"Modelando o artista ao seu feitio/ O tempo, com seu lápis impreciso/ Põe-lhe rugas ao redor da boca/ Como contrapesos de um sorriso. "Tempo e artista" - Chico Buarque/1993
segunda-feira, 14 de julho de 2008
A resposta que Cony não me deu
Naquela época, as reflexões do doutorado ainda ecoavam na minha cabeça. É provável que já estivesse pensando em rever a tese para submetê-la à apreciação de alguma editora. Ela seria, afinal, publicada um ano depois, pela Annablume. Embora o texto tratasse de intelectuais antigos (Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Paulo Duarte e outros) a temática era atualíssima e suscitava uma questão interessante: qual é a função social dos intelectuais em uma determinada conjuntura histórica?
Ter visto Cony ali, disposto, reservado, aguçou-me a curiosidade. Um homem que presenciou os grandes momentos da história do século XX, que resistiu a sucessivas prisões arbitrárias da ditadura militar, que conviveu com os escritores mais importantes do país, que trafegou pela crônica, pelo romance, pelo jornalismo... Enfim, um homem como ele certamente poderia responder aquela questão.
Num rompante, pensei em abordá-lo. Invadiria a intimidade daquela mesa de canto, quase isolada. Imaginei que, impaciente, balançaria as pernas com mais avidez, talvez reclamasse do meu jeito intrometido. Indagaria qual era a legitimidade da minha interpelação. Diria que aquilo era pergunta para o "Liberdade de expressão", da CBN.
Supus que, em poucos instantes, pudesse desenhar sua trajetória para explicar a função do intelectual na sociedade brasileira. Mas isso também seria impossível em tão pouco tempo... Reparei bem no movimento de suas pernas e amedrontei-me com elas. Temi uma reprimenda. Acovardei-me.
Surpreso, percebi que Miúcha estava ao nosso lado (o encontro merece outro post, naturalmente). Conversamos com ela. Falamos do Chico, que terminava de escrever um livro em Paris. Não sabíamos, ainda, que era Budapeste. Nem ela sabia.
Jantamos, tomamos um café e fomos embora, sem a resposta do Cony.
domingo, 6 de julho de 2008
A racionalidade do capital, o Cheiro do Ralo e a Loja da Esquina
Por falar em azucrinar – termo feio e vetusto –, aporrinha-me amiúde a cara de estupefação de certas pessoas diante da racionalidade capitalista. É incrível como ainda hoje há gente que teima em se surpreender com algo tão banal e de facílimo entendimento...
Não será preciso muito esforço para compreender que em matéria de negócios e dinheiro, "cessa a boa vontade", como diria o velho Marx. Ou, por outra, negócios são algo "em cujo peito não bate nenhum coração".
A racionalidade e a impessoalidade do capital foram reiteradamente explicadas por Marx em suas obras. Já no Manifesto Comunista, escrito com Engels, ambos tiveram o cuidado de mostrar sucintamente a história da evolução do capitalismo. Descrevendo o papel revolucionário da burguesia, evidenciaram por que o feudalismo fora substituído por um modo de produção destituído do caráter pessoal e idílico das relações humanas.
Veja-se um trecho do Manifesto:
"[A burguesia] ... não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível 'pagamento em dinheiro'. Afogou nas águas gélidas do cálculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavaleiresco, do sentimento pequeno-burguês. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e durante conquistadas colocou unicamente a liberdade de comércio sem escrúpulos. (...) A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então consideradas dignas de veneração e respeito. Transformou em seus trabalhadores assalariados o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência. (...) A burguesia rasgou o véu de comovente sentimentalismo que envolvia as relações familiares e as reduziu a meras relações monetárias". (MARX, Karl. & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. Marco Aurélio Nogueira e Leandro Konder. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 68-69).
Em suma, em face das estruturas capitalistas, nada mais poderia ser visto sob a ótica do "sentimentalismo" e do "entusiasmo cavaleiresco". Em vez disso, tudo se cifraria a "meras relações monetárias". Nada mais.
Também em sua obra máxima, O capital, Marx deixara tudo isso muito claro. No capítulo intitulado "A jornada de trabalho", com sua habitual ironia, cria o desabafo de um operário que, diante do capitalista, deseja uma jornada de trabalho justa. Observe-se:
"Eu, exijo, portanto, uma jornada de trabalho de duração normal e a exijo sem apelo a teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a boa vontade. Poderás ser um cidadão modelar, talvez sejas membro da sociedade protetora dos animais, podes até estar em odor de santidade, mas a coisa que representas diante de mim é algo em cujo peito não bate nenhum coração". (MARX, Karl. O Capital. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Coleção Os economistas. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 180-181, Vol. I.)
Conforme se vê, a cáustica sagacidade do velho Marx fere a ingenuidade daqueles que acreditam na existência do patrão bonzinho ou do patrão mau. Isso não existe! Não há patrão bom e tampouco patrão malvado.
Há, apenas, patrão.
Em relações de trabalho, nas quais o objetivo é tão-somente o lucro, não pode haver quem seja bonzinho ou mau. Não cabem juízos de valor! Existe apenas, reitere-se, a meta do lucro, que é racionalmente calculado. Ou será que alguém acha que a cesta-básica dada pelo patrão é uma generosidade? E o plano de saúde?
Tudo isso deve ser entendido de um ponto de vista isento. Os negócios que medeiam as relações entre patrão e empregado são impessoais. No momento em que a força de trabalho não mais interessar à lógica de reprodução do capital, a relação de trabalho deve ser extinta, sem prejuízo das eventuais relações pessoais.
Basta que vejamos a situação de modo impessoal. Pronto: resolvido estaria o dilema. Para não estender demais a história, vamos a dois exemplos interessantes.
No filme "O cheiro do ralo", o personagem de Selton Mello é um comprador (negociador) que quinquilharias. Por trás de sua mesa, conversa com pessoas para avaliar os objetos que desejam vender. Os interessados em comercializar as tais quinquilharias não entendem que o valor pessoal delas não tem a menor relevância para os objetivos daquele que irá comercializá-las. Dizem que um tal objeto é de estimação, porque passado de geração em geração. Asseveram que uma tal coisa vale muito porque fora daquele parente que logrou êxito em alguma empreitada heróica. E por aí vai.... O que essas pessoas não entendem é que, do outro lado da mesa, o único interesse existente é o valor de troca daquelas mercadorias.
O filme é lapidar porque mostra a crueza das negociações e evidencia a impessoalidade de uma relação de necessidade entre dois indivíduos. Enquanto um precisa vender (a despeito de não querer, por questões pessoais), outro quer comprar para comercializar (apenas por um motivo racional e impessoal).
