domingo, 13 de junho de 2010

Blogagem coletiva: livro brasileiro

Em dezembro passado, William Lial – um craque da nossa literatura – promoveu em seu blog uma "blogagem coletiva". A idéia era simples: os convidados deveriam escrever sobre o melhor livro que leram no ano passado.

Pensei em dar continuidade à idéia do Lial (nem pedi autorização a ele!). Contudo, o mote da blogagem coletiva que proponho é "o último livro brasileiro que li". Quem tiver blog e gostar de escrever, poderá fazer comentários sobre o último livro que leu, desde que seu autor seja nacional. Romance, contos, poesia, ensaio, etc.... valem todos os gêneros.

A dinâmica que proponho é a seguinte: cada interessado deverá publicar em seu blog no dia 23/07 (Sexta-feira), os comentários sobre o livro escolhido. Não se trata de nenhuma resenha, nada que seja rigoroso e tampouco que contenha ares de academicismo. O objetivo é falar, de modo descompromissado, sobre o livro escolhido. É claro que, sendo possível, as informações bibliográficas da obra devem abrir a redação (autor, título, cidade de publicação, editora, ano de publicação e número de páginas).

Depois que as postagens tiverem sido feitas em seus blogs, os autores que quiserem participar da blogagem coletiva poderão me encaminhar o link correspondente. Farei a relação dos textos, autores e links aqui no Lápis Impreciso. Os participantes também podem colocar o link em seus blogs.

Imagino que possamos tomar conhecimento de obras que ainda não conhecemos. E o debate sobre elas será sempre bem-vindo!

Todos estão convidados! Manifestem-se nos comentários desse post!

domingo, 6 de junho de 2010

Copas do Mundo

Em épocas de Copa do Mundo, lembro-me, sempre, das anteriores. Não sou tão velho, acompanhei sete Copas: 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002 e 2006.

Além delas, tenho alguma lembrança vaga da Copa de 1978. Eu tinha 6 anos e vivia brincando no pátio do prédio em que morava. Ouvia gritos de gol que, ao menos para mim, nada significavam.

Em 1982, já com dez anos, fui apresentado realmente à Copa. E da melhor maneira possível: em casa comprávamos salgadinhos e refrigerantes para ver os jogos. Ficávamos na sala, obcecados, absortos. Brasil goleava as demais seleções. A escalação daquela seleção é digna de nota: Sócrates, Zico, Junior, Falcão, Éder, Batista, Leandro, Toninho Cerezo e Valdir Peres no gol. Devo ter esquecido de alguém, mas foi a melhor seleção que vi jogar. Até hoje lembro-me de certos detalhes como, por exemplo, o último escanteio batido pelo Brasil após a fatalidade do gol de Paolo Rossi. Estavam ali minhas esperanças de não sermos eliminados.

Não acreditei na desclassificação. Acho que foi naquela Copa que aprendi a indiscutível lição de que o futebol não é justo. É preciso contar com o senso de oportunidade ou com aquilo que alguns chamam de sorte.

Em 1986, perdemos nos pênaltis para a França. Zico errou um pênalti no tempo regulamentar da partida. Disseram-me, depois, que insistiu em bater o tal pênalti porque havia prometido para o filho que, caso houvesse uma penalidade máxima, assim agiria. Foi longo o tempo em que amaldiçoei o moleque. Doutor Sócrates, então meu ídolo maior do futebol, também errou. Bateu um pênalti displicente, sem garra, sem vontade. Aquilo não combinava com ele.

1990, em plena era Collor, tivemos a pior seleção que já vi jogar. Contaminado por pruridos ideológicos, não queria ver o Brasil campeão. Achava que a eventual conquista da taça pudesse chancelar o aparente clima de prosperidade que o então presidente queria fazer vingar a todo custo. Só não gostei de termos sido eliminados pela Argentina. Maradona havia dado alguma entrevista provocativa em que vaticinara nossa eliminação. A partir de então, continuei a torcer para que perdêssemos o mundial, mas, com mais fervor, torci para que não fôssemos desclassificados pela seleção de Diego Armando. Claro que hoje, olhando para trás, acho aquela torcida uma grande besteira. Onde já se viu, torcer para o Brasil perder a Copa.... Era um sentimento ultrapassado, démodé.

