segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Sobre a Lepra no Rio Grande do Norte – Mário de Andrade

Há algum tempo, assumi o compromisso de postar umas crônicas do Mário de Andrade... Como estou sem tempo de escrever, recorro a uma delas. É curta e fantástica! Data da década de 1920. Vale a pena lê-la! Como sempre, a ortografia foi mantida no original. Boa leitura!

Sobre a Lepra no Rio Grande do Norte – Mário de Andrade

"Um dos problemas que, atacado a tempo no Rio Grande do Norte, já está quase resolvido, é o da lepra. Por mim confesso inda não topei com leproso declaro por aqui. Vi, foi a cara dum horrendo, em fotografia, num cartaz de propaganda contra a doença, bem por cima da bilheteria de selos, do Correio.

Parece que o Estado atualmente contará com pouco mais de cem leprosos, informa o dr. Varela Santiago, médico de Natal, se dedicando ao problema e autor dum Esboço Histórico da lepra no Rio Grande do Norte, de que vou me servir.

A lepra é relativamente recente no Estado. O primeiro caso já conhecido data já da segunda metade do século passado. Seguiram casos raros, quando senão quando aparecia um, se isolando por si mesmo ou vivendo, na paciência sem medo dos outros, a vida social, que nem um telegrafista de Mossoró por 1883. Esse telegrafista, Deus me perdoe! é um caso engraçado de psicologia morfética. Se falava naqueles tempos que morfético mordido por cobra, sarava da lepra. Mas como não se sabia direito se o leproso sarava também da mordida da cobra o pobre do telegrafista ficou numa hesitação danada. Andou campeando uma cobra, arranjou uma cascavel, ótima pra morder, trouxe ela pra casa. Desde então viveram na maior comunhão possível, cascavel e telegrafista. Mas morder é que jamais ele não se deixou. Viveu eternamente na esperança de ser mordido sem querer. - É hoje, ele se falava, hoje de certo a cascavel escapole e me morde. - Passava que mais passava junto da caixa em que a cascavel jazia fechadíssima. Esbarrava na caixa. Se escutava lá dentro um chocalho baixinho. Mas não houve remédio: nunca que a cobra escapoliu e o telegrafista morreu leproso. Morreu leproso, num morrer de todas as horas martirizado, antiofídico mas pelo menos não provou picada de cascavel que além de matar depressa, talvez doa. Se existe caso mais dramaticamente cômico, outro que conte".

(ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. 2 ed. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p. 263).

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O inferno e a ausência de proporcionalidade

Há pouco, falei sobre Vidas secas, do Graciliano. O post versava, entre outras coisas, sobre a idéia de inferno, constante da imaginação do filho maior de Fabiano, protagonista da história. Logo depois, li no blog do Ozaí (http://antoniozai.blogspot.com) o conto "Inferno", também de autoria do velho Graça.

Fiquei matutando... Acometeram-me lembranças do tempo em que, ainda moleque, o inferno me botava medo. E bota medo nisso! Educado em colégio de padre (arghhhh!), freqüentador de missas até a adolescência e violentado, praticamente estuprado, pela ideologia católica, o inferno tinha mesmo que me apavorar. E apavorava.

Imaginava as grandes caldeiras borbulhantes, fogo alto, vermelhidão por todos os lados; o capeta com seu rabo pontudo, a orelha adelgaçada, a voz gutural e o terror tocado diuturnamente. Eu havia de passar a eternidade por lá por folhear as Playboys que, na década de oitenta, ainda imprimiam algum ar de proibição para a molecada. Ou então teria de arder naquele calorão por ter apertado tanta campainha e ter saído correndo, deliberadamente. Ora, esses delitos que jamais feriram a ordem moral pública ou incomodaram de sobejo quem quer que fosse constituíam-se de condições mais que suficientes para eu ter com o diabo. Era o que eu pensava...

Acho, inclusive, que alguém chegou a sugerir meu destino nos infernos porque eu falava palavrão. Talvez meu avô, minha avó, não sei... Eu estava, enfim, fodido. Não adiantaria nada rezar. O problema era meu comportamento, já reprovado e sentenciado ao fogo eterno.

Cheguei mesmo a sonhar com o capeta! Por alguma birra política que ainda hoje me escapa à compreensão ele assumiu a face de D. Pedro I. Onde já se viu? Eu tinha aula de história e aprendia os tributos que a colônia pagava à metrópole. Eram férias de 1981! Parei na cama dos meus pais: "O diabo está atrás de mim", justifiquei minha presença ali. Acolheram-me, naturalmente. A próxima noite...

