domingo, 11 de abril de 2010

Salve Geral

Quando da estréia de Salve Geral (Direção de Sérgio Resende, 2009), li uma crítica que apontava para seu didatismo. A narrativa do filme poderia ajudar a compreensão do modus operandi do PCC e dos já famosos ataques de Maio de 2006.

O filme é realmente interessante. Vale a pena assisti-lo.

De minha parte, acho que seu mérito, inegável, foi ter mostrado, ainda que de forma ficcional a existência do acordo entre a cúpula do PCC e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Esse acordo foi, durante algum tempo, motivo de dúvidas para aqueles que acompanharam os fatos em torno daquele Dia das Mães.

Em meu livro Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico, cheguei a apontar a possível realização dessa negociação a partir de indícios que a mídia paulista havia dado na época. Três matérias significativas a esse respeito foram publicadas na Folha de S. Paulo:

"Gestão Lembo faz negociação com o PCC" (15.05.2006);

"Cúpula do PCC ordena fim dos ataques" (16.05.2006) e

"Marcola confirma acordo com governo, diz deputado" (09.06.2006).

A despeito de a imprensa ter sugerido o acordo, muitos duvidaram dele. Eu mesmo, embora convicto de sua existência e tendo informações de um Promotor de Justiça, preferi não tomar posição no livro; limitei-me a indicar as matérias acima mencionadas.

Hoje, vendo o filme e pensando na situação de modo mais distanciado, não consigo ver que os ataques tenham cessado sem que Marcola e os líderes do PCC tivessem dado algum tipo de ordem.

Tais ataques, relembre-se, somente começaram porque Marcola foi transferido para o DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) e, depois dele, algumas lideranças do PCC foram isoladas em Presidente Venceslau. Como resposta, o Partido resolveu retaliar o governo, envolvendo a sociedade numa guerra que parou o Estado de São Paulo e causou várias mortes.

A negociação, como bem mostra o filme, se deu de modo célere. Um dos líderes do PCC comentou, entretanto, que somente estando em cadeia nacional de rádio e televisão conseguiriam acabar com os ataques em uma hora, conforme o pedido de uma autoridade pública.

Outro momento significativo do filme é a elaboração do estatuto do PCC. Piloto, filho da protagonista da trama (Andréa Beltrão), recebe das mãos de X, seu parceiro de cela, um papel impresso. No transcurso de sua leitura, em voz alta, faz correção de um erro de concordância, cometido pelo redator do estatuto. X faz uma observação interessante que poderia, salvo melhor juízo, demonstrar a grande ambição transformadora do PCC.

- E enquanto as crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não terem oportunidade de alfabetização. Espera aí, tá errado....
- Como errado, porra? É o Partido, mano!
- Tá errado, está escrito "crianças terem". É "crianças tiverem". Olha: Enquanto as crianças morrerem de fome, dormirem na rua, não tiverem a oportunidade de alfabetização". Entendeu? É "tiverem".
- Tu vai copiar do jeito que tá, mano.
- Ué! Não querem alfabetizar as crianças? Então, vai deixar errado?
- O Partido vai tomar conta do país, se ligou?
- E dái, Xisão? O que isso tem a ver com "terem" e "tiverem"?
- Daí que a gente muda o alfabeto. "Terem" fica sendo o certo.

Curiosamente, na versão do Estatuto do PCC que tenho – e que está reproduzida em meu livro – não existe o trecho lido no filme. Nem sequer se fala em alfabetização de crianças.

Será que as fontes a embasar os dois trabalhos são diferentes? Ou será que se trata, no caso do filme, de alguma licença poética?

Enfim, assistir Salve Geral pode resultar num bom programa, em que pese nos fazer recordar de dias difíceis.

domingo, 4 de abril de 2010

Romances policiais

"Para mim, a história de nosso tempo não se exprime nem na guerra nem na bomba atômica, mas no casamento de uma idealista com um gângster e na maneira como sua vida familiar e suas crianças evoluem". Com tais palavras, Raymond Chandler traçava com exímia acuidade o retrato de seu tempo. Discípulo fiel de Dashiell Hammett, considerado o maior escritor de romances policiais, Chandler escrevia também roteiros para cinema. É dele, por exemplo, o roteiro de Pacto de Sangue, obra-prima dirigida por Billy Wilder (meu diretor preferido) e baseada no clássico Double indemnity (Dupla indenização), de James Cain. Hammett e Chandler criaram dois detetives que se tornaram célebres: Sam Spade e Philip Marlowe.

Durante muito tempo recusei-me, por puro preconceito, a ler romances policiais. A exemplo de tantos incautos, reputava-os literatura de baixa qualidade. Não perderia meu tempo!

Em 1998, topei com dois livros que, casualmente, me fariam "rever meus conceitos", como diz uma propaganda já quase antiga. O silêncio da chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (merecidamente premiado com o Jabuti e o Prêmio Nestlé de Literatura) e Bellini e o demônio, de Tony Bellotto.

O silêncio da chuva, já de pronto, me fez acreditar que é possível conciliar a literatura policial com uma narrativa sensível, aprimorada e bem escrita. Garcia-Roza havia conseguido me mostrar que meu preconceito antigo não era, em verdade, preconceito, mas sim burrice. Lembro-me de uma entrevista que ele deu, no final dos anos 90 no Multishow, em que confessava sempre ler paralelamente a literatura clássica (assim considerada) e a literatura policial. Alguém com um mínimo de bom senso perceberia, pelas suas palavras, a inequívoca possibilidade de apreciar a literatura como um todo, sem desmerecer méritos.

