domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os males da tecnologia

No post passado falei sucintamente da presença da tecnologia na minha vida. Foi com algum otimismo e euforia que a saudei. Esqueci-me, contudo, de assinalar os efeitos da tecnologia na vida de parcela significativa da sociedade. Não me estenderei.

Ainda moleque abri uma conta de poupança. Sempre que possível, passava pela Caixa Econômica Federal e depositava uns cobres. Quando queria saber meu saldo, entrava na fila e solicitava ao funcionário do caixa a informação. Ele ia até um fichário, pegava o papel com minha ficha, olhava o saldo, anotava-o num papel e me falava o valor.

Em 1988, abri uma conta corrente no Banespa. O procedimento para saber o saldo bancário era exatamente o mesmo. Havia funcionários que ali estavam para exercer esse papel. Já no ano seguinte, instalaram uma máquina na agência e cada correntista tinha um cartão e uma senha. Preciso dizer o resto?

A máquina naturalmente passou a executar as tarefas dos funcionários do banco. Algo semelhante à Revolução Industrial, guardadas as devidas proporções, estava em curso. Uma grande massa de desempregados bancários foi o resultado do impacto da tecnologia nas agências.... Processo semelhante já havia sido diagnosticado pelo velho Marx, quando analisou o impacto da manufatura na produção do capitalismo nascente. Em O capital, assevera que aquele "proletariado, livre como pássaros, não podia ser absorvido pela manufatura nascente com a mesma velocidade com que foi posto no mundo" (MARX, Karl. O capital. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, Vol. II, Tomo II, p. 265).

Recentemente, li, sem muita surpresa, uma manchete sobre a queda, em 50%, do faturamento das vídeo-locadoras. Pudera! Depois que a molecada passou a baixar filmes da internet, o consumo teria que cair. Quanto aos CDs, nem é preciso dizer nada. A discussão sobre a legitimidade dos programas aptos a baixar música da internet é longa....

Enfim, o impacto da tecnologia na sociedade pode ser devastador. Há sempre quem pague por isso.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tecnologia: nasci na hora errada?

Hoje, com tanta tecnologia à nossa volta – computadores com editores de texto, celulares, internet, e-mails e os cambau – fico pensando em como era pacata a vida no passado. Não penso num passado muito remoto, o que, em si, já seria razão para morrer de tédio. Imagino o meu passado sem nada disso. Uma retrospectiva sempre me arrebata a memória, fazendo-me acreditar que hoje vivemos tempos mais ditosos.

Quando eu tinha meus seis anos, havia em casa uma televisão valvulada, branca e preta. Nem sei quantas polegadas tinha, mas era pequena. Logo depois, um ou dois anos, tivemos uma TV colorida. Era uma novidade sensacional. Ver desenho em cores era algo absolutamente distinto daqueles movimentos monocromáticos que só prendiam a atenção da criança pela trama. Em matéria de plasticidade, houve um enorme progresso.

Os telefones eram compostos por um disco que, quando posto em ação, exigia um tempo considerável para voltar ao seu ponto de partida. Somente quando isso acontecesse é que o usuário poderia discar outro número. Um ansioso dos tempos de hoje certamente se tornaria inimigo daquele aparelho. Vieram as teclas e, bem depois, ouvi dizer que existia um mecanismo que identificava o número que originava as chamadas. Era a tal da Bina. A molecada passou a temer a aplicação de trotes, malgrado tenha se recusado a parar com eles.

Computadores já existiam, mas longe estavam do poder aquisitivo da classe média. Nem mesmo as universidades públicas os tinham em quantidade. Eram restritos. Em 1987, tive aula de computação na escola. Estava no primeiro colegial e não achava nenhuma utilidade para os programas de XP que os professores insistiam em nos ensinar. Apenas a idéia de um editor de texto me fascinava. Imagine: substituir máquinas datilográficas!

Em 1992, aqui em Campinas fiquei surpreso ao imaginar que teria encontrado uma funcionária de supermercado educadíssima. Disse-me que eu não precisaria preencher o cheque para pagar a compra. Ela mesma o faria. Quanta gentileza! Tratava-se de uma pequena máquina que imprimia o cheque inteiro, bastando o consumidor assiná-lo. Logo, as cidades de médio porte passaram a ter essas máquinas. Hoje, elas quase não existem.

E as balanças digitais! Creio que foi por causa delas que o mundo da alimentação teve significativa alteração. Os restaurantes, até então, só funcionavam no esquema a la carte ou buffet. A refeição a quilo certamente aumentou a possibilidade de consumo em muitos restaurantes. Não creio ser exagero a afirmação de que muita gente deixou de cozinhar em casa para frequentar aquele restaurante que oferecia um ótimo custo-benefício. Eu mesmo fui, por dez anos, escravo dos restaurantes a quilo.

