pesado: apaixonara-se e casara-se com Heitor Fontana. Político ambicioso, Heitor logo se encarregara de enfrear a mulher. Dela exigia que o acompanhasse, resignadamente, em jantares os mais enfadonhos, típicos da classe política de então. Dela também exigia que se vestisse assaz contida. Por ele, teria que abandonar os hábitos da vida pregressa, os dizeres, as indumentárias. Não foi sem relutância que fizera tudo isso. Depois, dera um, dois, três filhos ao marido.
Os meninos cresceram ouvindo, sempre à socapa, comentários sobre o passado da mãe. Acometia-os um sentimento de injustiça, como duvidassem do teor daquelas narrativas. Trancavam-se na biblioteca com o pai, a fim de confirmar a veracidade dos boatos.
Eram filhos da puta!
Do dia para a noite, os comentários cessaram: Heitor ocupara pasta no Ministério. Já não eram filhos da puta, os meninos. Eram filhos-do-Ministro. Ela passou a ser a mulher-do-Ministro, a senhora Fontana. Tivera de se conter ainda mais. Haveria de reprimir-se demasiado, senão pela vontade, pela força. Passara a freqüentar, com relativa assiduidade, eventos ligados a ações beneméritas. Chás com primeiras damas e salões de beleza, embora não lhe interessassem, eram-lhe menos inconvenientes. A proximidade com o poder, o requinte e a abundância financeira não lhe causavam prazer, entretanto. Pudesse optar, continuaria na vida de tempos pretéritos, participando de espetáculos de casas de show, exibindo os belos dotes físicos que Deus felizmente lhe dera.
Rebelara-se um dia. Deixara de ser a mulher de Heitor, mãe de seus filhos, mulher de ministro, enfim. Tivera um repente e voltara para vida noturna. Assinara contrato com uma casa de prestígio. Lá fatalmente compareceriam os amigos do marido e - quem sabe? – até os filhos.... Sentira orgulho da decisão. Irromperia contra qualquer adversidade, manteria seu firme propósito. A idade, já um pouco avançada para quem possui tamanhas pretensões, não lhe dedicara peso nenhum. Era com leveza que reacendia as chamas do antigo ofício, com paz de espírito e, sobretudo, com serenidade.
Inconformado, Heitor fizera várias diligências: fechara a casa, procurara abafar o pretenso escândalo, comprara a imprensa. Tudo quanto pudesse ser resumido às cifras de sua posse seria devidamente utilizado. Lançara mão de todos os expedientes para que sua reputação não fosse conspurcada. Não escondera a verdade dos meninos, já crescidos. Desde então Julieta jamais fora vista em festas e coquetéis. Passara extenso tempo reclusa em casa. Dizia-se que sofria dos nervos, tendo se submetido, inclusive, a incansáveis tratamentos de choque e terapia.
Mudara o governo. A carreira promissora de Heitor não resistira ao segundo ato. Sobreviera-lhe um infortúnio quando, imprudente, deixara-se levar pelos sedutores louros da corrupção. Não fora capaz de se aprumar tal como seus pares faziam com tanta facilidade. Restara-lhe apenas o ofício de causídico e, mesmo este, diante de circunstâncias tão vexaminosas, não lhe pudera garantir o padrão de vida com o qual havia se acostumado. As causas que assumia eram raras e pouco rentáveis. Os filhos, destituídos de habilidades profissionais, tiveram de procurar emprego! Findaram-se as polpudas mesadas que serviam a extravagâncias de variado gênero.
Emprego!, diziam de si para si mesmos, a boca desdenhosa, torta.
Julieta a tudo assistia calada. Testemunhava a decadência material da família sem um mínimo de compaixão pelos seus. Achava mesmo que os filhos deveriam tomar tento, mostrando-se úteis de alguma maneira. Chamava-os para conversar.
Vagabundos! Eram vagabundos! Uns indolentes.
Desentendera-se com todos, não falava mais palavra com nenhum. Heitor expulsara-a de casa. Que fosse aos infernos! À merda! Pagara-lhe o aluguel de uma edícula fétida, no subúrbio da cidade. Deixara-a apenas com a memória sadia, apta a lhe dar alguma satisfação. Vivia só, embriagada de recordações.
Naquela noite, por longas horas, entre cores, sons, alegorias e nomes, pôde rever toda sua vida. Esboçando um riso furtivo e sarcástico, pensou em Heitor. Pensou no ministro. Pensou nos vagabundos. Pensou nos filhos da puta. Pensou também que nada mais importava: era carnaval.
Era carnaval. O desfile das Escolas de Samba talvez fosse o único programa para aquela noite. Hesitara ligar a TV, temendo que todo seu passado viesse à tona, em quadros nítidos, detalhistas. Temia por isso e não raro evitava qualquer situação capaz de fazê-la regredir no tempo. Pensara que devesse dormir, mas a idéia lhe soara covarde. Aceitara o desafio, não sem antes preparar uma dose de malte importado que houvera guardado para ocasiões especiais.
Uísque em punho, TV ligada. Acompanhava o desfile observando cada minúcia das fantasias. Apreciava-as. A velhice não fora capaz de elidir o despudor que tivera nos anos de juventude. As mulheres desnudas, seios aparentes e as nádegas destacadas pelas câmeras não lhe causavam nenhuma espécie de repulsa. Não tinha, ademais, o falso moralismo característico das mulheres de sua geração. Não sabia, por questão de natureza, ser hipócrita. Agira assim desde sempre. Agora, tão-só e concentrada, via a pouca vergonha de que outrora fora cúmplice, sem ter de opinar e tampouco se defender. Se quisessem, poderiam se desnudar por inteiro, pensava sobre as meninas da tela. Tanto fazia. Era carnaval.
