domingo, 21 de dezembro de 2008

O poeta e o maestro

Língua Brasileira 2: O poeta e o maestro

Escrevo muito pouco sobre o Chico aqui justamente para não cansar os leitores do meu blog. Todos sabem a admiração que tenho por ele e a importância de sua obra na minha formação cultural. Fica, portanto, muito chato reiterar incessantemente os elogios ao poeta.

Então, na trilha sintética que pretendo imprimir à essa coluna, limito-me a reproduzir as palavras do Maestro Soberano sobre seu parceiro:

"O que eu acho mais extraordinário aqui no meu amigo e parceiro Chico Buarque é que ele fala português. É um negócio extraordinário. Quando ele faz uma letra.... assim.... eu.... fico.... incrível, eu fico louco, eu fico louco. Não só pra mim, pro Francis, pro Edu Lobo e tudo. Claro que eu tenho ciúmes, mas aprecio, né? Aprecio bastante, né? O português, essa esquecida linguagem...."


Fonte:

BUARQUE, Chico. Anos dourados. DVD. Direção: Roberto de Oliveira. Emi Music. 84 minutos. 2005.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Bacharelei-me, de novo

Ontem colei grau de novo e tornei-me, também, bacharel em Direito.

Antes da colação pensei em desabafar aqui, falar umas besteiras sobre a vida acadêmica, vociferar.... Queria gritar contra as formalidades inúteis dos acadêmicos de Direito. Onde já se viu vestir beca num calor desses? Pra que tanto discurso, tanto blá-blá-blá? Não estava disposto a participar da festa. Mas....

Fui para lá convencido de que a colação de grau era realmente importante para meus colegas. Se para mim pouco importava, para a maioria dos formandos aquele era um momento mágico. Embora com algum fastio, à medida que o tempo avançava percebi que estava envolvido pelo clima de festividade.

Os discursos – que há pouco chamei de blá-blá-blá – foram sintéticos e alguns chegaram mesmo a chamar minha atenção. Assinalaram valores nos quais realmente acredito.

Agora, festa acabada, vieram-me à cabeça as palavras de Brás Cubas quando conseguiu seu diploma. Tirante algumas poucas idéias, identifico-me com parcela significativa de seu discurso. Ei-lo:

"A Universidade esperava-me com suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades – principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumutuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei-o as margens do Mondego e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver – de prolongar a Universidade pela vida adiante...." (ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: LP&M, 1997, p. 57)

Em tempo, o nome do capítulo do livro é "Bacharelo-me". Daí o título deste post.

Abraços a todos!

sábado, 13 de dezembro de 2008

AI-5: Chico, Carvana e Passarinho

Hoje faz 40 anos que o AI-5 foi decretado. Os jornais estão falando no assunto com frequência. Ontem mesmo, Cony publicou na Folha uma belíssima crônica sobre o episódio. Não deixem de ler....

De minha parte, como ainda não existia, tudo que sei são informações de leitura, histórias e lendas. Conheço duas frases emblemáticas sobre a implantação do ato institucional. As duas traduzem as posições políticas daquele momento.

Diz a lenda que Jarbas Passarinho participou da reunião que culminou na edição do AI-5. Nessa ocasião teria dito:

- Às favas com os escrúpulos de consciência.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, Hugo Carvana estava na casa do Chico Buarque. Quando os dois viram na TV o ministro da Justiça anunciar o AI-5, Carvana disparou:

- Estamos fodidos.


Fontes das frases:

http://www.unb.br/unb/historia/entrevistas.php (Entrevista com Jarbas Passarinho)

BUARQUE, Chico. Letra e música. São Paulo: Companhia das letras, 1989, p. 82.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Língua Brasileira

Como já escrevi vários posts que versam sobre a língua portuguesa, é possível que dê a impressão de que reivindico um posto que não é meu e que jamais – jamais mesmo! – desejei: o de comentador sobre a Língua Portuguesa.

O professor Pasquale, tão conhecido da população brasileira, tem grandes méritos ao difundir algumas dicas e regras do nosso idioma. Não tenho dúvida de que exerça aquilo que Gramsci qualificou como "sentimento nacional-popular", ou seja, "a consciência de uma missão dos intelectuais para com o povo". Em outros termos, o professor Pasquale cumpre a função de difundir e vulgarizar (atente-se para o real significado do termo) a língua portuguesa. Para um país como o nosso, ainda com milhares de analfabetos, essa é uma iniciativa realmente nobre.

