quinta-feira, 20 de março de 2008

Livros: os trinta e um mais...


Há algum tempo, numa roda de bar, um amigo indagou a todos os presentes quais seriam os dez CDs e os dez filmes que cada um levaria para uma ilha deserta, caso tivessem de lá ficar por algum tempo. A embriaguez avançou, a conversa desandou e ninguém disse nada...

Há pouco, Ozaí – autor do blog indicado aí ao lado – repetiu a pergunta, alterando, entretanto, os objetos e a razão da escolha. Perguntou-me quais são, na minha opinião, os 10 livros mais importantes para a formação intelectual e cultural de alguém, independentemente da área do conhecimento. Ora, isso é pergunta que se faça? A tarefa de responder a isso é, no mínimo, indecorosa! Fiz o que pude: fingi que tinha dúvidas sobre a pergunta, escrevi a ele tentando alterar a proposta, protelei a entrega da lista, reclamei sozinho. Por fim, esperneei, triste e só.

O problema é que a maldita pergunta recalcitrava na minha cabeça. Fiquei pensando, elencando mentalmente os livros mais importantes. Depois, com calma, concluí que a importância das obras devia relacionar-se com laivos essencialmente pessoais. Tudo ficou mais fácil. Não precisaria justificar muita coisa, simplesmente porque a relevância se respaldaria num critério sui generis: apenas e tão-somente meu!

Como poderia justificar que uma determinada obra, a despeito de não ter status de clássico, foi fundamental na minha formação? Como legitimar a inclusão dos três romances do Chico na lista de obras nacionais? Por certo eu teria de alegar que toda a obra dele me fora imprescindível.

Além de poder me esquivar das justificativas, resolvi ampliar a lista. Ozaí que me perdoe! 10 é uma quantidade lastimável! Segmentei a brincadeira: algumas obras de literatura nacional, algumas de literatura estrangeira e outras relativas às ciências sociais, crítica literária e etc.

Vamos às obras:

Literatura estrangeira

O vermelho e o negro – Stendhal
A idade da razão – Jean-Paul Sartre
O estrangeiro – Albert Camus
A metamorfose – Franz Kafka
Os sofrimentos do jovem Werther – Goethe
Afinidades eletivas – Goethe
Madame Bovary – Flaubert
O apanhador no campo de centeio – D. J. Sallinger
Pais e filhos – Ivan Turgeniev

Literatura nacional

Macunaíma – Mário de Andrade
Vidas secas – Graciliano Ramos
Budapeste – Chico Buarque
Estorvo – Chico Buarque
Benjamim – Chico Buarque
O encontro marcado – Fernando Sabino
Dom Casmurro – Machado de Assis
Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
O alienista – Machado de Assis
Asfalto selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados – Nelson Rodrigues
Comédias da vida privada – Luis Fernando Veríssimo

Ciências sociais, crítica literária e etc.

O capital – Marx
Manifesto do Partido Comunista – Marx e Engels
Leviatã – Thomas Hobbes
Literatura e vida nacional – Antônio Gramsci
Aparelhos ideológicos de Estado – Louis Althusser
Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda
Literatura e Sociedade – Antonio Candido
Dicionário de Política – Norberto Bobbio
A idéia de Brasil moderno – Octávio Ianni
Aspectos da literatura brasileira – Mário de Andrade
Táxi e crônicas do Diário Nacional – Mário de Andrade

Esqueci-me de três livros, mas ainda não os li. Então...



sábado, 8 de março de 2008

O HC de Nelson Hungria para Cony

Em crônica na Folha, ontem, Cony reproduz o teor do Habeas Corpus impetrado por Nelson Hungria a seu favor. O texto é primoroso e mesmo aqueles que não têm interesse em assuntos jurídicos poderão gostar. Ei-lo:

*** *** ***
Folha de S. Paulo - 07/03/2008

CARLOS HEITOR CONY


Imprensa precisa ter lei?