Seus livros seguintes (Achados e perdidos; Uma janela em Copacabana, Vento sudoeste, Berenice procura e Perseguido), foram adquirindo uma agilidade "mais compatível", por assim dizer, com a narrativa policial. Tornaram-se mais rápidos, mas nem por isso perderam o requinte que o autor soube dar à sua primeira obra. Há tempos, mandei a ele uma carta na qual dizia isso. Na gentil resposta que me enviou, chegou a concordar comigo ou, pelo menos, não divergiu frontalmente das minhas observações. Garcia-Roza é o escritor de romances policiais que, mais do que ninguém, alia a pena fina e elegante a tramas bem urdidas, protagonizadas ou não pelo espetacular Delegado Espinosa.

Bellotto, com narrativa também ágil e seca, despertou-me interesse por Dashiell Hammett. Hammett era, até então, apenas o autor de um livro (O falcão maltês) que ficou durante anos na estante da minha casa, juntamente com um volume de Raymond Chandler. É claro que eu já havia ouvido falar no filme homônimo, mas não me atrevi a ler o livro. Pois foi a narrativa do segundo livro de Bellotto que me fez procurar pela produção de Dashiell Hammett.

Depois de ler sua obra-prima, li os contos de Ferradura dourada, traduzido inicialmente no Brasil pela Editora Círculo do Livro e, após muitos anos, publicado pela Companhia das Letras com o título de Continental Op, com belíssima nota introdutória de Ruy Castro. Tiros na noite, por muito tempo inédito no Brasil, fora publicado em primorosa edição pela Record.

Voltando ao Bellotto.... Seus livros com o personagem Remo Bellini – cheio de contradições, fã de blues e morador de uma São Paulo quase noir – conseguiram uma façanha que eu ainda não conhecia: o segundo e terceiro títulos (Bellini e o demônio e Bellini e os espíritos) são muito superiores ao primeiro (Bellini e a esfinge). São apenas esses os três romances nos quais Bellini aparece. Recentemente, Bellotto confessou, em entrevista a Edney Silvestre, que escrevera outros livros sem Bellini para não ficar marcado como autor de um único personagem. Bobagem dele....

Também descobri duas Patrícias, a Melo (brasileira) e a Cornwell (norte-americana).

A nossa Patrícia, a Melo, se diz herdeira da literatura de Rubem Fonseca, de quem somente conheço alguns contos. É dela o fantástico Elogio da Mentira, que se construiu em meio a referências literárias enxertadas numa trama que visa a consecução do crime perfeito. Patrícia Mello tem uma escrita divertidíssima, embora o contexto de suas obras sejam densos, pesados.

Já a Cornwell tem um estilo diferente. É dela a personagem Dra. Kay Scarpetta, médica legista capaz de descobrir indícios dos homicidas por meio das necropsias que realiza. Devorei alguns de seus livros e notei que eles têm uma espécie de cronologia dos personagens. É óbvio que cada obra tem lá sua autonomia. Contudo, os personagens modificam-se conforme o tempo. A Dra. Kay Scarpetta, por exemplo, é uma fumante inveterada nos primeiros livros. Creio que a partir do quarto título, deixa de fumar e passa a criticar com muita frequência um colega fumante insuportável: Marino. Enfim, seus personagens envelhecem, obedecendo a uma linha temporal, dificilmente verificável em qualquer outro personagem. Basta pensar nos heróis em quadrinhos ou outros ícones de histórias de ficção: eles sempre têm a mesma idade e todas as histórias das quais participam são vividas como se o tempo não fosse implacável. Demonstram sempre a mesma destreza, a mesma inteligência e a mesma capacidade de solucionar os problemas que enfrentam.

O Xangô de Baker Street, do Jô Soares, merece também destaque nessa pequena lista. Não sei como o classificaria senão como a perfeita realização de um clima ficcional misturado com personagens da vida real. Jô foi fiel a esse estilo em seus dois últimos livros (O homem que matou Getúlio Vargas e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras).

Agatha Christie? Dela li apenas dois livros: Encontro com a morte (um tanto enfadonho) e O assassinato de Roger Ackroyd (sensacional!).

Apenas para não ser injusto, cabe aqui uma menção àquele que conseguiu, ao menos para a minha geração, fazer com que a molecada adorasse leitura: Marcos Rey. Seus livros com temática infanto-juvenis eram essencialmente policiais. Quem não leu Um cadáver ouve rádio? O mistério dos cinco estrelas? Doze horas de terror? Enigma na TV? Pois é, além da lavra infanto-juvenil, Marcos Rey era um grande romancista, infelizmente pouquíssimo valorizado. Mas isso é outra história....

Devo ter me esquecido de algum autor ou obra que mereceria inclusão nesse post. Vou aproveitar a Páscoa e comer um pouco de chocolate. Quem sabe minha memória me surpreende com alguma surpresa....

A propósito, Feliz Páscoa a todos!

domingo, 14 de março de 2010

Intelectuais ou vagabundos?

