quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Bárbara, Boris e a insensatez

Na última sexta-feira (08/01/2010), em sua coluna da Folha de S. Paulo, Bárbara Gância, publicou texto intitulado "Sirvam a cabeça do Boris com batatas!". Parecia evidente seu propósito de tentar minimizar os efeitos da infeliz frase proferida por seu colega Boris Casoy. Para quem não sabe do que se trata, sugiro a leitura do post anterior.

O texto da articulista é eivado de insensatez. Seus argumentos não têm pé, nem cabeça.

Depois de mostrar que tem uma certa familiaridade com os garis e conhece um estudo psicológico sobre eles, Bárbara considera ter legitimidade para fazer ponderações sobre aquilo que Boris chamou de "o mais baixo na escala do trabalho". De pronto, diz aos leitores que essa legitimidade não existe para aqueles que jamais conversaram com garis ou a eles deram alguma atenção.

Logo depois, indaga:

"Mas, vem cá: tem alguma relevância? Muda em um iota todos os anos de excelentes serviços prestados por Boris Casoy ao jornalismo tapuia? É evidente que não".

Qual é a relação entre os (supostos) excelentes serviços prestados por Boris com o comentário que ele fez? O fato de ter prestado tais serviços - supostamente excelentes, repita-se! - não constitui condição suficiente para lhe permitir agredir a classe de garis e nenhuma outra qualquer. Do contrário, bastaria que um homem tivesse uma trajetória profissional com "serviços prestados" para, em certa altura de sua vida, proferir agressões a quem quer que fosse. Isso não tem o menor cabimento.

Continua a articulista:

"Que eu saiba, o lixeiro é mesmo 'o mais baixo na escala do trabalho', como afirmou Boris com desavergonhada crueza. Ou será que algum dalai lama vai ousar me dizer que o posto é ocupado pelos médicos? Um gari e um lixeiro desejando "muito dinheiro" em 2010 é mesmo motivo de riso; não vejo onde esteja o enorme preconceito de que o jornalista foi acusado".

Por que o lixeiro é o "mais baixo na escala do trabalho"? Qual é o critério que o sr. Boris utilizou para aferir aos garis o nível mais raso naquilo que chama de "escala do trabalho"? O que vem a ser essa escala do trabalho? Em que nível estão, por exemplo, o jornalista, o professor e o torneiro mecânico? E o presidente? Por vias tortuosas, a resposta foi dada pela sra Bárbara: os médicos seriam o ápice da tal escala.

Mal sabem Boris e Bárbara que no Rio de Janeiro, em tempos recentes, havia candidatos com curso superior a garis municipais.

A exemplo de Casoy, Bárbara considera motivo de riso os votos de "muito dinheiro" dados pelos garis. Quer dizer que somente gente rica pode desejar muito dinheiro para anos vindouros? Pobre agora nem mesmo poderá desejar? Qual é a lógica disso?

A falta de inteligência da autora também é evidente no trecho que segue:

"Mas, claro, Boris Casoy teve uma rusga pública com Lula e é identificado pela esquerda festiva, emburrada e histérica como sendo um homem de direita. E, portanto, Boris Casoy deve ser atacado a cada oportunidade que se apresente".
Será que somente os adeptos da "esquerda festiva" reputaram nojento o comentário de Boris. De onde Bárbara colheu os dados que, em princípio, afiançariam essa tese absurda?

Alguém poderia explicar qual é a relação do estúpido comentário de Boris Casoy com o fato de ele ser "identificado" como um "homem de direita"? Fosse identificado com a esquerda, poderia proferir despautérios a torto e a direito? Isso lhe facultaria pronunciar-se de maneira leviana, tal como fizera?

Só faltou a articulista recorrer a tendências futebolísticas, religiosas e culturais para tentar justificar a nauseabunda postura de seu colega. Poderia, então, evocar o time para o qual torce para justificar a natureza de suas posturas?

Na absoluta ausência de argumentos sólidos, Bárbara falou o que quis, sem nexo, sem fundamentação. Poderia ter ficado quieta. Optou, todavia, por sair em defesa do colega. Deve ter suas razões para isso. Mas.... bem que poderia caprichar na pena.