Gostaria de lembrar um caso pessoal, um julgamento do STF em 23 de setembro de 1964

VOLTA À discussão a necessidade ou não de uma Lei de Imprensa, assunto recorrente e atribuído genericamente aos regimes totalitários. Não entendo nada dessas coisas, mas gostaria de lembrar um caso pessoal, reportando-me a um julgamento do Supremo Tribunal Federal em 23 de setembro de 1964, tal como consta na obra de Jardel Noronha de Oliveira e Odaléa Martins, "Os IPMS e o habeas corpus no Supremo Tribunal Federal" (1967, volume 1, páginas 143 e seguintes).
Por iniciativa do então ministro da Guerra, general Costa e Silva, fui processado como incurso num dos artigos da Lei de Segurança Nacional devido a artigos que publicara no "Correio da Manhã" desde o dia 2 de abril de 1964 e que foram considerados caluniosos aos militares que deram o golpe daquele ano.
Apesar da truculência do ato institucional que inaugurou o regime ditatorial, ainda havia escombros de legalidade e eu tive o direito de aceitar o apoio de um jurista famoso, o ex-ministro do STF Nelson Hungria, que se ofereceu graciosamente para me defender junto àquela corte.
Transcrevo a petição inicial com que ele impetrou o habeas corpus que me livraria da Segurança Nacional, desclassificando o processo do ministro da Guerra de me punir com os rigores daquela lei, fazendo o caso correr pela Lei de Imprensa, pela qual seria condenado, como de fato o fui, a apenas três meses de detenção:
"Tendo o paciente publicado uma série de artigos no "Correio da Manhã", em veemente crítica aos chefes militares e seus agentes de farda que, após a chamada "Revolução de 1º de abril", assumiram o Poder e teriam passado a cometer erros e arbitrariedades, desmandos e iniqüidades, veio ele a ser denunciado perante a referida Vara Criminal, como incurso no art. 14 da Lei de Segurança (Lei nº 1.802, de 1953), combinado com o art. 51 do Código Penal, sob fundamento de haver provocado animosidade entre e contra as Classes Armadas; e a denúncia logrou ser recebida tal como nela se contém, abstraindo o Juiz o conhecido pronunciamento desta egrégia Corte da Justiça, no sentido de que, quando feita pela imprensa, e seja realmente reconhecível, (o que não ocorre no caso vertente), a provocação de animosidade entre ou contra as Classe Armadas, ou destas contra as classes civis, deixa de se enquadrar na Lei de Segurança para incidir no art. 9. letra a, da Lei de Imprensa (Lei nº 2.083, de 1953). Tal critério de decisão foi, como é sabido, adotado quando do julgamento do habeas corpus, nº 37.522, impetrado em favor dos jornalistas Prudente de Morais Neto e João Portela Ribeiro Dantas.
O próprio ilustre procurador-geral da República, por cujo intermédio foi uma representação de S. Exa. o ministro da Guerra, relativa ao caso, enviada ao ilustre dr. procurador-geral do Estado da Guanabara, ressalvou expressamente que os fatos atribuídos ao paciente constituíam violação do citado artigo da Lei de Imprensa; mas o promotor escolhido para o caso, depois de, por conta própria e gratuitamente, injuriar o paciente, dizendo-o a serviço dos "corruptores e subversivos" do governo deposto, para solapar as "forças revolucionárias" confundidas estas no texto da denúncia com as classes militares, voltou as costas ao ofício do chefe do M.P. Federal, para pedir contra o paciente o rigor da Lei de Segurança, tendo o titular da Vara recebido sem discrepância a denúncia. Assim, ao invés de simples detenção, de um a três meses, com prescrição da ação penal em 2 anos (art. 88 da lei 4.119, de 1962) e com direito à suspensão condicional da pena e fiança (para poder apelar no caso de eventual condenação), e sem a obrigação de estar presente aos trâmites do processo (art. 35,parágrafo 2º. da Lei 2.083), está o paciente correndo o risco de ser condenado à grave pena de reclusão, de 1 a 3 anos (art. 14 da Lei de Segurança), sem qualquer dos benefícios acima referidos.
Manifesto o iminente constrangimento ilegal, o impetrante espera que seja deferido o habeas corpus, para o fim de ser retificada a denúncia contra o paciente, capitulando-se os fatos imputados no art.9, letra a, da Lei de Imprensa, consoante a jurisprudência deste Colendo Pretório. (a) Nelson Hungria."




