domingo, 19 de setembro de 2010

Cagaram no Arco-Íris

Com essa história de baixar músicas da internet, nunca sabemos, ao certo, o que estamos adquirindo. Por várias vezes, ao encontrar um título, fiquei animadíssimo. Contudo, depois de baixado o arquivo, percebi que a música pretendida era outra.

Também acontece de adquirir uma canção como se ela fosse interpretada por alguém que nem sequer a cantou. Quando se trata de música instrumental, a coisa é ainda mais complicada.

Foi o que me aconteceu recentemente. Encontrei na rede Somewhere Over the Rainbow, clássico interpretado por vários ícones da música norte-americana, entre eles Ray Charles. Baixei o arquivo porque notei que a interpretação era do Deep Purple. Isso, em si, já era motivo suficiente para aguçar minha curiosidade.

Ouvi a música e fiquei embasbacado. É belíssima a interpretação na guitarra, com agudos e escalas comedidas. Fiquei imaginando Ritchie Blackmore tocando aquela obra-prima com seu inegável virtuosismo. A curiosidade foi, contudo, além da audição da música. Busquei na rede informações sobre a gravação. Se Deep Purple gravou aquilo, deveria haver referência em um de seus discos....

Qual não foi minha surpresa ao notar que vários guitarristas gravaram o clássico? O time é feito só de craques. Se não me engano, estão entre eles Jeff Beck, Jimi Hendrix, Steve Vai, Yngwie Malmsteen, Ritchie Blackmore e Eric Clapton.

Repentinamente, descobri que a versão por mim baixada não era do Deep Purple e tampouco desses guitarristas mencionados. Era do Joe Satriani, cujas mãos flutuam sobre as cordas da guitarra como se fizesse mágica.

Bastante animado, enviei a música para meu pai com uma frase lacônica: "Ouça isso". Por conhecer tantas interpretações, supunha que fosse achar original o arranjo do Satriani e sua banda. Esqueci-me, entretanto, que ele não aprecia virtuosismos.

A resposta, bastante jocosa, não se fez esperar:

- Estridente demais. Para mim, esse conjuntinho cagou no arco-íris.

domingo, 12 de setembro de 2010

Ainda política: opções e anulação

Estou parecendo alguns políticos: prometi que não falaria de política aqui. No entanto....

Meu desânimo com a política é tão grande que fico receoso de chegar à conclusão de que vale a pena anular meus votos.

Nunca anulei voto algum. Nunca. Nem mesmo quando tive de optar, no segundo turno de uma eleição majoritária, entre o capeta e o coisa-ruim. Fui para a urna com uma sensação terrível, sabendo que um dos dois fatalmente ganharia o pleito eleitoral. Se fosse o coisa-ruim, estaríamos perdidos. Se fosse o capeta, seria pior ainda. Depois, inferi que os dois seriam desastrosos. Ambos eram realmente terríveis e, sob todos os pontos de vista, tinham suas trajetórias maculadas por toda sorte de desventuras morais e éticas. Pois bem, acho que o coisa-ruim virou o capeta e piorou ainda mais a situação. O outro capeta, excluído do poder, continuou com sua sanha antiquada, mas ainda bastante sedutora para os quadros reacionários da nossa sociedade.

Essa experiência deveria ter servido para me mostrar que, em certas situações, é realmente desejável que se anule o voto. Todavia, até hoje não me convenci disso. Explico minhas razões de forma simples.

Não tenho dúvida sobre a necessidade de refinar, na nossa sociedade, os instrumentos políticos e o processo eleitoral. E não se pode fazer isso abrindo mão da representatividade. É fundamental que aqueles desejosos de melhorar o mundo em que vivem assumam compromissos políticos, tal como assumem compromissos profissionais, sentimentais e religiosos. Disso defluirá a possibilidade de alcançar a maturidade política. Aliás, a educação política deve iniciar-se ainda na fase de desenvolvimento intelectual e cultural do indivíduo. Discutir política, ao contrário do infame ditado popular, é essencial para o amadurecimento da sociedade.

Avaliar propostas e debater programas político-partidários são formas indiretas de intervenção na realidade social. Associado a elas, a escolha de candidatos em pleitos eleitorais cumpre um papel sobremaneira importante para a organização da própria sociedade.

