Não é uma cena da literatura como alguns posts anteriores. Mesmo assim, acho que merece atenção. É uma cena de novela. De uma das novelas mais geniais da história da TV brasileira: "Roque Santeiro". Lembro-me que fora exibida em 1985, mas não sabia precisamente a data. Procurando informações no Wikipedia, descobri que teve 209 capítulos e veiculou entre 24/06/1985 e 22/02/1986.
Vamos à cena.
Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) resolveu contar para toda a cidade quem era Roque Santeiro (José Wilker). Isso significava desmascarar o gigante mito que alimentava de todas as formas a pequena Asa Branca. Roque havia voltado do exterior e se encontrava na província. Seu pai, Beato Salu (Nelson Dantas), estava em coma, internado.
Padre Albano começou a tocar os sinos da igreja a fim de chamar a atenção da população para fazer a grande revelação. No mesmo instante, Beato Salu acordou. Enquanto Albano badalava os sinos, a população corria para ver o que estava acontecendo. O insano profeta, mais vivo do que nunca, entrava em cena, seguido pelo séquito das carolas católicas. Sua recuperação, diziam, era um milagre de Roque Santeiro. Os planos de Albano ruíram miseravelmente.
Segundo edição da Veja de 02/10/1985, no mesmo capítulo, Padre Hipólito (Paulo Gracindo) teria dito: "O mito é mais forte que a verdade".
E, tal como na realidade, o mito sobreviveu.
"Modelando o artista ao seu feitio/ O tempo, com seu lápis impreciso/ Põe-lhe rugas ao redor da boca/ Como contrapesos de um sorriso. "Tempo e artista" - Chico Buarque/1993
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
domingo, 16 de novembro de 2008
Tumitinha, atédezechega e circuncissfláutico
Mário Prata publicou no Estadão, em 23/01/1995, uma crônica chamada "O amor do Tumitinha era pouco e se acabou". Naturalmente, a frase versa sobre a interpretação muito pessoal que uma amiga dele fazia da famosa "Ciranda, cirandinha". Ela imaginava que Tumitinha era um japonês pequeno, cujo nome real era Tumita. Sempre que ouvia a música, ficava pesarosa, pois notava que o amor do Tumitinha havia se acabado.
Lembrei-me recentemente dessa crônica porque ouvi a expressão "até dizer chega" e me dei conta de que ela me era, na infância, uma só palavra: "atédezechega". "Atédezechega" constituía-se, para mim, de algo contrário à sua idéia primacial, ou seja, um limite. "Tomar coca-cola atédezechega", por exemplo, não era tomar coca até que não mais se agüentasse fazê-lo. Era tomá-la indefinidamente, para sempre, sem nenhum óbice. Fazer algo atédezechega era uma maravilhosa porque, tratando-se de algo prazeiroso, dava-me a legitimidade para extravagâncias de toda sorte. Somente mais tarde, atento à cadência da fala brasileira, dei-me conta de que o antigo atédezechega era pontual e preciso: "até dizer chega". Em suma, até não se agüentar mais.
"Sonso" foi outra palavra que me causou alguma confusão. Sempre a ouvia no feminino: "A fulana é uma sonsa mesmo!". Entendia que sonsa, naqueles casos, era a menina bocó, bobona, desatenta e um tanto burrinha. Alguém relativamente tranqüilo, sem a urgência característica da puberdade, poderia perfeitamente ser considerado sonso.
Havia, também, uma espécie de sinônimo de sonso que resultava na mesma confusão: "songamonga". Aí o exagero era patente! A songamonga era uma idiota completa! Muito tempo depois é que percebi o real sentido dessas palavras. O Aurélio me disse que sonso é "dissimulado, manhoso, astuto, velhaco, solerte, sonsinho". Então, tratava-se de idéia diametralmente oposta àquela que eu tinha? Isso mesmo! Songamonga, para minha surpresa, é a "pessoa sonsa, dissimulada". Dá no mesmo. Não foi curto o período em que empreguei esses termos de modo indevido.
Depois que comecei a me interessar pela obra do Mário de Andrade, e resolvi estudá-la, ficava intrigado com alguns termos que ele usava e cujo significado não encontrava em nenhum dicionário. Nesses casos, o melhor era deduzir o teor pelo sentido da frase, que é o que todos nós fazemos na ausência de dicionários ou outras fontes de pesquisa. Mário inventava nomes, verbos e palavras. Já falei aqui, por algumas vezes, que sua linguagem era um tanto peculiar. Há, entretanto, termos que, embora deduzíveis, revelam-se absolutamente feios. É o caso de "passadistização" e "circuncissfláutico". Esta última é invencível! "Fico meio circuncissfláutico com esses bairrismos, palavra", diria sobre os regionalismos de seu tempo.
Que o modernismo tivesse legitimidade para inventar, romper com padrões, é algo que não se discute. Foi justamente por isso que existiu e fez o que fez! Mas, daí a inventar o incompreensível, pode soar desagradável e, sobretudo, inútil. Se a palavra inventada não se converte em instrumento útil de comunicação, de entendimento, não tem valor. Mário, contudo, devia saber disso e, mesmo assim, inventava. E como inventava!
Boa semana a todos!