Em 1994, fiquei animado com a possibilidade do título mundial. As eliminatórias foram conturbadas. Chamaram Romário que, com sua genialidade, classificou o Brasil. Para incorrer no exagero alheio, arrisco a dizer que nos trouxe a taça também. Era uma seleção bacana, mas, à exceção de Romário e Bebeto, os demais jogadores não eram fantásticos. Ronaldo, aquele que seria posteriormente apelidado de Fenômeno, foi para os Estados Unidos no banco da seleção. Parece que comprou vinte pares de tênis. Não jogou, ficou quieto aprendendo algumas coisas que certamente lhe serviram para experiências futuras.

Ganhamos a Copa da Itália na disputa de Pênaltis, com um erro de Roberto Baggio. Foi uma vitória esquisita. Tive a sensação de que deveríamos ao menos ganhar a partida com um gol nosso e não com erro da seleção adversária.

Os jogadores foram recebidos aqui com honras de Estado e causaram polêmica por não quererem pagar os impostos das volumosas compras feitas na América. Um dos nossos titulares achou justo que não pagassem impostos: a velha prática do patrimonialismo havia tomado a cabeça dos nossos esportistas. Já que venceram a Copa, “fizeram uma festa bonita”, teriam direito à isenção tributária? Podíamos ficar sem essa....

Em 1998 o Brasil certamente ganharia a Copa. Com uma seleção mais competente que a anterior, fomos para as disputas crentes de que não teria para ninguém. O Brasil era o favorito. Fomos à final. Saí no dia anterior para encher a cara de chope. Quando a partida – aquele espetáculo bizarro – começou, cheguei a me perguntar se era realidade ou alguma conseqüência do porre do sábado. Primeiro tempo: dois a zero para a França. Meu pai me ligou no intervalo do jogo. Ainda poderíamos reverter a situação! Mas qual o quê? Tomamos mais um gol e até hoje tentamos entender o que aconteceu com Ronaldinho.

2002 foi a maior zebra da história das Copas das quais participamos, ou seja, de todas. A seleção daquela época havia feito as partidas das eliminatórias sem nenhuma competência, nenhum brilho. Jamais acreditei que pudessem fazer algo em campo. Felipão foi quase agredido por não levar Romário. Brigou com 180 milhões de brasileiros e não arredou pé: Romário não foi.

Fomos campeões. Vi Ronaldinho jogar para valer, obstinado a ganhar a Copa, como disse em várias entrevistas. Era a redenção do menino. Todos duvidaram que ele pudesse, depois das cirurgias do joelho, voltar a jogar como antes. Foi o artilheiro daquela Copa que fez brasileiros acordarem de madrugada para torcer. Ganhamos o título numa manhã de domingo, por volta das dez horas da manhã.

Tal como aconteceu em 1998, fomos para a Copa de 2006 convictos de que iríamos faturar outro título. Vimos uma seleção brasileira apática perder para a França. Ouvi Cafu, com a maior cara-de-pau, retrucar para um jornalista que a sua geração era vencedora e que a derrota para a França não poderia ser parâmetro para avaliá-la. Ainda que tivesse razão, seria melhor ter ficado quieto ou se desculpado pelo vexame de seus colegas. Pela terceira vez, fomos eliminados da Copa pela França.

Agora, a poucos dias da estréia da Copa de 2010, quero crer que a seleção de Dunga possa nos surpreender. Para não arriscar palpite, fico na expectativa. Essa, de todas as seleções que vi jogar, é a mais misteriosa, aquela que menos conheço.
Ainda assim, merece minha torcida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Detalhes inúteis 2

Escrever sobre o quanto ficamos presos a certos detalhes inúteis fez-me lembrar de uma cena de um clássico do cinema moderno: Os intocáveis, de Brian de Palma.

Eliot Ness e sua equipe estão no encalço de Al Capone. A luta que se travou entre eles é grande, intensa. Juntamente com o delegado, há um antigo guarda (Connery), um exímio atirador, membro da academia de Polícia (Andy Garcia) e um contador. Cada um a seu modo, contribui para que a caça a Capone tenha êxito. O contador, por exemplo, insistia que o grande mafioso poderia ser pego com na sonegação fiscal.