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Chico, Caetano e o taxista


Na semana passada, escrevi sobre a conversa que tive com um taxista carioca e lembrei-me de uma piada envolvendo Chico e Caetano. Para que ninguém imagine ser eu o autor da anedota, advirto que foi publicada na Folha de S. Paulo, em 20/04/2006, num pequeno artigo intitulado "Especialista em surfe comandou a edição". Ei-la:

"Helena, filha de Chico, entrou em um táxi de Salvador, e o rádio tocava uma música do pai. O motorista falou: "Esse Chico Buarque é o maior veado". Alguém que estava no carro contestou, brincando: "Não, ele tem até filhas". O taxista não cedeu: "E daí? O Caetano Veloso também tem'".

É só... Por ora é só...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O taxista carioca

Numa crônica da Folha de S. Paulo, da semana passada, Drauzio Varella escreveu sobre um taxista sempre cheio de certezas. O sujeito era divertidíssimo e, segundo consta, tinha solução para todas as mazelas do país. Não é difícil encontrar gente como ele...

Lembrei-me das inúmeras vezes em que coloquei-me a falar com taxistas, sobre assuntos os mais variados. Eles, afinal, sempre têm algo a dizer. Alguns são calados e não escondem que não estão dispostos a nenhum tipo de conversa. A outros, ao contrário, basta uma pergunta para iniciar aquilo que poderá se converter num debate. Existem, também, aqueles que nem precisam ser provocados. Perguntam-nos de onde viemos, a razão da viagem (se passeio ou trabalho), se moramos aqui ou lá, o que fazemos da vida, enfim.

Acho que a maioria se compraz em falar do tempo, tema universal para momentos em que predomina aquele silêncio insosso... O curioso é que, ao menos comigo, nunca ninguém teve critérios razoáveis para explicar as variações de temperatura.

Num mês de chuvas freqüentes, ao cair da tarde, perguntei ao chofer como esteve o tempo naquele dia, se bom ou ruim. Numa resposta precisa e lacônica, ele asseverou: "Mais ou menos". Não esperei que fosse completar a explicação. Passamos a corrida calados.

Às vezes também desejo sossego. Fico quieto. Se o taxista puxa conversa, tudo bem, vamos lá... Foi o aconteceu no Rio, em agosto de 2006.

Eu havia ido para lá a fim de dar uma palestra no Museu da República, sobre Mário de Andrade, os intelectuais e o Departamento de Cultura. A palestra fazia parte de um seminário muito bem organizado pela turma do CPC Aracy de Almeida. Terminado o evento, passei rapidamente pelo centro e ali, perto da Biblioteca Nacional, acenei para o taxista.

O sujeito não parou de falar... Perguntou tudo sobre mim. Quando disse que era de Campinas, próximo a São Paulo, indagou a respeito do clima pesado que acometia a população naqueles dias. O PCC havia prometido outra refrega. A população devia estar desesperada!

- E depois falam que o Rio é violento! – regozijou-se.

Pronto, havia irrompido o assunto que dominaria a cena até minha chegada ao Aeroporto Tom Jobim: Rio versus São Paulo. Não me incomodei porque, diz o bom senso, discutir aquilo seria uma enorme besteira. Ademais, sou apaixonado pelo Rio e por São Paulo.

- É, m' ermão! Depois os paulistas dizem que isso aqui é que é violento!

