domingo, 28 de novembro de 2010

Preconceito: blog é coisa de veado (e vagabundo)

- Blog é coisa de veado!

- Com certeza: coisa de veado.

- Veado e vagabundo!

- Claro: o cara, além de veado, é vagabundo.

- Veado, porque blog é como diário. E diário é coisa de menina adolescente. Se o cara escreve diário na Internet, não importa. Continua sendo diário. Portanto, quem escreve diário, sendo homem, não é homem, é veado.

- É isso aí. Veado e vagabundo.

- Vagabundo mesmo. Quem escreve em blog não tem mais o que fazer da vida. Imagine: o cara escreve todo dia. É sempre aquela conversa mole. Se ainda fosse jornalista, vá lá....

- É mesmo. Se o cara trabalhasse, não teria tempo para escrever em blog, em diário ou sei lá.

- Isso não é nada. Quem quer saber da vida dele? Saber da vida de um veado e vagabundo?

- Quem? Quem quer saber?

- Só se forem outros veados que também têm blogs. Vira uma veadagem só! Um monte de veados vagabundos. Porque ser veado, vá lá, tudo bem. Agora, ser veado e vagabundo é o fim da picada.

- É verdade. Uma legião de blogueiros vagabundos.

- Blogueiros vagabundos é pleonasmo.

- Verdade. Pleonasmo. Pleonasíssimo.

- E tem vagabundo que escreve em blog porque diz que faz literatura. Publica lá uns contos, umas crônicas. Se fossem bons, publicaria em livros. Teria um monte de editoras querendo publicar. Mas, não. Os caras gostam mesmo é de blog.

- Veados! Uns veados! Uns vagabundos!

- Acham que o blog tem mais penetração.

- Tá vendo: isso é papo de veado. Penetração....

- Atinge um público maior, eles dizem. Não ficam presos às teias editoriais, ao controle do mercado literário.

- Pois é. Essa história de liberdade literária só pode ser coisa de veado.

- Homem que é homem não briga por liberdade. Homem que é homem, é livre. E pronto. O cara escreve o que quer e a editora publica. E ai do editor se não publicar.

- Mas é aí que está o ponto.

- Que ponto?

- Vou explicar. Preste a atenção: o editor só não publica se perceber que o cara é veado ou vagabundo. Aí, recusa os originais e manda o veado-vagagundo escrever em blog. O veado fica triste porque o livro não vai sair, mas, logo depois, percebe que o melhor é escrever em blog mesmo (afinal, também é vagabundo). Acha que sua obra será melhor difundida. É a tal história da penetração que você falou....

- Eu? Penetração?

- É. Penetração!

- Tô achando que você é que é veado. Você tem blog?

sábado, 20 de novembro de 2010

Mané Fogueteiro e a minha angústia

Existem certas angústias e sentimentos que, aos olhos da maioria das pessoas, poderiam soar insossas, não houvesse razão bastante peculiar que as justificassem....

Em 1992, quando Caetano fez 50 anos, houve um especial de comemoração de seu aniversário. Se não me engano, era época do então LP (também vendido na versão CD) "Circuladô de Fulô". O vídeo foi veiculado não sei onde e, depois, virou VHS.

No especial, Caetano cantava sua primeira música, que é digna de nota e merecia ter sido gravada. Também falava dos compositores que lhe inspiraram, sem se esquecer, obviamente, daquele que credita ser o mais importante da música popular brasileira: João Gilberto.

Referindo-se à sua música "Genipapo Absoluto", do LP "Estrangeiro", disse que havia emprestado uma parte da música de Braguinha (João de Barro), chamada "Mané Fogueteiro". O último trecho da música de Caetano é o seguinte:

"'Aquele que considera' a saudade
Uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a 'rosa também'".

Mané Fogueteiro, por sua vez, tem o seguinte trecho:

"Mané Fogueteiro gostava da Rosa
Cabocla mais linda esse mundo não tem
Mas o pior é que o Zé Boticário
Gostava um bocado da Rosa também".

Fiquei com "Mané Fogueteiro" na cabeça durante anos, sem saber a letra inteira. Como em 1992 a internet muito longe estava da nossa realidade, não tinha onde procurar pela música. Perguntei ao meu avô e à minha avó. Por serem mais velhos, provavelmente, conheceriam a composição de Braguinha. Ninguém, entretanto, ouvira falar dela.

Depois que meu avô morreu, ainda insisti com minha avó. Nenhuma lembrança, por mais vaga que fosse, ocupava a cabeça dela. Era o que dizia, embora eu tivesse a convicção de que, repentinamente, ainda fosse se recordar da melodia e, consequentemente, da letra. No ano passado, consegui uma bela versão da música. Baixei-a da internet e a remeti para minha irmã, que estava indo para Rio Preto visitar minha avó. Bastaria reproduzi-la no laptop para que sua memória fosse refrescada. Minha irmã de fato dormiu em seu apartamento, conversou com ela e riu de suas histórias. Por algum motivo que agora me escapa, esqueci-me de perguntar à minha irmã sobre a resposta dada por D. Líbia quando da suposta audição da música.