Também em "Mensagem para você", filme com Meg Ryan – a sempre namoradinha da América – e Tom Hanks, há uma passagem curta e interessantíssima a respeito do assunto aqui sob foco. Lembremos rapidamente da trama: Joe Fox (Tom Hanks) é o empresário de uma rede de mega stores (Livrarias Fox) e abre uma filial perto de uma tradicional livraria da cidade. A tal livraria é de Kathleen Kelly (Meg Ryan) e lhe foi herdada pela mãe que, fique claro, construiu sua clientela com base no atendimento personalizado, vendendo livros infantis quase artesanais e oferecendo atividades educativas às crianças. Ali se concentram anos e mais anos de uma história pessoal, regada a sentimentalismos e laços de amizade para com os fregueses.
A Livraria Fox irrompe portanto como a grande ameaça à "Loja da esquina" (não nos esqueçamos que o filme original é de Lubitsch e leva o mesmo nome). Foi ela, aliás, a razão da falência do tradicional negócio de Kathleen. Entre ela e Joe – que terminarão a trama juntos, num rompante caso de amor – cria-se uma evidente disputa. Disputa impessoal, bem entendido. E talvez a tradução mais aguda dessa disputa resida numa simples frase.
Enquanto Joe faz esteira na academia, acompanhado por seu assessor, assiste ao depoimento de Kathleen na TV sobre a possível falência de sua livraria. O assessor lhe diz que ela é realmente bonita, insinuando que a concorrência é, por isso, injusta. Joe, de modo frio e racional, apenas diz:
- Ah, não é nada pessoal...
É a racionalidade da concorrência, dos negócios capitalistas. Nada além disso. Tanto assim que talvez já apaixonado pela dona da Loja da Esquina, o grande empresário Fox não se curva. O poder do capital não pode sucumbir a uma paixão.
É óbvio que os dois filmes e a temática aqui exposta merecem análise mais acurada e poderiam, sem dúvida, render algum estudo. Como não é esse o meu propósito, deixo essas idéias jogadas, quiçá mal colocadas, sem compromisso...
É para isso, afinal, que serve esse blog....
Boa semana a todos!
sexta-feira, 27 de junho de 2008
João Gilberto e a besta da Camila
A reportagem da Folha (24/06) sobre o show de João Gilberto, no último domingo, no Carnegie Hall, deu mostras de que o gênio continua em plena forma: inovando, criando, arrasando. Também deu para notar que João continua reclamando:
"Desculpe falar uma coisa, tem um ventinho aqui na minha cabeça, me faz um pouco afônico";
"Please, esse ventinho";
"Olha o meu ventinho outra vez, please" (cantalorando).
Quando leio algo sobre sua personalidade excêntrica e mal-humorada, tenciono desconfiar. Assisti a um show dele que, por si só, seria capaz de desmentir, por completo, essa fama antiga.
24 de maio de 1996. João Gilberto faria o segundo show no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Eu havia comprado meu ingresso com antecedência. Ganhei até camiseta, com foto e tudo. A expectativa do show era enorme. O que João diria do Centro de Convivência? Reclamaria da acústica? Do som? Do microfone? Não importa. Valeria a pena estar ali, ouvindo-o tocar.
Teatro lotado. Pouco atraso. Imaginei que fosse entrar no palco depois de uma hora. Começou a tocar, a cara meio amarrada. Deu boa noite após a execução da primeira música. Aos poucos, ninguém entendeu, foi se soltando. Passou a fazer comentários entre uma música e outra. Chegou até a contar piada. Ninguém entendeu a razão daquele bom humor. Não se tratava de João Gilberto, aquele que reclama de tudo e vive emburrado? Sim, João Gilberto. Então, tudo aquilo que diziam a seu respeito era invenção da mídia brasileira? Não podia ser... João Gilberto, bem humorado, contando piada?
Bebel entrou no palco. Cantaram uma música juntos. Não me recordo qual era. Depois, João iniciou "Bahia com H". No meio da música estancou. Olhares inviesados. O que aconteceu? Era certo que viriam reclamações. Suspense... Ele parou para falar da letra da música, apenas isso! Dedilhou alguns acordes e recitou os versos da canção. Pediu para que a platéia prestasse atenção na descrição da Bahia.
- É uma graça! É mesmo um cartão postal, como diz a letra – falou animadíssimo enquanto ainda dedilhava alguns acordes.
Para surpresa de todos, João sorria. Bebel também. Tudo era festa. O violão soou novamente. Cantaram juntos. Bebel, àquela altura, já estava séria.
Seria possível? João Gilberto estava ali, interagindo plenamente com a platéia. Reclamações? Poucas, pouquíssimas. Vez por outra batia no microfone com o indicador, falava alguma coisa para um tal de Castor e continuava a tocar. E tocava maravilhosamente, afinadíssimo. Continuava perfeito. Aquele show merecia gravação, para impressão de CD e tudo o mais. Quem sabe um vídeo, justamente para registrar o bom humor do gênio?
Pois o show terminou. Saí rapidamente para fumar e, de esguelha, ouvi uma conversa entre dois rapazes. Não falavam sobre a felicidade do João e tampouco das reclamações feitas. Falavam da Camila, possivelmente uma amiga. Um deles estava inconformado porque a menina havia assistido ao show no dia anterior e dissera que o João cantava muito mal. O outro rapaz vociferou que a tal Camila era uma besta. Quando percebi, os dois olhavam em minha direção, eu a balançar negativamente a cabeça enquanto dava um longo trago no cigarro. De repente, sem nenhuma intimidade, não me contive e disparei:
- A Camila é mesmo uma besta!
sábado, 21 de junho de 2008
Aliandro e a carne rosada da lagosta
Quem leu Benjamim deve se lembrar de Aliandro Sgaratti, "o companheiro xifópago do cidadão". Chico descreve sua origem e condição social nos seguintes termos:
" Aliandro anda com os bolsos apinhados de contas, búzios, figas e seu tato custou a discernir as chaves do carro. Sai dirigindo em ziguezague, acompanhando o furgão de seus assessores pelo retrovisor, e um rosário de ossos balança na alça do espelho. Mas nenhum objeto lhe é mais caro do que a pequena opala oval, no centro do medalhão de ouro que leva aconchegado ao peito. Herança da mãe, que se fez incrustar a pedra no umbigo durante a gestação de Aliandro, tendo fé em que daria à luz um filho branco. O pai de Aliandro, preto igual à mãe porém agnóstico, já não gostou de ver o bebê dormindo no berçário, a pele leitosa. E quando os olhos do garoto firmaram sua cor azul-celeste, sumiu no mundo. Burlando as leis da genética desde o nascedouro, Aliandro habilitou-se a desafiar o que mais o destino lhe reservasse. Ele convenceu-se de que, se acatasse as estatísticas, moraria até hoje nas palafitas, estaria tuberculoso, seria semi-analfabeto, ou quem sabe trabalharia na construção civil, freqüentaria o culto, pagaria o dízimo, ou quem sabe lavaria cloacas, teria sete filhos de mãe alcoólatra, e em todo caso jamais conheceria a carne rosada da lagosta, sua consistência de mulher jovem. Se valesse a justiça dos homens, ele sabe que não estaria hoje ao volante de um carro hidramático, que pode pilotar manipulando amuletos. (...) Se Aliandro fosse homem de aguardar a sua vez, nunca se faria lembrar por uma secretária de voz grave que, depois de despachar um infeliz pelo telefone, levanta-se para cumprimentá-lo com os braços cheios de pulseiras, e o introduz nos estúdios de G. Gâmbolo".