Assim, ainda que repute pertinente sob determinadas situações, discordo da idéia de que o voto nulo é uma forma de protesto. Que protesto é esse? Qual é seu alcance? Qual é o seu sentido prático? O que esse protesto nos diz na discussão da agenda política?

Protesta-se, afinal, contra o quê?

Alguns protestam contra a obrigatoriedade do voto. Não admitem nenhum tipo de imposição e, por isso, se furtam a votar. Não sabemos, entretanto, se não se trata de uma boa desculpa, um grande álibi, que justificaria a alienação política de tanta gente. E se o sufrágio fosse facultativo? Será que os protestos existiriam? Não haveria, porventura, outra razão para se anular o voto? Não se criaria outro álibi para a velha apatia política?

Enfim, não consigo, ainda, elidir a idéia de que todos nós devemos assumir compromissos políticos e não consigo ver a anulação do voto como protesto concreto, viável e útil.

Mário de Andrade tinha toda a razão quando, há vários anos, disse que vivemos a idade política do homem e que a ela temos de servir. Por que não fazemos isso?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Opções políticas

Já não encontro mais desculpas para justificar comentários políticos aqui no blog. Então, vamos lá.

As eleições se aproximam. Desta vez, não condicionarei meus votos à filiação partidária dos candidatos. Antes da minha desilusão com um certo senhor e seu partido, acreditava na necessidade de criar uma cultura política que valorizasse os partidos, que primasse pela fidelidade partidária, que concorresse para a conquista da coerência das condutas ligadas à administração da coisa pública.

Era mais ou menos isso que norteava minha concepção política. Muitas vezes deixei de votar em um candidato que acreditava ser sério e competente apenas porque ele não estava filiado a um partido que correspondesse, ao menos em tese, àquilo que reputava relevante em matéria política. Cheguei a votar em partidos, e não em candidatos. Entendia a lição de Gramsci – segundo a qual o partido político moderno é a expressão fiel do príncipe descrito por Maquiavel – como uma máxima que deveria ser seguida.

Se havia um político num partido liberal, ainda que tivesse grandes virtudes pessoais, meu voto não era dele. Se tivesse, igualmente, enormes virtudes políticas, tanto fazia: não votava nele. A legenda, a ideologia partidária e a trajetória daquele partido no Brasil me impediam de fazê-lo.

Embora nunca tenha me filiado a ele, tinha em alta conta aquele partido que, a despeito de todas as suas deficiências, não aceitava políticos que pudessem incorrer em condutas moralmente questionáveis ou ilícitas. Nele, dissessem o que quisessem, não havia nenhum político envolvido com escândalos, com fraudes ou bandalheiras. Dizia-se, com frequência, que em seus quadros reinava a decência, a lisura, a honestidade, e outros tantos adjetivos tão importantes ao padrão médio da moralidade "pequeno burguesa".

Foi esse mesmo partido que, após algumas desventuras na esfera ética, fez-me mudar, radicalmente, a maneira pela qual deveria vislumbrar a política. Hoje, pouco se me dá se o partido do meu candidato tem um pé na social-democracia ou mesmo na liberal-democracia. Isso já não constitui razão bastante para eliminar um determinado candidato de minhas opções.

Entendo que todos os partidos estão sujeitos a acolherem políticos de variada estirpe. Todos, sem exceção, devem abrigar homens que não vivem para a política, mas que vivem da política como um meio de auto promoção material e social. Não creio ser tarefa fácil enumerar os políticos com vocação, alheios a interesses pessoais, dispostos a lutar pelo bem comum, como seria de se supor relativamente à atividade política.

Pode até parecer que esteja reproduzindo o velho jargão de que "todo político é igual, que todos os partidos são iguais". Será que não são? Não, é claro que não são todos iguais. São "quase" iguais. A linha de ruptura, de separação entre eles, é fina, tênue, muito lábil....

Demorou bastante para que eu, ingênuo, constatasse essa infame realidade. E o que me causa mais perplexidade é que a opinião pública e o senso comum "quase" estavam com a razão: são todos iguais. É uma pena....

domingo, 29 de agosto de 2010

O fim do mundo e o século XXI

"Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada" (Assis Valente)

Desde sempre ouvi falar sobre a passagem para o século XXI. O ano 2000 era amiúde comentado na minha infância e, cada vez mais, parecia mais distante. Eram inúmeras as previsões que se faziam a respeito do que existiria, do que deixaria de existir. Especulava-se muito e com grandes expectativas.