Em tempo: aqueles que porventura assistiram ao vídeo dos dois garis desejando um feliz 2010 devem ter percebido o tom de simplicidade, de humildade sincera deles. De minha parte, achei comovente.

Já o sr. Boris Casoy, achou uma merda.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Que vergonha, hein, Boris!

Antes de qualquer coisa, desejo a todos um feliz 2010, com muita saúde, paz, sucesso e felicidades! São votos sinceros, naturalmente....

Não sabia como estrear o blog nesse ano. Começarei da pior forma possível: mostrando a expressão da boçalidade do Sr. Boris Casoy.

No último dia do ano passado, após o Jornal da Band, o âncora histérico fez um comentário abjeto que foi captado pelos microfones da emissora.

Depois de veiculada a exibição da imagem de garis desejando a todos "muita paz, muita saúde, muito trabalho.... Feliz 2010", deixou escapar:

"Que merda... Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros! O mais baixo da escala do trabalho".

Ato contínuo, alguém gritou "deu pau". Era o aviso de que os pensamentos nojentos do Sr. Casoy foram ouvidos pelos telespectadores do jornal.

Que vergonha, hein, Boris!

Para quem quiser assistir ao vídeo, visite o link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=Gcaom0cGE6w&NR=1

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Em tempos sombrios....

Em tempos sombrios qualquer atitude, por mais boba que seja, pode significar algo suspeito. É com base nessa suspeição quase paranóica que a ditadura militar brasileira, nos idos dos anos 1960-1970, incorreu numa série de lamentáveis equívocos. É sabido que muitos funcionários do aparato repressivo do Estado não eram bem preparados para executar as incumbências dadas por seus chefes. Eram meros autômatos, destituídos de inteligência própria. Lembro-me de uma reportagem da Folha de S. Paulo que versava sobre a incapacidade técnica (leia-se: burrice) desses funcionários.

Um dos capítulos da série Anos Rebeldes, veiculada pela Rede Globo em 1992, "revelou" (não se sabe se o fato aconteceu) que um estúpido meganha do governo foi capaz de apreender um exemplar do livro A capital, de Eça de Queiroz. Por certo, o imbecil acreditava tratar-se de leitura subversiva. É óbvio que confundira o livro do escritor lusitano com O capital, de Karl Marx.

Um equívoco curioso também aconteceu numa faculdade pública de engenharia.

Em 1970, quando chegara para aplicar a prova de sua disciplina, o professor se deparou com uma discussão. Seus alunos estavam divididos entre fazer ou não fazer a avaliação. Alguns queriam prazo maior para estudar. Outros, se pudessem, fariam a prova naquele mesmo dia. O debate foi longe e os ânimos se acirraram. Enfim, decidiu-se que a avaliação seria adiada.

Sem imaginar que, em poucos minutos, aquele fato seria noticiado por todo o campus, o professor voltou para seu departamento. Lá chegando foi informado de que o diretor da faculdade, à época um militar, queria lhe falar. Surpreso, compareceu à sala do sujeito.

Iniciou-se, então, um discurso sobre os benefícios do regime de exceção militar. O insano diretor elencou ao professor os "avanços" da ditadura, tentou mostrar-lhe que a criminalidade diminuíra, que a taxa de desemprego caíra substancialmente. Vociferou contra os estudantes, por ele considerados vagabundos que só faziam política universitária. Deixou claro que ocupara o posto no qual estava para fazer ruir qualquer tentativa de subversão estudantil.

O professor não conseguiu compreender a motivação daquela estúpida campanha ideológica encetada de forma tão particular e tão limitada. Teria questionado o poder vigente em alguma reunião da universidade? Fizera alguma observação afrontosa ao governo? Colocara em xeque alguma diretriz do autoritarismo brasileiro? Não, nada disso. Embora avesso ao Estado ditatorial, o professor preferia acompanhar a política de longe, com o cuidado necessário para não conspurcar sua atividade profissional, que lhe era tão cara.