Pois em meio àquele clima de perseguições estratégicas e mortes, Ness, olhando o infinito, absorto, recebe um recado de sua mulher. Ela deseja saber de que cor será pintada a cozinha.

Ele apenas fala:

- E tem gente que ainda se preocupa com a cor da cozinha.

sábado, 8 de maio de 2010

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré

Língua brasileira 6

Alagados, música dos Paralamas do Sucesso, é, sem nenhuma dúvida, um clássico. Creio ter ouvido, há tempos, Hebert dizer que ela foi uma espécie de passaporte para o sucesso da banda. Não me recordo exatamente suas palavras, mas o sentido era esse. A música veio a lume em 1986, no LP Selvagem?

Para quem nunca prestou a atenção em sua letra, segue, ao final desse post, seu conteúdo.

Em recente entrevista ao Paulinho Moska, no programa Zumbido do Canal Brasil, Hebert falou sobre a trilogia das favelas mencionadas na letra: Alagados (Bahia), Trenchtown (Jamaica) e Favela da Maré (Rio de Janeiro). As três são favelas construídas com base em palafitas.

Hebert disse que, por ocasião da criação da música, estava lendo a biografia de Bob Marley que menciona a favela de Trenchtown, na qual ele fora criado. Logo depois, associou-a à favela de Alagados e, por fim, à Favela da Maré, por onde passava quando era universitário no Rio de Janeiro.

Como quase ninguém sabe o que é Trenchtown, por ocasião de shows, o público acaba por cantar: "Alagados, sem sal, Favela da Maré"....

Pois, então, não é "sem sal", mas sim "Trenchtown".

Segue abaixo a letra da música:

****

Alagados

Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Vem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê

domingo, 2 de maio de 2010

Detalhes inúteis

Estive recentemente numa pequena cidade do interior paulista. Precisei tirar uns xerox. Entrei na casa onde as cópias seriam feitas. Era um imóvel antigo, com muitos papéis afixados na parede. Ali seria possível tirar cópias xerográficas, converter VHS para DVD e até elaborar e imprimir currículos.

O preço de cada versão do currículo, incluindo 10 cópias, era R$ 3,00 (três reais). Se a esse valor fosse aduzido R$ 1,00 (um real), o consumidor ganharia uma lista de classificados de empregos da cidade. Nada mais coerente: o indivíduo vai lá, imprime seu currículo e ainda ganha as opções para enviá-lo. Serviço quase completo.

Justamente no momento em que entrei na fila para ser atendido, notei que uma moça estava a ditar os dados de seu currículo para a atendente que ali trabalhava sozinha. O currículo em questão nem era extenso, mas demorou um bocado para ser concluído e impresso.

Embora estivesse com pressa, fiquei quieto e pensei que a situação exigia compreensão. Afinal, estava diante de alguém que procurava por emprego e necessitava garantir sua subsistência. Notei que as informações do currículo lhe eram muito caras. Ela fazia questão produzir seu histórico de maneira didática.

Sucedeu que, quando da impressão da versão final do currículo, a moça notou que as folhas estavam com "pequenas manchinhas", segundo suas próprias palavras. Eu teria de esperar mais um tempo para ser atendido. Curioso, desloquei-me sutilmente para ver as manchinhas. Não as vi. Pensei que os óculos recentemente trocados pudessem ter me levado a algum equívoco. Aproximei-me das folhas à procura do problema apontado. Nada. Travou-se quase um debate entre a moça e a atendente.

Ainda sem ver as tais manchas, cogitei de falar com a moça, explicando que, tratando-se de algo tão singelo, quase imperceptível, ela não teria prejuízo algum. Diria que o importante no currículo é o conteúdo e não a forma como ele é apresentado. A essa altura dos acontecimentos, notei que ela pôs as mãos no rosto e esboçou uma cara de profunda insatisfação, quase um choro.

Já quase em desespero, disse à atendente:

- Veja! São mínimos detalhes que vão fazer toda a diferença para quem for receber meu currículo.

Embora insignificantes, os detalhes lhe eram sobremaneira importantes e muito provavelmente justificariam eventual insucesso na conquista de outro emprego.