(BUARQUE, Chico. Benjamim. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 34-35).
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Mathieu e o vaso de três mil anos
A primeira cena da série foi descrita em um único parágrafo. Trata-se do episódio em que Mathieu Delarue, protagonista de A Idade da Razão, de Sartre, quebra um vaso de 3.000 anos. Isso mesmo: um vaso de três mil anos (agora por extenso). Não vou comentá-la agora. Apenas confesso que, pelas razões de Mathieu, é provável que todos nós um dia tenhamos desejado quebrar um vaso desses...
"Tinha sete anos. Estava em Pithiviers, na casa de tio Jules, o dentista, sozinho na sala de espera, e brincava de não se deixar existir. Era preciso não tentar não se engolir, como quando a gente conserva sobre a língua um líquido demasiado frio, evitando o pequeno movimento da deglutição que o faria escorrer para a garganta. Conseguira esvaziar completamente a cabeça. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Era um dia de tolices. Vegetava num calor provinciano que cheirava a mosca e eis que tinha pegado uma e lhe arrancara as asas. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo, fora buscar a caixa na cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. Tudo isso com grande displicência: era uma pífia comédia de vagabundo e ele não conseguia interessar-se por si próprio, sabia muito bem que a mosca não acenderia. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês, verde e cinza, com alças como garras de papagaio. O tio lhe dissera que o vaso tinha três mil anos. Mathieu aproximara-se do vaso com as mãos para trás e contemplara-o com inquietude. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido, diante de um vaso impassível de três mil anos. Voltara-lhe as costas e pusera-se a brincar de vesgo e a fungar na frente do espelho sem chegar a distrair-se. E, de repente, ele retornara à mesa, erguera o vaso, que era pesadíssimo, e o jogara no chão. Isso lhe acontecera sem mais aquela e logo depois ele se sentia leve, diáfano. Olhava os cacos de porcelana, maravilhado. Algo acabara de ocorrer com aquele vaso de três mil anos entre os quinquagenários, na luminosidade do verão, algo totalmente irreverente, que se assemelhava a uma manhã. Pensara: 'Eu fiz isso', e se sentiu orgulhoso, livre, sem peias; sem família, sem origem, um pequeno broto obstinado que rompera a crosta terrestre".
(SARTRE, Jean-Paul. A idade da razão: os caminhos da liberdade 1. Trad. Sérgio Milliet. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 58-59).
Em tempo: para quem não leu, sugiro a leitura do post "Vidas secas, Fabiano e o soldado amarelo", datado de 13.11.2007.
É só... Por ora é só...
sábado, 7 de junho de 2008
Bossa Nova?
Ontem a Folha noticiou que Caetano Veloso e Roberto Carlos subirão ao palco juntos para homenagearem o Maestro Tom Jobim. O show, naturalmente, faz parte das comemorações dos 50 anos da Bossa Nova.
O que Roberto Carlos tem a ver com a Bossa Nova? Nada. Absolutamente nada. Até mesmo a matéria diz que é surpreendente que tenha aceitado o convite "porque ele rompeu com a bossa nova de seu início de carreira após ter sido criticado à época".
Chamar Roberto Carlos para as comemorações da Bossa Nova é o mesmo que convidar Chitãozinho e Xororó para comemorarem a Tropicália. Ou então, convidar Roberto Campos para homenagear as manifestações de Maio de 68. Quem sabe Xuxa na abertura da próxima edição da Flip?
São combinações descabidas... Um despautério!
O fato de Roberto Carlos - cuja obra não conheço - não ter vínculos pretéritos com a Bossa Nova não significa que não possa participar de suas comemorações, em absoluto. É que não consigo imaginá-lo cantando qualquer composição do movimento... Soa estranho, desencontrado...
E não venham me falar que isso é birra minha!
O problema é estético!
Por que não chamaram o Chico, parceiro e amigo íntimo do Maestro? Por que não chamaram o Edu? Por que não chamaram a velha guarda da Bossa Nova?
Cadê o Carlinhos Lyra?
Onde se enfiou João Gilberto?
Arre! Acho que estou azedo!
Por ora é só...
quarta-feira, 4 de junho de 2008
O melhor conto
Pois bem, o melhor conto, já escrito até hoje, seja lá quais forem os critérios de apreciação, seja lá qual for o nível de exigência do leitor, é "O peru de Natal", de Mário de Andrade.
Fica o convite para sua leitura. Creio que em qualquer lugar da rede haja uma cópia legal disponível.
É só... Por ora é só...
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Adorando Fernanda Young
O título desse post só poderia resultar no gerúndio... É que, para os desavisados, o título do programa da Fernanda é "Irritando Fernanda Young" (IFY). Até aí, tudo bem. Mas, por que o infame trocadilho? Nem eu sei... Adoro a Fernanda! Isso basta...
O livro é repleto de referências aos anos oitenta; várias delas bastante conhecidas; outras, nem tanto. Fernanda retira do baú, sempre oscilando entre o ínicio e o fim daquela década, preciosidades curiosas.
Uma delas é Atração Fatal, filme de Adrian Lyne, com Glenn Close e Michael Douglas. É belíssima a digressão feita sobre a personalidade dos personagens... Em um dado momento da narrativa surge aquela imagem que não sai da cabeça daqueles que assistiram ao filme: o coelho branquinho que está na panela com água fervente, os olhos abertos, cozinhando por inteiro. Pois é pautada nessa situação que a narradora cunha a expressão “coelho-na-panela”. Diz ela: "Uma mulher está coelho-na-panela quando ela fica tão ensandecida com uma situação, que passa a ver razão nas piores crueldades" (p. 40).
Fiquei a pensar que a expressão pudesse ser difundida no universo feminino para denotar situações semelhantes àquelas resultantes da TPM. Seria uma variante da TPM em sua forma social. Se a TPM resulta de fatores naturais, a "mulher coelho-na-panela" resultaria dos intrincados labirintos do relacionamento humano. Em suma, não defluiria de causas orgânicas. Não se imagine como seria a "mulher coelho-na-panela" acometida pela TPM...
Voltemos à expressão... O que a deprecia é a serenidade exigida para colocar o tal coelho na panela em circunstâncias de aflição e ira. Talvez por isso ela soe inviável. Todavia, pensemos.
Como poderia a mulher colocar o bicho na panela? Deveria matá-lo, por suposto. O coitado não poderia ser cozido vivo. Isso seria muita sacanagem (que o digam os defensores dos animais!). Pois bem. Então, seria preciso matá-lo. Mas, como fazê-lo? Não importa. Na hora da raiva, a mulher faria isso, sem hesitar. O segundo passo consistiria em arrumar uma panela na qual coubesse o coelho. Haveria que se procurar por uma. E se ela inexistisse? Se houvesse apenas uma canequinha para ferver a água do café? Suponhamos, para prosseguir com a brincadeira, que a mulher encontrasse a panela. Pacientemente, deveria abrir a torneira e esperar que o recipiente ficasse cheio. Colocaria o coitado na panela, ligaria o fogo e pronto: teríamos um coelho na panela.