Ao fim do discurso, o diretor revelou que ficara sabendo da "insurreição" dos estudantes da turma do professor. Imaginou que ali estivesse o início de uma contra-revolução, algo capaz de abalar a estrutura da política nacional. Chegara a seus ouvidos que aquela turma estava disposta a lutar pelo fim da ditadura e que iria depor o ilustre diretor.

O professor, com a lucidez que lhe sempre fora peculiar, tentou mostrar ao seu interlocutor que o debate de seus alunos era tão-somente para resolver a data de uma prova e não tinha nenhuma intenção política. Depois de sua explanação, ainda ouviu o brado da inteligência militar brasileira:

- Nós temos maneiras eficazes de acabar com aqueles que lutam contra a ordem.

Quanta burrice!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Por trás de um grande homem....

Sempre achei curiosa a idéia de que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Conheci uma dessas mulheres.

Na década de vinte, ainda moça, foi vizinha de Heitor Villa-Lobos. Conversava com ele amiúde. Acompanhou, não sei em que medida, o conturbado relacionamento do primeiro casamento do maestro. Afirmou-me, por várias vezes, que ele não transpunha para a partitura suas composições, cabendo à sua esposa essa árdua tarefa. Disse-me, também, que conheceu a velha guarda do samba e do choro cariocas. Benedito Lacerda e outros compositores ficavam nas ruas da pacata capital brasileira a executar músicas que entrariam para a história. Talvez tenha sido nessa época que se lhe despertou alguma aptidão para a música. Estudou piano e, ainda sem precisar trabalhar, se prestava, juntamente com amigas, a virar as partituras dos pianistas que faziam o som dos cinemas naquele período.

Nunca falou-me sobre seu pai. Soube depois que o sujeito era um alfaiate de mão cheia, servidor de gente graúda, mas que, por ter se envolvido com negócios escusos, teve de aportar à socapa em terras argentinas. Sua mãe e ela, por necessidade, passaram a fazer doces para a famosa Confeitaria Colombo.

Por volta da ditadura varguista, mais precisamente nos anos do Estado Novo, conheceu um jovem egresso do interior paulista. Ele fora estudar Medicina na capital e certamente se encantou com seus enormes olhos azuis. Casaram-se quando o regime de exceção de Vargas havia recrudescido. Depois que ele terminou a faculdade, mudaram-se para São José do Rio Preto, interior paulista, já com um filho a ser criado. Depois, viria outro.

Sempre a ouvi dizer que estava longe de sua terra. Havia nesse comentário algo que se assemelhava aos sentimentos dos escravos quando se queixavam da distância da mãe pátria. Acompanhava pelos jornais e pela TV o que acontecia no Rio de Janeiro. Não conseguiu, durante extenso tempo, acreditar que o paraíso no qual fora criada se transformara em uma cidade hostil, sujeita a disputas de territórios pelos narcotraficantes. Queixava-se disso, embora não demonstrasse muita tristeza.

O marido, já médico estabelecido e bastante conhecido, resolveu atirar-se na política. Obteve êxito, elegendo-se vereador por quatro vezes consecutivas. Ele casou-se também com a cidade, transitando por vários segmentos, costurando tramas políticas, estratégias sociais e tudo aquilo que era capaz de fazer pelo bem dos riopretenses. Cobiçou a prefeitura que, diziam, seria conquistada sem muitos esforços. Dela desistiu quando algo mais importante lhe aconteceu: foi nomeado diretor do Instituto Adolfo Lutz. Conduziu-o com severidade e rigor extremos. Entre tantas conquistas, em 1958, logrou a erradicação da Poliomielite dos arrabaldes da região.

Enquanto ele se mostrava um sujeito de educação rígida e muito austero – o que o afastava de muita gente, admita-se! – ela a todos encantava. Era uma gozadora. Não havia quase nada que escapasse à sua ironia despretensiosa, muito sutil. Gargalhava, debochava de coisa séria e não se deixava abater quando o marido lhe impingia alguma espécie de reprimenda injusta. Tinha a serenidade necessária para suportar a personalidade frenética dele. Mais que isso, tinha a fibra incansável para apoiá-lo em suas missões. Sem ela, ele não teria empreendido tanto.