Chegamos aos computadores. Em 1991, ainda na faculdade, atrevi-me a mexer em um editor de texto. Era um Word cuja tela era preta e as letras, verdes. Acho que era o DOS. Os disquetes eram finos, flexíveis e tinham um diâmetro considerável. A vista de quem ficava em frente ao computador logo se cansava. Afinal, era tudo monocromático, tal como as antigas televisões.

Em 1994, decidi abandonar minha Olivetti. Os microcomputadores – à época chamados de PCs – começaram a baratear e a invadir os lares. Em pleno momento de implantação do Plano Real, comprei meu primeiro computador. Era um 386 com monitor preto e branco. Já estávamos na plataforma Windows e tudo em matéria de computação era mais lúdico. Até mesmo a paciência digital – Freecell e Solitarie – poderia ser jogada vendo as cartas todas na mesma cor. Pouco importava.

O Word foi a grande revolução para quem desenvolve qualquer atividade ligada à escrita. Mexer no texto, arrastar frases, movimentar parágrafos, incluir rodapés.... tudo isso era facílimo. E, sinal de relevo, não exigia papéis. Poderíamos editar de fato o texto até sua forma final. Somente depois é que teríamos de imprimi-lo. E imprimíamos, ao menos num primeiro momento, rodeados de barulho pelas impressoras matriciais. Aquilo era um horror que só foi atenuado com as impressoras jato de tinta. Todavia, já não se pensava mais em escrever à máquina, amassar várias folhas com redação equivocada, retomar o texto do ponto de partida....

Tive o primeiro contato com e-mail quando minha irmã me mostrou, numa sala da USP, que iria mandar uma mensagem instantânea a um colega que estava no computador do outro lado do departamento. Naquele dia foi difícil imaginar a dimensão do que seria, hoje, uma mensagem de correio eletrônico – o já velho e bom e-mail.

Também foi necessário algum tempo para a consagração dos e-mails. No início, eles eram usados numa tela preta, exatamente como o antigo DOS. Meu primeiro endereço eletrônico foi criado em 1995. Eram poucas as pessoas que tinham e-mail e, geralmente, eram e-mails corporativos, ligados a universidades públicas ou empresas grandes.

A internet funcionou em casa apenas em 1999. Diverti-me bastante procurando informações na rede. Pouco tempo foi necessário para perceber que tais informações eram, em sua maioria, de duvidosa qualidade. A pesquisa acadêmica ainda era restrita por meio da internet. Bibliografias, artigos, textos e materiais de ciências humanas foram paulatinamente ganhando espaço na rede.

Um dia me disseram que eu poderia esquecer o fichário da biblioteca. Poderia consultar o acervo pela internet, anotar o número do livro e ir diretamente até a estante para retirá-lo. Que maravilha! Os ácaros daquelas fichinhas puídas devem ter se refestelado, trancados nos armários de metal.

Seria ocioso falar sobre as infinitas vantagens da internet. Uma criança, na década de oitenta, pouquíssima informação tinha a sua disposição. Foi uma geração formada pela pesquisa em bibliotecas, nos verbetes da Barsa ou de qualquer congênere. E muita coisa – muita coisa mesmo – ficou alijada das informações pretendidas. Lembro-me, por exemplo, do dia em queria conhecer a letra de Luiza, do Tom Jobim. A música foi gravada para novela Brilhante, da Globo, e a versão que eu possuía era o registro de um gravador mono colocado ao lado do auto-falante da televisão. Em um determinado trecho, ouvia-se, de modo precário, "embaixo dessa neve mora um coração". Fiquei na dúvida se aquilo era "neve" ou "nave". Devia ser neve, é claro, mas a dúvida me perturbou. Houvesse o Google, pronto: ela não resistiria a nem uma hora. Diga-se o mesmo para as músicas estrangeiras ouvidas em rádios. Sem inglês fluente, quem se arriscaria a cantar a música sem cometer deslizes quanto à letra? Ninguém.

Quanto às questões de sexualidade, tudo era também mais difícil. Tínhamos as Playboys impressas que, diga-se de passagem, eram caras. O acesso a elas era feito quando íamos ao barbeiro e as folheávamos com um misto de excitação e constrangimento. Hoje é desnecessário falar de como as fotos de mulheres desnudas são facilmente vistas pela molecada (e também por adultos, é óbvio). São trocadas por e-mail, sem custo, sem constrangimento, sem impedimentos de qualquer natureza.

Enfim, creio mesmo que era chato ser criança sem essa tecnologia toda. Hoje o mundo é mais lúdico, a informática é mais atraente e possibilita uma infindável rede de comunicação e informação.