Falando assim, tudo parece fácil. Imagine-se, entretanto, uma mulher desperada equacionar todos os dados dessa tarefa e executá-la de modo eficaz. Coisas que só acontecem no cinema...
A expressão derivada de uma trama ficcional não precisa de justificativa. O problema seria a falta de praticidade para pronunciá-la. "Mulher coelho-na-panela" é muito extensa... Não se afigura interessante, sobretudo se comparada à TPM, sigla vagabunda de três letras, curta e fácil de pronunciar...
Esqueçamos a expressão, a mulher, o coelho e a panela.
Outras referências daquela década são mencionadas quando a narradora das memórias refere-se ao SBT. Antes de enumerar alguns programas da emissora, diz ela: "agora, que o SBT fodeu com a minha vida, ah, isso fodeu". (p. 55). Sugere que deveria receber "indenização por perdas e danos" e que essa indenização deveria ser duplicada "por ter visto um filme chamado O Homem Cobra". (p. 55).
Embora não fosse minimamente afeito à emissora (e ainda não sou!), cheguei a assistir ao filme, confesso. Eu era moleque e naquela época não havia internet, TV a cabo e outras modernidades mais. As opções de entretenimento eram exíguas. Daí porque, muitas vezes, tínhamos de assistir ao que se nos apresentava... A vida era muito tacanha!
O Homem Cobra é um inequívoco trash dos anos oitenta. A história é patética... Até onde minha memória alcança, trata-se da trajetória de um sujeito que aceita submeter-se, sabe-se lá por qual razão, a alguns experimentos do pai de sua namorada. E tome picada de cobra no banho! Os tais experimentos não dão certo e o rapaz acaba tendo o organismo todo alterado. Parece desenvolver o couro característico das cobras e outras feições do animal. Pouco a pouco, vai apodrecendo, virando um bicho esquisito. Perde os membros inferiores e superiores. Fica verde. Nessas circunstâncias, o que poderia restar a um homem/animal como ele? Virar objeto de exposição em um circo de aberrações da comunidade local.
Numa noite qualquer, a namorada, que havia tempos não se encontrava com ele, entra no tal circo e passa perto da banheira em que o coitado se encontra. A seguir temos a seguinte sequência: ela olha para ele, ele emite alguns grunhidos como a insinuar sua identidade pretérita, ela berra, balança a cabeça, descabela-se, chora e sai correndo. Os incautos telespectadores ficam sem saber se a moça o teria reconhecido ou se apenas ficou aparovada com a aparência daquela criatura. Não sei como o sujeito termina... Nem o filme. Não cheguei a sonhar com ele, mas espero não vê-lo nunca mais...
Para terminar, explico a sinceridade espontânea aludida no início desse post. Fernanda Young é a única personalidade midiática capaz de afirmar diante das câmeras que desejaria chamar alguém de vaca no trânsito (entrevista com Caio Blat), é a única capaz de reputar punheteiros os moleques que andam em bando e xingam meninas gordas (entrevista com Cláudia Gimenez), é a única capaz de confessar, em tom de pilhéria, o pavor de vento encanado, herança da criação de seus avós (não lembro quem era o entrevistado). É espontaneamente sincera porque capaz de declarar que a voz de Paulo Miklos é a melhor dentre todas as demais dos Titãs; porque capaz de declarar, sem nenhuma histeria, que invejou Paula Toller quando a moça cantou com o Chico...
A Fernandinha – ela que me perdoe a inconveniente intimidade – é inteligente, bem humorada e simpática. Com ou sem TPM, coelho-na-panela, homem cobra e o escambau, é a salvação dos domingos.
terça-feira, 6 de maio de 2008
O segredo de Mário de Andrade: memórias de um assassino
O segredo de
Mário de Andrade: memórias de um assassino
Conto originalmente
publicado no Portal Cronópios (http://www.cronopios.com.br), em 03/05/2008.
Observação: os personagens verídicos
constantes desse conto, embora inseridos em seu contexto histórico, são
tratados de forma ficcional numa mistura de fantasia e realidade. Esse é,
portanto, um conto de ficção.
Mário de Andrade morreu de infarte do miocárdio, no dia 25 de fevereiro de
1945, madrugada de domingo. Luis Saia, seu amigo, presenciou sua morte. Depois
de algum tempo, houve rumores de que Mário lhe teria confidenciado um grande
segredo. Muito se especulou a respeito. Alguns achavam que se tratava de uma
brincadeira do Saia, outros acreditavam que era verdade.
Muito prazer! Meu nome é
Octávio Leal. Eu matei Mário de Andrade. Como sofrera o pobre coitado!
Por trás do nosso grande escritor, estava eu, sempre a incentivá-lo, a fazê-lo crer que suas obras valiam a pena! Apoiava-o incondicionalmente, até o dia em que logrei sua indiferença. Resolvi, então, me vingar. Realizei minha obra prima: arruinei sua vida e depois, sutilmente, assassinei-o.
A história, sempre ingrata, impediu a revelação do meu nome. Ninguém nunca soube de mim. Boicotaram-me, deixaram-me mudo. Jamais uma linha de minha autoria foi conhecida. Resta agora a esperança de que essas memórias caiam nas mãos de algum incauto editor.
Conheci Mário no dia 25 de fevereiro de 1922. Dez dias antes, estive no Municipal, entre a multidão que o vaiou, enquanto lia versos na escadaria. As vaias eram intermináveis, ensurdecedoras. Olhei tudo com perplexidade. Aturdido, resolvi que o conheceria. Encontrei-me casualmente com ele no centro da cidade. Apresentei-me manifestando satisfação com o que lera por ocasião da Semana. Inicialmente, zombou de mim, fez pilhéria: imaginou que estava a fazer troças. Esclareci que falava sério. Caminhamos até a Praça da República em cujas imediações ele fraternalmente me convidou a tomar um lanche no Carlino. Ali conversamos por algumas horas. Elogiei os versos de Paulicéia Desvairada, publicado havia pouco. Disse-lhe que tinha pretensões literárias, mas supunha não levar jeito algum para a coisa. Ouvi seus conselhos com atenção. Ao final da conversa, deu-me seu endereço e convidou-me a aparecer a qualquer hora.