Por extenso período, imaginava que o filho-da-puta fosse irromper dos infernos para me apavorar. Fiquei de sobreaviso: "Não se engane, uma hora ele vai aparecer!". Formei convicção. Ninguém me tirava aquilo da cabeça...

Mas o que me incomodava mesmo na idéia de inferno é sua ausência de proporcionalidade. Como poderia alguém pagar pela eternidade por algo que logrou realizar em tão pouco tempo? Ainda que vivesse muito – oitenta, noventa, cem anos –, e tivesse uma copiosa lista de pecados, seria pouco para justificar a permanência eterna junto ao chifrudo. Alguns pecados mais graves, por abjetos que fossem, jamais poderiam ser bastante para uma pena infinita.

"Estamos aqui só de passagem", foi o que algum imbecil me disse, querendo me convencer de que nossa existência era apenas um teste. Entendi, então, que vida era apenas um esforço probatório: havíamos de provar que merecemos o reino dos céus. Ou, ao revés, desmerecemos o inferno.

Não, Deus não poderia permitir isso! O castigo não poderia durar a eternidade, mas apenas o tempo necessário para a catarse do espírito. Estava decidido a preterir o inferno! Falaram-me sobre o purgatório e achei que a idéia não era tão ruim. Tanto melhor!, pensei. E passei a esquecer o capeta...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Vidas Secas, Fabiano e o Soldado Amarelo

Vidas secas, de Graciliano Ramos é dessas obras que, depois de lidas, levam-nos à infeliz constatação de que deveríamos tê-las devorado há muito. Também nos sugere a idéia de uma leitura metódica, apta a sublinhar os pontos reputados realmente relevantes para a apreensão da riqueza do texto. Quando o li, indisciplinado, furtei-me a fazer qualquer anotação. Por isso, arrisco aqui, de memória, algumas observações.

Causou-me boa impressão o lado psicológico dos personagens. Em 1992, assisti a uma palestra do saudoso João Luiz Lafetá na qual ele tratava justamente desse assunto. Com a clareza e a didática que sempre norteram sua obra, o crítico paulista amarrara a trama do romance de sorte a mostrar como a composição psicológica dos personagens assumia importância capital na leitura do texto.

A linguagem empregada por Graciliano é, também, fundamental para entender o livro. Já comentei aqui no blog que o autor, embora fosse tributário das inovações do modernismo, reputava algumas inovações da linguagem uma besteira. Nem por isso deixou de inovar também...

As falas de alguns personagens são exíguas, raras mesmo. As descrições, em algumas cenas, parecem falar por eles. Fabiano, o protagonista da história, pouco se manifesta. Seus pensamentos, vão e voltam, assumem dimensões grandiosas em momentos específicos.

Um de seus filhos – o "menino mais velho", assim denominado na narrativa – tem obsessão pela palavra "inferno" e não admite que ela fique apenas no reino da descrição incompleta (a mãe fala vagamente em garfos quentes ou coisa que o valha...). Como a buscar a perfeita compreensão do termo, o menino insiste para que Sinha Vitória o explique. A pergunta é simples, como, aliás, o é a maioria das intervenções dos personagens: "Como é?". E recebe um cascudo...

E quanto aos flash-backs? Graciliano a eles recorreu com freqüência e talvez aí se encontre, de modo claro, o aspecto "psicologizante" da obra. Fabiano tenta justificar a si mesmo a razão de ter matado e comido o papagaio, animal de estimação da família. Necessidade, explica amiúde. E fará a mesma coisa quando se lembrar de Baleia, a cadela. Seria mesmo necessária sua morte? Não se sabe... Sinha Vitória, salvo equívoco, também se pergunta sobre isso.

Um rompante e inflamado sopro de esperança encerra o romance! O sonho de uma cidade na qual as crianças possam aprender e na qual a vida talvez não se lhes apresente com tanto desdém. Fabiano anseia não mais ser enganado e ter uma rotina diversa daquela até então havida. Não é apenas a expectativa de mudança da rotina, mas a expectativa da mudança das condições de subsistência de sua família, de ardor por uma vida digna, alheia aos desmandos da sociedade e da própria natureza que com todos fora cruel.

Por fim, comento aquilo que considero o ponto alto do romance e que poderia, sem nenhum risco, ser visto como um dos momentos mais fascinantes da literatura brasileira. Trata-se do embate travado entre Fabiano e o Soldado Amarelo.

Fora o Soldado Amarelo que, utilizando-se de suas prerrogativas oficiais, prendera injustamente Fabiano. Humilhara-o, deixara-o em situação realmente vexaminosa. Fabiano praguejara, inconformara-se!