Feitos os esclarecimentos necessários, manifesto minha intenção de criar mais uma coluna de sucesso no blog. Trata-se da coluna "Língua Brasileira".

Poderia parecer um contra-senso que, na iminência de vigorar o acordo ortográfico entre países lusófonos, alguém se dispusesse a recusar a existência de uma língua portuguesa. Não se trata disso, em absoluto.

Para justificar a expressão "Língua Brasileira" bastaria reconhecer que, há tempos, o Brasil logrou romper com a dependência intelectual de Portugal. Em clássico ensaio, o mestre Antonio Candido notou que, com o advento do modernismo brasileiro, o diálogo com Portugal não "ia além da conversa de salão". Portugal deixou de constituir-se de referência lingüística para os brasileiros. Assim, no início do novecentos já não nos preocupávamos mais com injunções intelectuais da metrópole. Hoje, naturalmente, o assunto parece superado. Todavia, volvamos atenção ao que dizia Mário de Andrade.

Em seus fantásticos escritos do Diário Nacional, o líder modernista não se furtou a falar sobre o rompimento entre a língua brasileira e a língua de Portugal. Na crônica "Fala brasileira I", datada de 25/05/1929, asseverou:

"É por isso principalmente que possuímos língua brasileira. Tenhamos a coragem de acabar com sentimentalismos pelo menos inúteis. Nós estamos hoje, nacionalmente falando, por completo divorciados de Portugal. A língua que os dois países falam, prá grande maioria dos homens e das nações evoca o Brasil. Porque o Brasil importa atualmente mais que Portugal. (...) Coincidir ou não com a língua portuguesa e os termos vindo dela: não nos importa socialmente nada". (ANDRADE, Mário de. Táxi e crônicas no Diário Nacional, São Paulo: Duas Cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976, p. 112).

Creio que a citação de Mário, embora possa ressoar um tanto anacrônica e ter ares de resistência cultural hoje descabida, é mais do que suficiente para justificar o título da coluna Língua Brasileira!

Aproveito a deixa, para citar mais uma preciosidade do Mário sobre o embate entre Brasil e Portugal. Em carta a Manuel Bandeira, disse o poeta paulistano:

"Foi uma ignomínia a substituição do na estação por à estação só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós diz assim. (...) Não estou pitorescando o meu estilo nem muito menos colecionando exemplos de estupidez. O povo não é estúpido quando diz 'vou na escola', 'me deixe', 'carneirada', 'manfiar', 'besta ruana', 'farra', 'vagão', 'futebol'. É antes inteligentíssimo nessa aparente ignorância porque sofrendo as influências da terra, do clima das ligações e contatos com outras raças, das necessidades do momento e da adaptação, e da pronúncia, do caráter da psicologia racial modifica aos poucos uma língua que já não lhe serve de expressão porque não expressa ou sofre essas influências e a transforma afinal numa outra língua que se adapta a essas influências". (ANDRADE, Mário de. Apud FERNANDES, Lygia (org.) - Setenta e uma Cartas de Mário de Andrade, Rio de Janeiro, Livraria São José, s.d., págs. 71, 72 e 73).

Alguém ainda tem dúvidas de que a língua deve ser um fenômeno vivo, fluido, mutável e útil?

Bom final de semana!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A morte do Maestro Soberano

08 de Dezembro de 1994.

Havia chegado em Campinas naquele ano e ainda não sabia exatamente que aqui o aniversário da cidade (14/07) é comemorado no dia da Padroeira, ou seja, em 08 de Dezembro. Achei um feriado estranho, meio indefinido. Grande parte do comércio central estava em pleno funcionamento. Eram poucos os estabelecimentos fechados.

Precisávamos de dinheiro – cash – para comprar passagens. Iríamos para as casas de nossos pais no mesmo dia. Estávamos no Pão de Queijo Mineiro, da Glicério, quando tive impressão de ter ouvido, pelo rádio, uma notícia absurda. Uma estupidez inacreditável: Tom Jobim havia morrido em Nova Iorque. Tudo foi dito rapidamente, sem explicações. Vinheta e nova música. Não dava tempo de questionar.

- Você ouviu isso?

- O quê?

Uma rádio com programa humorístico, aventei a possibilidade. Ninguém seria tão irresponsável. Então, ele não morreu. Deve ter acontecido outra coisa. Havia pouco dera entrevista ao "Roda Viva", animadíssimo, esbanjando saúde, com a ironia de sempre. O CD "Antonio Brasileiro" estava saindo do forno....