Não tenho dúvidas de que existe, mesmo para os mais esclarecidos, um grande preconceito em relação ao trabalho intelectual. Aqueles que têm de seguir horários rigidamente, imaginam que o intelectual não trabalha e tem uma vida tranquila. Há, aí, uma equívoca analogia com os boêmios. Não se consegue entender que, tirante a exigência dos horários rígidos, o intelectual também trabalha. E muito.

Durante algum tempo da minha vida – época em que me dedicava apenas e tão-somente à atividade intelectual – estabeleci uma rotina de trabalho que a muitos soaria como vagabundagem ou boemia. Iniciava meu estudo (trabalho) por volta das onze horas da noite e ia dormir após as quatro ou cinco horas da manhã, encharcado de café e cigarro. Acordava na hora do almoço. À tarde ia para a universidade fazer pesquisas, pegar livros, conversar com professores, etc. Enfim, tinha uma vida muito peculiar e distante da maioria das pessoas.

No prédio em que morava, era tido como um legítimo vagabundo. Era o sujeito que não dormia de madrugada (todos sabiam porque eu fornecia o café do porteiro noturno) e acordava na hora do almoço.

A faxineira do prédio – casualmente filha do porteiro – devia saber disso. Um dia, chamei-a para fazer faxina em casa. Combinamos que ela iniciaria o trabalho na hora do almoço, ou seja, justamente no momento em que eu acordaria. Ocorreu que, naquele dia, houve um contratempo e ela preferiu antecipar o início da faxina.

Às dez horas da manhã, tocou a campainha do meu apartamento. Não atendi, pois dormia pesado. Novo toque.... um, dois, três, quatro.... A faxineira, já enfurecida, começou a tocar a campainha como uma doida.

Acordei assustado e corri para abrir a porta. Quando olhei para a cara dela, ouvi:

- Cê dorrrrrme, hein!

Após passar o café para garantir que eu ficaria em pé, sentei-me no sofá. Ela, então, me perguntou sobre meus horários, modos de vida e a razão pela qual eu "dormia tanto". Expliquei-lhe que meus horários eram distintos dos dela, mas que eu não passava a noite em festa, e sim trabalhando. Creio que mesmo após a explicação clara, ela não entendeu, mesmo tendo um pai que trabalhava à noite.

O barbeiro que cortava o meu cabelo naquela época também tinha alguma dificuldade para entender minha atividade. Não compreendia que meu estudo era uma espécie de trabalho remunerado. Eu bem que expliquei, mas de nada adiantou. Toda vez que eu ia lá, ele perguntava:

- Mas, afinal, você estuda ou trabalha?

Para terminar os exemplos que justificam o preconceito contra o trabalho intelectual, vejam a seguinte história.

Uma professora da Unicamp entrava em seu escritório residencial pela manhã, trancava a porta e passava o dia produzindo, parando apenas para almoçar. Ao final da tarde, saía do escritório e desabafava o quanto estava cansada. O dia de leituras, pesquisas e escritas sempre lhe custava caro, o que é absolutamente natural.

Um dia, à socapa, ouviu um comentário de sua doméstica para a faxineira que ali estava:

- A minha patroa é uma come-dorme. Não faz nada o dia inteiro. Entra nesse escritório e fica lá sentada. No final da tarde, ainda tem a cara de pau de dizer que está cansada. Ê vida boa!

Alguém conseguiria explicar? Não dá....

sábado, 6 de março de 2010

Caetano: é melhor ouvi-lo cantar!

Há tempos a obra de Caetano não me desperta interesse. Não tenho acompanhado seus discos autorais desde Livro (1999). Também não me interessei por Coração Vagabundo, documentário sobre o próprio Caetano. Todavia, como estava disponível na locadora um exemplar do DVD, resolvi assisti-lo em plena segunda-feira de carnaval.

Não sei qual é o juízo da crítica sobre o documentário. Nem procurei pela opinião especializada. Apenas assisti. Nada mais.

Os monólogos não surpreendem. Trata-se de Caetano falando da importância de ter sido criado em Santo Amaro da Purificação e ter ido para São Paulo após os 18 anos. Os temas que sempre o inquietaram estão lá, vivos: a música brasileira, a pujança do tropicalismo, o etnocentrismo, cidades para se morar (ele confessa que nunca pensou em morar fora, mas, se tivesse que fazê-lo, moraria em Nova Iorque ou Madri).

O ponto alto desses monólogos é a menção ao surgimento de Sampa. Segundo ele, a música surgiu porque lhe pediram um depoimento sobre São Paulo. Ele deveria gravar um programa de TV no qual esse depoimento seria veiculado. De um dia para o outro, surgiu a música. Simples! Uma das obras primas da música (e da literatura) brasileira saiu assim, rapidamente, de um dia para outro....

O documentário em si não é lá animador. Entendo mesmo que seja pobre, insosso. Ocorre, todavia, que é acompanhado de um outro DVD. E é nele que está a graça.

Nesse segundo DVD está registrado um show que Caetano deu no Bar Baretto por ocasião do registro do CD A Foreign Sound. Nos bastidores, de modo descompromissado, revela que o ingresso para o show custou R$ 500,00 e que esse preço só poderia ser cobrado em São Paulo. O telespectador, porventura incrédulo quanto ao preço, logo fica satisfeito ao ser informado de que o cachê do mano Caetano foi doado para algum hospital. Cuidava-se, portanto, de show caríssimo, mas benemérito.