Talvez não andássemos mais de carros, mas sim com pequenos veículos voadores, tais como aqueles que víamos nos desenhos dos Jetsons, da Hanna Barbera. A lua não seria mais um satélite inatingível, mas um lugar de veraneio para os mais abonados, entre os quais, naturalmente, eu não me incluía. A bem da verdade, ao contrário dos meus amigos, nunca tive interesse em ir para lá.

A fantasia do século XXI perdeu algum espaço na minha cabeça quando houve um diz-que-diz-que profetizando o fim do mundo em setembro de 1999. Algum lunático não se furtou a expor sua teoria numa noite de domingo, no Fantástico. Segundo ele, um meteoro gigante colidiria com a Terra e nada sobraria. Ainda moleque, passei a me preocupar com a impossibilidade de viver os anos dois mil. Fiz as contas de qual idade teria quando fosse acometido pela grande catástrofe. Morreria antes dos trinta. Que sacanagem....

Pouco tempo depois, a idéia de que o fim do mundo se daria mediante uma hecatombe nuclear passou a acompanhar minhas preocupações. The day after, datado de 1983, seguramente meteu muito medo na cabeça dos desavisados, sobretudo das crianças. O cogumelo nuclear, devastando tudo o que encontrasse, passou a ser o grande vilão da história. Sobrariam apenas baratas e, a exemplo da fruição dos humanos na lua, apenas uns poucos mortais poderiam se refugiar nos abrigos profetizados no filme.

Veio o ano 2000 e, como diz a música, "o tal do mundo não se acabou". Depois da meia-noite de 2001 parei em frente à TV e achei que estivesse bêbado: a Globo passava 2001: uma odisséia no espaço, do grande Kubrick. Perguntei-me onde estaria aquela realidade prometida e me dei conta de que a noção do tempo é realmente insidiosa.

Recentemente, Stephen Hawking asseverou que o destino da humanidade está fora da Terra. "Eu vejo grandes perigos para a raça humana". Disse que a solução consiste em "evacuar o planeta e se espalhar pelo espaço". (Folha de S. Paulo – 10/08/2010).

Agora que já passei dos trinta, que nada daquilo que foi dito e vaticinado não aconteceu, não quero sair da Terra. Quero ver o mundo se acabar, de uma vez só. Sem poupar ninguém, nem as baratas.

sábado, 14 de agosto de 2010

Ponto e vírgula

Língua brasileira 8

Comecei a ler Os espiões, do Veríssimo (editora Alfaguara). Nele, há um personagem fantástico (professor Fortuna), cujas características não pretendo descrever para não estragar o prazer da leitura daquele que se interessar pela obra. Abaixo reproduzo um pequeno trecho com sua posição sobre o uso do ponto e vírgula.

"- Qual é a sua posição sobre a vírgula, professor?
E ele:
- Sou contra!
Tese do professor: vírgula qualquer um põe onde quiser. O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula, que, segundo ele, até hoje ninguém soube como usar".

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Os espiões. Rio de Janeiro: Alfaguara/Objetiva, 2009, p. 13.

sábado, 7 de agosto de 2010

O mesmo



Língua brasileira 7

Tanto quanto o gerundismo, o uso do "mesmo" é uma praga. A título de mera curiosidade, veja-se alguns exemplos:

- Recado da professora: "Por favor, avisem os alunos que o texto já está disponível no xerox. Todos devem levar o mesmo para a aula de amanhã"

Perguta-se: quem é o mesmo? O xerox ou o texto? É claro que é o texto, mas....

- Uma sentença judicial: "o processo versa sobre acidente ocorrido na rodovia, nas proximidades deste município, tendo o mesmo ocorrido por ter o acusado perdido o controle do veículo em razão do cansaço apresentado pelo mesmo"

Que tristeza! E o nobre redator do texto é Juiz!

- O técnico da eletrônica: "A televisão está quebrada. A mesma precisa ser trocada ou consertada".

Não sei como o "mesmo" ganhou tanta notoriedade. Mas imagino que algo simples tenha contribuído para sua divulgação: a Lei nº 9.502/97. O texto dela é bastante conhecido: "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar".

Por constar de lei, o texto deve ter levado os usuários de elevador (o mesmo) a acreditar que sua redação corresponde à forma culta da língua portuguesa. Ou seja, o texto de lei, criado por algum incauto, serviu para legitimar mais uma moda da nossa "inculta e bela".