Tempos depois, ambos se encontram e Fabiano tem a oportunidade da vingança. A cena do soldado acuado, tal como descrita no texto, causa suspense e suscita no leitor o desejo de logo conhecer o final da cena. É impressionante o poder de intimidação do protagonista do romance. Absolutamente mudo, ele consegue impingir um terror atroz ao representante das forças oficiais.

Somos levados a acreditar na possibilidade de uma revanche, uma desforra catártica. E, no entanto, surpreendemo-nos com a resignação do nosso herói. "Governo é governo": essa pequena frase talvez traduza o legado da opressão por tanto tempo cultivado no Brasil.

Alguém já teve a curiosidade de procurar no dicionário o significado da palavra Fabiano? Aurélio nos fornece as seguintes acepções: "Indivíduo inofensivo; pobre-diabo; Indivíduo qualquer, desconhecido, sem importância". Não é sem razão que o termo foi utilizado para dar nome ao protagonista de uma das obras mais belas da literatura brasileira. Preciosismo do velho Graça!

É só... Por ora é só...




sábado, 27 de outubro de 2007

Os mortos de Seabrook

Já comentei sobre a personalidade de Paulo Duarte, amigo íntimo de Mário de Andrade e intelectual combativo da era Vargas. Pois hoje lembrei-me de um trecho de suas memórias. Pouco antes de narrar a entrega de Olga aos nazistas, Paulo Duarte conta a história dos mortos de Seabrook. Vale a pena dar uma espiada. Ei-la:

''Eu havia lido poucos dias antes um livro de Seabrook, uma espécie de Blaise Cendrars de língua inglesa. Aí contava ele a estória de um velho feiticeiro que fazia trabalhar os mortos numa plantação de cana. Vultos maltrapilhos, passo incerto, ar aparvalhado, autômatos, olhar parado, vazio, mudos, sem uma queixa. Um dia, a um erro grave dera-lhes de comer bolos que continham sal. Aperceberam-se então que estavam mortos e fugiram espavoridos para as próprias sepulturas. Cada um, ao pé da sua, esgravatava a terra, a fim de reentrá-la, mas logo caíam como um morto cai, carcaça em decomposição.

Esta a estória de Seabrook.

Nós já vivêramos uma época em que um velho feiticeiro fazia também trabalharem os mortos, não para plantar cana, mas para ganhar eleições"

A citação, cuja ortografia mantive no original, foi retirada de DUARTE, Paulo. Memórias. Os mortos de Seabrook. Vol. IV. São Paulo: Hucitec, 1976, p. 184.

Logo mais, volto para escrever novamente.

É só... Por ora é só...



sábado, 6 de outubro de 2007

Nelson Rodrigues: a vida como ela é...


Recentemente, vi nas vitrines de uma mega store O homem proibido, de Nelson Rodrigues. Não se trata de seu livro mais conhecido. Creio, aliás, que, em matéria de divulgação, apenas A vida como ela é e Engraçadinha tenham recebido a devida atenção. Isso, naturalmente, se deve aos esforços da Rede Globo que logrou produzir a versão "televisiva" dessas obras.

É provável que muitos conheçam as crônicas de A vida como ela é, adaptadas pela emissora nos anos 90. Além do bom elenco, a produção de época resultou fantástica, salvo alguns pequenos equívocos. A narração das crônicas fora feita por José Wilker, tendo seguido à risca trechos do texto original, publicado pela Companhia da Letras e organizado por Ruy Castro.

Com desenvolvimento e desfechos muito peculiares à obra rodriguiana, as histórias são puro deleite. É bem verdade que algumas podem soar insanas e talvez sejam até previsíveis: sogra que foge com o futuro genro; médico que tenta – mas não consegue! – trair a mulher; mulher infiel, afeita a toda sorte de sacanagem sexual; secretária-noiva que não sucumbe aos assédios do chefe...

Enfim, trata-se de personagens que hoje jamais causariam qualquer tipo de estupefação. Em 1950, contudo, pareciam raros e impassíveis de serem denunciados pela crônica vulgar. Nelson Rodrigues o fizera, entretanto. Por isso, a pujança de sua obra reside num questionamento moral até então jamais feito no Brasil.

Lidas hoje, à luz do contexto social brasileiro, não parecem capazes de suscitar grandes debates e tampouco de comover ou escandalizar alguém, exceto os mesmos personagens sociais que recalcitram em sua indelicada existência: velhas senhoras conservadoras, núcleos religiosos hipócritas e, sobretudo, falsos moralistas...