Meu livro sobre a criminalidade do tráfico carioca e sobre o PCC estava no forno. A despeito disso, não seria conveniente que eu lançasse mão dos argumentos lá contidos para aquela conversa. Ele não entenderia. Deixei que continuasse...

- Isso aqui é uma maravilha! São Paulo não tem tanta coisa boa como no Rio.

Foi nesse momento que resolvi lhe perguntar:

- O senhor seria capaz de apontar cinco coisas boas do Rio de Janeiro?

Ele aceitou a provocação:

- Claro! O Rio é uma cidade linda, maravilhosa. A beleza natural daqui não existe em nenhum lugar do mundo. Essas praias, os morros, o sol... São Paulo não é bonita assim.

Dei-lhe razão, obviamente.

- E a segunda coisa boa?

- Bom... a segunda coisa boa... No Rio tem muita coisa para se fazer de graça. Você pode passear com a sua família em bosques, parques, morros. Também tem as praias. Não precisa de muito dinheiro para se divertir. É tudo barato ou de graça! O Rio é uma cidade democrática!

Daí para o assunto da política foi um pulo. Começou a falar do Lula, do FHC, do Garotinho, do Cesar Maia, da Benedita... Falou dos impostos, da educação, da saúde. Esqueceu as coisas boas do Rio.

Quando chegávamos à Ilha do Governador, não perdoei:

- Até agora o senhor só falou duas coisas boas do Rio. E as outras três? Não eram cinco?

Ele, então, olhou para um lado, para o outro... E, a contragosto, respondeu:

- Pois é: cinco coisas boas do Rio é muita coisa boa! O Rio não tem tanta coisa boa...

É só... Por ora é só...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

2008

Já pensei em vários temas para estrear o blog em 2008. Só não pensei em fazer aquela estúpida lista de intenções... Também não pensei em fazer avaliações do ano passado. Tudo isso é inútil.

Qualquer hora, assim de chofre, apareço!

É só... Por ora é só...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sérgio Buarque e Mário de Andrade: entre a Sociologia e Homero


Antes de arriscar mais besteiras nesse ano que está acabando, reproduzo abaixo um belíssimo trecho de Sérgio Milliet, a quem o modernismo brasileiro tanto deve. A ortografia, como sempre, foi mantida no original. Vale a pena olhar!

"... na realidade, não sabiamos nada. Éramos deliciosamente ignorantes e foi com Sérgio Buarque e com Mario de Andrade que aprendemos, não sem alguma relutância, a meditar: 'É preciso saber ler Homero', berrava Mario de Andrade; e Sérgio gritava: 'é preciso saber sociologia'. Creio mesmo que foi êle um dos primeiros entre nós a dedicar-se a essa disciplina, o que só viemos a fazer após o malogro de 1932, conscientes da fragilidade de nossos quadros".

(MILLIET, Sérgio. "À margem da obra de Sérgio Buarque de Holanda". In: Quatros ensaios, São Paulo: Martins, 1966, p. 50-51).

É só... Por ora é só...





sábado, 15 de dezembro de 2007

Nelson Rodrigues: o Judiciário e o patrimonialismo


Já disse – e repito! – que esse blog não é lugar para reflexões acadêmicas e tampouco veículo que possa ser levado a sério. Não pensem os meus pouquíssimos leitores que isso vá mudar. Não vai, não! O problema é que, vez por outra, fico tentado a produzir alguma coisa mais séria. Como o tempo é curto, deixo a seriedade de lado e arrisco aqui alguns palpites, sem compromisso, conforme já expliquei na abertura desse blog.

O tema desse post poderia render um interessante ensaio ancorado nas perspectivas analíticas do pensamento social brasileiro. Entretanto, o que se pretende aqui é simples: fazer apontamentos sobre a relação de um dos personagens de Engraçadinha – Odorico Quintela – com o Judiciário brasileiro. Garanto que os trechos reproduzidos da obra de Nelson Rodrigues, por si só, valerão a leitura do que segue.