Recentemente, indagada a respeito dessa resposta, minha irmã chegou a sugerir, hesitante, que nem sequer executou a música para sanar minha dúvida. Indignado, cobrei-lhe uma posição precisa, mas de nada adiantou.

Minha avó se foi pouco depois e o Mané Fogueteiro agora está atrelado a uma angústia que talvez me consuma o resto da vida.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Heresia

Estava na Siciliano. Vi o livro, peguei um exemplar e sentei no chão. Comecei a ler. Era fantástico, como todas as demais obras daquele autor. Gargalhei aos montes e, além disso, o clima da narrativa me tomou por inteiro. Não conseguia parar de lê-la. Continuei mais um pouco. Quando a trama anunciou o que realmente viria pela frente, tive de encerrar a leitura. Já era hora de ir embora. Não comprei o livro naquele dia, mas fiquei com água na boca.

Logo depois, ganhei a obra, que chegou pelos Correios. Como não havia lido muitas páginas, reiniciei a leitura e, pouco a pouco, fui notando que a história se arrastava. Parei para pensar que algo devia estar equivocado.

Seria porque o autor é especialista em outro gênero? Seria porque não estava no clima daquele texto? Mas, como? Na Siciliano eu podia jurar que o livro era delicioso....

Insisti. Não se deixa de ler um livro sem um motivo realmente forte. Por certo, eu estava enganado. Talvez fosse questão de algumas páginas. Bastaria ler mais um pouco para encontrar a felicidade. De nada adiantou, contudo. Prosseguir já não era mais um caminho agradável. Era incompatível com o prazer da leitura. Resolvi abandoná-la. Ainda tenho a esperança de que, em uma oportunidade qualquer, possa retomá-la e me envolver com ela.

Hoje, olhando para aquela situação, imagino que pareça uma grande heresia o fato de eu não ter conseguido terminar a leitura do livro. Trata-se de Os espiões, do Luis Fernando Veríssimo. Paciência. Quem sabe um dia?

sábado, 6 de novembro de 2010

Era carnaval

Era carnaval – Roberto Barbato Jr

Era carnaval. O desfile das Escolas de Samba talvez fosse o único programa para aquela noite. Hesitara ligar a TV, temendo que todo seu passado viesse à tona, em quadros nítidos, detalhistas. Temia por isso e não raro evitava qualquer situação capaz de fazê-la regredir no tempo. Pensara que devesse dormir, mas a idéia lhe soara covarde. Aceitara o desafio, não sem antes preparar uma dose de malte importado que houvera guardado para ocasiões especiais.

Uísque em punho, TV ligada. Acompanhava o desfile observando cada minúcia das fantasias. Apreciava-as. A velhice não fora capaz de elidir o despudor que tivera nos anos de juventude. As mulheres desnudas, seios aparentes e as nádegas destacadas pelas câmeras não lhe causavam nenhuma espécie de repulsa. Não tinha, ademais, o falso moralismo característico das mulheres de sua geração. Não sabia, por questão de natureza, ser hipócrita. Agira assim desde sempre. Agora, tão-só e concentrada, via a pouca vergonha de que outrora fora cúmplice, sem ter de opinar e tampouco se defender. Se quisessem, poderiam se desnudar por inteiro, pensava sobre as meninas da tela. Tanto fazia. Era carnaval.

Lembrava-se com sabor dos anos em que figurava como a mais destacada vedete do Teatro de Revista. À época, tachada de sirigaita, fazia questão de afrontar as senhoras de família. Deixava as coxas à mostra, despertando a lascívia masculina. Não abria mão do alto salto, sempre a retesar a panturrilha, de modo a evidenciá-la em seus mais definidos contornos. Rebolava vulgarmente, içava a anca, dando giros sutis para que parecesse provocante. Mesmo os homens menos abnegados lhe enxergavam um excesso de leviandade.

O ônus de sua irreverência, contudo, fora pesado: apaixonara-se e casara-se com Heitor Fontana. Político ambicioso, Heitor logo se encarregara de enfrear a mulher. Dela exigia que o acompanhasse, resignadamente, em jantares os mais enfadonhos, típicos da classe política de então. Dela também exigia que se vestisse assaz contida. Por ele, teria que abandonar os hábitos da vida pregressa, os dizeres, as indumentárias. Não foi sem relutância que fizera tudo isso. Depois, dera um, dois, três filhos ao marido.

Os meninos cresceram ouvindo, sempre à socapa, comentários sobre o passado da mãe. Acometia-os um sentimento de injustiça, como duvidassem do teor daquelas narrativas. Trancavam-se na biblioteca com o pai, a fim de confirmar a veracidade dos boatos.

Eram filhos da puta!

Do dia para a noite, os comentários cessaram: Heitor ocupara pasta no Ministério. Já não eram filhos da puta, os meninos. Eram filhos-do-Ministro. Ela passou a ser a mulher-do-Ministro, a senhora Fontana. Tivera de se conter ainda mais. Haveria de reprimir-se demasiado, senão pela vontade, pela força. Passara a freqüentar, com relativa assiduidade, eventos ligados a ações beneméritas. Chás com primeiras damas e salões de beleza, embora não lhe interessassem, eram-lhe menos inconvenientes. A proximidade com o poder, o requinte e a abundância financeira não lhe causavam prazer, entretanto. Pudesse optar, continuaria na vida de tempos pretéritos, participando de espetáculos de casas de show, exibindo os belos dotes físicos que Deus felizmente lhe dera.