Lembrei-me recentemente dessa crônica porque ouvi a expressão "até dizer chega" e me dei conta de que ela me era, na infância, uma só palavra: "atédezechega". "Atédezechega" constituía-se, para mim, de algo contrário à sua idéia primacial, ou seja, um limite. "Tomar coca-cola atédezechega", por exemplo, não era tomar coca até que não mais se agüentasse fazê-lo. Era tomá-la indefinidamente, para sempre, sem nenhum óbice. Fazer algo atédezechega era uma maravilhosa porque, tratando-se de algo prazeiroso, dava-me a legitimidade para extravagâncias de toda sorte. Somente mais tarde, atento à cadência da fala brasileira, dei-me conta de que o antigo atédezechega era pontual e preciso: "até dizer chega". Em suma, até não se agüentar mais.
"Sonso" foi outra palavra que me causou alguma confusão. Sempre a ouvia no feminino: "A fulana é uma sonsa mesmo!". Entendia que sonsa, naqueles casos, era a menina bocó, bobona, desatenta e um tanto burrinha. Alguém relativamente tranqüilo, sem a urgência característica da puberdade, poderia perfeitamente ser considerado sonso.
Havia, também, uma espécie de sinônimo de sonso que resultava na mesma confusão: "songamonga". Aí o exagero era patente! A songamonga era uma idiota completa! Muito tempo depois é que percebi o real sentido dessas palavras. O Aurélio me disse que sonso é "dissimulado, manhoso, astuto, velhaco, solerte, sonsinho". Então, tratava-se de idéia diametralmente oposta àquela que eu tinha? Isso mesmo! Songamonga, para minha surpresa, é a "pessoa sonsa, dissimulada". Dá no mesmo. Não foi curto o período em que empreguei esses termos de modo indevido.
Depois que comecei a me interessar pela obra do Mário de Andrade, e resolvi estudá-la, ficava intrigado com alguns termos que ele usava e cujo significado não encontrava em nenhum dicionário. Nesses casos, o melhor era deduzir o teor pelo sentido da frase, que é o que todos nós fazemos na ausência de dicionários ou outras fontes de pesquisa. Mário inventava nomes, verbos e palavras. Já falei aqui, por algumas vezes, que sua linguagem era um tanto peculiar. Há, entretanto, termos que, embora deduzíveis, revelam-se absolutamente feios. É o caso de "passadistização" e "circuncissfláutico". Esta última é invencível! "Fico meio circuncissfláutico com esses bairrismos, palavra", diria sobre os regionalismos de seu tempo.
Que o modernismo tivesse legitimidade para inventar, romper com padrões, é algo que não se discute. Foi justamente por isso que existiu e fez o que fez! Mas, daí a inventar o incompreensível, pode soar desagradável e, sobretudo, inútil. Se a palavra inventada não se converte em instrumento útil de comunicação, de entendimento, não tem valor. Mário, contudo, devia saber disso e, mesmo assim, inventava. E como inventava!
Boa semana a todos!
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Gargalos
Não conheço família destituída de tiques, manias e neuroses. Há gosto para todo tipo.... Apenas a intensidade das neuras é que varia. Em família, é sabido, todo mundo se revela um pouco louco. Essa loucura parece ser absolutamente normal até que alguém perceba.
Em casa, acostumamo-nos a examinar o gargalo das antigas garrafas de refrigerante. Eram de vidro e muitas vezes quebravam ao abrir. Se caísse um caco no fundo da garrafa e alguém consumisse....
Ouvíamos histórias tenebrosas. Uma amiga da escola garantiu-me que um tio dela foi parar no hospital com um cacão de vidro no estômago. O coitado precisou submeter-se a uma cirurgia de emergência. Hemorragia para todo lado, quase morreu! A criançada ficava em volta para saber como aquilo aconteceu....
Nos idos anos 80, numa noite de verão, fazia muito calor. Na geladeira, uma única garrafa de coca-cola. Resolvemos abri-la. O gargalo estava quebrado. Justamente na borda interior! E agora?
Teríamos de comprar outra! Àquela hora, contudo, o supermercado já havia fechado. Cidade do interior, naquela época, ainda não tinha a facilidade das "24 horas", tudo fechava cedo. Uma alternativa interessante residia em procurar por um boteco e comprar o refrigerante. Cadê vontade? Ninguém se habilitou....
Ficamos num impasse horroroso... E o calor parecia aumentar com vontade da coca. Toma, não toma. Toma, não toma. Por via das dúvidas, minha mãe falou, é melhor não tomar. Resolveu-se que deveríamos coar a bendita coca-cola. Não me recordo como a tarefa foi empreendida, mas sei que meu pai armou uma engenhoca bacana.
Cada um tomou seu copo – já sem gás algum! (arghhhh) – e se deu por satisfeito. Ninguém viu caco no coador. O exagero da conduta era grande, mas, no fundo, ninguém desejava arriscar.
Anos depois, já casado, resolvi sair com ela para jantar. Pedimos coca-cola e o garçom abriu a garrafa na nossa frente. O gargalo estava quebrado, não havia dúvida. Solicitei a troca da garrafa. Logo depois, ele apareceu com outra. Repetiu o gesto: abriu o refrigerante na nossa presença e esperou para ver se estava tudo bem. Surpresa!!! A segunda garrafa também estava quebrada. Não tive dúvidas: pedi que trocasse novamente o refrigerante.