Odorico é um personagem sui generis. Aqueles que não leram o romance, mas tiveram a oportunidade de assistir a adaptação feita pela Globo no início da década de 1990, certamente se lembrarão dele, interpretado magistralmente por Paulo Betti.

Trata-se de um juiz que evoca reiteradamente o Judiciário em situações as mais engraçadas. O que não é engraçado, contudo, é a expressão de sua postura patrimonialista, tendente a confundir, à farta, o público com o privado. É essa, segundo entendo, a idéia que Nelson Rodrigues desejou passar aos seus leitores.

Salvo melhor juízo, para Odorico o Judiciário se afigura como instituição apta a prestar toda sorte de benefício para aqueles que foram tragados por suas teias. Colocada nesses termos, a questão poderia soar ao leitor como um exagero. Não o é! Nas candentes expressões do Magistrado, o Judiciário é um instrumento que lhe possibilita adquirir vantagens inúmeras e, talvez na maioria das vezes, indevidas.

Vejamos, a título de mera ilustração e, reitere-se, sem nenhuma intenção de encetar estudo pormenorizado a esse respeito, como tais impressões se revelam na obra.

A primeira cena a nos chamar a atenção é aquela em que Odorico deseja acompanhar Silene, filha de Engraçadinha, até sua casa. Para tanto, chama um táxi. O chofer diz que não vai mais trabalhar, já que seu expediente acabou. Odorico enfia-lhe a carteira de juiz na cara:

"- Meu amigo, o senhor vai me levar, sim! O senhor está falando com uma autoridade! (...) Sabe ler? Então, lê! Lê, rapaz! Juiz, compreendeu? Podia lhe prender! E nem mais uma palavra! (p. 195)

Terminada a corrida, o Magistrado ameaça o chofer novamente. Deseja não pagar! Arrisca:

"- Rapaz, podia ter te metido na cadeira! – Pausa e faz menção de puxar a carteira: - Quanto é?"
O outro, com as orelhas incendiadas, fez um gesto:
- Doutor, paga quanto quiser!
Dr. Odorico larga a carteira no bolso:
- Obrigado, amigo! Até a vista! E olha: não faça mais isso!
Desgovernado, o chofer arrancou, sem levar-lhe um tostão". (p. 197)

Em outras situações, Odorico faz menções explícitas à pretensa garantia de interesses privados pelo Judiciário. É o que se depreende do episódio da geladeira, a servir de presente para Engraçadinha. Quando resolve efetuar sua compra, flagra-se sem dinheiro. Não quer dar a entrada do pagamento. É nesse momento que, mais uma vez, traz à baila a autoridade do Judiciário:

"- Mas, meu amigo! O que é que há? Afinal de contas, o Judiciário é um poder que, graças a Deus, resistiu a degringolada. Ou o senhor pensa, talvez, que eu, um juiz... Meu amigo, olha aqui a minha identidade. Eu não vou fugir com a sua geladeira!" (p. 361)

Aqui, o Judiciário é dado como garantia da compra, como se fosse dotado da capacidade de afiançar as prestações da geladeira. Algo patético!

Há outros trechos também emblemáticos que sugerem a capacidade do Judiciário ser colocado a serviço de interesses particulares. Veja-se:

"Escuta, eu sou juiz, Engraçadinha. Entende? E, nesta terra, o Judiciário, compreende? Digo-lhe isso sem nenhuma vaidade, porque sou avesso a essas coisas, nem é do meu feitio. Mas como juiz eu posso até requisitar força policial" (p. 263).

"... E olha que eu não gosto de alegar a minha qualidade de juiz. Não é de meu feitio. Mas há ocasiões em que não é possível. É a falta de caráter do Brasil!" (p. 351)

Conforme se nota, Odorico parece se contradizer: embora diga que não goste de reclamar sua autoridade de juiz, o faz frequentemente; embora se diga avesso a “essas coisas” (leia-se: práticas do favoritismo pessoal), pode até "requisitar força policial". Para quê? Ora, para garantir interesses que nenhuma relação têm com o poder Judiciário...