Rebelara-se um dia. Deixara de ser a mulher de Heitor, mãe de seus filhos, mulher de ministro, enfim. Tivera um repente e voltara para vida noturna. Assinara contrato com uma casa de prestígio. Lá fatalmente compareceriam os amigos do marido e - quem sabe? – até os filhos.... Sentira orgulho da decisão. Irromperia contra qualquer adversidade, manteria seu firme propósito. A idade, já um pouco avançada para quem possui tamanhas pretensões, não lhe dedicara peso nenhum. Era com leveza que reacendia as chamas do antigo ofício, com paz de espírito e, sobretudo, com serenidade.

Inconformado, Heitor fizera várias diligências: fechara a casa, procurara abafar o pretenso escândalo, comprara a imprensa. Tudo quanto pudesse ser resumido às cifras de sua posse seria devidamente utilizado. Lançara mão de todos os expedientes para que sua reputação não fosse conspurcada. Não escondera a verdade dos meninos, já crescidos. Desde então Julieta jamais fora vista em festas e coquetéis. Passara extenso tempo reclusa em casa. Dizia-se que sofria dos nervos, tendo se submetido, inclusive, a incansáveis tratamentos de choque e terapia.

Mudara o governo. A carreira promissora de Heitor não resistira ao segundo ato. Sobreviera-lhe um infortúnio quando, imprudente, deixara-se levar pelos sedutores louros da corrupção. Não fora capaz de se aprumar tal como seus pares faziam com tanta facilidade. Restara-lhe apenas o ofício de causídico e, mesmo este, diante de circunstâncias tão vexaminosas, não lhe pudera garantir o padrão de vida com o qual havia se acostumado. As causas que assumia eram raras e pouco rentáveis. Os filhos, destituídos de habilidades profissionais, tiveram de procurar emprego! Findaram-se as polpudas mesadas que serviam a extravagâncias de variado gênero.

Emprego!, diziam de si para si mesmos, a boca desdenhosa, torta.

Julieta a tudo assistia calada. Testemunhava a decadência material da família sem um mínimo de compaixão pelos seus. Achava mesmo que os filhos deveriam tomar tento, mostrando-se úteis de alguma maneira. Chamava-os para conversar.

Vagabundos! Eram vagabundos! Uns indolentes.

Desentendera-se com todos, não falava mais palavra com nenhum. Heitor expulsara-a de casa. Que fosse aos infernos! À merda! Pagara-lhe o aluguel de uma edícula fétida, no subúrbio da cidade. Deixara-a apenas com a memória sadia, apta a lhe dar alguma satisfação. Vivia só, embriagada de recordações.

Naquela noite, por longas horas, entre cores, sons, alegorias e nomes, pôde rever toda sua vida. Esboçando um riso furtivo e sarcástico, pensou em Heitor. Pensou no ministro. Pensou nos vagabundos. Pensou nos filhos da puta. Pensou também que nada mais importava: era carnaval.

sábado, 30 de outubro de 2010

Manezão

Manezão - Roberto Barbato Jr

Com o passar do tempo, adquiriu uma habilidade sui generis: o controle, sempre em uma das mãos, ficava exatamente na posição necessária para mudar o canal da TV. Os dedos eram alocados nos botões que permitiam a passagem para o noticiário. Mesmo que estivesse em momento fundamental da trama, jamais sucumbiria: não poderia ser visto assistindo a novelas. Teria de obstar a vontade quase alucinada de saber o destino do personagem predileto. Quantas vezes estivera na iminência de ser flagrado, ali diante da TV, os olhos inertes, sem piscar.... Foram inúmeras, mas jamais deixou transparecer a afoiteza que o acometia.

Quando, por razões alheias à sua vontade, era impedido de assistir ao capítulo inteiro, prostrava-se na cama, louco a imaginar o que teria acontecido, se houvera ou não o beijo da mocinha, se o protagonista havia logrado algum sucesso em desmascarar o antagonista, aquele crápula que, agora, lhe fazia perder o sono. Ficava irritado, irascível. Contava os minutos faltantes para o raiar do dia. Então, uma longa batalha teria início.

Escondido, ligava furtivamente o computador, com respiração arfante. Isilda, a empregada, bem que o via navegando na internet, mas, analfabeta, não tinha acesso às informações consultadas. Não sabia o que o patrão lia. Ele devorava o resumo do capítulo do dia anterior, justamente aquele que não poderia ter perdido.... Depois, ainda insatisfeito, fecharia a porta do escritório a pretexto de avençar algum negócio importante pelo telefone. Digitaria ansioso o endereço do youtube para ver se o capítulo desejado já estava disponível.

Quando a tarefa não alcançava êxito, corria para o banca do Alemão. Ali, matronas desocupadas comentavam - quase debatiam! – o que teria se passado na novela no dia anterior. Ele manuseava um jornal qualquer, postava os olhos por cima da folha e buscava apreender o relato das senhoras.