Lembrava-se com sabor dos anos em que figurava como a mais destacada vedete do Teatro de Revista. À época, tachada de sirigaita, fazia questão de afrontar as senhoras de família. Deixava as coxas à mostra, despertando a lascívia masculina. Não abria mão do alto salto, sempre a retesar a panturrilha, de modo a evidenciá-la em seus mais definidos contornos. Rebolava vulgarmente, içava a anca, dando giros sutis para que parecesse provocante. Mesmo os homens menos abnegados lhe enxergavam um excesso de leviandade.
O ônus de sua irreverência, contudo, fora pesado: apaixonara-se e casara-se com Heitor Fontana. Político ambicioso, Heitor logo se encarregara de enfrear a mulher. Dela exigia que o acompanhasse, resignadamente, em jantares os mais enfadonhos, típicos da classe política de então. Dela também exigia que se vestisse assaz contida. Por ele, teria que abandonar os hábitos da vida pregressa, os dizeres, as indumentárias. Não foi sem relutância que fizera tudo isso. Depois, dera um, dois, três filhos ao marido.
Os meninos cresceram ouvindo, sempre à socapa, comentários sobre o passado da mãe. Acometia-os um sentimento de injustiça, como duvidassem do teor daquelas narrativas. Trancavam-se na biblioteca com o pai, a fim de confirmar a veracidade dos boatos.
Eram filhos da puta!
Do dia para a noite, os comentários cessaram: Heitor ocupara pasta no Ministério. Já não eram filhos da puta, os meninos. Eram filhos-do-Ministro. Ela passou a ser a mulher-do-Ministro, a senhora Fontana. Tivera de se conter ainda mais. Haveria de reprimir-se demasiado, senão pela vontade, pela força. Passara a freqüentar, com relativa assiduidade, eventos ligados a ações beneméritas. Chás com primeiras damas e salões de beleza, embora não lhe interessassem, eram-lhe menos inconvenientes. A proximidade com o poder, o requinte e a abundância financeira não lhe causavam prazer, entretanto. Pudesse optar, continuaria na vida de tempos pretéritos, participando de espetáculos de casas de show, exibindo os belos dotes físicos que Deus felizmente lhe dera.
Rebelara-se um dia. Deixara de ser a mulher de Heitor, mãe de seus filhos, mulher de ministro, enfim. Tivera um repente e voltara para vida noturna. Assinara contrato com uma casa de prestígio. Lá fatalmente compareceriam os amigos do marido e - quem sabe? – até os filhos.... Sentira orgulho da decisão. Irromperia contra qualquer adversidade, manteria seu firme propósito. A idade, já um pouco avançada para quem possui tamanhas pretensões, não lhe dedicara peso nenhum. Era com leveza que reacendia as chamas do antigo ofício, com paz de espírito e, sobretudo, com serenidade.
Inconformado, Heitor fizera várias diligências: fechara a casa, procurara abafar o pretenso escândalo, comprara a imprensa. Tudo quanto pudesse ser resumido às cifras de sua posse seria devidamente utilizado. Lançara mão de todos os expedientes para que sua reputação não fosse conspurcada. Não escondera a verdade dos meninos, já crescidos. Desde então Julieta jamais fora vista em festas e coquetéis. Passara extenso tempo reclusa em casa. Dizia-se que sofria dos nervos, tendo se submetido, inclusive, a incansáveis tratamentos de choque e terapia.
Mudara o governo. A carreira promissora de Heitor não resistira ao segundo ato. Sobreviera-lhe um infortúnio quando, imprudente, deixara-se levar pelos sedutores louros da corrupção. Não fora capaz de se aprumar tal como seus pares faziam com tanta facilidade. Restara-lhe apenas o ofício de causídico e, mesmo este, diante de circunstâncias tão vexaminosas, não lhe pudera garantir o padrão de vida com o qual havia se acostumado. As causas que assumia eram raras e pouco rentáveis. Os filhos, destituídos de habilidades profissionais, tiveram de procurar emprego! Findaram-se as polpudas mesadas que serviam a extravagâncias de variado gênero.
Emprego!, diziam de si para si mesmos, a boca desdenhosa, torta.
Julieta a tudo assistia calada. Testemunhava a decadência material da família sem um mínimo de compaixão pelos seus. Achava mesmo que os filhos deveriam tomar tento, mostrando-se úteis de alguma maneira. Chamava-os para conversar.
Vagabundos! Eram vagabundos! Uns indolentes.
Desentendera-se com todos, não falava mais palavra com nenhum. Heitor expulsara-a de casa. Que fosse aos infernos! À merda! Pagara-lhe o aluguel de uma edícula fétida, no subúrbio da cidade. Deixara-a apenas com a memória sadia, apta a lhe dar alguma satisfação. Vivia só, embriagada de recordações.
Naquela noite, por longas horas, entre cores, sons, alegorias e nomes, pôde rever toda sua vida. Esboçando um riso furtivo e sarcástico, pensou em Heitor. Pensou no ministro. Pensou nos vagabundos. Pensou nos filhos da puta. Pensou também que nada mais importava: era carnaval.
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