A apresentação é aberta com Não tem tradução, de Noel. A música, naturalmente, não faz parte do CD, mas, para Caetano, isso não faz diferença. Cole Porter é representado por duas fantásticas interpretações: So in love e Love for sale. Esta última é cantada sem nenhum acompanhamento. Kurt Cobain também está em seu show.

Poucos seriam capazes de fazer as combinações que Caetano fez sem deixar o show incoerente. Os músicos que o acompanham são de primeira linha (Jorge Helder e Moreno Veloso estão lá) e a produção é preciosa.

Enfim, quem não quiser ouvir Caetano falar em Coração Vagabundo, poderá ouvi-lo cantar. Valerá mais a pena.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os males da tecnologia

No post passado falei sucintamente da presença da tecnologia na minha vida. Foi com algum otimismo e euforia que a saudei. Esqueci-me, contudo, de assinalar os efeitos da tecnologia na vida de parcela significativa da sociedade. Não me estenderei.

Ainda moleque abri uma conta de poupança. Sempre que possível, passava pela Caixa Econômica Federal e depositava uns cobres. Quando queria saber meu saldo, entrava na fila e solicitava ao funcionário do caixa a informação. Ele ia até um fichário, pegava o papel com minha ficha, olhava o saldo, anotava-o num papel e me falava o valor.

Em 1988, abri uma conta corrente no Banespa. O procedimento para saber o saldo bancário era exatamente o mesmo. Havia funcionários que ali estavam para exercer esse papel. Já no ano seguinte, instalaram uma máquina na agência e cada correntista tinha um cartão e uma senha. Preciso dizer o resto?

A máquina naturalmente passou a executar as tarefas dos funcionários do banco. Algo semelhante à Revolução Industrial, guardadas as devidas proporções, estava em curso. Uma grande massa de desempregados bancários foi o resultado do impacto da tecnologia nas agências.... Processo semelhante já havia sido diagnosticado pelo velho Marx, quando analisou o impacto da manufatura na produção do capitalismo nascente. Em O capital, assevera que aquele "proletariado, livre como pássaros, não podia ser absorvido pela manufatura nascente com a mesma velocidade com que foi posto no mundo" (MARX, Karl. O capital. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, Vol. II, Tomo II, p. 265).

Recentemente, li, sem muita surpresa, uma manchete sobre a queda, em 50%, do faturamento das vídeo-locadoras. Pudera! Depois que a molecada passou a baixar filmes da internet, o consumo teria que cair. Quanto aos CDs, nem é preciso dizer nada. A discussão sobre a legitimidade dos programas aptos a baixar música da internet é longa....

Enfim, o impacto da tecnologia na sociedade pode ser devastador. Há sempre quem pague por isso.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tecnologia: nasci na hora errada?

Hoje, com tanta tecnologia à nossa volta – computadores com editores de texto, celulares, internet, e-mails e os cambau – fico pensando em como era pacata a vida no passado. Não penso num passado muito remoto, o que, em si, já seria razão para morrer de tédio. Imagino o meu passado sem nada disso. Uma retrospectiva sempre me arrebata a memória, fazendo-me acreditar que hoje vivemos tempos mais ditosos.

Quando eu tinha meus seis anos, havia em casa uma televisão valvulada, branca e preta. Nem sei quantas polegadas tinha, mas era pequena. Logo depois, um ou dois anos, tivemos uma TV colorida. Era uma novidade sensacional. Ver desenho em cores era algo absolutamente distinto daqueles movimentos monocromáticos que só prendiam a atenção da criança pela trama. Em matéria de plasticidade, houve um enorme progresso.

Os telefones eram compostos por um disco que, quando posto em ação, exigia um tempo considerável para voltar ao seu ponto de partida. Somente quando isso acontecesse é que o usuário poderia discar outro número. Um ansioso dos tempos de hoje certamente se tornaria inimigo daquele aparelho. Vieram as teclas e, bem depois, ouvi dizer que existia um mecanismo que identificava o número que originava as chamadas. Era a tal da Bina. A molecada passou a temer a aplicação de trotes, malgrado tenha se recusado a parar com eles.

Computadores já existiam, mas longe estavam do poder aquisitivo da classe média. Nem mesmo as universidades públicas os tinham em quantidade. Eram restritos. Em 1987, tive aula de computação na escola. Estava no primeiro colegial e não achava nenhuma utilidade para os programas de XP que os professores insistiam em nos ensinar. Apenas a idéia de um editor de texto me fascinava. Imagine: substituir máquinas datilográficas!

Em 1992, aqui em Campinas fiquei surpreso ao imaginar que teria encontrado uma funcionária de supermercado educadíssima. Disse-me que eu não precisaria preencher o cheque para pagar a compra. Ela mesma o faria. Quanta gentileza! Tratava-se de uma pequena máquina que imprimia o cheque inteiro, bastando o consumidor assiná-lo. Logo, as cidades de médio porte passaram a ter essas máquinas. Hoje, elas quase não existem.

E as balanças digitais! Creio que foi por causa delas que o mundo da alimentação teve significativa alteração. Os restaurantes, até então, só funcionavam no esquema a la carte ou buffet. A refeição a quilo certamente aumentou a possibilidade de consumo em muitos restaurantes. Não creio ser exagero a afirmação de que muita gente deixou de cozinhar em casa para frequentar aquele restaurante que oferecia um ótimo custo-benefício. Eu mesmo fui, por dez anos, escravo dos restaurantes a quilo.