Já me perguntei, por várias vezes, se não nasci na hora errada. A despeito da chatice da infância faltosa de tecnologia, minha resposta foi negativa. É gratificante acompanhar essa permanente transição que o mundo vive atualmente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Novelas

Quando eu ainda não gostava de ler (como faz tempo!), a música popular brasileira – sobretudo a obra do Chico – e as novelas eram uma espécie de horizonte literário do qual eu desfrutava. Pode parecer estranho, já que novelas não se confundem com literatura. Todavia, é da literatura que elas surgem, é a atividade literária que enforma a trama da teledramaturgia.

Assim, a despeito da repulsa que uma parcela da intelectualidade brasileira tem em relação ao folhetim televisivo, ele é um instrumento de reflexão acerca de temas da atualidade e pode se prestar, evidentemente, a algum objetivo dirigido, interessado; enfim, político.

Algumas novelas nacionais poderiam ser comparadas a obras literárias de alto quilate, seja por seu conteúdo subjacente, seja por sua capacidade de entretenimento. Assinalo alguns autores e novelas adiante, sem nenhum compromisso analítico.

Na década de oitenta, a exibição de Roque Santeiro foi paradigmática. A novela de Dias Gomes já havia sido proibida na época da ditadura. Em 1986, foi ao ar com toda a liberdade possível. Por que colocá-la entre aquelas novelas capazes de questionar a vida nacional, mostrar suas mazelas? Porque sugeria uma série de características da brasilidade. Mostrava o coronelismo, o patrimonialismo, criticava um Brasil com resquícios de país rural. Evidenciava a necessidade de se preservar os mitos para a manutenção da ordem social capitalista. Já falei dela aqui no blog ("Os mitos sobrevivem – 24/11/2008"). Creio que a maior parte dos telespectadores jamais tenha atentado para esses detalhes. A novela foi famosa pelos tipos que encarnavam seus personagens: o coronel Sinhozinho Malta, a viúva Porcina, o irônico Roque Santeiro, o usurário Zé das Medalhas, o professor Astromar – exemplo típico de intelectual ornamental com sua insossa verborragia.

Em 1988, Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, partindo de outra perspectiva, também teria uma acidez crítica fantástica. O contexto retratado era o de um país da sacanagem, do jeitinho brasileiro, da astúcia usada para ludibriar os incautos. Era a nação de Odete Roitman que via nela todo tipo de vício canhestro, mas que, também hipócrita, se beneficiava de toda sorte de ardis para garantir seu status quo.

Gilberto Braga construiu ali aquilo que muitas obras sociológicas tentam explicar: o Brasil real versus o Brasil ideal. Ou, talvez até de modo maniqueísta, o Brasil honesto contra o Brasil da corrupção, das artimanhas, da velhacaria. Ivan (Antônio Fagundes) e Rachel (Regina Duarte) expressavam a esperança de um país sério, que não se renderia aos oportunismos de ocasião e à impunidade. Brasil, a música de abertura, de autoria de Cazuza, reforçava ainda mais o conteúdo da obra. Nunca houve tamanha sintonia entre um tema de novela e a letra de uma música.

Gilberto Braga, depois disso, fez algo bastante relevante no campo das minisséries (Anos Rebeldes, 1992). Voltaria, em 2003, com Celebridade, novela que mostrava a ânsia dos mortais comuns pela fama. O genial Renato Mendes (Fábio Assunção) era editor da Revista Fama, cujo grupo editorial era presidido por seu tio Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana). Foi Mendes quem, num episódio dramático, redigiu um apelativo artigo sobre o fato de Zeca – filho do depressivo jornalista Cristiano (Alexandre Borges) – ter caído em um poço no bairro do Andaraí. A situação era idêntica à de A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder. O editor da revista explorou a tragédia humana para poder estourar nas vendas de jornais e revistas.

Emblemática também foi a cena em que ele andava com seu conversível pela orla carioca após ter sido empossado momentaneamente vice-presidente do grupo Vasconcelos. Sozinho, aos berros, gritava que a partir daquele momento definiria o que a população iria ler, do que iria gostar, como leria, como gostaria. Mostrava, afinal, que o poder midiático seria capaz de influenciar diretamente a vida das pessoas.

Sílvio de Abreu, o mais paulista de todos os autores de novelas, não pode ser esquecido. Ocorre, todavia, que jamais me simpatizei com os pastelões anteriores à Rainha da Sucata. Guerra dos Sexos e Cambalacho, por exemplo, a despeito de todo sucesso conquistado, jamais me prenderam a atenção. Já em A próxima vítima, de 1995, Sílvio passou a ser outro autor, ao menos para mim. A trama policial misturada com uma comédia serena rendeu alto ibope televisivo. O mistério final – quem seria o "assassino em série" do Opala preto – fez com que houvesse tanto suspense quanto a revelação da assassina de Odete Roitman, em Vale Tudo.