Vieram as férias escolares. A mulher, professora, não saía mais de casa à noite. Com ele jantava, assistia ao jornal e o convidava para uma leitura. Não tinha escapatória: simulava devorar a revista semanal, o jornal da cidade ou mesmo algum livro que lhe teriam indicado. O pensamento estava, naturalmente, na novela. Disfarçava, ligava a TV a pretexto de procurar por um filme. Mudava de canal, parava rapidamente na novela para ter uma noção, ainda que exígua, do desenrolar da trama.

Não lhe passava pela cabeça admitir a adoração pelo folhetim televisivo. Sabia que lhe seria saudável. Não geraria ansiedade, não o deixaria sem dormir, não lhe impingiria a frustração de expectativas. Assistiria sem culpa, sem medo e sem sobressaltos a novela das seis, das sete e, principalmente, a das nove. Não, não admitiria. Ao contrário, se o assunto viesse à baila, vociferaria:

- Novela? Vocês assistem novela? Que coisa patética!

Incautos poderiam jurar, apostariam se fosse necessário, que ele jamais passara perto de alguma novela. Por certo, nem sequer sabia os horários de transmissão. Devia ser um homem afeto a leituras, interessado em filmes, músicas e notícias. Um intelectual, enfim. Não perderia seu tempo.

- Não assistir a novelas é questão de higiene mental – asseverava com altivez.

Um dia, aconteceu:

- Ahhhhhhhãããããã, hein!

Puta que o pariu! Me pegaram, pensou desesperado, já enrubescido. A casa caiu!

- Assistindo novela!

Filha da puta! Um descuido e me fodi!, penitenciou-se em pensamento.

- Justo você, hein, pai! Que vergonha....

Arriscou:

- Eu? Imagine.... Estava só trocando de canal e....

A filha gargalhava. Percebia o desconcerto do pai. Aproveitou para tirar onda.

- Imagine só se amanhã o prédio todo ficar sabendo! O Jorginho vai te tirar o pêlo.

O Jorginho, aquele asno, pensou. Tô fodido. Se o Jorginho souber, eu tô fodido. O Jorginho vai rir o ano inteiro. Ele e o condomínio. Até o porteiro vai cascar o bico.

- Mãe! Ô manhêêêê! Corre aqui, mãe!

- Que foi minha filha?

As duas juntas, não vou aguentar, se martirizava.

- O papai, vendo novela! Peguei ele no flagra!

A mãe olhou sem nenhuma cara de excepcionalidade. A filha não entendeu. Afinal, não teria descoberto algo precioso e inédito?

- Você não sabia? – perguntou a mãe. – Seu pai é um mané!

- Manezão! – gritou a filha, a voz com ar de refrega. – Manezão!

Pronto. Talvez agora pudesse ser feliz. Embora envergonhado, estava leve, tranquilo, liberto. O Jorginho que se lascasse! E o condomínio também....

sábado, 23 de outubro de 2010

Cães e apartamentos

Acredito que a convivência com animais é extremamente saudável para o homem, desde que não atrapalhe ninguém. Sou radicalmente contra a criação de animais em apartamentos, sobretudo aqueles que fazem barulho de qualquer espécie. Refiro-me, principalmente, aos cachorros.

Criar cachorro em apartamento é uma sacanagem: para o bicho e também para os vizinhos. Animal nasceu para ter liberdade, se locomover e ter contato com a natureza. Em apartamento isso é impossível, naturalmente. O espaço físico, por maior que seja a metragem do imóvel, será sempre insuficiente para o cão.

Quanto aos vizinhos, os argumentos são incontestáveis. E incontáveis. Não me venham com pífias idéias de que há certos cachorros quietos e bem comportados. Todos, sem exceção, acabam fazendo barulho em momentos inadequados. Não faz diferença se estamos nos referindo àqueles cachorrinhos de madame ou a um pit bull. Tanto faz um poodle ou um pastor alemão. No instante em que você mais quer paz, ele irá incomodá-lo.

Será justamente naquele momento em que você está em casa sozinho, sem nenhum barulho, e precisa descansar. Você olha para o sofá, o sofá olha para você. Não há como escapar daquela atração. Já indefeso e prostrado pelo cansaço, você simplesmente deita. O sofá e o silêncio são tudo o que você precisa.

Sorrateiramente, o cachorro do vizinho sairá pela porta que lograram deixar encostada e andará até o elevador do andar. Ouvirá o barulho de alguém conversando enquanto desce ou sobe. Iniciará, então, aquele latido agudo no corredor que parece amplificar cada vez mais o som. Você está iniciando o sono e, de repente, acorda assustado. É o cão do vizinho. Aquele que dizem ser bem comportado e quieto. Tudo bem, isso passa. Embora irritado, você se levanta e desiste do sono no sofá.