Chegamos aos computadores. Em 1991, ainda na faculdade, atrevi-me a mexer em um editor de texto. Era um Word cuja tela era preta e as letras, verdes. Acho que era o DOS. Os disquetes eram finos, flexíveis e tinham um diâmetro considerável. A vista de quem ficava em frente ao computador logo se cansava. Afinal, era tudo monocromático, tal como as antigas televisões.

Em 1994, decidi abandonar minha Olivetti. Os microcomputadores – à época chamados de PCs – começaram a baratear e a invadir os lares. Em pleno momento de implantação do Plano Real, comprei meu primeiro computador. Era um 386 com monitor preto e branco. Já estávamos na plataforma Windows e tudo em matéria de computação era mais lúdico. Até mesmo a paciência digital – Freecell e Solitarie – poderia ser jogada vendo as cartas todas na mesma cor. Pouco importava.

O Word foi a grande revolução para quem desenvolve qualquer atividade ligada à escrita. Mexer no texto, arrastar frases, movimentar parágrafos, incluir rodapés.... tudo isso era facílimo. E, sinal de relevo, não exigia papéis. Poderíamos editar de fato o texto até sua forma final. Somente depois é que teríamos de imprimi-lo. E imprimíamos, ao menos num primeiro momento, rodeados de barulho pelas impressoras matriciais. Aquilo era um horror que só foi atenuado com as impressoras jato de tinta. Todavia, já não se pensava mais em escrever à máquina, amassar várias folhas com redação equivocada, retomar o texto do ponto de partida....

Tive o primeiro contato com e-mail quando minha irmã me mostrou, numa sala da USP, que iria mandar uma mensagem instantânea a um colega que estava no computador do outro lado do departamento. Naquele dia foi difícil imaginar a dimensão do que seria, hoje, uma mensagem de correio eletrônico – o já velho e bom e-mail.

Também foi necessário algum tempo para a consagração dos e-mails. No início, eles eram usados numa tela preta, exatamente como o antigo DOS. Meu primeiro endereço eletrônico foi criado em 1995. Eram poucas as pessoas que tinham e-mail e, geralmente, eram e-mails corporativos, ligados a universidades públicas ou empresas grandes.

A internet funcionou em casa apenas em 1999. Diverti-me bastante procurando informações na rede. Pouco tempo foi necessário para perceber que tais informações eram, em sua maioria, de duvidosa qualidade. A pesquisa acadêmica ainda era restrita por meio da internet. Bibliografias, artigos, textos e materiais de ciências humanas foram paulatinamente ganhando espaço na rede.

Um dia me disseram que eu poderia esquecer o fichário da biblioteca. Poderia consultar o acervo pela internet, anotar o número do livro e ir diretamente até a estante para retirá-lo. Que maravilha! Os ácaros daquelas fichinhas puídas devem ter se refestelado, trancados nos armários de metal.

Seria ocioso falar sobre as infinitas vantagens da internet. Uma criança, na década de oitenta, pouquíssima informação tinha a sua disposição. Foi uma geração formada pela pesquisa em bibliotecas, nos verbetes da Barsa ou de qualquer congênere. E muita coisa – muita coisa mesmo – ficou alijada das informações pretendidas. Lembro-me, por exemplo, do dia em queria conhecer a letra de Luiza, do Tom Jobim. A música foi gravada para novela Brilhante, da Globo, e a versão que eu possuía era o registro de um gravador mono colocado ao lado do auto-falante da televisão. Em um determinado trecho, ouvia-se, de modo precário, "embaixo dessa neve mora um coração". Fiquei na dúvida se aquilo era "neve" ou "nave". Devia ser neve, é claro, mas a dúvida me perturbou. Houvesse o Google, pronto: ela não resistiria a nem uma hora. Diga-se o mesmo para as músicas estrangeiras ouvidas em rádios. Sem inglês fluente, quem se arriscaria a cantar a música sem cometer deslizes quanto à letra? Ninguém.

Quanto às questões de sexualidade, tudo era também mais difícil. Tínhamos as Playboys impressas que, diga-se de passagem, eram caras. O acesso a elas era feito quando íamos ao barbeiro e as folheávamos com um misto de excitação e constrangimento. Hoje é desnecessário falar de como as fotos de mulheres desnudas são facilmente vistas pela molecada (e também por adultos, é óbvio). São trocadas por e-mail, sem custo, sem constrangimento, sem impedimentos de qualquer natureza.

Enfim, creio mesmo que era chato ser criança sem essa tecnologia toda. Hoje o mundo é mais lúdico, a informática é mais atraente e possibilita uma infindável rede de comunicação e informação.

Já me perguntei, por várias vezes, se não nasci na hora errada. A despeito da chatice da infância faltosa de tecnologia, minha resposta foi negativa. É gratificante acompanhar essa permanente transição que o mundo vive atualmente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Novelas

Quando eu ainda não gostava de ler (como faz tempo!), a música popular brasileira – sobretudo a obra do Chico – e as novelas eram uma espécie de horizonte literário do qual eu desfrutava. Pode parecer estranho, já que novelas não se confundem com literatura. Todavia, é da literatura que elas surgem, é a atividade literária que enforma a trama da teledramaturgia.