Sílvio foi capaz de construir, ainda em A próxima vítima, um dos personagens mais contraditórios da novela brasileira: Juca, o quitandeiro do Mercado Municipal de São Paulo. Embora rude, ignorante e preconceituoso, amava óperas e se identificava com a sensibilidade das obras eruditas.

Torre de Babel (1998), seguiu na mesma trilha. Depois, veio Belíssima (2005) cujos capítulos iniciais mostravam o confronto entre a postura sórdida e ardilosa de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e a ingenuidade de sua neta Júlia, interpretada por Glória Pires. Em tom sóbrio e com ironia fina, Bia diria à neta para que ela não levasse tão a sério as aulas de catecismo, incongruentes com as finalidades do mundo empresarial. A racionalidade da grande matriarca deveria preponderar sobre a imaginação anódina da neta. Apenas esse diálogo seria suficiente para alçar Sílvio de Abreu à categoria dos grandes autores brasileiros.

Sílvio também sempre utilizou-se de referências cinematográficas para suas tramas. Tirou de À meia luz, obra prima do cinema noir com Ingrid Bergman (1944), a idéia do marido que muda os objetos em sua casa sem avisar a mulher, justamente para enlouquecê-la. Renata Sorrah não é uma Ingrid Bergman, mas o personagem lhe caiu muito bem em Rainha da Sucata.

Não sou fã de Manoel Carlos, mas suas novelas têm dois trunfos que, pessoalmente, me prendem: o clima Bossa Nova (respira-se a música do Maestro Soberano Tom Jobim), e as imagens idílicas, paradisíacas do Rio de Janeiro, sobretudo do Leblon. Afora isso, é claro que o autor tem seus méritos....

Glória Perez? Não assisto suas novelas. É uma questão de falta de afinidade. Quando há algo dela no ar, tiro férias da teledramaturgia.

Enfim, gosto de novelas. As boas, somente as boas. Não partilho da opinião intelectualóide de que não assisti-las seja um procedimento de higiene mental. Tanto quanto outro instrumento de ficção, elas são capazes de nos fazer penetrar em sua trama e preterir algumas agruras da rotina. Também se prestam a espelhar a realidade em que vivemos. Não é, afinal, para isso que serve a ficção?

Mas, então, o problema não é o gênero novela e sim o conteúdo de suas espécies.

Em tempo: na USP há, se não me engano, um grupo de estudos sobre novela brasileira. Ouvi dizer que ali existem ricas análises da realidade brasileira, não encontrada em outras produções científicas.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

História do passado



Não sou ligado a turismo; sobretudo a turismo ecológico. Todavia, não há como fugir de alguns programas que, vez por outra, quase nos são impostos pelo destino. Em janeiro passado, fui para Poços de Caldas e lá encontrei um desses programas. O esquema é aquele básico: uma van com curiosos forasteiros e um guia turístico extremamente simpático, sabedor das histórias locais.

Fomos visitar a "Fonte dos Amores", uma belíssima fonte de água mineral. Clóvis Bueno, o nosso guia, narrou a história de amor do século XIX que teria inspirado a escultura ali exposta, de autoria do artista italiano Giulio Starace (vejam a foto acima).

A narração dele - autorizada, é claro! - está no vídeo abaixo. Quem tiver interesse....


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Blackout

O curta Blackout, com Wagner Moura e Augusto Madeira, é fantástico. Para quem perdeu a exibição no Canal Brasil, segue o link do vídeo no Youtube. São menos de 10 minutos de diálogos interessantes e inteligentes. Vale a pena!

http://www.youtube.com/watch?v=jPWFLYGyMZs

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Inverossimius: um conto juvenil

Inverossimius: um conto juvenil - Roberto Barbato Jr

Conto publicado no Portal Cronópios em 17/01/2010.

www.cronopios.com.br

Depois que cheguei à adolescência resolvi banir definitivamente determinadas lendas que rondaram minha infância. Aquelas mentiras deslavadas que toda criança ouve, sem mesmo questionar sua veracidade, foram eliminadas da minha imaginação. Se mentir, o nariz cresce, e tantas outras lengalengas não passaram do terreno da fantasia pueril. Mesmo a história da masturbação, punida com o nascimento de pêlos nas mãos, deixou de constituir ameaça de qualquer espécie. Tudo não passava de superstição. Eu estaria disposto a acreditar nisso se não tivesse embarcado numa aventura curiosa.

Na tarde daquela sexta-feira, recebi um telefonema de Netinho. Gargalhei quando ele começou a narrar uma espécie de roteiro de ficção científica. A história toda era tão bem bolada que a ouvi por inteiro. Desconfiado de que por trás daquela narrativa insólita poderia haver algum sentido real, aceitei ir ao encontro que havia reivindicado. O lugar marcado era demasiado longe e, a julgar por sua personalidade preguiçosa, só mesmo um motivo muito sério o faria caminhar até lá. Apenas por essa razão, tive a convicção de que precisava cumprir o acordo feito.