Nem tudo está perdido, entretanto. Há algum tempo, uma aluna, cansada de me ouvir reclamar do "mesmo", me mandou um e-mail com uma foto de um elevador. O título do e-mail era "Viva la Revolución!". De fato, trata-se de uma revolução.

Apreciem a foto!

sábado, 24 de julho de 2010

Hotel Novo Mundo

LEITE, Ivana Arruda. Hotel Novo Mundo. São Paulo: Editora 34, 2009, 128p.

Logo que saiu Hotel Novo Mundo, de Ivana de Arruda Leite, resolvi não lê-lo. Como estava naquelas fases em que não se tem tempo para leitura tranquila, achei melhor saborear o texto em momento posterior. Fui adiando a leitura até que.... ganhei o livro de presente. Coloquei-o naquela fila de prioridades que nunca é cumprida, pois tendo, sempre, a subornar minhas vontades e a inverter a ordem estabelecida.

Também não quis ler nenhuma resenha, nenhuma crítica sobre a obra. É o que procuro fazer: não deixar me impregnar pelas impressões alheias, ainda que sejam confiáveis, antes de terminar a leitura de um livro qualquer. Assim, Hotel Novo Mundo permaneceu inédito até que comecei a lê-lo. Alameda Santos, segundo livro da autora, já veio a lume e ainda nem vi a cara dele....

É curioso experimentar a primeira aventura de um autor num determinado gênero quando já estamos acostumados com outra faceta de sua produção. Não é difícil imaginar um romance escrito por alguém especialista em contos. Todavia, pareceu-me bastante complicado pensar num romance escrito pela Ivana, pois seus contos, salvo melhor juízo, têm extensão reduzida. São contos curtos, enxutos e diretos. São capazes de mobilizar sentimentos e expressões densas em exígua narrativa.

O drama central de Hotel Novo Mundo, a contradição literária – se assim podemos chamá-la – está no conflito interno dos personagens, sobretudo da narradora-protagonista.

Renata é uma paulistana que, depois de longa experiência como prostituta, junta-se com o Dr. César, passando a residir com ele no Rio de Janeiro. Leva uma vida luxuosa, tranquila, com abonança material. Fútil, chega inclusive a cuidar dos filhos do parceiro. Mantém-se fiel a ele, embora seja constantemente cortejada por seus amigos. Num determinado dia, flagra-o na saída de um motel, com uma mulher. É esse o momento apto a determinar a trajetória de Renata ao longo do romance. É esse também o ponto de partida para a busca de algo que nem sequer se delineou. Num instante de raiva, Renata decide romper com a rotina que levava. Sem avisar o parceiro, sai do Rio de Janeiro, de sua casa, sem levar nada que possa garantir sua subsistência por longo tempo. Conta apenas com uma grana capaz de sustentá-la por curto período: exatamente uma semana. A estrutura do romance se circunscreve nesse prazo.

Rumo a São Paulo, no avião, conhece Divino. Como uma intrusa, Renata o acompanha rumo ao Hotel Novo Mundo, sem prever o quanto é conhecido por lá. Passa, então, a fazer parte – perdoem-me o pobre trocadilho - de um novo mundo. Tem início uma inédita socialização da personagem. Ali, na nova vida, Renata vai firmando convicção de que não voltará para o Rio, que não voltará para César, que está disposta romper de vez com a vida que vinha levando. A despeito disso, não sabe exatamente como resolver o impasse de recusar seu passado. Não toma providência alguma. É por isso que o leitor é acometido por um incômodo que persistirá até as páginas finais.

Numa consulta com Lauro - pai-de-santo residente no hotel – é aconselhada a conversar com César, explicitar o rompimento da relação que, para ela, é “cada vez mais quase definitivo”, mas que, para o leitor, ainda soa incógnito.

Essa conversa somente acontece em razão da iminência das privações materiais, ao final da semana, quando já estava envolvida com Divino (sentimentalmente, é claro) e com a maioria dos moradores do hotel. Como seu dinheiro está prestes a acabar, Renata reavalia sua postura e considera que deve ir ao Rio para manifestar sua vontade de separar-se e, contrariando intenção pretérita, amealhar o que os anos de convívio com César lhe facultou no campo dos "direitos". Sim, Renata volta para o Rio, pega jóias que lhe possibilitam comprar um carro e um apartamento (por aí imagina-se a disparidade existente entre a vida que levava e aquela que adotou na Paulicéia). De volta para o Novo Mundo, reencontra Divino, com quem, aliás, tudo leva a crer terá uma relação sem pretensões, destituída de compromisso, serena.