Após mais um tempinho, voltou. Pôs a garrafa na mesa e abriu. Quando olhei para o gargalo, tive aquela sensação inequívoca de déjà vu. O corte era exatamente o mesmo! O garçom, cara amarrada, olhou-me com reprovação. Tentou argumentar que o problema "era de fábrica". Silenciei e, com calma, pedi uma lata de coca-cola. Problema resolvido!
Veio a lata! Ele olhou para mim e, sarcástico, disse:
- Essa não tem como quebrar!
Sorri, aquiescendo. Estava satisfeito que as garrafas de coca-cola seriam inutilizadas pelo restaurante.
Antes de ir embora, vimos o garçom servindo uma mesa com duas garrafas de coca. Elas estavam a caminho da mesa já abertas.
Como a dúvida é cruel....
Em casa, acostumamo-nos a examinar o gargalo das antigas garrafas de refrigerante. Eram de vidro e muitas vezes quebravam ao abrir. Se caísse um caco no fundo da garrafa e alguém consumisse....
Ouvíamos histórias tenebrosas. Uma amiga da escola garantiu-me que um tio dela foi parar no hospital com um cacão de vidro no estômago. O coitado precisou submeter-se a uma cirurgia de emergência. Hemorragia para todo lado, quase morreu! A criançada ficava em volta para saber como aquilo aconteceu....
Nos idos anos 80, numa noite de verão, fazia muito calor. Na geladeira, uma única garrafa de coca-cola. Resolvemos abri-la. O gargalo estava quebrado. Justamente na borda interior! E agora?
Teríamos de comprar outra! Àquela hora, contudo, o supermercado já havia fechado. Cidade do interior, naquela época, ainda não tinha a facilidade das "24 horas", tudo fechava cedo. Uma alternativa interessante residia em procurar por um boteco e comprar o refrigerante. Cadê vontade? Ninguém se habilitou....
Ficamos num impasse horroroso... E o calor parecia aumentar com vontade da coca. Toma, não toma. Toma, não toma. Por via das dúvidas, minha mãe falou, é melhor não tomar. Resolveu-se que deveríamos coar a bendita coca-cola. Não me recordo como a tarefa foi empreendida, mas sei que meu pai armou uma engenhoca bacana.
Cada um tomou seu copo – já sem gás algum! (arghhhh) – e se deu por satisfeito. Ninguém viu caco no coador. O exagero da conduta era grande, mas, no fundo, ninguém desejava arriscar.
Anos depois, já casado, resolvi sair com ela para jantar. Pedimos coca-cola e o garçom abriu a garrafa na nossa frente. O gargalo estava quebrado, não havia dúvida. Solicitei a troca da garrafa. Logo depois, ele apareceu com outra. Repetiu o gesto: abriu o refrigerante na nossa presença e esperou para ver se estava tudo bem. Surpresa!!! A segunda garrafa também estava quebrada. Não tive dúvidas: pedi que trocasse novamente o refrigerante.
Após mais um tempinho, voltou. Pôs a garrafa na mesa e abriu. Quando olhei para o gargalo, tive aquela sensação inequívoca de déjà vu. O corte era exatamente o mesmo! O garçom, cara amarrada, olhou-me com reprovação. Tentou argumentar que o problema "era de fábrica". Silenciei e, com calma, pedi uma lata de coca-cola. Problema resolvido!
Veio a lata! Ele olhou para mim e, sarcástico, disse:
- Essa não tem como quebrar!
Sorri, aquiescendo. Estava satisfeito que as garrafas de coca-cola seriam inutilizadas pelo restaurante.
Antes de ir embora, vimos o garçom servindo uma mesa com duas garrafas de coca. Elas estavam a caminho da mesa já abertas.
Como a dúvida é cruel....
sábado, 1 de novembro de 2008
Jabuti 2008
Foi ontem a entrega dos prêmios da 50ª edição do Jabuti. A TV Cultura transmitiu a cerimônia da Sala São Paulo pela internet. A iniciativa merece os mais altos elogios. Quem sabe na próxima edição teremos a transmissão para a TV?
Como disse no post passado, lamentavelmente ando sem tempo para a literatura. Não li, portanto, nenhum dos livros finalistas. Acompanhei as indicações e bati os olhos em alguns trechos do Antônio, de Beatriz Bracher, terceira colocada na categoria Romance.
O primeiro lugar ficou com Filho Eterno, do Cristovão Tezza, livro, aliás, premiado no Portugal/Brasil Telecom e em outros tantos concursos. Parecia haver vozes uníssonas de que Tezza levaria também o prêmio de "Livro do ano de ficção" do Jabuti. Não levou!
Quando Cunha Jr anunciou que Loyola Brandão era o premiado com O menino que vendia palavras, a platéia manifestou largo contentamento. Loyola subiu ao palco para os agradecimentos.
Disse que levou um susto, porque supunha, a exemplo de todos, que o Filho Eterno ficaria com o prêmio. Iniciou, então, um pequeno discurso.