Outra situação: o dia foi cansativo. A cabeça não parou de doer, mas você não podia parar de trabalhar. Era enxaqueca. Você rezou a tarde inteira para o tempo passar rápido. Ao final do expediente, correu para casa. Tomou banho, colocou uma bolacha de água e sal na boca, bebeu um copo de água, escovou os dentes e, pela primeira vez em vinte anos, foi dormir às oito da noite. O sono está pesado, mas alguém passa na rua, vê o cachorro do vizinho na sacada acesa e resolve fazer uma graça. O bicho não gosta daquilo e inicia o latido. É claro que você já acordou, mesmo com o sono pesado. O vizinho grita para o cão parar com aquilo e piora ainda mais a situação. O filho da puta que está lá embaixo desiste da brincadeira e vai embora. Mas, como ele é mesmo um filho da puta, resolve dar a volta no quarteirão e aparecer de surpresa para encher novamente a paciência do cachorro. E a sua, é claro.

Quando o cão mora em cima de você.... Além de todo o barulho dos latidos, existe ainda o som das patas do bichano arranhando o chão. Toda noite o animal resolve roçar as unhas cumpridas no carpete de madeira. Aquilo arrepia toda sua alma justamente quando você está relaxado, prestes a pegar no sono. É algo mais assustador do que morder papel alumínio quando se degusta um bombom de chocolate.

Não bastasse o problema do barulho, há a questão da higiene. Não adianta dizer que o cachorro é limpo, que não irá perturbar ninguém. Uma hora você estará no elevador, com a compra feita: pão, queijo, legumes, verduras e um maço de manjericão com a ponta para fora da sacola. O vizinho fará questão de entrar ali com o bicho. Ele tem a convicção de que você não se incomodará com isso. Afinal, o cãozinho dele, supostamente adorado por todos, toma banho com uma frequência invejável, não tem pulgas, usa xampu importado e não solta pêlos. Pois esse bichinho limpo chegará perto do maço de manjericão e enfiará o nariz nas pontas que estão para fora da sacola. Ainda insatisfeito com o cheiro, não hesitará em dar uma lambida nas folhinhas que você pensou em usar na pizza marguerita que pretende fazer. Depois, com feição de galhardia, irá se esconder por detrás das pernas do dono. Este, de modo cínico, encenará uma reprimenda falsa ao quadrúpede. A pizza já era.

Tudo bem: é óbvio que o bicho não tem culpa. Ele age por instinto. O responsável por essa situação é seu dono que, totalmente destituído de bom senso, entra nos elevadores como se estivessem vazios. Ele sempre achará que não há problema em pegar o mesmo elevador que o seu. Coitadinho do cachorro, ele não faz nada.

Ainda tem mais. Como o vizinho precisa levar o animal para passear e está frio, ele resolve fazer isso na garagem do subsolo, aquela mesma que você usa. O animal fica por ali correndo, passeando. Pára perto do pilar que fica ao lado da vaga do seu carro, levanta a perna e urina ali. Que mal isso tem?, pensa o vizinho. Nenhum, ele mesmo responde. Você entra na garagem com o carro, avista o cachorro e pensa que atropelá-lo seria a solução de alguns dos seus problemas. Contudo, bem diferente do vizinho, você é dotado de bom senso. Jamais atropelaria o bicho inocente. Em realidade, você adoraria atropelar o vizinho. Isso, entretanto, também está fora de questão. O animalzinho entra na sua frente, você breca e consegue conter o carro. Suspira aliviado. O incauto do vizinho faz cara feia. Olha para você como a reprovar sua conduta. Já emputecido, você desce do carro e, quando percebe, já pisou na urina que o cão deixou ali. Você não percebe, mas o vizinho está regozijando atrás de um pilar da garagem. Talvez esteja até gargalhando.

Precisa mais? Não, não precisa. A maioria das situações acima narradas é fictícia. Todavia, todas são factíveis, possíveis.

Honestamente, acho os cachorros criaturas adoráveis. Acho, também, que os defensores dos animais deveriam lutar pela promulgação de uma lei que impedisse qualquer ser humano de criar cachorros em apartamentos. Se estão realmente preocupados com a proteção desses animais, deveriam ponderar sobre as lamentáveis condições sob as quais são criados: sem espaço, sem contato com a natureza e subjugados a uma rotina que não é, nem de longe, adequada ao seu perfil. Isso certamente faria bem aos cães e ao homem.

Em tempo: minha avó sempre teve cachorros, era louca por eles. O dia em que mudou para um apartamento, teve a sensibilidade de perceber que seu amor por eles implicava em abdicar de sua companhia em lugar tão impróprio para criá-los.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A imagem

A imagem - Roberto Barbato Jr

Conto publicado no Portal Literal

Quando a primeira pedra do prédio foi fincada na terra, todos suspeitaram de que sua construção seria uma falácia. A proposta das Irmãs Beneditinas era mesmo muito audaciosa. A julgar pela pouca tecnologia existente no início do século, uma obra com tais proporções só seria possível se se tratasse de um milagre. Anos depois, chegou-se a acreditar em sua ocorrência. O prédio estava pronto e sugeria existência eterna. Eterna seria também a lenda divulgada após a inauguração da enorme capela do colégio: o Vaticano havia cedido uma imagem de ouro maciço cravejada com diamantes para ostentar a beleza do novo templo católico. No dia em que fora rezada a primeira missa, a imagem desapareceu sem que ninguém soubesse o motivo. O fato teve repercussão nacional, sendo motivo de lamentações de toda sorte.