Expondo a narrativa nesses termos, poderia soar que a trama do livro é simples. É, contudo, a descrição do cotidiano que enreda os personagens do Hotel Novo Mundo que traduz a beleza da obra. Trata-se de um cotidiano recheado por histórias de vida muito peculiares: uma menina que carece de uma cirurgia cardíaca; a paixão insistente, quase eterna, de uma mulher por Divino; Zema, desenhista de vestidos de noivas soropositivo, namorado de Lauro, que foi expulso de casa justamente quando o pai descobriu sua homossexualidade; Leão, o pianista boêmio de uma casa de shows decadente, pai de uma médica também homossexual.

Ivana mescla a narrativa da trama com trechos que explicam as trajetórias de vida pessoais dos personagens. Intercala o desenvolvimento da história com entretrechos explicativos que, a rigor, estão descolados da própria trama. Não existissem, talvez não fizessem diferença para o contexto narrativo, mas sim para a densidade psicológica do romance. Um desses trechos é usado, inclusive, para resgatar a infância de Renata e revelar que a mãe - também prostituta - não hesitou em falar para a filha, em momento de adversidade, que, enquanto tivesse boceta, não passariam fome.

Seriam oportunos, aliás, alguns palpites sobre a ligação da trajetória da filha com o passado da mãe. No livro há elementos suficientes para arriscar esses palpites. Jamais arriscaria a fazê-lo, entretanto.

Por fim, vale uma última observação. Em vários momentos da obra, São Paulo é perfilado por seus pontos urbanos e pelas lembranças que Renata tem de sua juventude. No entanto, o retrato que se tem de São Paulo assume definição precisa quando a protagonista faz uma comparação fantástica entre a Paulicéia Desvairada e a Cidade Maravilhosa. No velho "embate" Rio X São Paulo, nunca vi contradições tão bem explicadas. Com as escusas de eventual exagero, acho que nunca alguém conseguiu expressar com tanta sensibilidade as idiossincrasias relativas às duas metrópoles. Veja-se:

"Andar no Rio de Janeiro pela manhã, com essa luz, com esse sol, vendo o mar e essa paisagem deslumbrante chega a me dar raiva. Esta cidade é uma aberração. Não há como fazer jus a este cenário. Ninguém aguenta a responsabilidade de viver num lugar tão lindo. Em São Paulo, você pode ser infeliz à vontade. A sua miséria se junta à miséria da cidade e vira tudo uma coisa só. Vive-se com mais naturalidade. São Paulo deixa você ser quem você é. O Rio é uma cidade para semideuses" (p. 108-109)

Fantástico!

Em tempo: Hotel Novo Mundo é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria novos autores. Não conheço os demais títulos, mas torço pela Ivana. No próximo dia 02 sairá o resultado.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

São Paulo e Rio (Ivana Arruda Leite)

São Paulo e Rio de Janeiro: Hotel Novo Mundo.

Cenas da literatura V

Na blogagem coletiva proposta para a próxima sexta-feira (23/07), pretendo escrever sobre o Hotel Novo Mundo, de Ivana Arruda Leite. Antes disso, adianto um parágrafo do livro que precisa fazer parte da seção "Cenas da literatura", já há muito abandonada aqui no blog. Não se trata, contudo, da descrição de nenhuma cena. São observações preciosas! Vejam:

"Andar no Rio de Janeiro pela manhã, com essa luz, com esse sol, vendo o mar e essa paisagem deslumbrante chega a me dar raiva. Esta cidade é uma aberração. Não há como fazer jus a este cenário. Ninguém aguenta a responsabilidade de viver num lugar tão lindo. Em São Paulo, você pode ser infeliz à vontade. A sua miséria se junta à miséria da cidade e vira tudo uma coisa só. Vive-se com mais naturalidade. São Paulo deixa você ser quem você é. O Rio é uma cidade para semideuses" (LEITE, Ivana Arruda. Hotel Novo Mundo. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 108-109)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Alguém conhece Lubitsch?