Temi ser inoportuno. Entretanto, na semana seguinte bati em sua porta, na Lopes
Chaves. Levei alguns contos ainda esboçados. Queria sua opinião. Pegou-os de
minha mão antes mesmo que eu entrasse em sua casa. Subimos as escadas que davam
acesso ao seu escritório particular e lá, entre tantos papéis espalhados em sua
escrivaninha, sentou-se para lê-los. Aqueles foram minutos longos, duraram mais
que a eternidade. A figura de Mário, imponente, dava-me a impressão de que
estava diante de um gigante. Suas palavras talvez mudassem minha vida. Sim,
porque eu estava disposto a abandonar os negócios de minha família. Já havia
tido inúmeras discussões com papai sobre minha incapacidade de administrar as
cifras oriundas do ramo cafeeiro. Após ter me formado em engenharia, tive
convicção de que queria estrear no mundo literário. Se fosse preciso, sairia de
casa.
Ele lia e relia alguns trechos em voz alta. Ressaltava o que lhe parecia interessante. Tomei minha decisão naquele momento. Haveria de me tornar escritor. Hesitei em falar que já tinha começado a redação de um romance. À época, falava-se muito em poesia. Somente mais tarde é que os modernistas se arriscariam no terreno da prosa. Mário, é claro, estava à frente disso tudo. Rascunhava crônicas, contos, poesias e talvez já planejasse algum livro sobre folclore, outra de suas paixões.
Passei a frequentar sua casa para preservar a amizade ainda incipiente. Sempre
era muito bem recebido. Vez por outra apresentava-me o que estava escrevendo.
Como a esperar por uma opinião favorável, perguntava meu parecer. Aquilo me
deixava lisonjeado! Sem se importar com a intromissão, também deixava-me
vasculhar sua papelada. Desfrutar da intimidade de Mário era o que de melhor
podia acontecer a um homem como eu.
Tudo isso aconteceu até que um grande infortúnio se colocou entre nós. Falo de Paulo Duarte, um dos grandes amigos de Mário. Creio ter sido por volta de 1925 que se conheceram. Tornaram-se íntimos e, por razões que até hoje não compreendo, sempre que se encontravam em minha presença, faziam questão de me ignorar. Sentia-me realmente desprezado. Sabia que Paulo não tinha afeição alguma por mim. Desde o dia em que fomos apresentados, soube que não poderia haver qualquer sentimento de amizade entre nós. O fato de ser filho de um perrepista militante talvez tenha contribuído para essa animosidade. Mesmo assim, convidava-me a participar das reuniões em seu apartamento, na Avenida São João, onde recebia amigos íntimos.
Ah! As reuniões... Paulo bancava todo o estoque de vinho. Falávamos de tudo:
literatura, artes, política e até de mulheres. Foi durante uma dessas reuniões
que dei a ideia de fundar um instituto de cultura em São Paulo. Já havia
pensado nele como uma espécie de embaixada paulistana da cultura, um órgão que
pudesse concretizar algumas das ideias que discutíamos calorosamente naquelas
noites. Embora a Semana ainda fosse muito falada, achava que era necessário
investir em alguma coisa prática. Algo que fizesse dos modernistas não uns
loucos, uns desvairados, mas gente de ação.
Como se fosse hoje, recordo-me do olhar de Paulo quando sugeri, quase gritando,
em seu próprio apartamento:
– Precisamos de um instituto de cultura.
A bagunça começou com as palmas do Couto de Barros e terminou quando todos
principiaram a pensar em elaborar os projetos do tal instituto. Choviam ideias!
Quem não as têm nessas horas? Dado o pontapé inicial, todos foram pródigos em
elaborar planos e lançar alternativas. No dia seguinte, contudo, ninguém se
lembrou de que eu estava lá.
Em poucos anos, o Prefeito Fábio Prado decidira dar vazão à minha ideia:
fundara o Departamento de Cultura e de Recreação. Era 1935! Acometeu-me um
estado de grande euforia, alimentei ilusões de que algum dia alguém fosse se
recordar do instante feliz em que soltei aquela frase.
Muita coisa aconteceu antes do Departamento de Cultura. Voltemos no tempo para
que se tenha uma noção do quanto estreitei amizade com Mário.
Apoiava-o em todos os seus projetos. Tal foi o que ocorrera quando tivera um
plano maluco: queria ir ao norte, conhecer a região e colher material
etnográfico. Lembro-me com nitidez do dia em que me convidou a participar da
iniciativa. Faria a viagem para colher partituras, acompanhar danças dramáticas
e outras manifestações culturais perdidas pelo interior do Brasil. Dissera-me
que iriam d. Olívia Guedes Penteado e suas sobrinhas. Na realidade, o plano da
viagem foi dela e Mário só aceitou porque também iam o Paulo Prado e o Afonso
de Taunay. Quando eles manifestaram suas impossibilidades de partir é que ela
veio me procurar, dizendo se tratar de assunto sério. Eu estava realizado! A
pretexto de ter mais um homem na excursão, recorreu a mim. Asseverou que Mário
era por demais teimoso e que a viagem ofereceria riscos. Tentou me
responsabilizar pela segurança dele.
– O senhor vai, sim. Assunto encerrado! – exclamara categórica.
Fiz-me de rogado, alegando que não gostava de mato, rio, pernilongo. Ela,
então, apelou:
– Você é uma das poucas pessoas a quem Mário dá ouvidos.
Aquilo não era verdade. D. Olívia sabia, no entanto, como me conquistar. Uns
poucos elogios baratos eram suficientes para que eu cedesse. E, de fato, teria
mesmo ido se não tivesse apanhado uma terrível gripe.
– Não aguentarei chegar sequer ao Rio – disse a Mário, mostrando-me
enfraquecido.
Prometera que voltaria com uma coleção de partituras e faria questão de
executá-las pessoalmente para mim. Durante o período em que estivera por lá, só
mandara notícias à família. Eu aguardava ansiosamente por sua chegada, pois
sabia que logo se trancaria em seu escritório para sistematizar o material
colhido. Quando o regresso se aproximava, d. Maria Luísa, sua mãe, informou-me
a data da chegada. Ele fazia questão de minha presença em sua casa. Não se
esquecera de mim. Era bom demais saber aquilo.
O novíssimo material esperava o momento de ser utilizado. Mário dissera-me que
precisava de tempo, de dedicação. Queria investir em um texto cuja ideia ainda
não tinha. Permitiu-me ler as anotações que fizera ao longo da viagem.
Dia após dia, durante duas semanas, examinei tudo. Ao terminar, sugeri que
escrevesse um romance. Sim, um romance! Por que não? Aquelas lendas, costumes e
tradições dariam um pano de fundo extraordinário para a composição. E haveria
de criar também um personagem marcante. Uma espécie de herói, um herói
brasileiro...
Confesso que nem mesmo eu estava certo de que aquilo poderia render um livro.
Julgava que ele quisesse transformar sua viagem etnográfica em um estudo sobre
a cultura nacional. Ainda assim, deixei que comprasse a sugestão.
Reiteradamente, colocava a necessidade de elaboração de alguma ficção.