Não era possível.

Deveríamos buscar notícias. Em 1994 ainda não existia internet, ao menos no Brasil. Dependíamos de jornais e rádios. Se Tom tivesse morrido, poderíamos ver algo na TV, em algum plantão jornalístico. Alguma outra rádio poderia, também, matar nossa curiosidade. Os jornais só se manifestariam no dia seguinte.

Sacamos dinheiro, pegamos as malas e fomos para a rodoviária. Será que o Tom morreu?, dava medo perguntar. Ninguém falava sobre o assunto. Um sujeito como o Tom, quando morre, devia ensejar comentários em todos os cantos, todos os volumes, todos os tons. Não ouvíamos ninguém falar sobre ele. Buscávamos informações em conversas alheias. Pensei em perguntar para alguém, mas a indagação certamente não seria entendida.

- Você ouviu alguma coisa sobre o Tom?

- Que Tom?

- Que Tom? O Tom Jobim, oras!

Chegamos na terrinha. Nenhuma notícia. Liga o rádio! Nada. Liga a TV! Nada. Devia mesmo ter sido algum engano, uma brincadeira de mau gosto. Se o Tom tivesse morrido, teríamos como saber. Já havia passado mais de duas horas. Notícias ruins correm rapidamente e todo mundo, todo mundo mesmo, fica sabendo.

Minha mãe conversava ao telefone tranquilamente com minha irmã.

- Pergunta pra ela se o Tom morreu!

- Que isso, menino, tá louco?

- Pergunta!

Silêncio.

- Ah... em Nova Iorque?

Era a confirmação.

Naquele momento, numa fração de segundos, lembrei-me da primeira vez em que prestei atenção a uma letra do Tom. Era 1981. O gravador mono cassete, no qual eu ouvia reiteradamente a fita do LP "Vida", do Chico, servia também para gravações canhestras. A abertura de "Brilhante", novela da Globo, era feita com "Luiza", recentemente composta mas ainda não registrada em LP. Gravei a música em som ambiente e lá fui para o escritório do meu pai ouvir em aparelho mais confiável.

Tom Jobim havia morrido Não podia acreditar. Ainda havia tempo para ele. E para nós, é claro. Fiquei acabado, indignado. Além das músicas, ecoavam-me na cabeça suas frases de conteúdo simples, sempre ditas com ênfase e empolgação.

À noite passei a procurar por ele em algum canto do céu, o charuto na boca, o riso largo, a dedicação ao piano, o humor inabalável, a leveza espontânea.

Embora imortais, algumas pessoas deviam ser proibidas de morrer. Tom era uma delas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sartre, ainda

Cenas da Literatura IV: Sartre, ainda

A idade da razão continua sendo um dos meus livros favoritos. Além do parágrafo já citado aqui no blog, assinalo as reflexões de Mathieu sobre o destino e a função dos intelectuais na sociedade moderna.

"Escritores de domingo! Pequeno-burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para pôr um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu.
- Refere-se a mim? – indagou rindo...".

(SARTRE, Jean-Paul. A idade da razão. Trad. Sérgio Milliet. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 89).

Ainda há escritores de domingo!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os mitos sobrevivem

Não é uma cena da literatura como alguns posts anteriores. Mesmo assim, acho que merece atenção. É uma cena de novela. De uma das novelas mais geniais da história da TV brasileira: "Roque Santeiro". Lembro-me que fora exibida em 1985, mas não sabia precisamente a data. Procurando informações no Wikipedia, descobri que teve 209 capítulos e veiculou entre 24/06/1985 e 22/02/1986.

Vamos à cena.

Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) resolveu contar para toda a cidade quem era Roque Santeiro (José Wilker). Isso significava desmascarar o gigante mito que alimentava de todas as formas a pequena Asa Branca. Roque havia voltado do exterior e se encontrava na província. Seu pai, Beato Salu (Nelson Dantas), estava em coma, internado.

Padre Albano começou a tocar os sinos da igreja a fim de chamar a atenção da população para fazer a grande revelação. No mesmo instante, Beato Salu acordou. Enquanto Albano badalava os sinos, a população corria para ver o que estava acontecendo. O insano profeta, mais vivo do que nunca, entrava em cena, seguido pelo séquito das carolas católicas. Sua recuperação, diziam, era um milagre de Roque Santeiro. Os planos de Albano ruíram miseravelmente.