Saí de lá sem saber o desfecho daquela história. Todavia, fiquei pensando em quanto tempo perdemos com detalhes inúteis.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os normais 2

O grande, enorme, fabuloso e inquestionável mérito de Os normais 2 (Direção de José Alvarenga Jr, 2009) é sua duração: apenas e tão-somente 75 minutos.

domingo, 11 de abril de 2010

Salve Geral

Quando da estréia de Salve Geral (Direção de Sérgio Resende, 2009), li uma crítica que apontava para seu didatismo. A narrativa do filme poderia ajudar a compreensão do modus operandi do PCC e dos já famosos ataques de Maio de 2006.

O filme é realmente interessante. Vale a pena assisti-lo.

De minha parte, acho que seu mérito, inegável, foi ter mostrado, ainda que de forma ficcional a existência do acordo entre a cúpula do PCC e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Esse acordo foi, durante algum tempo, motivo de dúvidas para aqueles que acompanharam os fatos em torno daquele Dia das Mães.

Em meu livro Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico, cheguei a apontar a possível realização dessa negociação a partir de indícios que a mídia paulista havia dado na época. Três matérias significativas a esse respeito foram publicadas na Folha de S. Paulo:

"Gestão Lembo faz negociação com o PCC" (15.05.2006);

"Cúpula do PCC ordena fim dos ataques" (16.05.2006) e

"Marcola confirma acordo com governo, diz deputado" (09.06.2006).

A despeito de a imprensa ter sugerido o acordo, muitos duvidaram dele. Eu mesmo, embora convicto de sua existência e tendo informações de um Promotor de Justiça, preferi não tomar posição no livro; limitei-me a indicar as matérias acima mencionadas.

Hoje, vendo o filme e pensando na situação de modo mais distanciado, não consigo ver que os ataques tenham cessado sem que Marcola e os líderes do PCC tivessem dado algum tipo de ordem.

Tais ataques, relembre-se, somente começaram porque Marcola foi transferido para o DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) e, depois dele, algumas lideranças do PCC foram isoladas em Presidente Venceslau. Como resposta, o Partido resolveu retaliar o governo, envolvendo a sociedade numa guerra que parou o Estado de São Paulo e causou várias mortes.

A negociação, como bem mostra o filme, se deu de modo célere. Um dos líderes do PCC comentou, entretanto, que somente estando em cadeia nacional de rádio e televisão conseguiriam acabar com os ataques em uma hora, conforme o pedido de uma autoridade pública.

Outro momento significativo do filme é a elaboração do estatuto do PCC. Piloto, filho da protagonista da trama (Andréa Beltrão), recebe das mãos de X, seu parceiro de cela, um papel impresso. No transcurso de sua leitura, em voz alta, faz correção de um erro de concordância, cometido pelo redator do estatuto. X faz uma observação interessante que poderia, salvo melhor juízo, demonstrar a grande ambição transformadora do PCC.

- E enquanto as crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não terem oportunidade de alfabetização. Espera aí, tá errado....
- Como errado, porra? É o Partido, mano!
- Tá errado, está escrito "crianças terem". É "crianças tiverem". Olha: Enquanto as crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não tiverem a oportunidade de alfabetização". Entendeu? É "tiverem".
- Tu vai copiar do jeito que tá, mano.
- Ué! Não querem alfabetizar as crianças? Então, vai deixar errado?
- O Partido vai tomar conta do país, se ligou?
- E dái, Xisão? O que isso tem a ver com "terem" e "tiverem"?
- Daí que a gente muda o alfabeto. "Terem" fica sendo o certo.

Curiosamente, na versão do Estatuto do PCC que tenho – e que está reproduzida em meu livro – não existe o trecho lido no filme. Nem sequer se fala em alfabetização de crianças.

Será que as fontes a embasar os dois trabalhos são diferentes? Ou será que se trata, no caso do filme, de alguma licença poética?