Em que pese creditar ao Judiciário supremo poder, a ponto de afirmar que "no Brasil, pode-se brigar com todo mundo e nunca com o Judiciário" (p. 359)", Odorico por vezes se mostra ambíguo. Claudica em suas convicções íntimas e intenta mostrar a si mesmo que o Judiciário, ao contrário do que se diz, "ainda tem o seu valor". Diz ele:

"Afinal, eu sou um juiz e, nesta terra, o Judiciário ainda tem o seu valor“ (p. 355)

Por fim, uma última associação: a idéia de que o Judiciário, a despeito de sua glória e utilidade indeléveis, acaba por tolher seus membros. Odorico, não à toa, usa o verbo "empalhar". Note-se:

"Eu também já fui inteligente. (...) Também já fui um Otto Lara Resende. Mas o Judiciário empalha qualquer um. Nós, juízes, somos empalhados!" (p. 376).

Talvez resida aí a explicação para muitos traços psicológicos e atitudes pragmáticas do personagem ao longo da trama.

Na belíssima obra de Rodrigues existem, enfim, sugestões sobejamente ricas sobre a relação entre o Judiciário e o patrimonialismo brasileiro. Aquele que tiver interesse, poderá consultar a edição citada abaixo ou, ainda, adquirir as novas edições recentemente lançadas no mercado editorial. Fica registrado o convite da leitura.

Caso alguém deseje se aventurar a interpretar a lavra rodriguiana à luz da noção de patrimonialismo, vale a pena a leitura das obras de Weber, Sergio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro.

As citações desse post foram retiradas de RODRIGUES, Nelson. Engraçadinha: seus amores e seus pecados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

É só... Por ora é só...




segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sobre a Lepra no Rio Grande do Norte – Mário de Andrade

Há algum tempo, assumi o compromisso de postar umas crônicas do Mário de Andrade... Como estou sem tempo de escrever, recorro a uma delas. É curta e fantástica! Data da década de 1920. Vale a pena lê-la! Como sempre, a ortografia foi mantida no original. Boa leitura!

Sobre a Lepra no Rio Grande do Norte – Mário de Andrade

"Um dos problemas que, atacado a tempo no Rio Grande do Norte, já está quase resolvido, é o da lepra. Por mim confesso inda não topei com leproso declaro por aqui. Vi, foi a cara dum horrendo, em fotografia, num cartaz de propaganda contra a doença, bem por cima da bilheteria de selos, do Correio.

Parece que o Estado atualmente contará com pouco mais de cem leprosos, informa o dr. Varela Santiago, médico de Natal, se dedicando ao problema e autor dum Esboço Histórico da lepra no Rio Grande do Norte, de que vou me servir.

A lepra é relativamente recente no Estado. O primeiro caso já conhecido data já da segunda metade do século passado. Seguiram casos raros, quando senão quando aparecia um, se isolando por si mesmo ou vivendo, na paciência sem medo dos outros, a vida social, que nem um telegrafista de Mossoró por 1883. Esse telegrafista, Deus me perdoe! é um caso engraçado de psicologia morfética. Se falava naqueles tempos que morfético mordido por cobra, sarava da lepra. Mas como não se sabia direito se o leproso sarava também da mordida da cobra o pobre do telegrafista ficou numa hesitação danada. Andou campeando uma cobra, arranjou uma cascavel, ótima pra morder, trouxe ela pra casa. Desde então viveram na maior comunhão possível, cascavel e telegrafista. Mas morder é que jamais ele não se deixou. Viveu eternamente na esperança de ser mordido sem querer. - É hoje, ele se falava, hoje de certo a cascavel escapole e me morde. - Passava que mais passava junto da caixa em que a cascavel jazia fechadíssima. Esbarrava na caixa. Se escutava lá dentro um chocalho baixinho. Mas não houve remédio: nunca que a cobra escapoliu e o telegrafista morreu leproso. Morreu leproso, num morrer de todas as horas martirizado, antiofídico mas pelo menos não provou picada de cascavel que além de matar depressa, talvez doa. Se existe caso mais dramaticamente cômico, outro que conte".

(ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. 2 ed. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 263).

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O inferno e a ausência de proporcionalidade

Há pouco, falei sobre Vidas secas, do Graciliano. O post versava, entre outras coisas, sobre a idéia de inferno, constante da imaginação do filho maior de Fabiano, protagonista da história. Logo depois, li no blog do Ozaí (http://antoniozai.blogspot.com) o conto "Inferno", também de autoria do velho Graça.

Fiquei matutando... Acometeram-me lembranças do tempo em que, ainda moleque, o inferno me botava medo. E bota medo nisso! Educado em colégio de padre (arghhhh!), freqüentador de missas até a adolescência e violentado, praticamente estuprado, pela ideologia católica, o inferno tinha mesmo que me apavorar. E apavorava.

Imaginava as grandes caldeiras borbulhantes, fogo alto, vermelhidão por todos os lados; o capeta com seu rabo pontudo, a orelha adelgaçada, a voz gutural e o terror tocado diuturnamente. Eu havia de passar a eternidade por lá por folhear as Playboys que, na década de oitenta, ainda imprimiam algum ar de proibição para a molecada. Ou então teria de arder naquele calorão por ter apertado tanta campainha e ter saído correndo, deliberadamente. Ora, esses delitos que jamais feriram a ordem moral pública ou incomodaram de sobejo quem quer que fosse constituíam-se de condições mais que suficientes para eu ter com o diabo. Era o que eu pensava...

Acho, inclusive, que alguém chegou a sugerir meu destino nos infernos porque eu falava palavrão. Talvez meu avô, minha avó, não sei... Eu estava, enfim, fodido. Não adiantaria nada rezar. O problema era meu comportamento, já reprovado e sentenciado ao fogo eterno.

Cheguei mesmo a sonhar com o capeta! Por alguma birra política que ainda hoje me escapa à compreensão ele assumiu a face de D. Pedro I. Onde já se viu? Eu tinha aula de história e aprendia os tributos que a colônia pagava à metrópole. Eram férias de 1981! Parei na cama dos meus pais: "O diabo está atrás de mim", justifiquei minha presença ali. Acolheram-me, naturalmente. A próxima noite...

Por extenso período, imaginava que o filho-da-puta fosse irromper dos infernos para me apavorar. Fiquei de sobreaviso: "Não se engane, uma hora ele vai aparecer!". Formei convicção. Ninguém me tirava aquilo da cabeça...

Mas o que me incomodava mesmo na idéia de inferno é sua ausência de proporcionalidade. Como poderia alguém pagar pela eternidade por algo que logrou realizar em tão pouco tempo? Ainda que vivesse muito – oitenta, noventa, cem anos –, e tivesse uma copiosa lista de pecados, seria pouco para justificar a permanência eterna junto ao chifrudo. Alguns pecados mais graves, por abjetos que fossem, jamais poderiam ser bastante para uma pena infinita.

"Estamos aqui só de passagem", foi o que algum imbecil me disse, querendo me convencer de que nossa existência era apenas um teste. Entendi, então, que vida era apenas um esforço probatório: havíamos de provar que merecemos o reino dos céus. Ou, ao revés, desmerecemos o inferno.

Não, Deus não poderia permitir isso! O castigo não poderia durar a eternidade, mas apenas o tempo necessário para a catarse do espírito. Estava decidido a preterir o inferno! Falaram-me sobre o purgatório e achei que a idéia não era tão ruim. Tanto melhor!, pensei. E passei a esquecer o capeta...