Assim, embora com laivos modernos, muitas dessas crônicas circunscrevem-se a um determinado tema e período, como se fossem, a rigor, datadas e monotemáticas. Aquelas que narram casos de adultério são paradigmáticas a esse respeito. Naquela época, causavam impacto; hoje, nada significariam, já que até mesmo a previsão legal para a conduta adúltera, insculpida no art. 240 do Código Penal, fora revogada! Tratando-se, portando, de atualização feita por legislação vetusta e arcaica, é de se compreender que não surte nenhum efeito essa história de marido ou mulher infiel em tempos hodiernos.

E já que falamos em infidelidade – tema por excelência dessas crônicas – não deixemos que a célebre frase do Nelson caia no esquecimento. Ei-la: "O homem fiel já nasceu morto".

Por fim, valeria um comentário sintético sobre o título das crônicas. "A vida como ela é" soa assaz pretensioso!

Sobre Engraçadinha, obra de maior fôlego e densidade social, falarei oportunamente.

É só... Por ora é só...

domingo, 23 de setembro de 2007

Sugestão: Caixa Dois


Perguntaram-me se minha inspiração havia acabado. Que inspiração? Seja lá qual for, meu problema é o tempo. E na falta dele, limito-me apenas a fazer uma sugestão: assistam a Caixa Dois, do Bruno Barreto. Se não valer pelos eventuais lances cômicos, valerá, sem dúvida, pela riqueza dos diálogos e do argumento do filme.

O fato de ter derivado de uma peça de teatro, em nada o prejudica. A adaptação do Barreto ficou excelente e o elenco todo está ótimo.

Vale a pena!

É só... Por ora é só...




quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O avião, por Vinícius de Moraes



Já que no post anterior falei da fobia do poetinha por aviões, segue aí uma de suas pérolas:

"O avião é mais pesado que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por brasileiro. E você ainda quer que eu ande nele?" (Vinícius de Moraes)

Nem é preciso dizer nada...

É só... Por ora é só...



terça-feira, 11 de setembro de 2007

A "irracionalidade" dos intelectuais


Falar da irracionalidade dos intelectuais parece um contra-senso. Homens de cultura, afeitos a todo tipo de especulação científica, não poderiam eles serem tachados de seres desprovidos de razão. Muitos asseveram em seu ofício que nada poderá ser digno de crédito senão por meio do crivo da racionalidade técnica e do cálculo moderno. Naturalmente, arrogam-se iluministas! Nas densas páginas de Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer traduziram esse sentimento nos seguintes termos: "O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento" (Theodor W. Adorno & Max Horkheimer. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 21). Desnecessário lembrar o leitor que, aqui, "Esclarecimento" significa "Iluminismo".

Pois é... a despeito disso, alguns intelectuais têm posturas pessoais que contradizem sua "intelectualidade".

Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, tinha lá seus demônios... Reza a lenda que não deixava, em nenhuma hipótese, treze cigarros no maço. Não me recordo a razão do procedimento, mas, certamente, tem a ver com alguma superstição. Por falar em demônios, dizem também que o historiador paulista, quando voltava para casa do colégio, ainda menino, vivia a olhar para trás, suspeitando que o demônio estivesse em seu encalço.

Da mesma geração, e amigo dele, Vinícius de Moraes não era menos “irracional”, para não dizer supersticioso. A que se devia seu medo de voar? Não se sabe! Sabe-se que o poeta tinha uma fobia de avião que parecia mesmo visceral, a ponto de provocar-lhe pesadelos terríveis. Foi o que aconteceu, curiosamente, na madrugada da morte de Mário de Andrade, em 1945. Sonhara que vários de seus amigos haviam morrido num acidente de avião. O sonho – talvez um presságio – o impediu de comparecer ao enterro do líder modernista na Paulicéia Desvairada.

Esse medo, fobia ou seja lá que nome tenha, rendeu-nos uma belíssima crônica sobre Mário, intitulada "A manhã do morto" (sugiro sua leitura e comprometo-me a colocá-la aqui no Blog, se houver interesse de alguém).

Por tudo isso, alguém disposto a fazer pilhéria se pautaria nos exemplos acima dados para dizer que "os intelectuais não são tão intelectuais assim”. Uma tal afirmação defluiria da lamentável confusão entre o ofício da razão e as convicções pessoais. Besteira discutir isso aqui!

De outro lado, há aqueles intelectuais "intransigentes" que, em hipótese nenhuma, arredam pé de suas convicções mundanas.