– Eles já vão chegar – disse ansioso, logo que me viu.

Netinho não parava de olhar para o céu, como a insinuar que de lá viriam amigos íntimos. Como nada acontecia, fui bastante enfático ao dizer que toleraria aquelas sandices pelo prazo máximo de quinze minutos. Nada mais que isso.

Pouco tempo se passou para que, perplexos, víssemos algo que só existe nas telas de cinema. Ou, pelo menos, eu acreditava que assim fosse.

Aquele veículo com formas retangulares e pontas afiadas irrompeu no céu ensolarado e foi se aproximando de onde estávamos. As luzes que compunham sua fachada piscavam com tamanha intensidade que nem mesmo os reluzentes raios solares foram capazes de ofuscá-las. Suas cores, bastante variadas, eram dispostas de modo regular, obedecendo a um rigoroso padrão de medida. Também os locais dos frisos colados na aeronave eram milimetricamente planejados.

Quando enfim pousara na Terra, abrira suas portas e alguns homens puseram-se a descer as escadas brilhantes que repentinamente desabaram com volumoso estrondo. Sim, eram homens! Ao contrário do que dominava nossa imaginação, não eram seres deformados, com traços rudimentares, cabeças grandes e a pele verde. Tampouco tinham estatura baixa.

Com sorriso sereno, Dadá, o chefe da tripulação, estranhara minha presença ali. Por certo, imaginara que somente Netinho, anteriormente contatado por meio de sinais radiofônicos, estaria pronto para o embarque. Mesmo assim não se furtou a me convidar, pedindo discrição em relação a tudo que veria no trajeto e em nossa estada em Inverossimius, seu planeta de origem. O convite era irrecusável: ficaríamos por lá durante uma semana. Entretanto, por alguma mágica que jamais conseguiria explicar, seríamos devolvidos à Terra no exato minuto em que partimos.

Durante a viagem não paramos de prestar a atenção no caminho. Tudo era novidade! A cada minuto, percorríamos uma infinidade de galáxias, tamanha a quantidade de planetas que víamos através da janela. Um tanto já cansados, chegamos ao nosso destino. Fomos devidamente hospedados em um luxuoso hotel. Estávamos sem mala, sem roupas para trocar, sem escovas de dentes e sem nenhum outro utensílio necessário para o dia-a-dia. Garantiram-nos que tudo isso seria supérfluo por lá. Bastaria entrar nas câmeras de esterilização para que lográssemos a perfeita higiene. Já era noite e resolvemos dormir.

Ao raiar o dia, na companhia de Dadá, fomos para o salão no qual seria servido o café da manhã. Avistamos uma moça com a pele ruborizada e supusemos que devia estar com alguma alergia. Parecia também envergonhada e manifestava um incômodo sorriso no rosto. Logo Dadá percebeu nossa inquietação e não tardou a explicar:

– Ela acabou de fazer amor.

Não conseguimos entender, até que ele ponderou:

– Aqui, quando as pessoas fazem amor, ficam com o rosto vermelho após o prazer. Depois, tudo volta ao normal.

Havia um inequívoco desconforto naquilo, sobretudo para nós, que éramos adolescentes.

Nossa primeira noite em Inverossimius também prometia novidades. Fomos a uma boate. Netinho ficou impressionado ao notar que as mãos de alguns rapazes eram repletas de pêlos. Mais uma vez Dadá explicou que dificilmente eles ficavam vermelhos, ruborizados como a menina que havíamos visto. O que significaria?

– Eles raramente fazem amor? – perguntei.

– Exatamente – respondeu.

Tivemos a certeza de que a superstição da Terra tinha algum fundamento. A famosa quiromania fazia com que os rapazes assumissem um indesejável aspecto físico. Também era um fenômeno desvantajoso: desprovidos da oportunidade de ter uma parceira, os rapazes fatalmente acabariam por se expor se quisessem lograr o solitário prazer sexual.

Após alguns dias, conhecemos Emília. À exceção do grande nariz, tinha o rosto e o corpo dotado de uma proporcionalidade invejável. Era muito simpática e não raro contava histórias muito interessantes, mas pouco factíveis. Havia tido um caso amoroso com Dadá. Ele nos garantiu que, à época desse relacionamento, seu nariz era belo e pouco proeminente.

– Há quanto tempo vocês estão separados? – perguntou Netinho.

Dadá foi discreto. Daquela vez não explicou nada, só respondeu à pergunta.

– Um nariz não cresce tanto em três meses... – falei.

Compreendemos, enfim, que a menina era uma mentirosa contumaz.

Num noticiário televisivo, vimos um rapaz sendo devorado por seus próprios órgãos. A Defesa Civil havia se encarregado de levá-lo a um lugar isolado, onde deveria ficar até que o processo de autofagia se completasse e a morte lhe sobreviesse. No segundo dia de isolamento, o moleque havia se esvaído.