Falou que tem o prazer de, após seus setenta e poucos anos, conviver ainda com as duas professoras que o iniciaram na leitura. Elas estão vivas, lá em Araraquara. Contou que, recentemente, numa homenagem feita a ele, uma delas indagou à outra:
- Quantos livros o menino já escreveu?
- 31!
- Ihhhh.... Acho que não vou conseguir ler tudo. Minha vista já não está boa!
O prêmio foi dedicado a elas, é claro!
Como disse no post passado, lamentavelmente ando sem tempo para a literatura. Não li, portanto, nenhum dos livros finalistas. Acompanhei as indicações e bati os olhos em alguns trechos do Antônio, de Beatriz Bracher, terceira colocada na categoria Romance.
O primeiro lugar ficou com Filho Eterno, do Cristovão Tezza, livro, aliás, premiado no Portugal/Brasil Telecom e em outros tantos concursos. Parecia haver vozes uníssonas de que Tezza levaria também o prêmio de "Livro do ano de ficção" do Jabuti. Não levou!
Quando Cunha Jr anunciou que Loyola Brandão era o premiado com O menino que vendia palavras, a platéia manifestou largo contentamento. Loyola subiu ao palco para os agradecimentos.
Disse que levou um susto, porque supunha, a exemplo de todos, que o Filho Eterno ficaria com o prêmio. Iniciou, então, um pequeno discurso.
Falou que tem o prazer de, após seus setenta e poucos anos, conviver ainda com as duas professoras que o iniciaram na leitura. Elas estão vivas, lá em Araraquara. Contou que, recentemente, numa homenagem feita a ele, uma delas indagou à outra:
- Quantos livros o menino já escreveu?
- 31!
- Ihhhh.... Acho que não vou conseguir ler tudo. Minha vista já não está boa!
O prêmio foi dedicado a elas, é claro!
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Questões paralelas
"Por causa de umas questões paralelas", como diria o poeta, ando sumido da blogosfera. Não é que tenham "cassado meu boletim", mas estou metido com a burocracia da vida acadêmica. Aliás, burocracia na vida acadêmica seria pleonasmo se não fosse tão estúpida. Justamente por se tratar de ambiente no qual as pessoas (supostamente, ao menos supostamente) tenham bom senso, a coisa fica ainda mais desagradável. Há, contudo, algumas boas almas que se salvam, é claro! Eu é que não tenho salvação!
Para que não se pense que estou irascível, digo que nesses quase dois meses sem escrever nada no blog ocorreu-me de aparecer por aqui para contar umas piadas, umas besteiras que andam povoando minha imaginação. Cadê tempo? A correria não deixa. E, o que é pior, até a literatura ficou para escanteio!
Outro dia mesmo, sem querer, entrei na Livraria Cultura e quase não saí de lá. Quando me dei conta, estava lendo uns contos, totalmente absorto, meio quieto, esquecido da vida. Lembrei-me que agora não posso, não! É hora de sofrer com a "angústia das pequenas coisas ridículas".
Por falar em sofrer, na noite de um domingo passado, deparei-me com um espetáculo digno de nota para o final de outro domingo: era o famigerado e esperado encontro do Mano Caetano com o Roberto Carlos, para comemorar os 50 anos da Bossa Nova. De Bossa Nova havia apenas as músicas e o neto do Maestro que, aliás, interpretou de modo belíssimo "Águas de Março".
O resto?
Até hoje tenho medo de sonhar com o Roberto Carlos cantando "Insensatez" em espanhol.
Juro para vocês que eu não estava bêbado.
Boa semana!
Para que não se pense que estou irascível, digo que nesses quase dois meses sem escrever nada no blog ocorreu-me de aparecer por aqui para contar umas piadas, umas besteiras que andam povoando minha imaginação. Cadê tempo? A correria não deixa. E, o que é pior, até a literatura ficou para escanteio!
Outro dia mesmo, sem querer, entrei na Livraria Cultura e quase não saí de lá. Quando me dei conta, estava lendo uns contos, totalmente absorto, meio quieto, esquecido da vida. Lembrei-me que agora não posso, não! É hora de sofrer com a "angústia das pequenas coisas ridículas".
Por falar em sofrer, na noite de um domingo passado, deparei-me com um espetáculo digno de nota para o final de outro domingo: era o famigerado e esperado encontro do Mano Caetano com o Roberto Carlos, para comemorar os 50 anos da Bossa Nova. De Bossa Nova havia apenas as músicas e o neto do Maestro que, aliás, interpretou de modo belíssimo "Águas de Março".
O resto?
Até hoje tenho medo de sonhar com o Roberto Carlos cantando "Insensatez" em espanhol.
Juro para vocês que eu não estava bêbado.
Boa semana!
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
O acordo ortográfico
Pouco antes de completar dois meses sem escrever um post, resolvi aparecer. Mas não para escrever. Coloco abaixo a crônica do Cony de hoje, na Folha. Ela versa sobre o acordo ortográfico entre os países lusófonos. Estou inteiramente de acordo com seu conteúdo. Ei-la:
Um acordo bestial - Carlos Heitor Cony
NO MEU entender, discutir o acordo ortográfico assinado há dias pelo presidente da República parece que não levará a nada. Pode prevalecer por um algum tempo, como as nossas Constituições anteriores, mas de tempos em tempos, além de modificá-las, fazemos uma nova.