Enfim, assistir Salve Geral pode resultar num bom programa, em que pese nos fazer recordar de dias difíceis.

domingo, 4 de abril de 2010

Romances policiais

"Para mim, a história de nosso tempo não se exprime nem na guerra nem na bomba atômica, mas no casamento de uma idealista com um gângster e na maneira como sua vida familiar e suas crianças evoluem". Com tais palavras, Raymond Chandler traçava com exímia acuidade o retrato de seu tempo. Discípulo fiel de Dashiell Hammett, considerado o maior escritor de romances policiais, Chandler escrevia também roteiros para cinema. É dele, por exemplo, o roteiro de Pacto de Sangue, obra-prima dirigida por Billy Wilder (meu diretor preferido) e baseada no clássico Double indemnity (Dupla indenização), de James Cain. Hammett e Chandler criaram dois detetives que se tornaram célebres: Sam Spade e Philip Marlowe.

Durante muito tempo recusei-me, por puro preconceito, a ler romances policiais. A exemplo de tantos incautos, reputava-os literatura de baixa qualidade. Não perderia meu tempo!

Em 1998, topei com dois livros que, casualmente, me fariam "rever meus conceitos", como diz uma propaganda já quase antiga. O silêncio da chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (merecidamente premiado com o Jabuti e o Prêmio Nestlé de Literatura) e Bellini e o demônio, de Tony Bellotto.

O silêncio da chuva, já de pronto, me fez acreditar que é possível conciliar a literatura policial com uma narrativa sensível, aprimorada e bem escrita. Garcia-Roza havia conseguido me mostrar que meu preconceito antigo não era, em verdade, preconceito, mas sim burrice. Lembro-me de uma entrevista que ele deu, no final dos anos 90 no Multishow, em que confessava sempre ler paralelamente a literatura clássica (assim considerada) e a literatura policial. Alguém com um mínimo de bom senso perceberia, pelas suas palavras, a inequívoca possibilidade de apreciar a literatura como um todo, sem desmerecer méritos.

Seus livros seguintes (Achados e perdidos; Uma janela em Copacabana, Vento sudoeste, Berenice procura e Perseguido), foram adquirindo uma agilidade "mais compatível", por assim dizer, com a narrativa policial. Tornaram-se mais rápidos, mas nem por isso perderam o requinte que o autor soube dar à sua primeira obra. Há tempos, mandei a ele uma carta na qual dizia isso. Na gentil resposta que me enviou, chegou a concordar comigo ou, pelo menos, não divergiu frontalmente das minhas observações. Garcia-Roza é o escritor de romances policiais que, mais do que ninguém, alia a pena fina e elegante a tramas bem urdidas, protagonizadas ou não pelo espetacular Delegado Espinosa.

Bellotto, com narrativa também ágil e seca, despertou-me interesse por Dashiell Hammett. Hammett era, até então, apenas o autor de um livro (O falcão maltês) que ficou durante anos na estante da minha casa, juntamente com um volume de Raymond Chandler. É claro que eu já havia ouvido falar no filme homônimo, mas não me atrevi a ler o livro. Pois foi a narrativa do segundo livro de Bellotto que me fez procurar pela produção de Dashiell Hammett.

Depois de ler sua obra-prima, li os contos de Ferradura dourada, traduzido inicialmente no Brasil pela Editora Círculo do Livro e, após muitos anos, publicado pela Companhia das Letras com o título de Continental Op, com belíssima nota introdutória de Ruy Castro. Tiros na noite, por muito tempo inédito no Brasil, fora publicado em primorosa edição pela Record.

Voltando ao Bellotto.... Seus livros com o personagem Remo Bellini – cheio de contradições, fã de blues e morador de uma São Paulo quase noir – conseguiram uma façanha que eu ainda não conhecia: o segundo e terceiro títulos (Bellini e o demônio e Bellini e os espíritos) são muito superiores ao primeiro (Bellini e a esfinge). São apenas esses os três romances nos quais Bellini aparece. Recentemente, Bellotto confessou, em entrevista a Edney Silvestre, que escrevera outros livros sem Bellini para não ficar marcado como autor de um único personagem. Bobagem dele....

Também descobri duas Patrícias, a Melo (brasileira) e a Cornwell (norte-americana).

A nossa Patrícia, a Melo, se diz herdeira da literatura de Rubem Fonseca, de quem somente conheço alguns contos. É dela o fantástico Elogio da Mentira, que se construiu em meio a referências literárias enxertadas numa trama que visa a consecução do crime perfeito. Patrícia Mello tem uma escrita divertidíssima, embora o contexto de suas obras sejam densos, pesados.