Hoje parece consensual a opinião de que lá foi criada a maior instituição educacional da pequena cidade. Associada às vantagens que se pode auferir de uma lenda, a simples intenção de educar os filhos das famílias tradicionais converteu-se em um eficaz instrumento de acúmulo de riqueza. Por trás de tanta pregação e devoção havia também o desejo imperioso de enriquecer o patrimônio da instituição. Muitas vezes criticadas por suas intenções um tanto duvidosas, as irmãs resolveram fazer ruir os comentários maldosos amiúde feitos pela comunidade. Assim, investiram em iniciativas filantrópicas, criando o Serviço de Assistência Psicológica, destinado aos jovens carentes. O projeto era tão pretensioso que para sua consecução foi chamada uma psicóloga de renome nacional: a doutora Maria Lúcia.



Saí da redação do jornal rumo ao Colégio. Malu estava ansiosa para me colocar a par do que a trouxera para a cidade depois de tantos anos.

– Mas isso é lenda, não tem fundamento, Malu – disse sem paciência.

– Não tinha fundamento. Agora tem.

– E qual é?

– A história é a seguinte: uma empresa da capital foi contratada para reformar o subsolo do colégio. A estrutura do prédio está comprometida. Existe um aposento que não será mexido, embora seu estado de conservação seja precário. As irmãs teimam em alegar que se trata de um lugar sagrado, porque é lá que está o cadáver do padre que rezou a primeira missa da capela. Para reestruturar as bases do aposento seria necessário exumar o cadáver e removê-lo para um outro lugar. Isso está fora de questão, pois elas jamais aceitariam um fato como esse.

– E o que tem a ver a tal imagem? – indaguei.

– Na revista da Congregação desse mês existe uma reportagem sobre a história do colégio. Dentre os inúmeros fatos narrados, estão registrados o episódio do desaparecimento da imagem e a primeira missa rezada. O padre é mencionado como uma figura enigmática, cujas relações com o clero da época estavam sujeitas a todo tipo de altercações.

– E daí?

– E daí que ele pode ter escondido a imagem. Talvez porque quisesse tirar proveito dela, talvez porque quisesse tê-la para sua contemplação exclusiva. Seja como for, se ela está aqui, seu lugar é junto ao cadáver do padre.

– Tudo bem. Se encontrarmos a imagem, o que faremos com ela?

– O que faremos? Desvendaremos a lenda. E não me parece que você se furtaria a publicar uma reportagem dessa importância. Ou será que estou enganada quanto às suas ambições profissionais?

A noite havia chegado. Acompanhei Malu até o colégio para que pudesse cuidar de suas instalações temporárias. Ela ficaria próxima à ala do misterioso quarto. Se fosse eu, recusaria uma proposta como essa: cadáver de padre enterrado no subsolo de um colégio de freiras? Nem que o tal projeto de assistência me pagasse em dólar. Das duas uma: ou Malu estava ficando louca como seus pacientes ou havia se convertido numa ávida especuladora de acontecimentos históricos. Marcamos encontro para às seis da tarde do dia seguinte.

Pude perceber que ela não estava tão à vontade como no dia anterior. Não dormira bem. Passara a noite ouvindo um som esquisito que vinha, provavelmente, do aposento do padre. Segundo seu relato, parecia uma música sacra, com muitas vozes e repentes graves. Ela então mudou de assunto, falando sobre o primeiro paciente que atendera durante a tarde: um rapaz que foi acolhido pelas irmãs e que prestava serviços de limpeza ao colégio em troca da moradia e refeição. Eventualmente manifestava alguns distúrbios mentais.

Dois dias depois, ao final do expediente, fui para casa. Em poucos minutos recebi a visita de minha amiga.

– Lembra do Alaor? – perguntou ofegante.

– Sei, o bonzinho que bate fora do bumbo!

– Hoje ele teve uma crise. Tentou abrir a porta do quarto do padre. Disse que Deus chamou por ele a noite inteira.

Em face das minhas risadas, Malu repreendeu-me com um olhar severo. Falou-me que o rapaz também tinha ouvido aqueles sons procedentes do quarto misterioso. Era de supor que Deus o tivesse chamado por meio da música. Mas, que música seria tão imponente a esse ponto? O moleque até podia ser louco, mas, achar que Deus fosse cantar para ele, era um grande exagero.

– Ninguém entra lá. Só a madre – ela disse. – Isso só reforça as minhas suspeitas. Por que motivo ela vetaria a entrada das outras irmãs?

– Onde ela dorme? – Suspeitei que fosse junto ao padre.

– Num quarto ao lado do meu.

Acendi um cigarro e comecei a pensar alto:

– Bom, até agora temos o seguinte: na história toda existe uma imagem preciosa, um defunto e um louco. Por razões diferentes da nossa, o louco quer entrar no quarto e é bem possível que não desista, a menos que a música pare de tocar. Se a imagem está lá e nós quisermos descobrir, temos que entrar antes dele. Do contrário, a lenda terá vida longa. Ainda que ele descubra a existência da imagem, ninguém iria acreditar num sujeito como ele.