Paulo Duarte é um exemplo paradigmático. Político combativo, foi, antes de tudo, um opositor aguerrido da ditadura varguista, tendo sido exilado duas vezes. Ao lado de Mário de Andrade, Rubens Borba de Moraes, Sérgio Milliet e outros intelectuais, ajudou a construir o Departamento de Cultura de São Paulo, em 1935. Enquanto fazia pesquisa para meu doutorado, encontrei em seu espólio uma suposta carta psicografada. Ela fora escrita por um sujeito que procurara por ele, dizendo levar notícias de Mário de Andrade. Ora, sendo tão íntimo do autor de Macunaíma, Duarte não deixara de conferir a tal missiva. Após sua leitura, concluiu que a grafia e o estilo não se identificavam com os do velho amigo. Isso lhe bastou para concluir que "há também falsários do outro mundo"...

Para ele, Mário continuaria vivo em suas cartas, em sua memória e na copiosa herança cultural que deixara para o Brasil.

É só... Por ora é só...


domingo, 2 de setembro de 2007

Sr. Luiz Inácio e o monopólio da autoridade moral e ética



Quando pensei em criar esse blog jamais imaginei que ele pudesse se prestar a algum tipo de comentário político. Lembro-me sempre de Mário de Andrade e suas reiteradas recusas da política. "Não me fale em política. Tenho horror à política", dizia o autor de Macunaíma. Naturalmente, o leitor da obra marioandradina sabe que essa recusa não significava repúdio à política, mas sim às suas estruturas partidárias e burocráticas. Mário foi um grande combatente político, não restam dúvidas (o interessado no assunto poderá ler Missionários de uma utopia nacional-popular, livro de minha autoria, publicado pela Editora Annablume: www.annablume.com.br).

Pois bem... jurei que não publicaria, aqui, nada de talhe político. Não pude me conter, entretanto.

Ontem, ao discursar no 3o Congresso do PT, o Sr. Luiz Inácio mais uma vez reivindicou para seu partido o monopólio da autoridade moral e ética! As palavras, publicadas na edição de hoje da Folha de S. Paulo, são as seguintes:

"É verdade que podemos ter cometido erros, e os erros estão sendo apurados como precisam ser. Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que nosso partido. Admitimos que tem gente igual a nós, mas não admitimos que tenha melhor".

Não é preciso grande esforço de interpretação para inferir que, segundo seu depoimento, o PT tem o monopólio da autoridade moral e ética no Brasil. Além disso, o PT parece traduzir os conceitos da lisura, da transparência e honestidade. Abaixo dele, muitos; acima, ninguém!

Quanta pretensão! É muita arrogância!

O Sr. Luiz Inácio é mesmo um indivíduo muito inteligente! Agora que as luzes do cenário público nacional se voltam para a votação do mensalão no STF, vem ele inverter a lógica do discurso que fizera por ocasião das denúncias de Roberto Jefferson. À época, concedera sagaz entrevista na qual fazia crer o incauto eleitor que já havia se afastado do partido em razão de suas atribuições na Presidência da República. Assim, investido do cargo de Chefe do Executivo, não teria tempo e condições práticas de tomar conhecimento sobre o que realmente se passava no PT. Eventuais negociações escusas, improbidade na condução das finanças do partido e outros tantos assuntos, não lhe eram familiares. Afinal, um presidente da República não teria tempo para acompanhar tanta coisa... Por ironia, a infausta declaração transformou-se, em exíguo espaço de tempo, em motivo de pilhéria nacional.

Curioso notar que, nesse mesmo período, o Sr. Luiz Inácio também reivindicara para si o monopólio da autoridade moral e ética. Para que não pairem dúvidas sobre essa reivindicação, vejamos sua declaração, publicada na Folha on line, em 21/06/2005:

"Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito nesse país".

Mas, afinal, o Sr. Luiz Inácio continua petista? A pergunta não é descabida. Em 2005 fazia-nos crer que era apenas presidente e que os quadros partidários, bem com sua rotina, estavam muito distantes de sua realidade. Não era, então, um petista militante! Hoje, ainda presidente, a situação assumiu novas feições. Embora preocupado com a condução da nação, o Sr Luiz Inácio tem tempo de sobra para vociferar no congresso do seu partido a respeito de uma eventual autoridade moral e ética.

Em suma, a ética aí existente não é outra senão a ética da conveniência!

Seja como for, não nos esqueçamos: os baluartes da ética, da moral, da lisura, da transparência e da honestidade são o Sr. Luiz Inácio e o Partido dos Trabalhadores! Ninguém mais é melhor do que eles! Ninguém!

Em tempo: em 1989, 1994, 1998 e 2002 votei no Lula! Em 2006 votei no Sr. Luiz Inácio! Não preciso explicar a diferença. Preciso?