Essa grande mulher morreu na semana passada, aos noventa anos, talvez com a mesma placidez com que sempre viveu. Era minha avó.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Leite derramado

Depois que li Leite Derramado (São Paulo: Companhia das Letras, 2009), quarto romance do Chico, senti-me tentado a escrever alguma coisa sobre ele aqui no blog. Furtei-me a realizar a tarefa porque tinha a convicção de que não conseguiria fazê-lo sem isenção. Além do mais, faltava tempo para refletir e produzir algo que fosse minimamente decente.

Agora, já no final do ano, quando muitos dos detalhes do livro se perderam na minha cabeça, apareceu o William Lial (vejam o blog dele aí do lado), para me fazer um convite: escrever sobre o melhor livro lido ao longo do ano para participar de uma "blogagem coletiva". Trata-se do "Meu melhor livro do ano".

Aceitar o convite, seria, necessariamente, o mesmo que ceder à antiga tentação de escrever sobre Leite Derramado. Depois de muito hesitar, resolvi não escrever nada. Mas, como isso soaria covarde, aceitei parcialmente o convite. Digo parcialmente porque o máximo que conseguirei fazer é amontoar alguns comentários sumários sobre um dos múltiplos aspectos do livro: a questão do preconceito racial.

Vamos lá. Meu tempo é curto!

A história do romance versa sobre o decadente aristocrata Eulálio Montenegro d’Assumpção, nascido em 16/06/1907. Eulálio passa seus últimos dias num leito hospitalar a recordar seu passado e mostrar a genealogia de sua família. Assume um tom nitidamente cômico, sem abrir mão de manifestar o aristocratismo que alimentou sua vida.

A estirpe de Assumpção lhe facultaria, ainda moço, subjugar sexualmente o escravo Balbino, residente em sua fazenda. Quando adolescente, Eulálio pôs na cabeça que deveria enrabar Balbino. Este, certamente, cederia às suas ordens, mas nem mesmo elas seriam necessárias. O trecho de Chico é lapidar:

"Durante um período, para você ter uma ideia, escasquetei que precisava enrabar o Balbino. Eu estava com dezessete anos, talvez dezoito, o certo é que já conhecia mulher, inclusive as francesas. Não tinha, portanto, necessidade daquilo, mas do nada decidi que ia enrabar o Balbino. Então lhe pedia que fosse catar uma manga, mas tinha de ser aquela manga específica, lá no alto, que nem madura estava. Balbino pronto me obedecia, e suas passadas largas de galho em galho começaram de fato a me atiçar. Acontecia de ele alcançar a tal manga e eu lhe gritar uma contra-ordem, não é essa, é aquela mais na ponta. Fui tomando gosto por aquilo, não havia dia em que não mandava o Balbino trepar nas mangueiras uma porção de vezes. E eu já desconfiava que ele se movia ali no alto com malícias, depois tinha um jeito meio feminil de se abaixar com os joelhos juntos para recolher as mangas que eu largava no chão. Estava claro para mim que o Balbino queria me dar a bunda. Só me faltava ousadia para a abordagem decisiva, e cheguei a ensaiar umas conversas de tradição senhorial, direito de primícias , ponderações tão acima de seu entendimento, que ele já cederia sem delongas" (p. 19-20)

Eulálio só desistira de seu intento porque conheceu aquela que seria sua companheira misteriosa, Matilde. A convivência com o escravo Balbino lhe forneceria um traço de personalidade diferente de seus ancestrais. Diz o narrador: "garanto que a convivência com Balbino fez de mim um adulto sem preconceitos de cor" (p. 20).