– E o senhor sabe me dizer como fazer para entrar lá? – ela perguntou insinuando que eu só falara o óbvio.

– Isso é você quem tem de descobrir...

Levei-a ao colégio. Naquela noite pude acompanhá-la até a ala íntima. Antes que ela se despedisse de mim, apontou-me o aposento sagrado. Consegui ouvir a tal música. Não restava dúvida alguma: era o Réquiem de Mozart. Pude perceber, então, que não se tratava de uma música qualquer. Aquilo faria com que até os homens mais sóbrios pudessem enlouquecer. Alaor devia ter razão: Deus estava cantando.

Passaram-se alguns dias. A música continuava a tocar e o rapaz insistia na sua atitude suspeita. Chegamos à conclusão de que havia um ritual diário praticado pela madre superiora: toda noite ela entrava no aposento e colocava o Réquiem para cultuar a alma do padre. Malu passou a frequentar seu quarto, aos finais de tarde, com o pretexto de passar informações sobre o tratamento de Alaor. Era a oportunidade que esperávamos. A chave deveria estar escondida lá. Não foi preciso mais que duas visitas para notar a existência de uma Bíblia com fundo falso.

Na madrugada de uma sexta-feira acordei com um telefonema de Malu. A mensagem que ela me deu foi literalmente telegráfica:

– Tire cópia da chave embaixo do meu carro. Estacionamento do colégio. Devolva antes de amanhecer.

Como eu iria fazer tudo aquilo?

Acordei o chaveiro que conhecia, fiz a cópia da chave e a coloquei no lugar em que a encontrara. Não dormi. Cheguei à redação antes de todo mundo e resolvi pesquisar o arquivo do jornal. Encontrei material sobre a família de Alaor. Curiosamente, seus parentes eram proprietários de uma joalheria na capital. A pesquisa foi interrompida pelo telefonema de Malu.

– Pode ser impressão minha, mas acho que o rapazinho tem um outro motivo para entrar no quarto do padre. O moleque é um delinqüente, isso sim – falei com tom debochado.

– Como, delinqüente? Clinicamente ele é louco.

– Então é um louco safado!

Ela me contou que só foi possível pegar a chave quando viu a madre sair do aposento sagrado, por volta das três da manhã. Naquele momento a música tinha parado de tocar. A madre já estava pronta para dormir quando Alaor teve uma crise e começou a bater na porta de seu quarto. Foi aí que Malu se prontificou a ajudá-la e apanhou a chave que já estava no fundo falso da Bíblia. Até o dia raiar, sua falta não seria notada. Depois, bastaria uma desculpa qualquer para repô-la: minha amiga lhe pediu uma aspirina e fez a reposição.

Como a restauração do colégio começaria em breve, resolvemos entrar no quarto no dia seguinte. Restava saber o que faríamos se a imagem estivesse lá. A fim de lograr a credibilidade da população decidimos levar uma filmadora para registrar sua existência. Depois disso, publicaria meu furo de reportagem sobre o sumiço da preciosa imagem e sairia do anonimato jornalístico.

No dia seguinte, almocei com Malu, que me confirmou o horário do ritual macabro e me disse também que Alaor andava de vigília. Ele acompanhava cada movimento de quem quer que fosse no corredor escuro. Combinamos executar nosso plano às três e quinze da madrugada.

Após o expediente, encontramo-nos para repassar todo o itinerário a ser cumprido. Fui para casa, tomei banho e esperei até as três horas. Parti para o colégio. Encontrei Malu no estacionamento. Entramos sorrateiramente na parte íntima do prédio. Não havia sequer uma única lâmpada acesa. Com a exígua luminosidade da minha lanterna chegamos à porta do aposento. Entramos e acendemos um abajur pequeno situado no chão, ao lado direito da porta. Quanto à Malu não sei, mas fui tomado por um medo assombroso. Aquilo era uma filial do inferno! No escuro, o túmulo do padre assumia proporções grandiosas e a vetustez do material empregado em sua construção imprimia um aspecto mórbido ao lugar. A pintura do teto parecia uma reprodução da Capela Sistina fazendo com que, paradoxalmente, aquelas gravuras atenuassem o clima tétrico. Enquanto Malu procurava pela imagem, eu ia iluminando seu caminho com a lanterna. Sem ter a mínima intenção, bati na quina de uma mesa de mármore e avistei a imagem. Nós estávamos diante de algo absolutamente real, alheio a qualquer invenção. A razão de tanto mistério só poderia ser encontrada na beleza plástica e no valor material daquele objeto.

– A filmadora – murmurou Malu ainda perplexa diante da descoberta.

Jamais me perdoaria: eu a havia esquecido. Ficamos admirando o brilho dos diamantes cravados na imagem. Chegamos a pensar em tirá-la dali, mas nossa postura moral jamais permitiria. Como já tínhamos a chave e sabíamos como proceder novamente, não nos preocupamos. Meu dia de glória estava por vir. Eufóricos e quase realizados pela descoberta, fomos embora de lá. Voltaríamos na noite seguinte. Cheguei em casa e desmaiei de sono no sofá.