Assim, a despeito da repulsa que uma parcela da intelectualidade brasileira tem em relação ao folhetim televisivo, ele é um instrumento de reflexão acerca de temas da atualidade e pode se prestar, evidentemente, a algum objetivo dirigido, interessado; enfim, político.

Algumas novelas nacionais poderiam ser comparadas a obras literárias de alto quilate, seja por seu conteúdo subjacente, seja por sua capacidade de entretenimento. Assinalo alguns autores e novelas adiante, sem nenhum compromisso analítico.

Na década de oitenta, a exibição de Roque Santeiro foi paradigmática. A novela de Dias Gomes já havia sido proibida na época da ditadura. Em 1986, foi ao ar com toda a liberdade possível. Por que colocá-la entre aquelas novelas capazes de questionar a vida nacional, mostrar suas mazelas? Porque sugeria uma série de características da brasilidade. Mostrava o coronelismo, o patrimonialismo, criticava um Brasil com resquícios de país rural. Evidenciava a necessidade de se preservar os mitos para a manutenção da ordem social capitalista. Já falei dela aqui no blog ("Os mitos sobrevivem – 24/11/2008"). Creio que a maior parte dos telespectadores jamais tenha atentado para esses detalhes. A novela foi famosa pelos tipos que encarnavam seus personagens: o coronel Sinhozinho Malta, a viúva Porcina, o irônico Roque Santeiro, o usurário Zé das Medalhas, o professor Astromar – exemplo típico de intelectual ornamental com sua insossa verborragia.

Em 1988, Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, partindo de outra perspectiva, também teria uma acidez crítica fantástica. O contexto retratado era o de um país da sacanagem, do jeitinho brasileiro, da astúcia usada para ludibriar os incautos. Era a nação de Odete Roitman que via nela todo tipo de vício canhestro, mas que, também hipócrita, se beneficiava de toda sorte de ardis para garantir seu status quo.

Gilberto Braga construiu ali aquilo que muitas obras sociológicas tentam explicar: o Brasil real versus o Brasil ideal. Ou, talvez até de modo maniqueísta, o Brasil honesto contra o Brasil da corrupção, das artimanhas, da velhacaria. Ivan (Antônio Fagundes) e Rachel (Regina Duarte) expressavam a esperança de um país sério, que não se renderia aos oportunismos de ocasião e à impunidade. Brasil, a música de abertura, de autoria de Cazuza, reforçava ainda mais o conteúdo da obra. Nunca houve tamanha sintonia entre um tema de novela e a letra de uma música.

Gilberto Braga, depois disso, fez algo bastante relevante no campo das minisséries (Anos Rebeldes, 1992). Voltaria, em 2003, com Celebridade, novela que mostrava a ânsia dos mortais comuns pela fama. O genial Renato Mendes (Fábio Assunção) era editor da Revista Fama, cujo grupo editorial era presidido por seu tio Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana). Foi Mendes quem, num episódio dramático, redigiu um apelativo artigo sobre o fato de Zeca – filho do depressivo jornalista Cristiano (Alexandre Borges) – ter caído em um poço no bairro do Andaraí. A situação era idêntica à de A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder. O editor da revista explorou a tragédia humana para poder estourar nas vendas de jornais e revistas.

Emblemática também foi a cena em que ele andava com seu conversível pela orla carioca após ter sido empossado momentaneamente vice-presidente do grupo Vasconcelos. Sozinho, aos berros, gritava que a partir daquele momento definiria o que a população iria ler, do que iria gostar, como leria, como gostaria. Mostrava, afinal, que o poder midiático seria capaz de influenciar diretamente a vida das pessoas.

Sílvio de Abreu, o mais paulista de todos os autores de novelas, não pode ser esquecido. Ocorre, todavia, que jamais me simpatizei com os pastelões anteriores à Rainha da Sucata. Guerra dos Sexos e Cambalacho, por exemplo, a despeito de todo sucesso conquistado, jamais me prenderam a atenção. Já em A próxima vítima, de 1995, Sílvio passou a ser outro autor, ao menos para mim. A trama policial misturada com uma comédia serena rendeu alto ibope televisivo. O mistério final – quem seria o "assassino em série" do Opala preto – fez com que houvesse tanto suspense quanto a revelação da assassina de Odete Roitman, em Vale Tudo.

Sílvio foi capaz de construir, ainda em A próxima vítima, um dos personagens mais contraditórios da novela brasileira: Juca, o quitandeiro do Mercado Municipal de São Paulo. Embora rude, ignorante e preconceituoso, amava óperas e se identificava com a sensibilidade das obras eruditas.

Torre de Babel (1998), seguiu na mesma trilha. Depois, veio Belíssima (2005) cujos capítulos iniciais mostravam o confronto entre a postura sórdida e ardilosa de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e a ingenuidade de sua neta Júlia, interpretada por Glória Pires. Em tom sóbrio e com ironia fina, Bia diria à neta para que ela não levasse tão a sério as aulas de catecismo, incongruentes com as finalidades do mundo empresarial. A racionalidade da grande matriarca deveria preponderar sobre a imaginação anódina da neta. Apenas esse diálogo seria suficiente para alçar Sílvio de Abreu à categoria dos grandes autores brasileiros.