Em primeiríssimo lugar, pergunto se há realmente necessidade cultural e prática para estabelecer regras ortográficas a serem usadas pelos países de língua lusófona.
Em geral, cita-se o respeito que devemos ter pela matriz, que é o português. Mas daí a dúvida: que português e que ortografia devem ser respeitadas agora e no futuro? O português e a ortografia de Camões ou Frei Luiz de Souza? Ou de Pero Vaz Caminha que escreveu a certidão de nascimento de um país recém-descoberto? Para não ir muito longe, como adotar a ortografia de nossos clássicos, de José de Anchieta ou de Machado de Assis?
Como aquela "dona" da ópera de Verdi, a linguagem "è mobile", e a ortografia também. Agora mesmo, quando se procura unificar a maneira de escrever palavras, está surgindo uma nova ortografia, até certo ponto radical, usada inicialmente pelos internautas, mas que está vazando para textos literários e do uso cotidiano. "Bj" e "tb", para citar os mais freqüentes, substituem "beijo" e "também".
Uma simplificação? Ou uma agressão à norma dita erudita? Temos o caso de simplificação mais radical na expressão "Vossa Excelência", que foi reduzida para "vosmicê" e terminou na forma simpática e não contestada de "você". Bem verdade que a própria redução foi reduzida e há tempos que usamos o simples "v" para a mesmíssima coisa.
São respeitáveis os argumentos a favor do acordo. Houve outros, no passado, que foram desacordados pelo uso e abuso. No espaço de minha geração, enfrentei várias ortografias, inclusive aquela que aboliu o "w", o "y" e o "k". Houve jornais que passaram a escrever Cubisticheque, quem menos gostou da idéia foi o próprio Kubistchek. "Brincadeira tem hora", disse-me ele.
Eu próprio fiquei chateado quando até uma enciclopédia grafou o meu nome sem o "y". No meu caso, não se tratava de uma pinimba, como em Gilberto Freyre, mas do nome de meus antepassados.
Os adeptos daquela ortografia diziam que o camarada tinha o direito de escrever o próprio nome como bem entendesse, mas os outros não. Esqueceram o fundamental: o nome é, digamos, a marca industrial, a "trademark" de um indivíduo. Em termos de norma culta, a marca do carro Simca devia ser Sinca. E a Telefonica devia ser Telefônica, para estar de acordo com a acentuação das palavras proparoxítonas.
Considerar o acordo como um instrumento poderoso para a unificação cultural e espiritual dos povos lusófonos é apenas uma boa intenção. Esta unificação deve existir sem necessidade de obrigarem os portugueses a escrever "facto" e "fato" com sentidos diferentes. Pensando bem, e analisando historicamente as palavras, há mais sentido em Portugal quando ali escrevem "súbdito" em vez de "súdito". O prefixo "sub" inclui a idéia de submissão e não de "sumissão".
Autores brasileiros reclamam quando seus livros são traduzidos para o português de Portugal. Por acaso, tenho dois livros ali publicados: um foi traduzido literalmente, trem virou comboio e diretor virou director. Honestamente, não me senti insultado. Na versão francesa do mesmo romance, "pacote" virou "paquet". E daí?
O outro, mais recente, foi transcrito tal como o escrevi, mas com abundantes notas ao pé de página. "Dar sopa" foi explicado como "proporcionar" e "torcer" como "desejar". Nos dois casos, o da tradução e o da nota ao pé de página, não foi prejudicada a essência -se é que meus livros têm alguma essência.
Insisto no respeito e na admiração aos abnegados amantes da língua, aqui e em Portugal, que gastaram anos de pesquisa e trabalho na tentativa de unificar a ortografia a ser usada oficialmente no Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Alvíssaras para o nosso idioma, que segundo Fernando Pessoa, deve ser a nossa pátria. Foi um enorme esforço que os portugueses poderiam classificar de "bestial".
Um acordo bestial - Carlos Heitor Cony
NO MEU entender, discutir o acordo ortográfico assinado há dias pelo presidente da República parece que não levará a nada. Pode prevalecer por um algum tempo, como as nossas Constituições anteriores, mas de tempos em tempos, além de modificá-las, fazemos uma nova.
Em primeiríssimo lugar, pergunto se há realmente necessidade cultural e prática para estabelecer regras ortográficas a serem usadas pelos países de língua lusófona.
Em geral, cita-se o respeito que devemos ter pela matriz, que é o português. Mas daí a dúvida: que português e que ortografia devem ser respeitadas agora e no futuro? O português e a ortografia de Camões ou Frei Luiz de Souza? Ou de Pero Vaz Caminha que escreveu a certidão de nascimento de um país recém-descoberto? Para não ir muito longe, como adotar a ortografia de nossos clássicos, de José de Anchieta ou de Machado de Assis?
Como aquela "dona" da ópera de Verdi, a linguagem "è mobile", e a ortografia também. Agora mesmo, quando se procura unificar a maneira de escrever palavras, está surgindo uma nova ortografia, até certo ponto radical, usada inicialmente pelos internautas, mas que está vazando para textos literários e do uso cotidiano. "Bj" e "tb", para citar os mais freqüentes, substituem "beijo" e "também".