Já a Cornwell tem um estilo diferente. É dela a personagem Dra. Kay Scarpetta, médica legista capaz de descobrir indícios dos homicidas por meio das necropsias que realiza. Devorei alguns de seus livros e notei que eles têm uma espécie de cronologia dos personagens. É óbvio que cada obra tem lá sua autonomia. Contudo, os personagens modificam-se conforme o tempo. A Dra. Kay Scarpetta, por exemplo, é uma fumante inveterada nos primeiros livros. Creio que a partir do quarto título, deixa de fumar e passa a criticar com muita frequência um colega fumante insuportável: Marino. Enfim, seus personagens envelhecem, obedecendo a uma linha temporal, dificilmente verificável em qualquer outro personagem. Basta pensar nos heróis em quadrinhos ou outros ícones de histórias de ficção: eles sempre têm a mesma idade e todas as histórias das quais participam são vividas como se o tempo não fosse implacável. Demonstram sempre a mesma destreza, a mesma inteligência e a mesma capacidade de solucionar os problemas que enfrentam.

O Xangô de Baker Street, do Jô Soares, merece também destaque nessa pequena lista. Não sei como o classificaria senão como a perfeita realização de um clima ficcional misturado com personagens da vida real. Jô foi fiel a esse estilo em seus dois últimos livros (O homem que matou Getúlio Vargas e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras).

Agatha Christie? Dela li apenas dois livros: Encontro com a morte (um tanto enfadonho) e O assassinato de Roger Ackroyd (sensacional!).

Apenas para não ser injusto, cabe aqui uma menção àquele que conseguiu, ao menos para a minha geração, fazer com que a molecada adorasse leitura: Marcos Rey. Seus livros com temática infanto-juvenis eram essencialmente policiais. Quem não leu Um cadáver ouve rádio? O mistério dos cinco estrelas? Doze horas de terror? Enigma na TV? Pois é, além da lavra infanto-juvenil, Marcos Rey era um grande romancista, infelizmente pouquíssimo valorizado. Mas isso é outra história....

Devo ter me esquecido de algum autor ou obra que mereceria inclusão nesse post. Vou aproveitar a Páscoa e comer um pouco de chocolate. Quem sabe minha memória me surpreende com alguma surpresa....

A propósito, Feliz Páscoa a todos!

domingo, 14 de março de 2010

Intelectuais ou vagabundos?

Não tenho dúvidas de que existe, mesmo para os mais esclarecidos, um grande preconceito em relação ao trabalho intelectual. Aqueles que têm de seguir horários rigidamente, imaginam que o intelectual não trabalha e tem uma vida tranquila. Há, aí, uma equívoca analogia com os boêmios. Não se consegue entender que, tirante a exigência dos horários rígidos, o intelectual também trabalha. E muito.

Durante algum tempo da minha vida – época em que me dedicava apenas e tão-somente à atividade intelectual – estabeleci uma rotina de trabalho que a muitos soaria como vagabundagem ou boemia. Iniciava meu estudo (trabalho) por volta das onze horas da noite e ia dormir após as quatro ou cinco horas da manhã, encharcado de café e cigarro. Acordava na hora do almoço. À tarde ia para a universidade fazer pesquisas, pegar livros, conversar com professores, etc. Enfim, tinha uma vida muito peculiar e distante da maioria das pessoas.

No prédio em que morava, era tido como um legítimo vagabundo. Era o sujeito que não dormia de madrugada (todos sabiam porque eu fornecia o café do porteiro noturno) e acordava na hora do almoço.

A faxineira do prédio – casualmente filha do porteiro – devia saber disso. Um dia, chamei-a para fazer faxina em casa. Combinamos que ela iniciaria o trabalho na hora do almoço, ou seja, justamente no momento em que eu acordaria. Ocorreu que, naquele dia, houve um contratempo e ela preferiu antecipar o início da faxina.

Às dez horas da manhã, tocou a campainha do meu apartamento. Não atendi, pois dormia pesado. Novo toque.... um, dois, três, quatro.... A faxineira, já enfurecida, começou a tocar a campainha como uma doida.

Acordei assustado e corri para abrir a porta. Quando olhei para a cara dela, ouvi:

- Cê dorrrrrme, hein!