Era justamente aí que Assumpção se diferenciava de seus ancestrais: o pai "que só apreciava as loiras e as ruivas" e a mãe que chegara a perguntar se Matilde, "de pele quase castanha", "não tinha cheiro de corpo". Diferentemente do perfil desenhado pelo pensamento social nacional, Eulálio não seria o herdeiro de uma das piores mazelas brasileiras: o preconceito racial. Seu avô também comportava-se de maneira semelhante. Era, conforme o narrador, um "bem feitor da raça negra". Veja-se:

“Do meu último passeio, só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça. Ele não queria me esperar meia horinha em frente ao Cemitério São João Batista, e como se dirigisse a mim de forma rude, perdi a cabeça e alcei a voz, escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos. Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar. Fazia muito calor no carro, ele era um mulato suarento, e eu a dar ares de fidalgo. Agi como um esnobe, que como vocês devem saber significa indivíduo sem nobreza. Muitos de vocês, se não todos aqui, têm ascendentes escravos, por isso afirmo com orguho que meu avô foi um grande benfeitor da raça negra. Creiam que ele visitou a África em mil oitocentos e lá vai fumaça, sonhando fundar uma nova nação para os ancestrais de vocês” (p. 50-51).

A temática racial perpassa todo o romance, mas tem seu cume, segundo entendo, na exposição do seguinte trecho:

“O Balbino nem era mais escravo, mas dizem que todo dia tirava a roupa e se abraçava num tronco de figueira, por necessidade de apanhar no lombo. E vovô batia de chapa, sem malícia na mão, batia mais pelo estalo que pelo suplício” (p. 102)

Com exímia destreza, Chico evidencia que, embora já terminado o estatuto legal da escravidão, a herança escravocrata haveria de perdurar na raça negra mesmo depois de conquistada a liberdade almejada. A necessidade de se abraçar ao tronco de figueira não seria, naturalmente, nenhum sadismo, mas apenas o termômetro da extensão da escravidão na alma negra.

Além do preconceito racial, o patrimonialismo – tema tão caro à obra do pai de Chico – também é exposto com o brilhantismo de quem conhece os meandros da história brasileira e bem sabe – para dialogar novamente com Sérgio Buarque – quais são as "raízes" do Brasil.

É claro que para além das temáticas políticas (dirigidas, a bem dizer), o livro é recheado de trechos cômicos, sempre evocativo de alguma figura familiar de Eulálio. Seu tataraneto, por exemplo, é um garotão que paga suas despesas hospitalares e cujos rendimentos não tem a menor idéia de onde provêm. Diz o narrador: “Sou muito grato ao garotão, mas para ganhar milhões sem instrução alguma, deve ser artista de cinema ou coisa pior” (p. 78). E a origem espúria de seus proventos é sugerida quando Kim, sua namorada que vive com um "brinco no umbigo", oferece a Eulálio cocaína de rara qualidade. Não é aquele “pó de gesso” que otário cheira por aí” (p. 173).

Enfim, a exemplo dos demais livros do Chico, Leite derramado contém sugestões sutis de talhe político e ideológico. É uma obra-prima que revisita o passado brasileiro tal como fizeram os autores da década de 1930. A despeito de toda sua pujança, suscitou um sem-número de comentários descabidos dos críticos de plantão que jamais tiveram a sensibilidade necessária para entendê-lo.

Ainda bem que Chico sabe que não temos boa crítica. Ainda bem que existe Roberto Schwarz para colocar os pontos nos is e mostrar a fecundidade de Leite Derramado.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Certa vez, num certo país

Certa vez, num certo país, o líder de uma banda compôs uma música muito interessante. Ela dizia que um político daquela época havia dito que no Congresso daquele mesmo país existiam 300 picaretas com anel de doutor.

Hoje, talvez o compositor mudasse a letra da música. Diria que, além dos 300 picaretas com anel de doutor, temos também um grande picareta sem anel de doutor....

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ufa!

Amanhã a Globo vai passar um especial sobre Raul Seixas (Por toda minha vida). Trata-se daquela série de reportagens sobre algum músico brasileiro que já não habita o mundo dos vivos.

Na chamada do programa, a belíssima Fernanda Lima refere-se à relação entre Raul Seixas e Paulo Coelho, seu parceiro em algumas canções. Tão logo termina de falar, aparece uma rápida cena do Mago dizendo:

- Nós tentamos mudar o mundo!

Ufa! Ainda bem que eles não conseguiram.

sábado, 28 de novembro de 2009

Luiz Inácio

Já não sei quantas vezes disse que não falaria de política aqui. Também não sei quantas vezes descumpri minha promessa.