Uma simplificação? Ou uma agressão à norma dita erudita? Temos o caso de simplificação mais radical na expressão "Vossa Excelência", que foi reduzida para "vosmicê" e terminou na forma simpática e não contestada de "você". Bem verdade que a própria redução foi reduzida e há tempos que usamos o simples "v" para a mesmíssima coisa.
São respeitáveis os argumentos a favor do acordo. Houve outros, no passado, que foram desacordados pelo uso e abuso. No espaço de minha geração, enfrentei várias ortografias, inclusive aquela que aboliu o "w", o "y" e o "k". Houve jornais que passaram a escrever Cubisticheque, quem menos gostou da idéia foi o próprio Kubistchek. "Brincadeira tem hora", disse-me ele.
Eu próprio fiquei chateado quando até uma enciclopédia grafou o meu nome sem o "y". No meu caso, não se tratava de uma pinimba, como em Gilberto Freyre, mas do nome de meus antepassados.
Os adeptos daquela ortografia diziam que o camarada tinha o direito de escrever o próprio nome como bem entendesse, mas os outros não. Esqueceram o fundamental: o nome é, digamos, a marca industrial, a "trademark" de um indivíduo. Em termos de norma culta, a marca do carro Simca devia ser Sinca. E a Telefonica devia ser Telefônica, para estar de acordo com a acentuação das palavras proparoxítonas.
Considerar o acordo como um instrumento poderoso para a unificação cultural e espiritual dos povos lusófonos é apenas uma boa intenção. Esta unificação deve existir sem necessidade de obrigarem os portugueses a escrever "facto" e "fato" com sentidos diferentes. Pensando bem, e analisando historicamente as palavras, há mais sentido em Portugal quando ali escrevem "súbdito" em vez de "súdito". O prefixo "sub" inclui a idéia de submissão e não de "sumissão".
Autores brasileiros reclamam quando seus livros são traduzidos para o português de Portugal. Por acaso, tenho dois livros ali publicados: um foi traduzido literalmente, trem virou comboio e diretor virou director. Honestamente, não me senti insultado. Na versão francesa do mesmo romance, "pacote" virou "paquet". E daí?
O outro, mais recente, foi transcrito tal como o escrevi, mas com abundantes notas ao pé de página. "Dar sopa" foi explicado como "proporcionar" e "torcer" como "desejar". Nos dois casos, o da tradução e o da nota ao pé de página, não foi prejudicada a essência -se é que meus livros têm alguma essência.
Insisto no respeito e na admiração aos abnegados amantes da língua, aqui e em Portugal, que gastaram anos de pesquisa e trabalho na tentativa de unificar a ortografia a ser usada oficialmente no Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Alvíssaras para o nosso idioma, que segundo Fernando Pessoa, deve ser a nossa pátria. Foi um enorme esforço que os portugueses poderiam classificar de "bestial".
domingo, 17 de agosto de 2008
Buenos Aires
Em julho de 1998, época de Copa do Mundo, fomos parar em Buenos Aires. Chegamos lá no dia em que o Brasil jogava contra o Chile. Almoçando na Galleria Pacífico, na Florida, notamos que os argentinos torciam para a seleção do Zagallo. Portanto, embora em terras estrangeiras, o clima era bastante amistoso e havia alguma deferência quando algum portenho percebia que éramos brasileiros.
- Ronaldinho? – perguntavam com o sorriso na cara.
- Sim, Ronaldinho! – respondíamos. Aquele que não ganharia a malfadada final contra a França.
Abstraímos o clima da Copa para aproveitar a cidade. Conhecemos as construções históricas e um pouco daquela nação que, embora bem próxima, parece-nos tão distante.
O clima começou a ficar pesado quando soubemos que a Argentina enfrentaria a Inglaterra. Seria um jogo histórico! Não era possível: reviveriam os tempos da Guerra das Malvinas? A velha rivalidade voltaria depois de tanto tempo? O confronto seria violento? Seria seguro passear naquele dia pelas ruas de Buenos Aires?
Para evitar problemas, o combinado era o seguinte: almoçaríamos na Ricolleta, passearíamos um pouco e, na hora do jogo, voltaríamos para o hotel.
Almoço terminado, passamos pelo Museu Nacional de Belas Artes. Em frente à embaixada brasileira, demo-nos conta de que o jogo já havia começado. Salvo equívoco, nos primeiros minutos, a Argentina marcou um gol. E agora? Melhor seria tomar um café e, depois, voltar para o hotel.
Entramos no Café Cristopher, localizado logo no início da Nove de Julho, quase no limite com a Ricolleta. Enquanto acompanhavam o jogo, os argentinos não moviam um músculo sequer. A tensão era enorme. Todos ali olhavam para as televisões afixadas nos cantos do salão.
Pênalti! Pênalti para a Inglaterra!
- Se marcarem o gol, a coisa vai ficar feia! – pensei rapidamente.
Desavisado, parei em frente a uma TV para ver a cobrança da penalidade. Não percebi que estava obstruindo a visão de algum torcedor fanático. Para piorar, desejosa de logo se sentar, ela me cutucava enquanto o jogador inglês se preparava para chutar a bola. Sem se dar conta da gravidade da situação, me dizia sussurrando:
- Vai, vai, no canto, no canto....