Assim que amanheceu tocou o telefone. Falei com Malu e saí às pressas. Cheguei ao colégio em pouco tempo. Um tumulto na entrada me fez perceber que alguma coisa estranha havia acontecido. As irmãs estavam reunidas em frente ao mausoléu do padre. Malu aguardava por mim com uma expressão sôfrega. Deram-me passagem e entrei no quarto, como se não o conhecesse. O Réquiem era tocado e, daquela vez, o Offertorium ecoava por todo o colégio. Ao lado do túmulo do padre, encontrava-se a madre superiora. Inteira retalhada, com o rosto exangue e um pequeno terço na mão esquerda, ela ainda agonizava. Suspirou e morreu.

Imediatamente olhei para a mesa de mármore e senti falta da imagem. Certamente Alaor a teria levado. Minhas últimas esperanças de sucesso foram por água abaixo. A expectativa de tornar pública uma realidade desconhecida não passava de uma grande quimera e o fato de ter desvendado o enigma em nada me consolava. Mesmo que jurássemos diante das câmeras de TV, ninguém acreditaria em nós. A cidade inteira continuaria especulando sobre a lenda. Ela seria definitivamente eterna.

sábado, 9 de outubro de 2010

Periquito não fala

Ainda na infância, talvez pré-adolescência, meti na cabeça que queria um papagaio. O bicho, por certo, falaria, conversaria, talvez trocasse idéias.... Era uma imagem bastante interessante – e equivocada – aquela que criei a respeito dele.

- Pode ser periquito?, perguntaram-me.

- Não, não pode. Tem que ser papagaio.

- Por quê?

- Papagaio fala. Periquito, não.

- Fala, sim. Se você treinar o bicho, ele fala. Mesmo sendo periquito.

- Quero um papagaio!

De nada adiantou a resistência. Ganhei mesmo foi periquito. Dois, aliás. Verdinhos. Ok, se eles falam, vamos lá, pensei. Comecei a provocá-los na expectativa de que, repentinamente, fossem emitir algum som que se aproximasse da língua portuguesa. Som não faltou: fizeram muito barulho. Durante a noite a coisa era difícil e, ao raiar do dia, estavam já em polvorosa. Era um sufoco. Comiam, bebiam, cagavam aos montes e gastavam muito jornal. O cheiro da gaiola também era horrível, tinha uma capacidade de propagação fantástica.

Acho que um mês foi tempo mais que suficiente para me desiludir. Aos poucos fui descuidando deles. Minha mãe generosamente assumiu o trato dos dois. Logo, contudo, se cansou. O assunto virou motivo de discussão familiar. Alguma coisa deveria ser feita com os periquitos. Abriríamos a gaiola e deixaríamos que os dois se libertassem. Era, por certo, o que mais desejavam.

A gaiola foi aberta. Um deles hesitou no primeiro momento. Depois, colocou o bico para fora, se ajeitou e bateu asas. Foi em direção ao local que sabíamos ser o campo de futebol do clube, localizado em frente de casa. Metade do problema estava resolvido.

O outro periquito, desconfiado, não quis sair do cativeiro. Nada havia a fazer senão doá-lo. Foi o que fizemos. Levaram-no para casa da Geni, a doméstica de então. Na semana seguinte, ao indagar a ela como estava o bichano, fui informado de que havia sido devorado.
- Como?

- O gato comeu ele – respondeu Geni com a expressão mais tranquila do mundo.

- Mas, comeu com gaiola e tudo?

É óbvio que algum infeliz tirou o coitado da gaiola. Eu sabia disso, mas queria que ela confessasse, justamente para admitir que foram imprudentes com o bicho.

Com uma cara-de-pau inenarrável, ela disse:

- Ele escapou da gaiola!

Depois que a raiva passou, fiquei um bocado chateado e decidi que não teria mais bicho algum. Havia chegado à conclusão de que não valeria a pena. Além dessa, cheguei a outra conclusão: periquito não fala.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Segundo turno

Ninguém deu aquele voto! Aquele que poderia tornar Dilma Rousseff Presidente da República. Vamos, então, ao segundo turno. Felizmente....

sábado, 2 de outubro de 2010

Pergunta básica

Não me lembro de uma eleição presidencial cujas pesquisas eleitorais apontavam alguma incerteza relativamente ao resultado. Ainda que houvesse disputa acirrada, as pesquisas indicavam sempre o vencedor ou a existência do segundo turno. Nunca houve nenhum desencontro nesse sentido....

Agora há pouco, quando liguei o computador, vi que o Datafolha, em pesquisa realizada ontem e hoje, apontou para 50% das intenções de voto para Dilma Rousseff, sendo os demais 50% distribuídos entre os demais candidatos. Supondo ser precisa a aferição da pesquisa, Dilma somente será eleita amanhã Presidente do Brasil se tiver um voto a mais a seu favor. Ou seja, tendo os 50% dos votos computados pelo Datafolha mais um único voto, estará no Palácio do Planalto.

Minha pergunta é simples: de quem será esse voto?