"Henry Van Cleve (Don Ameche), um ex-playboy já maduro, morreu e foi para o inferno. Mas o chefão das trevas, Sua Excelência (Laird Cregar), não está convencido que Van Cleve veio para o lugar certo. Henry começa a contar a história de sua vida, desde seus primeiros arroubos de paixão por uma governanta francesa até quando cortejou e ganhou o coração de sua bela esposa Martha (Gene Tierney). No entanto, apesar de profundamente apaixonado, ele nunca conseguiu ser totalmente fiel e está convencido que merece uma vida de castigos eternos no inferno.

À medida que conta sua história, e uma vida de amor preenche a tela, fica a cargo de Sua Excelência dar a sentença final a Henry. Ricamente ambientado no mundo da alta sociedade da virada do século XX, o tema atemporal do amor versus o desejo é tratado com inteligência, bom gosto e sofisticação. Dirigido por Ernst Lubitsch e abrilhantado por fantásticas interpretações coadjuvantes, este romance clássico foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme e de melhor diretor em 1943".

Essa é a sinopse de "O diabo disse não" (Heaven Can Wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch, retirada do site 2001 Vídeo (http://www.2001video.com.br).

Se alguém achar uma cópia por aí, em locadoras ou na internet, por favor, me avise. Devo ter ainda uma fita VHS que gravei quando o filme passou na Globo há alguns anos. Por suposto, deve estar em péssima condição de uso e, ademais, meu vídeo já está na iminência do ocaso.

Imagino que hoje poucos conheçam Lubitsch. Todavia, é muito provável que tenham assistido "Mensagem para você", adaptação de Nora Ephron para o clássico "A loja da casa da esquina" ("The Shop Around the Corner"), obra-prima do diretor alemão. Aluguei o filme numa Blockbuster, antes da parceria da locadora com as Americanas Express. Depois de algum tempo, deu-me um estalo: em meio a tantas fitas antigas e renovação do acervo, era bem possível que o filme estivesse em alguma estante, perdido, abandonado. Urgia que eu o alugasse novamente para, talvez, fazer uma cópia e deixá-la à disposição para quando desejasse vê-la. Corri para a locadora e solicitei que fizessem a pesquisa no catálogo.

- Não temos esse filme.

Não me contentei com a resposta e perguntei:

- Você tem certeza?

- Sim. Não temos e nunca tivemos esse filme.

Solicitei que fizesse a busca pelo diretor.

- Lu, o quê? – perguntou o atendente

Soletrei:

- L-U-B-I-T-S-C-H.

- Não temos. Esse filme nunca passou por aqui.

Resignado, agradeci, virei as costas e fui embora.

Até hoje procuro pelos dois títulos. Também procuro por alguém que conheça Lubitsch.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Merquior e Da Matta

Já que evoquei José Guilherme Merquior no post passado, vale a transcrição de um pequeno trecho em que ele comenta a obra Carnavais, Malandros e Heróis, de Roberto da Matta. A crítica foi publicada no Jornal do Brasil em 01/09/1979.

Quem quiser mais informações sobre Merquior poderá acessar o link: "Dez anos sem José Guilherme Merquior". Foi de lá que retirei a citação abaixo:

"Um dos méritos de Roberto da Matta é, aliás, o seu cuidado com a literatura anterior. Nada noto nele dessa pífia presunção, feita de incultura e insegurança, com que vários dos nossos mais novos praticantes de ciências humanas dão as costas ao que se escreveu antes deles - com muita freqüência, muito melhor - sobre seus temas. Em compensação, a linguagem de Carnavais, Malandros e Heróis poderia ser mais apurada. O autor expõe, em geral com clareza, não raro com certa elegância; mas volta e meia sucumbe ao desleixo ou, pior ainda, a esse fraseado esquisito com que tantos textos universitários macaqueiam gratuitamente palavras e construções inglesas ou francesas. O desleixo abrange alguns anacolutos e várias regências incorretas, além da estranha menção a um tal "Alex" de Tocqueville (que intimidades são essas, Professor Matta? O homem se chamava Alexis). O fraseado postiço inclui, por exemplo, um emprego super-abundante do verbo "colocar" (em vez de "observar", "pretender", "argumentar", "postular", etc.). Esse abuso de "colocar" está virando uma verdadeira muleta verbal do nosso jargão universitário. Mas quanto a Roberto da Matta, não tenho dúvida em (agora, sim) colocar esse seu livro bem acima dessas mazelas de expressão. Ele, pelo menos (ao contrário da maioria dos colocadores), tem muito a dizer".