Pensei que fosse apanhar, sobretudo depois que o gol foi marcado. E, justamente, no canto!
É só.... Por ora é só....
- Ronaldinho? – perguntavam com o sorriso na cara.
- Sim, Ronaldinho! – respondíamos. Aquele que não ganharia a malfadada final contra a França.
Abstraímos o clima da Copa para aproveitar a cidade. Conhecemos as construções históricas e um pouco daquela nação que, embora bem próxima, parece-nos tão distante.
O clima começou a ficar pesado quando soubemos que a Argentina enfrentaria a Inglaterra. Seria um jogo histórico! Não era possível: reviveriam os tempos da Guerra das Malvinas? A velha rivalidade voltaria depois de tanto tempo? O confronto seria violento? Seria seguro passear naquele dia pelas ruas de Buenos Aires?
Para evitar problemas, o combinado era o seguinte: almoçaríamos na Ricolleta, passearíamos um pouco e, na hora do jogo, voltaríamos para o hotel.
Almoço terminado, passamos pelo Museu Nacional de Belas Artes. Em frente à embaixada brasileira, demo-nos conta de que o jogo já havia começado. Salvo equívoco, nos primeiros minutos, a Argentina marcou um gol. E agora? Melhor seria tomar um café e, depois, voltar para o hotel.
Entramos no Café Cristopher, localizado logo no início da Nove de Julho, quase no limite com a Ricolleta. Enquanto acompanhavam o jogo, os argentinos não moviam um músculo sequer. A tensão era enorme. Todos ali olhavam para as televisões afixadas nos cantos do salão.
Pênalti! Pênalti para a Inglaterra!
- Se marcarem o gol, a coisa vai ficar feia! – pensei rapidamente.
Desavisado, parei em frente a uma TV para ver a cobrança da penalidade. Não percebi que estava obstruindo a visão de algum torcedor fanático. Para piorar, desejosa de logo se sentar, ela me cutucava enquanto o jogador inglês se preparava para chutar a bola. Sem se dar conta da gravidade da situação, me dizia sussurrando:
- Vai, vai, no canto, no canto....
Pensei que fosse apanhar, sobretudo depois que o gol foi marcado. E, justamente, no canto!
É só.... Por ora é só....
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
O reencontro de Brás Cubas e Marcela
Cenas da Literatura III: O reencontro de Brás Cubas e Marcela
São fantásticos os desatinos cometidos por Brás Cubas por causa de Marcela. Mais fantástico ainda é o reencontro com ela, anos depois da paixão juvenil. Marcela, já velha, decadente, por trás do balcão sugere que o tempo é mesmo implacável. Seguem abaixo dois trechos: aquele que inicia a narrativa sobre a personagem do romance e o momento do reencontro. Vale a pena ler.
"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis, nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil".
"Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce destruía-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-lo-eis, pósteros? Essa mulher era Marcela".
(ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 1997, p. 48 e 80-81 respectivamente).
São fantásticos os desatinos cometidos por Brás Cubas por causa de Marcela. Mais fantástico ainda é o reencontro com ela, anos depois da paixão juvenil. Marcela, já velha, decadente, por trás do balcão sugere que o tempo é mesmo implacável. Seguem abaixo dois trechos: aquele que inicia a narrativa sobre a personagem do romance e o momento do reencontro. Vale a pena ler.
"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis, nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil".
"Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce destruía-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja. Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-lo-eis, pósteros? Essa mulher era Marcela".
(ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 1997, p. 48 e 80-81 respectivamente).
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
O gênio e o borra-botas
John Lennon e Tom Jobim morreram no dia 08/12. O primeiro em 1980 e o segundo, em 1994. Um dia, disse isso a um amigo. E ainda completei, exagerando:
- A diferença é que um era gênio e o outro, um borra-botas.
Para me provocar, ele perguntou:
- Quem era o gênio?
Quase bati no meu amigo!
Que ninguém ouse me escrever para fazer a mesma pergunta!
É só.... Por ora é só....
- A diferença é que um era gênio e o outro, um borra-botas.
Para me provocar, ele perguntou:
- Quem era o gênio?
Quase bati no meu amigo!
Que ninguém ouse me escrever para fazer a mesma pergunta!
É só.... Por ora é só....
sexta-feira, 25 de julho de 2008
O bar, a Constituição e o "pertubado"
Antes mesmo de alugar o apartamento, tinha ciência de que ali perto, bem perto, havia um bar. Ótimo! A idéia era atrativa. O tal bar tinha música ao vivo. MPB com violão e algo mais. Fantástico!
O problema era que, embora ainda notívago e boêmio, cansei-me. As atividades do bar não davam trégua. Se quisesse aproveitá-lo não conseguiria trabalhar. Não era possível: de terça a sábado havia música alta, palmas e muita baderna ao final da noite. As situações eram as de sempre: bêbados jurando amor eterno ao amigo que "é gente boa", que "é legal pra caramba".