Segundo edição da Veja de 02/10/1985, no mesmo capítulo, Padre Hipólito (Paulo Gracindo) teria dito: "O mito é mais forte que a verdade".

E, tal como na realidade, o mito sobreviveu.

domingo, 16 de novembro de 2008

Tumitinha, atédezechega e circuncissfláutico

Mário Prata publicou no Estadão, em 23/01/1995, uma crônica chamada "O amor do Tumitinha era pouco e se acabou". Naturalmente, a frase versa sobre a interpretação muito pessoal que uma amiga dele fazia da famosa "Ciranda, cirandinha". Ela imaginava que Tumitinha era um japonês pequeno, cujo nome real era Tumita. Sempre que ouvia a música, ficava pesarosa, pois notava que o amor do Tumitinha havia se acabado.

Lembrei-me recentemente dessa crônica porque ouvi a expressão "até dizer chega" e me dei conta de que ela me era, na infância, uma só palavra: "atédezechega". "Atédezechega" constituía-se, para mim, de algo contrário à sua idéia primacial, ou seja, um limite. "Tomar coca-cola atédezechega", por exemplo, não era tomar coca até que não mais se agüentasse fazê-lo. Era tomá-la indefinidamente, para sempre, sem nenhum óbice. Fazer algo atédezechega era uma maravilhosa porque, tratando-se de algo prazeiroso, dava-me a legitimidade para extravagâncias de toda sorte. Somente mais tarde, atento à cadência da fala brasileira, dei-me conta de que o antigo atédezechega era pontual e preciso: "até dizer chega". Em suma, até não se agüentar mais.

"Sonso" foi outra palavra que me causou alguma confusão. Sempre a ouvia no feminino: "A fulana é uma sonsa mesmo!". Entendia que sonsa, naqueles casos, era a menina bocó, bobona, desatenta e um tanto burrinha. Alguém relativamente tranqüilo, sem a urgência característica da puberdade, poderia perfeitamente ser considerado sonso.

Havia, também, uma espécie de sinônimo de sonso que resultava na mesma confusão: "songamonga". Aí o exagero era patente! A songamonga era uma idiota completa! Muito tempo depois é que percebi o real sentido dessas palavras. O Aurélio me disse que sonso é "dissimulado, manhoso, astuto, velhaco, solerte, sonsinho". Então, tratava-se de idéia diametralmente oposta àquela que eu tinha? Isso mesmo! Songamonga, para minha surpresa, é a "pessoa sonsa, dissimulada". Dá no mesmo. Não foi curto o período em que empreguei esses termos de modo indevido.

Depois que comecei a me interessar pela obra do Mário de Andrade, e resolvi estudá-la, ficava intrigado com alguns termos que ele usava e cujo significado não encontrava em nenhum dicionário. Nesses casos, o melhor era deduzir o teor pelo sentido da frase, que é o que todos nós fazemos na ausência de dicionários ou outras fontes de pesquisa. Mário inventava nomes, verbos e palavras. Já falei aqui, por algumas vezes, que sua linguagem era um tanto peculiar. Há, entretanto, termos que, embora deduzíveis, revelam-se absolutamente feios. É o caso de "passadistização" e "circuncissfláutico". Esta última é invencível! "Fico meio circuncissfláutico com esses bairrismos, palavra", diria sobre os regionalismos de seu tempo.

Que o modernismo tivesse legitimidade para inventar, romper com padrões, é algo que não se discute. Foi justamente por isso que existiu e fez o que fez! Mas, daí a inventar o incompreensível, pode soar desagradável e, sobretudo, inútil. Se a palavra inventada não se converte em instrumento útil de comunicação, de entendimento, não tem valor. Mário, contudo, devia saber disso e, mesmo assim, inventava. E como inventava!

Boa semana a todos!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Gargalos

Não conheço família destituída de tiques, manias e neuroses. Há gosto para todo tipo.... Apenas a intensidade das neuras é que varia. Em família, é sabido, todo mundo se revela um pouco louco. Essa loucura parece ser absolutamente normal até que alguém perceba.

Em casa, acostumamo-nos a examinar o gargalo das antigas garrafas de refrigerante. Eram de vidro e muitas vezes quebravam ao abrir. Se caísse um caco no fundo da garrafa e alguém consumisse....