– Estupro – disse Dadá.

Percebendo nossa perplexidade diante daquele cenário, nosso anfitrião asseverou que os delitos e infrações morais cometidos naquele planeta tinham uma solução natural. Por esse motivo, não havia necessidade de instituições que garantissem a ordem social. Não existia polícia, nem Estado; não existiam leis formuladas pelos homens. Tudo quanto fosse transgressão a normas e costumes locais era punido pela própria natureza. Até mesmo os simples pecados, cometidos entre quatro paredes, eram dignos de repressão natural.

Não conseguimos entender aquele estranho sistema de sanções, nossa capacidade de abstração e nosso universo cultural eram ainda limitados. Tínhamos de prestar vestibular ao final do ano e não nos sobrava tempo para especulações fictícias. Fictícias no nosso planeta, é claro. Onde estávamos, era pura realidade. Lá, nossas lendas eram realidade e a natureza, impiedosa.

Foi difícil assimilar tanta informação e costumes tão díspares. Antes de terminarmos a conversa, Netinho fez uma última pergunta:

– O que acontece com quem não passa no vestibular?

– Ora, essa é uma simples circunstância de insucesso. Aqui vigora o princípio da proporcionalidade: para infrações cruéis, penas pesadas; para delitos ou insucessos leves, sanções sutis. No caso da reprovação do vestibular, a aura do candidato fica parecida com a de um burro até que ele seja aprovado.

Não me contive, gargalhei e fiz também uma pergunta:

– E quem é corneado?

– Ah, isso vocês sabem... Chifres na cabeça! – respondeu sorrindo.

Enfim, chegara o momento da despedida. Voltamos à Terra. Descemos no mesmo lugar e no mesmo momento em que partíramos, exatamente conforme o combinado. Sem a companhia de Netinho, corri para a casa de minha namorada. Estava morto de saudades. Ela abriu a porta com a cara vermelha, ruborizada e com um leve sorriso. Passei as mãos pela minha cabeça...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Bárbara, Boris e a insensatez

Na última sexta-feira (08/01/2010), em sua coluna da Folha de S. Paulo, Bárbara Gância, publicou texto intitulado "Sirvam a cabeça do Boris com batatas!". Parecia evidente seu propósito de tentar minimizar os efeitos da infeliz frase proferida por seu colega Boris Casoy. Para quem não sabe do que se trata, sugiro a leitura do post anterior.

O texto da articulista é eivado de insensatez. Seus argumentos não têm pé, nem cabeça.

Depois de mostrar que tem uma certa familiaridade com os garis e conhece um estudo psicológico sobre eles, Bárbara considera ter legitimidade para fazer ponderações sobre aquilo que Boris chamou de "o mais baixo na escala do trabalho". De pronto, diz aos leitores que essa legitimidade não existe para aqueles que jamais conversaram com garis ou a eles deram alguma atenção.

Logo depois, indaga:

"Mas, vem cá: tem alguma relevância? Muda em um iota todos os anos de excelentes serviços prestados por Boris Casoy ao jornalismo tapuia? É evidente que não".

Qual é a relação entre os (supostos) excelentes serviços prestados por Boris com o comentário que ele fez? O fato de ter prestado tais serviços - supostamente excelentes, repita-se! - não constitui condição suficiente para lhe permitir agredir a classe de garis e nenhuma outra qualquer. Do contrário, bastaria que um homem tivesse uma trajetória profissional com "serviços prestados" para, em certa altura de sua vida, proferir agressões a quem quer que fosse. Isso não tem o menor cabimento.

Continua a articulista:

"Que eu saiba, o lixeiro é mesmo 'o mais baixo na escala do trabalho', como afirmou Boris com desavergonhada crueza. Ou será que algum dalai lama vai ousar me dizer que o posto é ocupado pelos médicos? Um gari e um lixeiro desejando "muito dinheiro" em 2010 é mesmo motivo de riso; não vejo onde esteja o enorme preconceito de que o jornalista foi acusado".

Por que o lixeiro é o "mais baixo na escala do trabalho"? Qual é o critério que o sr. Boris utilizou para aferir aos garis o nível mais raso naquilo que chama de "escala do trabalho"? O que vem a ser essa escala do trabalho? Em que nível estão, por exemplo, o jornalista, o professor e o torneiro mecânico? E o presidente? Por vias tortuosas, a resposta foi dada pela sra Bárbara: os médicos seriam o ápice da tal escala.

Mal sabem Boris e Bárbara que no Rio de Janeiro, em tempos recentes, havia candidatos com curso superior a garis municipais.

A exemplo de Casoy, Bárbara considera motivo de riso os votos de "muito dinheiro" dados pelos garis. Quer dizer que somente gente rica pode desejar muito dinheiro para anos vindouros? Pobre agora nem mesmo poderá desejar? Qual é a lógica disso?