Após longas e sucessivas noites de som alto, paciência exaurida, liguei para a polícia. Expliquei a situação e pedi informações sobre o procedimento correto para resolver o problema. Do outro lado da linha, o Soldado Edson (assim se apresentou) me disse que só poderia tomar alguma providência caso eu fosse juntamente com a viatura da polícia até o bar. A reclamação deveria ter um autor claro, manifesto. Como era eu o incomodado, deveria encarar o dono do boteco e dizer que o barulho me aporrinhava.
Para qualquer indivíduo de bom senso, aquelas instruções soariam absurdas, por várias razões. A primeira delas é que, estando frio, muito frio, não seria conveniente que o incomodado saísse de casa para fazer a tal reclamação. Caberia à polícia resolver o problema, sem mais delongas. Bastava, portanto, que uma viatura se certificasse de que o alto volume do som era um fato.
A outra razão, a mais óbvia, é que, apresentando-se ao dono do bar, o incomodado poderia correr algum risco de perseguição futura. Não seria ideal que o reclamante se mostrasse. A polícia, ciente da existência de retaliações em casos como aquele, deveria desconfiar disso e tomar alguma providência.
O sono já havia passado e eu ainda insistia com o tal soldado para que alguma providência fosse tomada sem que eu precisasse sair de casa. Já havia chegado aos meus ouvidos que o dono do boteco era violento e que jamais reagiu bem às reclamações feitas. Sugeri que a viatura da polícia apenas passasse em frente ao bar. Talvez isso fosse suficiente para intimidar os donos do estabelecimento e fazê-los abaixar o volume do som.
Sem acordo! Categórico, o soldado Edson me disse:
- Não posso fazer nada. O "pertubado" tem que aparecer. Se o "pertubado" não aparecer no bar, não podemos fazer nada. O "pertubado" precisa mostrar que está sendo "pertubado".
Já sem esperanças, resmunguei um pouco.... O soldado me saiu com essa:
- Veja o senhor que antes dessa Constituição (1988), isso não acontecia. A gente chegava nos bares, prendia os instrumentos, era violão prum lado, bateria pro outro... A gente descia o sarrafo e ninguém falava nada. Agora, essa tal Constituição não deixa mais a gente fazer isso e os músicos estão cada vez mais abusados. É o tal (sic) dos direitos humanos. E o senhor quer dormir e os direitos humanos não deixa (sic).
Só consegui dormir depois de algum tempo, confiante na Constituição, "pertubado" e descrente do bom senso alheio.
É só.... Por ora é só....
O problema era que, embora ainda notívago e boêmio, cansei-me. As atividades do bar não davam trégua. Se quisesse aproveitá-lo não conseguiria trabalhar. Não era possível: de terça a sábado havia música alta, palmas e muita baderna ao final da noite. As situações eram as de sempre: bêbados jurando amor eterno ao amigo que "é gente boa", que "é legal pra caramba".
Após longas e sucessivas noites de som alto, paciência exaurida, liguei para a polícia. Expliquei a situação e pedi informações sobre o procedimento correto para resolver o problema. Do outro lado da linha, o Soldado Edson (assim se apresentou) me disse que só poderia tomar alguma providência caso eu fosse juntamente com a viatura da polícia até o bar. A reclamação deveria ter um autor claro, manifesto. Como era eu o incomodado, deveria encarar o dono do boteco e dizer que o barulho me aporrinhava.
Para qualquer indivíduo de bom senso, aquelas instruções soariam absurdas, por várias razões. A primeira delas é que, estando frio, muito frio, não seria conveniente que o incomodado saísse de casa para fazer a tal reclamação. Caberia à polícia resolver o problema, sem mais delongas. Bastava, portanto, que uma viatura se certificasse de que o alto volume do som era um fato.
A outra razão, a mais óbvia, é que, apresentando-se ao dono do bar, o incomodado poderia correr algum risco de perseguição futura. Não seria ideal que o reclamante se mostrasse. A polícia, ciente da existência de retaliações em casos como aquele, deveria desconfiar disso e tomar alguma providência.
O sono já havia passado e eu ainda insistia com o tal soldado para que alguma providência fosse tomada sem que eu precisasse sair de casa. Já havia chegado aos meus ouvidos que o dono do boteco era violento e que jamais reagiu bem às reclamações feitas. Sugeri que a viatura da polícia apenas passasse em frente ao bar. Talvez isso fosse suficiente para intimidar os donos do estabelecimento e fazê-los abaixar o volume do som.
Sem acordo! Categórico, o soldado Edson me disse:
- Não posso fazer nada. O "pertubado" tem que aparecer. Se o "pertubado" não aparecer no bar, não podemos fazer nada. O "pertubado" precisa mostrar que está sendo "pertubado".
Já sem esperanças, resmunguei um pouco.... O soldado me saiu com essa:
- Veja o senhor que antes dessa Constituição (1988), isso não acontecia. A gente chegava nos bares, prendia os instrumentos, era violão prum lado, bateria pro outro... A gente descia o sarrafo e ninguém falava nada. Agora, essa tal Constituição não deixa mais a gente fazer isso e os músicos estão cada vez mais abusados. É o tal (sic) dos direitos humanos. E o senhor quer dormir e os direitos humanos não deixa (sic).
Só consegui dormir depois de algum tempo, confiante na Constituição, "pertubado" e descrente do bom senso alheio.
É só.... Por ora é só....
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