Tem causado algum desconforto aos raros leitores desse blog minhas indignações com o Sr. Luiz Inácio. Há pouco cheguei a compará-lo com Collor. Ocorre, todavia, que a comparação não se referia a eventuais méritos do governo de cada um. Apenas quis assinalar que tanto quanto Collor, Luiz Inácio se revelou um engodo político. Mostrou-se entretanto mais hábil, já que, movido por seu populismo nada ordinário, arrebanhou votos suficientes para se eleger em dois pleitos eleitorais.

Luiz Inácio é o carisma em pessoa. Analisando suas condutas, seu proceder político e a relação com seus eleitores, se vivo fosse, Weber talvez se visse tentado a reformular sua teoria sobre a dominação carismática. Meu amigo Mazeu tem razão: se Luiz Inácio "espirrar, eis o terceiro mandato".

Não estou com birra do nosso barbudo. Estou mesmo é decepcionado! Conforme já assinalei, sempre votei nele. Ainda moleque, em 1989, comprei a ilusão de que o voto no PT representava o rompimento com as mazelas do nosso passado, com o latifúndio brasileiro, com as práticas patrimonialistas e etc. Acreditava que haveria, ao menos, a moralização da máquina pública.

Acompanhado de minha mãe, fui de estrela vermelha no peito votar. Em tom irônico, antes de entrar na sala de votação, ela fez uma pilhéria antipetista. Se o barbudo ganhasse, teria de dividir minha guitarra com mais três meninos. Era brincadeira, naturalmente. E nós sabíamos que o teor daquela brincadeira era sério para muita gente. O medo de um governo comunista existia, acreditem. Hoje, a mesma brincadeira não passaria de piada de mau gosto. Lula, comunista? Socialista?

O tempo passou. Confesso que fiquei emocionado quando de sua primeira eleição, em 2002. Naquela data, liguei para um amigo antipetista. Ele não estava em casa. Deixei a seguinte mensagem na secretária eletrônica dele: "Vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade". O problema é que não me dei conta de que o título do verso citado (Vai passar) traduziria a história dos próximos anos no Brasil. Toda aquela euforia passaria. E passou!

Hoje me pergunto onde está a evolução da liberdade. Pergunto-me, sem cessar, onde estão as três refeições que o Sr Luiz Inácio disse que propiciaria ao povo brasileiro antes do término de seu primeiro mandato. Ainda embriagado de sonhos ingênuos, cheguei a acreditar nessa promessa impossível. A que ponto eu havia chegado!

Pergunto-me, também, por que Luiz Inácio nunca soube da participação de seu partido no maior esquema de corrupção já verificado nos meandros do poder brasileiro. Mais: pergunto-me se seria possível não sabê-lo. Mas isso não é tudo. O pior foi ter ouvido que "ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética" do que o PT.

Onde estaria, então, a diferença entre o PT e os demais partidos brasileiros? Talvez minha miopia não me deixe perceber se ainda há alguma diferença. Se houver, sei que é pequena, mínima, muito restrita.

E pensar que já briguei tanto, com tanta gente, para defender tanto o PT como o Sr. Luiz Inácio....

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ainda sou brasileiro?

Terminei meu último post com a frase "eu também já fui ingênuo". Logo depois de redigi-la, lembrei-me do poema do Drummond "Também já fui brasileiro".

Para aqueles que o conhecem, espero que entendam a razão desse post. Para os que não o conhecem, ei-lo abaixo. Garanto que vale a pena ler.


Tambem já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
Moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irónico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Carlos Drummond de Andrade - Alguma poesia (1930)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ingenuidade

Acabei de ver no Canal Livre (TV Bandeirantes) uma imagem datada de 1989.

No famoso debate do segundo turno das eleições presidenciais, Collor vociferava, agitava os punhos, franzia a testa e falava convictamente sobre as idéias que tinha para mudar o Brasil. Só os ingênuos não conseguiram perceber a ilusão e a fragilidade de seu discurso. Eram tão evidentes! E, no entanto, Collor foi eleito.

Hoje, depois de vinte anos, me pergunto como seu antigo adversário conseguiu a mesma proeza duas vezes. E o pior: com a minha ajuda!

Pois é.... Eu também já fui ingênuo!