Meses depois, avisara-me que tiraria férias na chácara de seu tio Pio Lourenço,
em Araraquara, interior do Estado. Não nos vimos durante longo período. Fiquei
a pensar que as tais férias estavam por demais extensas. Encontrei-o no
Franciscano, tomando um chope. Mostrou-me alguns papéis datilografados. Eram os
originais de Macunaíma. Bati os olhos no primeiro parágrafo. Lambi os beiços,
implorando para que consentisse sua leitura integral. Mário recusou, queria que
todos lessem quando viesse a lume. Macunaíma era justamente o livro que eu
havia idealizado e lhe sugerido. De uma certa maneira, aquilo também era obra
minha.
Acometeu-me, então, uma grande decepção. Flagrei-me totalmente ressentido ao me
deparar com a primeira edição do livro numa livraria do centro da cidade. Ao
abrir o exemplar não pude deixar de procurar pela dedicatória. Mal pude
terminar sua leitura:
"A Paulo Prado, a José de Alencar, pai-de-vivos que brilha no vasto campo
do céu".
Mário havia me preterido. Meu nome deveria constar daquela dedicatória! Era eu
o único homem capaz de merecê-la.
Meses depois, no apartamento do Paulo, insinuei ao próprio Mário o quanto fora
interessante minha sugestão. Paulo ouvira a conversa de esguelha e ambos caíram
na risada. Enrubescido, partilhei da gargalhada, tendo um choro sentido por
dentro. A exemplo de Macunaíma, jurei vingança.
Sim, jurei vingança! Estava decidido: sua sobrevida começaria naquele dia. Para
tanto, deveria cuidar para que nossa amizade não desbotasse.
Minha rotina não mudara, exceto pela expectativa de surgir o momento de
arruiná-lo. A cada dia levantava-me da cama imaginando a existência de um
possível ponto fraco de Mário. Ele devia ter um! Passaram-se alguns anos,
vieram as revoluções, fundou-se a Constituinte. Vivíamos um momento de intensa
turbulência. Sempre alheio às questões políticas, o poeta continuava o mesmo:
às vezes viajava, mas a maior parte do tempo vivia recluso em sua casa,
estudando ou escrevendo. Continuei a visitá-lo, fingindo que nada acontecera.
Em maio de 1935, recebi recado de que ele queria ter comigo. Quando cheguei em
sua casa, abriu a porta com olhar circunspecto. Terminara de ler os originais
do meu romance, entregues em ocasião passada. Se aprovasse meu texto, qualquer
editora iria publicá-lo. Seria minha estreia no mundo das letras. Suas
observações insinuavam, entretanto, que não havia salvação: minha prosa era
pobre e minha linguagem, precária. Não foi preciso que falasse muito, percebi
que não haveria futuro para meu livro. Restava-me ir embora, pensar em outro
projeto. Repentinamente, Paulo Duarte aparecera.
Aquela manhã entraria para o álbum de minhas memórias mais ríspidas. Paulo
procurara Mário para lhe convidar a ser diretor do Departamento de Cultura que
o Prefeito Fábio Prado resolvera criar. Não era um sonho, era a mais pura
realidade! Fiquei pasmo ouvindo a conversa dos dois. Ao convite, Mário
respondeu recusando. Eu ali mudo, quieto, imaginando que alguém pudesse olhar
para a cadeira em que me sentara. Quem sabe não seria convidado também?
Aceitaria qualquer cargo! Era uma oportunidade única de projeção intelectual.
Além disso, a ideia do tal departamento era minha. Num dado momento, Paulo
caminhou em direção a mesa de Mário, colocou as mãos em meu manuscrito, leu o
título e soltou uma enorme gargalhada. Estava ridicularizando meu trabalho.
Mário, ironicamente, meneou a cabeça, como a insinuar a pobreza do texto. Nunca
me senti tão revoltado. Se pudesse, arrebentaria os dois! Só me acalmei quando
d. Maria Luísa entrou no cômodo, a pedido de Paulo. Ambos convenceram Mário a
aceitar o convite. Mais uma vez, o maior intelectual daquela época seria
promovido às custas das minhas ideias geniais.
Ele apostou todas as suas fichas no Departamento de Cultura. Ouvindo-o falar a respeito, qualquer um teria a impressão de que se tratava da grande obra de sua vida. Junto dele estavam Sérgio Milliet, Rubens Borba de Morais, Nicanor Miranda e, é claro, Paulo Duarte. Numa São Paulo que crescia freneticamente, eles revolucionaram a cultura paulistana. Concertos gratuitos, Bibliotecas Ambulantes, estudos sobre folclore, Parques Infantis, criação de uma Discoteca Pública... Estava em curso um projeto de democratização cultural jamais visto no Brasil. Tudo isso e muito mais teria dado certo, não fosse minha interferência e algumas contingências da história.
Não poupei esforços para arruinar o Departamento. Foi complicado derrubar
aquele pessoal: Mário, Sérgio, Borba e Paulo eram já homens influentes, gozavam
de prestígio junto a Fábio Prado e a Armando de Salles Oliveira, governador de
São Paulo. Por isso, tive de usar justamente uma arma repudiada pelo próprio
Mário: a política. As contendas entre os perrepistas e os democráticos ainda
eram visíveis. Mesmo após a união das agremiações em torno da Frente Única o
clima de animosidade perdurara. Encontrei aí minha estratégia de vingança. A
militância política de meu pai e o contato que desde a infância eu tinha com os
líderes do PRP me proporcionariam a munição eficaz para a morte de Mário.
Lembrei-me de um redator da Gazeta e do Correio Paulistano, ambos jornais da
oposição. Era amigo de minha família e nos devia alguns favores. Não foi
preciso muito esforço para convencê-lo a publicar uma série de artigos
caluniosos sobre o Departamento. Aquilo tocaria profundamente a vaidade
intelectual de Mário.
No início de 1936 publiquei na Gazeta um texto que teria ampla repercussão.
Atacava frontalmente a iniciativa das Bibliotecas Populares. Por razões óbvias
não o assinei. Sabia que agrediria o Borba, a quem tanto gostava, mas Mário
seria o maior atingido, já que respondia por tudo. No dia da publicação, como
se nada tivesse ocorrido, passei por sua casa. Quando cheguei, vi-o tremendo de
raiva. Ele sussurrava trechos do artigo, batia no jornal e exclamava coisas
impensáveis. Mostrava para mim aquilo que saíra de minha própria pena. Eu
conhecia o teor daquele texto como ninguém, palavra por palavra. Procurei
acalmá-lo, demonstrei-me condoído. Por dentro, regozijava-me. Minha vingança
estava apenas começando.
Artigos não bastavam, queria mais. Em outubro daquele ano, procurei por Sílvio
Margarido, vereador da oposição. Em meio a nossa conversa, mencionou seu
descontentamento para com o Departamento. Disse-me que os gastos com as
brincadeiras daqueles "futuristas", como se costumava dizer para
irritar Mário, eram enormes. Dei-lhe a ideia de contestar, em sessão na Câmara
Municipal, as atividades em andamento. O sucesso da provocação foi enorme.
Tanto assim que a resposta de Vicente Azevedo, vereador ligado aos
democráticos, ocupou duas sessões para narrar os avanços da instituição
paulistana e rebater os disparates ditos por Margarido.