Após passar o café para garantir que eu ficaria em pé, sentei-me no sofá. Ela, então, me perguntou sobre meus horários, modos de vida e a razão pela qual eu "dormia tanto". Expliquei-lhe que meus horários eram distintos dos dela, mas que eu não passava a noite em festa, e sim trabalhando. Creio que mesmo após a explicação clara, ela não entendeu, mesmo tendo um pai que trabalhava à noite.

O barbeiro que cortava o meu cabelo naquela época também tinha alguma dificuldade para entender minha atividade. Não compreendia que meu estudo era uma espécie de trabalho remunerado. Eu bem que expliquei, mas de nada adiantou. Toda vez que eu ia lá, ele perguntava:

- Mas, afinal, você estuda ou trabalha?

Para terminar os exemplos que justificam o preconceito contra o trabalho intelectual, vejam a seguinte história.

Uma professora da Unicamp entrava em seu escritório residencial pela manhã, trancava a porta e passava o dia produzindo, parando apenas para almoçar. Ao final da tarde, saía do escritório e desabafava o quanto estava cansada. O dia de leituras, pesquisas e escritas sempre lhe custava caro, o que é absolutamente natural.

Um dia, à socapa, ouviu um comentário de sua doméstica para a faxineira que ali estava:

- A minha patroa é uma come-dorme. Não faz nada o dia inteiro. Entra nesse escritório e fica lá sentada. No final da tarde, ainda tem a cara de pau de dizer que está cansada. Ê vida boa!

Alguém conseguiria explicar? Não dá....

sábado, 6 de março de 2010

Caetano: é melhor ouvi-lo cantar!

Há tempos a obra de Caetano não me desperta interesse. Não tenho acompanhado seus discos autorais desde Livro (1999). Também não me interessei por Coração Vagabundo, documentário sobre o próprio Caetano. Todavia, como estava disponível na locadora um exemplar do DVD, resolvi assisti-lo em plena segunda-feira de carnaval.

Não sei qual é o juízo da crítica sobre o documentário. Nem procurei pela opinião especializada. Apenas assisti. Nada mais.

Os monólogos não surpreendem. Trata-se de Caetano falando da importância de ter sido criado em Santo Amaro da Purificação e ter ido para São Paulo após os 18 anos. Os temas que sempre o inquietaram estão lá, vivos: a música brasileira, a pujança do tropicalismo, o etnocentrismo, cidades para se morar (ele confessa que nunca pensou em morar fora, mas, se tivesse que fazê-lo, moraria em Nova Iorque ou Madri).

O ponto alto desses monólogos é a menção ao surgimento de Sampa. Segundo ele, a música surgiu porque lhe pediram um depoimento sobre São Paulo. Ele deveria gravar um programa de TV no qual esse depoimento seria veiculado. De um dia para o outro, surgiu a música. Simples! Uma das obras primas da música (e da literatura) brasileira saiu assim, rapidamente, de um dia para outro....

O documentário em si não é lá animador. Entendo mesmo que seja pobre, insosso. Ocorre, todavia, que é acompanhado de um outro DVD. E é nele que está a graça.

Nesse segundo DVD está registrado um show que Caetano deu no Bar Baretto por ocasião do registro do CD A Foreign Sound. Nos bastidores, de modo descompromissado, revela que o ingresso para o show custou R$ 500,00 e que esse preço só poderia ser cobrado em São Paulo. O telespectador, porventura incrédulo quanto ao preço, logo fica satisfeito ao ser informado de que o cachê do mano Caetano foi doado para algum hospital. Cuidava-se, portanto, de show caríssimo, mas benemérito.

A apresentação é aberta com Não tem tradução, de Noel. A música, naturalmente, não faz parte do CD, mas, para Caetano, isso não faz diferença. Cole Porter é representado por duas fantásticas interpretações: So in love e Love for sale. Esta última é cantada sem nenhum acompanhamento. Kurt Cobain também está em seu show.

Poucos seriam capazes de fazer as combinações que Caetano fez sem deixar o show incoerente. Os músicos que o acompanham são de primeira linha (Jorge Helder e Moreno Veloso estão lá) e a produção é preciosa.

Enfim, quem não quiser ouvir Caetano falar em Coração Vagabundo, poderá ouvi-lo cantar. Valerá mais a pena.