Ouvíamos histórias tenebrosas. Uma amiga da escola garantiu-me que um tio dela foi parar no hospital com um cacão de vidro no estômago. O coitado precisou submeter-se a uma cirurgia de emergência. Hemorragia para todo lado, quase morreu! A criançada ficava em volta para saber como aquilo aconteceu....

Nos idos anos 80, numa noite de verão, fazia muito calor. Na geladeira, uma única garrafa de coca-cola. Resolvemos abri-la. O gargalo estava quebrado. Justamente na borda interior! E agora?

Teríamos de comprar outra! Àquela hora, contudo, o supermercado já havia fechado. Cidade do interior, naquela época, ainda não tinha a facilidade das "24 horas", tudo fechava cedo. Uma alternativa interessante residia em procurar por um boteco e comprar o refrigerante. Cadê vontade? Ninguém se habilitou....

Ficamos num impasse horroroso... E o calor parecia aumentar com vontade da coca. Toma, não toma. Toma, não toma. Por via das dúvidas, minha mãe falou, é melhor não tomar. Resolveu-se que deveríamos coar a bendita coca-cola. Não me recordo como a tarefa foi empreendida, mas sei que meu pai armou uma engenhoca bacana.

Cada um tomou seu copo – já sem gás algum! (arghhhh) – e se deu por satisfeito. Ninguém viu caco no coador. O exagero da conduta era grande, mas, no fundo, ninguém desejava arriscar.

Anos depois, já casado, resolvi sair com ela para jantar. Pedimos coca-cola e o garçom abriu a garrafa na nossa frente. O gargalo estava quebrado, não havia dúvida. Solicitei a troca da garrafa. Logo depois, ele apareceu com outra. Repetiu o gesto: abriu o refrigerante na nossa presença e esperou para ver se estava tudo bem. Surpresa!!! A segunda garrafa também estava quebrada. Não tive dúvidas: pedi que trocasse novamente o refrigerante.

Após mais um tempinho, voltou. Pôs a garrafa na mesa e abriu. Quando olhei para o gargalo, tive aquela sensação inequívoca de déjà vu. O corte era exatamente o mesmo! O garçom, cara amarrada, olhou-me com reprovação. Tentou argumentar que o problema "era de fábrica". Silenciei e, com calma, pedi uma lata de coca-cola. Problema resolvido!

Veio a lata! Ele olhou para mim e, sarcástico, disse:

- Essa não tem como quebrar!

Sorri, aquiescendo. Estava satisfeito que as garrafas de coca-cola seriam inutilizadas pelo restaurante.

Antes de ir embora, vimos o garçom servindo uma mesa com duas garrafas de coca. Elas estavam a caminho da mesa já abertas.

Como a dúvida é cruel....

sábado, 1 de novembro de 2008

Jabuti 2008

Foi ontem a entrega dos prêmios da 50ª edição do Jabuti. A TV Cultura transmitiu a cerimônia da Sala São Paulo pela internet. A iniciativa merece os mais altos elogios. Quem sabe na próxima edição teremos a transmissão para a TV?

Como disse no post passado, lamentavelmente ando sem tempo para a literatura. Não li, portanto, nenhum dos livros finalistas. Acompanhei as indicações e bati os olhos em alguns trechos do Antônio, de Beatriz Bracher, terceira colocada na categoria Romance.

O primeiro lugar ficou com Filho Eterno, do Cristovão Tezza, livro, aliás, premiado no Portugal/Brasil Telecom e em outros tantos concursos. Parecia haver vozes uníssonas de que Tezza levaria também o prêmio de "Livro do ano de ficção" do Jabuti. Não levou!

Quando Cunha Jr anunciou que Loyola Brandão era o premiado com O menino que vendia palavras, a platéia manifestou largo contentamento. Loyola subiu ao palco para os agradecimentos.

Disse que levou um susto, porque supunha, a exemplo de todos, que o Filho Eterno ficaria com o prêmio. Iniciou, então, um pequeno discurso.

Falou que tem o prazer de, após seus setenta e poucos anos, conviver ainda com as duas professoras que o iniciaram na leitura. Elas estão vivas, lá em Araraquara. Contou que, recentemente, numa homenagem feita a ele, uma delas indagou à outra:

- Quantos livros o menino já escreveu?

- 31!

- Ihhhh.... Acho que não vou conseguir ler tudo. Minha vista já não está boa!

O prêmio foi dedicado a elas, é claro!