Sílvio também sempre utilizou-se de referências cinematográficas para suas tramas. Tirou de À meia luz, obra prima do cinema noir com Ingrid Bergman (1944), a idéia do marido que muda os objetos em sua casa sem avisar a mulher, justamente para enlouquecê-la. Renata Sorrah não é uma Ingrid Bergman, mas o personagem lhe caiu muito bem em Rainha da Sucata.

Não sou fã de Manoel Carlos, mas suas novelas têm dois trunfos que, pessoalmente, me prendem: o clima Bossa Nova (respira-se a música do Maestro Soberano Tom Jobim), e as imagens idílicas, paradisíacas do Rio de Janeiro, sobretudo do Leblon. Afora isso, é claro que o autor tem seus méritos....

Glória Perez? Não assisto suas novelas. É uma questão de falta de afinidade. Quando há algo dela no ar, tiro férias da teledramaturgia.

Enfim, gosto de novelas. As boas, somente as boas. Não partilho da opinião intelectualóide de que não assisti-las seja um procedimento de higiene mental. Tanto quanto outro instrumento de ficção, elas são capazes de nos fazer penetrar em sua trama e preterir algumas agruras da rotina. Também se prestam a espelhar a realidade em que vivemos. Não é, afinal, para isso que serve a ficção?

Mas, então, o problema não é o gênero novela e sim o conteúdo de suas espécies.

Em tempo: na USP há, se não me engano, um grupo de estudos sobre novela brasileira. Ouvi dizer que ali existem ricas análises da realidade brasileira, não encontrada em outras produções científicas.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

História do passado



Não sou ligado a turismo; sobretudo a turismo ecológico. Todavia, não há como fugir de alguns programas que, vez por outra, quase nos são impostos pelo destino. Em janeiro passado, fui para Poços de Caldas e lá encontrei um desses programas. O esquema é aquele básico: uma van com curiosos forasteiros e um guia turístico extremamente simpático, sabedor das histórias locais.

Fomos visitar a "Fonte dos Amores", uma belíssima fonte de água mineral. Clóvis Bueno, o nosso guia, narrou a história de amor do século XIX que teria inspirado a escultura ali exposta, de autoria do artista italiano Giulio Starace (vejam a foto acima).

A narração dele - autorizada, é claro! - está no vídeo abaixo. Quem tiver interesse....


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Blackout

O curta Blackout, com Wagner Moura e Augusto Madeira, é fantástico. Para quem perdeu a exibição no Canal Brasil, segue o link do vídeo no Youtube. São menos de 10 minutos de diálogos interessantes e inteligentes. Vale a pena!

http://www.youtube.com/watch?v=jPWFLYGyMZs

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Inverossimius: um conto juvenil

Inverossimius: um conto juvenil - Roberto Barbato Jr

Conto publicado no Portal Cronópios em 17/01/2010.

www.cronopios.com.br

Depois que cheguei à adolescência resolvi banir definitivamente determinadas lendas que rondaram minha infância. Aquelas mentiras deslavadas que toda criança ouve, sem mesmo questionar sua veracidade, foram eliminadas da minha imaginação. Se mentir, o nariz cresce, e tantas outras lengalengas não passaram do terreno da fantasia pueril. Mesmo a história da masturbação, punida com o nascimento de pêlos nas mãos, deixou de constituir ameaça de qualquer espécie. Tudo não passava de superstição. Eu estaria disposto a acreditar nisso se não tivesse embarcado numa aventura curiosa.

Na tarde daquela sexta-feira, recebi um telefonema de Netinho. Gargalhei quando ele começou a narrar uma espécie de roteiro de ficção científica. A história toda era tão bem bolada que a ouvi por inteiro. Desconfiado de que por trás daquela narrativa insólita poderia haver algum sentido real, aceitei ir ao encontro que havia reivindicado. O lugar marcado era demasiado longe e, a julgar por sua personalidade preguiçosa, só mesmo um motivo muito sério o faria caminhar até lá. Apenas por essa razão, tive a convicção de que precisava cumprir o acordo feito.

– Eles já vão chegar – disse ansioso, logo que me viu.

Netinho não parava de olhar para o céu, como a insinuar que de lá viriam amigos íntimos. Como nada acontecia, fui bastante enfático ao dizer que toleraria aquelas sandices pelo prazo máximo de quinze minutos. Nada mais que isso.

Pouco tempo se passou para que, perplexos, víssemos algo que só existe nas telas de cinema. Ou, pelo menos, eu acreditava que assim fosse.

Aquele veículo com formas retangulares e pontas afiadas irrompeu no céu ensolarado e foi se aproximando de onde estávamos. As luzes que compunham sua fachada piscavam com tamanha intensidade que nem mesmo os reluzentes raios solares foram capazes de ofuscá-las. Suas cores, bastante variadas, eram dispostas de modo regular, obedecendo a um rigoroso padrão de medida. Também os locais dos frisos colados na aeronave eram milimetricamente planejados.

Quando enfim pousara na Terra, abrira suas portas e alguns homens puseram-se a descer as escadas brilhantes que repentinamente desabaram com volumoso estrondo. Sim, eram homens! Ao contrário do que dominava nossa imaginação, não eram seres deformados, com traços rudimentares, cabeças grandes e a pele verde. Tampouco tinham estatura baixa.