Se nas conjuras eu agia com discrição, em público incentivava tudo o que dizia
respeito ao Departamento. Deviam achar que eu era um grande entusiasta daquela
maluquice toda.
O esboroar-se de tudo aquilo não se fez esperar. Foi com imensa felicidade que
saudei o advento do Estado Novo. Ele seria um balde de água fria para os
modernistas. Na noite de 10 de novembro abri uma garrafa de vinho que papai
guardava para ocasiões especiais.
As coisas começaram a mudar, enfim. Mário manifestava muita insegurança, pois
seu grupo era vítima de patrulhas constantes. Diante do novo regime, sabia que
seu posto estava ameaçado. Pior que isso, receava que seu projeto mais
importante ruísse: tratava-se da Missão de Pesquisas Folclóricas. Mário e
Oneyda Alvarenga, então diretora da Discoteca Pública Municipal, já estavam
planejando uma viagem ao norte e ao nordeste com o intuito de colher material
etnográfico. Temeroso que não pudesse pessoalmente participar da coleta, Mário
logo arrumou quatro homens para a Missão. O primeiro que se dispôs a trabalhar
foi Luis Saia, um jovem arquiteto inteligentíssimo e já familiarizado com a
metodologia etnográfica. Depois, conseguiu reunir o maestro Martin Braunwiser,
Benedicto Pacheco e Antônio Ladeira. A Missão partiu no início de 1938. E foi
neste ano que Fábio Prado foi exonerado da Prefeitura. Armando também saiu da
governadoria do Estado.
Esperei para saber quem seria o novo prefeito da capital. Surpreso, tomei
conhecimento de que era Francisco Prestes Maia, um antigo amigo e colega na
Politécnica. Chiquinho, como eu o chamava, poderia conseguir algum tipo de
embargo ao Departamento. Nem precisei fazer muitos esforços. Assim que assumiu
a prefeitura, mostrou-se avesso às atividades em curso. De pronto irritou-se
com as Bibliotecas Ambulantes que o Borba havia implementado na cidade. Aos
poucos foi ficando ainda mais insatisfeito. Em uma de nossas conversas, toquei
no assunto da Missão de Pesquisas Folclóricas que já se encontrava no norte do
Brasil. Tinha plena consciência da importância dela para Mário. Chiquinho
convenceu-se de que aquilo não passava de uma brincadeira de folclorista amador
e mandou que os trabalhos de pesquisa fossem abandonados. Os cofres públicos
não gastariam mais um níquel com aquela aventura. Os missionários teriam de
regressar a São Paulo, abandonando o roteiro de viagem. Mário devia estar em
estado de perplexidade e agonia. No entanto, com sua sagacidade, deu um jeito
para que seu projeto não naufragasse. Telegrafou a Luis Saia e o instruiu para
que adentrasse o sertão, alegando posteriormente que não recebera a ordem de
regresso do prefeito. Dessa maneira, poderia cumprir o trajeto estabelecido e
terminar a coleta do material etnográfico. Mário era mesmo muito esperto...
Só não foi esperto o suficiente para se manter no cargo de diretor. Friamente,
articulei com Chiquinho sua exoneração. Em 10 de março, exatos quatro meses
após a irrupção do Estado Novo, tivera de deixar o posto no qual tudo apostara.
A demissão lhe custaria muito caro! O primeiro passo concreto de minha vingança
havia sido dado. Restava apenas o momento oportuno para completá-la.
Não mais vi Mário durante alguns meses. No final de junho, totalmente
deprimido, mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, lecionaria na Universidade do
Distrito Federal e, posteriormente, seria contratado para trabalhar no
Instituto Nacional do Livro, órgão ligado ao ministro Gustavo Capanema. Sabia
que Francisco Pati, seu sucessor no Departamento, não daria continuidade a seus
projetos culturais. A frustração lhe seria ainda mais severa por conta disso.
Encarreguei-me de lhe enviar relatórios pormenorizados sobre o que acontecia na
instituição. Ele me respondia com tom confesso de desalento. Era um Mário
diferente, sôfrego, apático... Todos os seus amigos tinham a mesma impressão
que eu: ele estava se acabando.
Anos depois, numa noite de verão, em fevereiro de 1941, encontrei-o passeando
pelo centro da cidade. Abraçamo-nos e pude ver, contrariado, que ele estava
feliz novamente. O que teria acontecido? Voltara para São Paulo? Sim, resolvera
regressar à Paulicéia. Contara-me sobre suas relações com os intelectuais
cariocas e o ministro Capanema, relatara-me as aventuras da elaboração do
projeto da Enciclopédia Brasileira. Enfim, desabafara sobre sua estada no Rio.
Agora estava de volta, queria ser feliz novamente. Ser feliz enquanto eu
permitisse, bem entendido. Seu destino ainda estava em minhas mãos.
Àquela altura dos acontecimentos já não queria mais importuná-lo. Desejava
apenas impingir-lhe o golpe fatal. Decidi que o deixaria viver mais alguns
anos, o suficiente para concluir alguns projetos pessoais. Recordo-me que em
1942, planejava, junto a Martins, a publicação de suas obras completas. Eu
deveria permitir que isso acontecesse. Também nesse ano, resolveu lavar a roupa
suja dos modernistas. Voltou ao Rio para proferir uma palestra que se tornaria
célebre: "O Movimento Modernista".
No início de 1945, ouvi rumores de que sua saúde andava debilitada. Seu coração
já estava fraco e ele fumava excessivamente. Tinha certeza de que fortes
emoções poderiam lhe causar algum dano irreversível. Não havia dúvidas de que
uma grande revelação lhe seria letal. Depois de ter ido tão longe, julgava que
um simples recuo seria prova de minha incompetência. Precisava prosseguir. Em
alguma coisa eu tinha de lograr sucesso.
Na noite de 24 de fevereiro daquele ano fui visitá-lo. Trancafiados em seu
escritório, conversamos durante horas. D. Maria Luísa nos serviu mate gelado
com torradas. Ficamos sentados um longo tempo... Principiei a narrativa daquela
que seria minha única obra.
– Lembra-se de quando você publicou Macunaíma, Mário?
– Claro! – dissera efusivamente.
– Lembra-se de que fui eu quem sugeriu a elaboração do livro, assim que você
voltou de viagem?
– Como esquecer? Macunaíma surgiu daí... Foi ideia sua.
– Mas, você nunca admitiu isso.
– Tavinho... não ficava bem... O que diriam?
– Nem ao Paulo você disse – falei ressentido.
– Ora, o Paulo...
Continuei:
– Você não imagina o meu estado quando abri Macunaíma pela primeira vez e vi a
dedicatória...
Mário percebeu o castigo que me impingira. Tentou se explicar:
– Você não entendeu o sentido da dedicatória. É que...
Cortei-o. Estancou, ficou rijo, duro, com o peito vazio. Percebera que por trás
das perguntas havia alguma cobrança.