A falta de inteligência da autora também é evidente no trecho que segue:

"Mas, claro, Boris Casoy teve uma rusga pública com Lula e é identificado pela esquerda festiva, emburrada e histérica como sendo um homem de direita. E, portanto, Boris Casoy deve ser atacado a cada oportunidade que se apresente".
Será que somente os adeptos da "esquerda festiva" reputaram nojento o comentário de Boris. De onde Bárbara colheu os dados que, em princípio, afiançariam essa tese absurda?

Alguém poderia explicar qual é a relação do estúpido comentário de Boris Casoy com o fato de ele ser "identificado" como um "homem de direita"? Fosse identificado com a esquerda, poderia proferir despautérios a torto e a direito? Isso lhe facultaria pronunciar-se de maneira leviana, tal como fizera?

Só faltou a articulista recorrer a tendências futebolísticas, religiosas e culturais para tentar justificar a nauseabunda postura de seu colega. Poderia, então, evocar o time para o qual torce para justificar a natureza de suas posturas?

Na absoluta ausência de argumentos sólidos, Bárbara falou o que quis, sem nexo, sem fundamentação. Poderia ter ficado quieta. Optou, todavia, por sair em defesa do colega. Deve ter suas razões para isso. Mas.... bem que poderia caprichar na pena.

Em tempo: aqueles que porventura assistiram ao vídeo dos dois garis desejando um feliz 2010 devem ter percebido o tom de simplicidade, de humildade sincera deles. De minha parte, achei comovente.

Já o sr. Boris Casoy, achou uma merda.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Que vergonha, hein, Boris!

Antes de qualquer coisa, desejo a todos um feliz 2010, com muita saúde, paz, sucesso e felicidades! São votos sinceros, naturalmente....

Não sabia como estrear o blog nesse ano. Começarei da pior forma possível: mostrando a expressão da boçalidade do Sr. Boris Casoy.

No último dia do ano passado, após o Jornal da Band, o âncora histérico fez um comentário abjeto que foi captado pelos microfones da emissora.

Depois de veiculada a exibição da imagem de garis desejando a todos "muita paz, muita saúde, muito trabalho.... Feliz 2010", deixou escapar:

"Que merda... Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho".

Ato contínuo, alguém gritou "deu pau". Era o aviso de que os pensamentos nojentos do Sr. Casoy foram ouvidos pelos telespectadores do jornal.

Que vergonha, hein, Boris!

Para quem quiser assistir ao vídeo, visite o link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=Gcaom0cGE6w&NR=1

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Em tempos sombrios....

Em tempos sombrios qualquer atitude, por mais boba que seja, pode significar algo suspeito. É com base nessa suspeição quase paranóica que a ditadura militar brasileira, nos idos dos anos 1960-1970, incorreu numa série de lamentáveis equívocos. É sabido que muitos funcionários do aparato repressivo do Estado não eram bem preparados para executar as incumbências dadas por seus chefes. Eram meros autômatos, destituídos de inteligência própria. Lembro-me de uma reportagem da Folha de S. Paulo que versava sobre a incapacidade técnica (leia-se: burrice) desses funcionários.

Um dos capítulos da série Anos Rebeldes, veiculada pela Rede Globo em 1992, "revelou" (não se sabe se o fato aconteceu) que um estúpido meganha do governo foi capaz de apreender um exemplar do livro A capital, de Eça de Queiroz. Por certo, o imbecil acreditava tratar-se de leitura subversiva. É óbvio que confundira o livro do escritor lusitano com O capital, de Karl Marx.

Um equívoco curioso também aconteceu numa faculdade pública de engenharia.

Em 1970, quando chegara para aplicar a prova de sua disciplina, o professor se deparou com uma discussão. Seus alunos estavam divididos entre fazer ou não fazer a avaliação. Alguns queriam prazo maior para estudar. Outros, se pudessem, fariam a prova naquele mesmo dia. O debate foi longe e os ânimos se acirraram. Enfim, decidiu-se que a avaliação seria adiada.

Sem imaginar que, em poucos minutos, aquele fato seria noticiado por todo o campus, o professor voltou para seu departamento. Lá chegando foi informado de que o diretor da faculdade, à época um militar, queria lhe falar. Surpreso, compareceu à sala do sujeito.

Iniciou-se, então, um discurso sobre os benefícios do regime de exceção militar. O insano diretor elencou ao professor os "avanços" da ditadura, tentou mostrar-lhe que a criminalidade diminuíra, que a taxa de desemprego caíra substancialmente. Vociferou contra os estudantes, por ele considerados vagabundos que só faziam política universitária. Deixou claro que ocupara o posto no qual estava para fazer ruir qualquer tentativa de subversão estudantil.