Com sorriso sereno, Dadá, o chefe da tripulação, estranhara minha presença ali. Por certo, imaginara que somente Netinho, anteriormente contatado por meio de sinais radiofônicos, estaria pronto para o embarque. Mesmo assim não se furtou a me convidar, pedindo discrição em relação a tudo que veria no trajeto e em nossa estada em Inverossimius, seu planeta de origem. O convite era irrecusável: ficaríamos por lá durante uma semana. Entretanto, por alguma mágica que jamais conseguiria explicar, seríamos devolvidos à Terra no exato minuto em que partimos.

Durante a viagem não paramos de prestar a atenção no caminho. Tudo era novidade! A cada minuto, percorríamos uma infinidade de galáxias, tamanha a quantidade de planetas que víamos através da janela. Um tanto já cansados, chegamos ao nosso destino. Fomos devidamente hospedados em um luxuoso hotel. Estávamos sem mala, sem roupas para trocar, sem escovas de dentes e sem nenhum outro utensílio necessário para o dia-a-dia. Garantiram-nos que tudo isso seria supérfluo por lá. Bastaria entrar nas câmeras de esterilização para que lográssemos a perfeita higiene. Já era noite e resolvemos dormir.

Ao raiar o dia, na companhia de Dadá, fomos para o salão no qual seria servido o café da manhã. Avistamos uma moça com a pele ruborizada e supusemos que devia estar com alguma alergia. Parecia também envergonhada e manifestava um incômodo sorriso no rosto. Logo Dadá percebeu nossa inquietação e não tardou a explicar:

– Ela acabou de fazer amor.

Não conseguimos entender, até que ele ponderou:

– Aqui, quando as pessoas fazem amor, ficam com o rosto vermelho após o prazer. Depois, tudo volta ao normal.

Havia um inequívoco desconforto naquilo, sobretudo para nós, que éramos adolescentes.

Nossa primeira noite em Inverossimius também prometia novidades. Fomos a uma boate. Netinho ficou impressionado ao notar que as mãos de alguns rapazes eram repletas de pêlos. Mais uma vez Dadá explicou que dificilmente eles ficavam vermelhos, ruborizados como a menina que havíamos visto. O que significaria?

– Eles raramente fazem amor? – perguntei.

– Exatamente – respondeu.

Tivemos a certeza de que a superstição da Terra tinha algum fundamento. A famosa quiromania fazia com que os rapazes assumissem um indesejável aspecto físico. Também era um fenômeno desvantajoso: desprovidos da oportunidade de ter uma parceira, os rapazes fatalmente acabariam por se expor se quisessem lograr o solitário prazer sexual.

Após alguns dias, conhecemos Emília. À exceção do grande nariz, tinha o rosto e o corpo dotado de uma proporcionalidade invejável. Era muito simpática e não raro contava histórias muito interessantes, mas pouco factíveis. Havia tido um caso amoroso com Dadá. Ele nos garantiu que, à época desse relacionamento, seu nariz era belo e pouco proeminente.

– Há quanto tempo vocês estão separados? – perguntou Netinho.

Dadá foi discreto. Daquela vez não explicou nada, só respondeu à pergunta.

– Um nariz não cresce tanto em três meses... – falei.

Compreendemos, enfim, que a menina era uma mentirosa contumaz.

Num noticiário televisivo, vimos um rapaz sendo devorado por seus próprios órgãos. A Defesa Civil havia se encarregado de levá-lo a um lugar isolado, onde deveria ficar até que o processo de autofagia se completasse e a morte lhe sobreviesse. No segundo dia de isolamento, o moleque havia se esvaído.

– Estupro – disse Dadá.

Percebendo nossa perplexidade diante daquele cenário, nosso anfitrião asseverou que os delitos e infrações morais cometidos naquele planeta tinham uma solução natural. Por esse motivo, não havia necessidade de instituições que garantissem a ordem social. Não existia polícia, nem Estado; não existiam leis formuladas pelos homens. Tudo quanto fosse transgressão a normas e costumes locais era punido pela própria natureza. Até mesmo os simples pecados, cometidos entre quatro paredes, eram dignos de repressão natural.

Não conseguimos entender aquele estranho sistema de sanções, nossa capacidade de abstração e nosso universo cultural eram ainda limitados. Tínhamos de prestar vestibular ao final do ano e não nos sobrava tempo para especulações fictícias. Fictícias no nosso planeta, é claro. Onde estávamos, era pura realidade. Lá, nossas lendas eram realidade e a natureza, impiedosa.

Foi difícil assimilar tanta informação e costumes tão díspares. Antes de terminarmos a conversa, Netinho fez uma última pergunta:

– O que acontece com quem não passa no vestibular?

– Ora, essa é uma simples circunstância de insucesso. Aqui vigora o princípio da proporcionalidade: para infrações cruéis, penas pesadas; para delitos ou insucessos leves, sanções sutis. No caso da reprovação do vestibular, a aura do candidato fica parecida com a de um burro até que ele seja aprovado.

Não me contive, gargalhei e fiz também uma pergunta:

– E quem é corneado?

– Ah, isso vocês sabem... Chifres na cabeça! – respondeu sorrindo.

Enfim, chegara o momento da despedida. Voltamos à Terra. Descemos no mesmo lugar e no mesmo momento em que partíramos, exatamente conforme o combinado. Sem a companhia de Netinho, corri para a casa de minha namorada. Estava morto de saudades. Ela abriu a porta com a cara vermelha, ruborizada e com um leve sorriso. Passei as mãos pela minha cabeça...