– Recorda-se das reuniões no apartamento do Paulo?
Estatelou os olhos. Levantou-se da cadeira e tornou a se sentar.
– Sim... Era uma época formidável...
– Lembra-se da
noite em que eu sugeri a criação de um instituto de cultura para São Paulo?
Puxe pela memória, Mário. Você há de se lembrar...
– Recordo-me vagamente. Foi você mesmo? – perguntou incrédulo.
– Aquela cena nunca saiu da minha cabeça. Tomávamos um delicioso Montrachet e
eu divagava. Você indagou sobre o que eu pensava. Houve um enorme silêncio.
Todos se voltaram para mim, como a esperar pela resposta. Depois que falei,
Paulo fez uma cara de espanto, zombando da minha sugestão. Só assentiu quando o
barulho das palmas sufocou sua ironia. Como todo hipócrita, pôs-se a bater palmas
também. O Departamento de Cultura surgiu naquele instante.
– Agora me recordo...
– Mas, no dia seguinte, ninguém se lembrou disso. Veio o Departamento e meu
nome continuou esquecido.
– Todos queriam cargos...
Mário entendia o que estava se passando. Houve um momento em que ficou pálido e
me pediu um copo de água com açúcar.
Continuei, sem atender ao seu pedido:
– Observe os fatos, Mário! A dedicatória de Macunaíma: tudo começou aí. Naquele
dia jurei vingança, como seu querido personagem. Quanta ironia: Macunaíma
contra Mário! Eu estava disposto a esquecer o episódio se não houvesse a
história do Departamento. Contei com a ajuda de Chiquinho, meu velho amigo.
Conhece-o? Não foi difícil seduzi-lo a acabar com seus sonhos. O que você
espera de um prefeito fascinado por grandes avenidas? Um sujeito como ele não
poderia voltar a atenção para aquelas molecagens que você apelidava de cultura.
Eu sabia, no entanto, a importância que elas tinham para você.
Empalidecera novamente. Deixei que ele mesmo pegasse o copo e se servisse.
– Lembra-se da tal Missão Folclórica? O que aconteceu?
– O Maia mandou acabar com ela. Ordenou para que todos os integrantes voltassem
para São Paulo.
– Isso mesmo, Mário. De quem foi a ideia?
Ele levou a mão ao peito, insinuando fortes dores.
– Você não fez isso, Tavinho...
– Fiz mais que isso... Por que o Departamento despertaria tanta raiva da
imprensa paulistana? Você há de recordar que os artigos não eram assinados.
Pois lá estava eu. Quanta diversão! Imaginava que aqueles textos lhe causavam
incômodo.
– Quase me mataram de raiva...
– E o discurso do Margarido, lembra-se disso? Ele e eu também éramos amigos.
Quantas vezes você nos viu juntos? Nunca desconfiou de nada?
Mário estava com as mãos trêmulas. Seus lábios estavam brancos e sua face,
lívida. Calei-me por alguns segundos. Não fui capaz de olhá-lo de frente. Numa sequência
rápida de imagens turvas recordei tudo o que aconteceu desde que o encontrei no
centro da cidade. Atentei para uma grande coincidência: já passava da
meia-noite. Era, portanto, dia 25 de fevereiro. Havia exatos vinte e três anos
eu o conhecera...
Ouvimos passos na escada: era Luis Saia que estava chegando, tarde da noite.
Reagimos bem, disfarçando o mal-estar. Demos um breve sorriso quando o avistamos.
Apressei-me na despedida:
– Fiquem à vontade. Eu já estava de saída.
Na manhã daquele dia, tomei conhecimento da morte de Mário. Haveria apenas um segredo a guardar...
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Ella
Como quase todo meu patrimônio musical, Ella me foi apresentada pelo meu pai. Depois dela cheguei a ouvir – sem muita vontade, confesso! – as demais divas da música norte-americana: Billie Holiday, Carmen MacRae, Nina Simone, Sara Vaughan. Nenhuma delas foi capaz de me tocar tanto.
À época, eu havia ouvido falar em Cole Porter, merecedor de duas menções no Estrangeiro do Caetano. Era 1989. Ele aparecia na música título do LP (estávamos na era do Vinil, bem lembrado!) como o compositor que adorou as luzes da Baía de Guanabara. Também marcara presença com Easy to love, na introdução de Branquinha. Logo depois, ouvi Get out town com voz e violão do próprio Caetano. Achei, então, que o tal Cole devia ser interessante. Ella me confirmou isso quando ouvi os dois volumes do Songbook dedicado às suas composições. Voltemos à ela, portanto...
Mesmo as deusas têm lá suas imperfeições. Ella é diferente: tem pequenos, mínimos desatinos. Dream a little dream of me, parece ser um deles. A impressão que se tem ao ouvi-la é a de que Ella não se empenha em passar o clima contagiante da melodia. Como pode uma música falar de "Birds singing in a Sycamore Tree" em tom pesaroso? É um contra-senso! Talvez isso se deva, também, ao arranjo faltoso de brilho, triste, calado e até sorumbático. Um horror! Laura Figgy, Zélia Duncan e Zizi Possi – talentosíssimas, mas anos luz distantes de Ella – fizeram interpretações fantásticas da música.
O problema é que a interpretação depende muito do arranjo... A presença das cordas, por exemplo, em algumas músicas do Songbook do Cole Porter soa melancólica. Mesmo nas melodias econômicas de metais em que se exige outro instrumento, elas poderiam ter outra função ou, quiçá, serem abolidas. Que algum músico fã da Ella não me ouça!
Alguns arranjos me suscitam depressão. Lembram-me musicais que, na infância, quase me matavam de tristeza. Na década de oitenta eram veiculados pela Globo, na hedionda Sessão da Tarde. Quando aparecia uma música e irrompia a legenda, pronto: quase entrava em desespero. Os números musicais, intercalados com a trama do filme, não faziam, àquela época, sentido algum. Acho que por isso mesmo nunca assisti por inteiro a Noviça Rebelde. Como aquela molecada cantava! Haja cantoria! Minha implicância com musicais somente acabou quando assisti Cantando na Chuva.
Voltando novamente à Ella... Há algum tempo, o Chico Buarque disse ser Every time we say goodbye a música mais bonita do mundo. Embora de pronto discordasse dele (porque é justamente ele o autor da música, esta sim, mais bonita do mundo), resolvi ouvi-la, na interpretação da Ella. Pasmo, verifiquei a abundância das cordas. Nem por isso deixei de reconhecer a beleza do arranjo. Trata-se de uma interpretação definitiva, ímpar.
Em decorrência da diabetes, Ella teve as duas pernas amputadas. Lembro-me que chegou a fazer um show na cadeira de rodas. Morreu em 15 de junho de 1996, com 79 anos. Mas nunca parou de cantar!
Ouço Ella porque ela é a maior (que me perdoem Marquinhos e Paulo Francis). Ouço Ella porque me sinto mais próximo do meu pai.