O professor não conseguiu compreender a motivação daquela estúpida campanha ideológica encetada de forma tão particular e tão limitada. Teria questionado o poder vigente em alguma reunião da universidade? Fizera alguma observação afrontosa ao governo? Colocara em xeque alguma diretriz do autoritarismo brasileiro? Não, nada disso. Embora avesso ao Estado ditatorial, o professor preferia acompanhar a política de longe, com o cuidado necessário para não conspurcar sua atividade profissional, que lhe era tão cara.

Ao fim do discurso, o diretor revelou que ficara sabendo da "insurreição" dos estudantes da turma do professor. Imaginou que ali estivesse o início de uma contra-revolução, algo capaz de abalar a estrutura da política nacional. Chegara a seus ouvidos que aquela turma estava disposta a lutar pelo fim da ditadura e que iria depor o ilustre diretor.

O professor, com a lucidez que lhe sempre fora peculiar, tentou mostrar ao seu interlocutor que o debate de seus alunos era tão-somente para resolver a data de uma prova e não tinha nenhuma intenção política. Depois de sua explanação, ainda ouviu o brado da inteligência militar brasileira:

- Nós temos maneiras eficazes de acabar com aqueles que lutam contra a ordem.

Quanta burrice!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Por trás de um grande homem....

Sempre achei curiosa a idéia de que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Conheci uma dessas mulheres.

Na década de vinte, ainda moça, foi vizinha de Heitor Villa-Lobos. Conversava com ele amiúde. Acompanhou, não sei em que medida, o conturbado relacionamento do primeiro casamento do maestro. Afirmou-me, por várias vezes, que ele não transpunha para a partitura suas composições, cabendo à sua esposa essa árdua tarefa. Disse-me, também, que conheceu a velha guarda do samba e do choro cariocas. Benedito Lacerda e outros compositores ficavam nas ruas da pacata capital brasileira a executar músicas que entrariam para a história. Talvez tenha sido nessa época que se lhe despertou alguma aptidão para a música. Estudou piano e, ainda sem precisar trabalhar, se prestava, juntamente com amigas, a virar as partituras dos pianistas que faziam o som dos cinemas naquele período.

Nunca falou-me sobre seu pai. Soube depois que o sujeito era um alfaiate de mão cheia, servidor de gente graúda, mas que, por ter se envolvido com negócios escusos, teve de aportar à socapa em terras argentinas. Sua mãe e ela, por necessidade, passaram a fazer doces para a famosa Confeitaria Colombo.

Por volta da ditadura varguista, mais precisamente nos anos do Estado Novo, conheceu um jovem egresso do interior paulista. Ele fora estudar Medicina na capital e certamente se encantou com seus enormes olhos azuis. Casaram-se quando o regime de exceção de Vargas havia recrudescido. Depois que ele terminou a faculdade, mudaram-se para São José do Rio Preto, interior paulista, já com um filho a ser criado. Depois, viria outro.

Sempre a ouvi dizer que estava longe de sua terra. Havia nesse comentário algo que se assemelhava aos sentimentos dos escravos quando se queixavam da distância da mãe pátria. Acompanhava pelos jornais e pela TV o que acontecia no Rio de Janeiro. Não conseguiu, durante extenso tempo, acreditar que o paraíso no qual fora criada se transformara em uma cidade hostil, sujeita a disputas de territórios pelos narcotraficantes. Queixava-se disso, embora não demonstrasse muita tristeza.

O marido, já médico estabelecido e bastante conhecido, resolveu atirar-se na política. Obteve êxito, elegendo-se vereador por quatro vezes consecutivas. Ele casou-se também com a cidade, transitando por vários segmentos, costurando tramas políticas, estratégias sociais e tudo aquilo que era capaz de fazer pelo bem dos riopretenses. Cobiçou a prefeitura que, diziam, seria conquistada sem muitos esforços. Dela desistiu quando algo mais importante lhe aconteceu: foi nomeado diretor do Instituto Adolfo Lutz. Conduziu-o com severidade e rigor extremos. Entre tantas conquistas, em 1958, logrou a erradicação da Poliomielite dos arrabaldes da região.

Enquanto ele se mostrava um sujeito de educação rígida e muito austero – o que o afastava de muita gente, admita-se! – ela a todos encantava. Era uma gozadora. Não havia quase nada que escapasse à sua ironia despretensiosa, muito sutil. Gargalhava, debochava de coisa séria e não se deixava abater quando o marido lhe impingia alguma espécie de reprimenda injusta. Tinha a serenidade necessária para suportar a personalidade frenética dele. Mais que isso, tinha a fibra incansável para apoiá-lo em suas missões. Sem ela, ele não teria empreendido tanto.

Essa grande mulher morreu na semana passada, aos noventa anos, talvez com a mesma placidez com que sempre viveu. Era minha avó.